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Lectio

Primeira leitura: Romanos 1, 1-7

Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado a ser Apóstolo, escolhido para anunciar o Evangelho de Deus, 2que Ele de antemão prometera por meio dos seus profetas, nas santas Escrituras, 3acerca do seu Filho, nascido da descendência de David segundo a carne, 4constituído Filho de Deus em poder, segundo o Espírito santificador pela ressurreição de entre os mortos, Jesus Cristo Senhor nosso; 5por Ele recebemos a graça de sermos Apóstolos, a fim de, em honra do seu nome, levarmos à obediência da fé todos os gentios, 6entre os quais estais também vós, chamados a ser de Cristo Jesus; 7a todos os amados de Deus que estão em Roma, chamados a ser santos: graça e paz a vós, da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo!

A Carta aos Romanos, que hoje começamos a escutar, provavelmente escrita no Inverno de 57-58, tem uma importância histórica idêntica ao longo e doloroso processo de desenraizamento que sofreu o próprio Paulo. Para o Apóstolo, não foi fácil mudar de ideias quanto aos privilégios do povo judeu e à centralidade de Jerusalém. A Carta aos Romanos, por sua vez, significa a ruptura definitiva com a ideia de uma aliança entre o Templo de Jerusalém e as simples assembleias eucarísticas, e marca a constituição do novo Povo de Deus, da Igreja verdadeiramente ecuménica. Tanto Pedro, como Paulo, perceberam bem cedo a importância de fazer de Roma, capital do Império, o centro da difusão do Evangelho, inicialmente feita a partir de Jerusalém.
Paulo apresenta-se dando-nos o sentido e o valor da missão que lhe foi confiada pelo Ressuscitado, com Quem se encontrou no caminho de Damasco. No centro da sua vida e da sua missão, está Jesus, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, Filho de David e Filho de Deus, ressuscitado mas idêntico ao Jesus de Nazaré. Foi d´Ele que Paulo recebeu a missão de pregar o Evangelho, a “Boa Notícia” que vem de Deus e se refere a Jesus, o Cristo, morto e ressuscitado para salvação de todos. A graça e a paz, que o Apóstolo deseja aos seus leitores resumem esse Evangelho, de quem Paulo se reconhece, com agrado, servo e arauto.

Evangelho: Lucas 11, 29-32

Naquele tempo, como as multidões afluíssem em massa à volta de Jesus, Ele começou a dizer:«Esta geração é uma geração perversa; pede um sinal, mas não lhe será dado sinal algum, a não ser o de Jonas.
30Pois, assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim o será também o Filho do Homem para esta geração. 31A rainha do Sul há-de levantar-se, na altura do juízo, contra os homens desta geração e há-de condená-los, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; ora, aqui está quem é maior do que Salomão! 32Os ninivitas hão-de levantar-se, na altura do juízo, contra esta geração e hão-de condená-la, porque fizeram penitência ao ouvir a pregação de Jonas; ora, aqui está quem é maior do que Jonas.»

Jesus prossegue a viagem para Jerusalém, onde vai consumar o seu mistério pascal. Lucas põe-lhe na boca uma série de ensinamentos, exortações, respostas e repreensões. No texto de hoje, Jesus repreende uma multidão desse povo de cabeça dura, que tem dificuldade em acolher a Palavra de Deus. O povo pede sinais que garantam a autenticidade daquele Messias. Que sinal? Esta multidão é muito semelhante aos ninivitas que não eram capazes de distinguir a mão direita da mão esquerda; é muito semelhante aos pagãos, que há pouco chegaram à fé, e aos quais Lucas se dirige; é muito semelhante a nós, que andamos sempre à busca de coisas extraordinárias e imediatas.
Jesus responde falando de juízo e de condenação. Mas, ao lembrar a salvação de Jonas, símbolo da sua morte e ressurreição, Jesus acentua a misericórdia salvífica de Deus. Essa misericórdia foi oferecida aos ninivitas em troca da sua conversão, e à rainha do Sul pela busca generosa da sabedoria. Aos Judeus e Gregos é pedido um espírito aberto: «Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 11, 28). Esta bem-aventurança contrasta ainda mais com as palavras de juízo e de condenação. Só é julgado e condenado quem recebeu o tesouro da palavra revelada e, permanecendo escravo de uma falsa fidelidade à Lei, não sabe reconhecer os sinais da presença do Salvador. São também para quem não sabe aceitar a dura linguagem da cruz e não ousa esperar a ressurreição.

Meditatio

Começamos hoje a escutar a Carta aos Romanos escrita por Paulo, em Corinto, no Inverno de 57-58, quando se preparava para ir a Jerusalém levar as ofertas recolhidas para os pobres. Por essa mesma altura, o Apóstolo projecta ir a Roma e mesmo à Espanha. Na capital do Império, havia uma comunidade cristã iniciada, não sabemos como nem quando, mas antes da vinda de Pedro e de Paulo. Paulo desejava ardentemente conhecer essa comunidade, a quem se dirige com solenidade na carta que lhe escreve. O muito que tem a dizer parece sair-lhe da pena sob pressão, de modo que não é fácil ler e entender o texto. De qualquer modo, notamos o seu orgulho em ser apóstolo de Jesus Cristo: «Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado a ser Apóstolo, escolhido para anunciar o Evangelho de Deus» (v. 1). Desde que se encontrou com o Senhor, no caminho de Damasco, Paulo já não pode pensar em si mesmo sem ser em relação com Ele. Sente-se “servo” e “apóstolo” de Cristo Jesus, enviado a pregar o Evangelho. O Apóstolo orgulha-se da sua missão e está impaciente por anunciá-lo no mundo inteiro, para que todos os homens possam chegar à obediência da fé, a reconhecer em Jesus Cristo o Enviado do Pai para nossa salvação.
O evangelho falo-nos de um outro enviado, Jonas, o pequeno profeta que não queria pregar aos ninivitas, e que não se apercebeu que era tão importante para o Senhor, para aquele Deus que o perseguia de um lado ao outro do mar, e nas próprias profundidades do abismo. E todavia, o caprichoso arauto da conversão dos ninivitas tem a honra de se tornar o “sinal” por excelência oferecido à «geração perversa» (v. 29), que há em todos nós, o sinal do Crucificado-Ressuscitado, descido, em solidariedade para com os pecadores, às profundidades do inferno. Jesus permanece aí para demonstrar até que ponto somos amados. Doravante não há “lugar” que esteja privado da sua presença amorosa, não há solidão que não seja habitada pela sua proximidade. Abrir-nos a esse dom é fonte de felicidade e faz-nos missionários entre os irmãos.
Tal como aconteceu com Paulo, é impensável que alguém, que tenha encontrado a Cristo, não arda no desejo do O anunciar. E, todavia, dando por adquirida a novidade da vida cristã, é fácil encerrá-la nos nossos pre
conceitos que nos tornam, como Jonas, juízes de Deus e dos seus desígnios. O Senhor Jesus, misericórdia do Pai, ergue no nosso coração o sinal da sua cruz, para que, vencidos pelo seu amor, nos tornemos seus arautos jubilosos entre os irmãos. Como Paulo, havemos de nos orgulhar da vocação a que fomos chamados.
A nossa experiência de fé, como dehonianos, é apresentada no n. 9 das Constituições, na sua dimensão carismática, como um “dom” recebido, para anunciar a Cristo, para O testemunhar, num mundo cada vez mais marcado pelo secularismo (cf. Rm 10, 9-11). Somos chamados a proclamar «Cristo Senhor» por meio do Espírito, vivendo a fé na caridade. Assim confessamos, com a nossa vida, que «Deus é amor» (1Jo 4, 16) e que nós «reconhecemos e acreditamos» (1Jo 4, 16; Cst n. 9) nesse amor. Assim nos tornamos «profetas do amor» e servidores da reconciliação» (Cst 7).

Oratio

Senhor Jesus Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, Tu és o centro da minha vida e da minha missão, tal como o fostes para o teu apóstolo Paulo, porque, nascido da descendência de David, fostes constituído Filho de Deus em poder, segundo o Espírito santificador pela ressurreição de entre os mortos. É fundado em Ti que hei-de dar a minha colaboração para que todos cheguem à obediência da fé e experimentem o amor do Pai que nos vem em Ti e por Ti. Obrigado, Senhor, por me teres amado e reconciliado. Obrigado por me teres chamado a anunciar a Boa Notícia aos irmãos. Amen.

Contemplatio

(S. Paulo Tinha) um temperamento que era todo fogo; o seu grande zelo tornou-o o perseguidor mais violento do nome de Jesus Cristo. Encoraja os carrascos de Santo Estêvão. Encarrega-se de mandar deter e encarcerar em Jerusalém os cristãos e as cristãs. Aplaude as torturas que se lhes aplicam. Parte depois para Damasco onde vai desempenhar a mesma função, mas aí era já a graça que o esperava. Releiamos o relato tocante desta conversão. Aproximavam-se de Damasco, ele e a sua comitiva. Uma luz, um relâmpago mais brilhante do que o sol os encandeou e os atirou ao chão. Saulo ouviu estas palavras: Saulo, Saulo, porque me persegues? Ele respondeu: Quem sois vós, Senhor? E o Senhor disse-lhe: Eu sou Jesus a quem tu persegues… Saulo disse: Senhor, que quereis que eu faça? Jesus disse-lhe: Levanta-te, entra na cidade, ser-te-á dito o que tens de fazer. Quero estabelecer-te ministro e testemunha daquilo que viste. Enviar-te-ei aos gentios para lhes abrires os olhos, para os converter das trevas à luz. Pela fé, obterão a remissão dos seus pecados e terão parte na herança dos santos. Saulo levantou-se imediatamente, já não via nada, fez-se conduzir a Damasco para aí receber as ordens de Deus. Passou três dias em jejum e em oração. O sacerdote Ananias foi advertido por Deus para ir procurá-lo. Ide ter com ele, dizia-lhe o Senhor, é um homem que escolhi para levar o meu nome diante das nações e dos reis e diante dos filhos de Israel; e hei-de mostrar-lhe quanto tem de sofrer pelo meu nome. Ananias impôs as mãos a Saul que recuperou a vista e ficou cheio do Espírito Santo, depois conferiu-lhe o baptismo. Que belos exemplos! Que simplicidade a de Saulo. Era perseguidor, mas era homem de boa fé. Julgava fazer bem. O Senhor detém-no, ele responde: Senhor, que quereis que eu faça? Eis a regra de toda a conversão e de toda a santidade. Procuremos sempre o que Deus pede de nós. Ora nos fala através de um acontecimento providencial, ora nos conduz por vias ordinárias, pela direcção do sacerdote. É aí que é necessário sempre voltar. S. Paulo pede a Deus o que é necessário fazer, mas Deus envia-o ao sacerdote. Vai à cidade, diz-lhe, ser-te-á dito o que é necessário que faças. Vamos sempre com confiança ao nosso confessor e director, ele tem a graça para nos conduzir. É o instrumento da vontade divina. (Leão Dehon, OSP 3, p. 89s.)

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Por Cristo, recebemos a graça de sermos Apóstolos» (Rm 1, 5)