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QUINTA-FEIRA

31ª Semana do Tempo comum

Lectio

Primeira leitura: Romanos 14, 7-12

Irmãos: de facto, nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum morre para si mesmo. 8Se vivemos, é para o Senhor que vivemos; e se morremos, é para o Senhor que morremos. Ou seja, quer vivamos quer morramos, é ao Senhor que pertencemos. 9Pois foi para isto que Cristo morreu e voltou à vida: para ser Senhor tanto dos mortos como dos vivos. 10Mas tu, porque julgas o teu irmão? E tu, porque desprezas o teu irmão? De facto, todos havemos de comparecer diante do tribunal de Deus, 11pois está escrito:Tão certo como Eu vivo, diz o Senhor, todo o joelho se dobrará diante de mim e toda a língua dará a Deus glória e louvor. 12Portanto, cada um de nós terá de dar contas de si mesmo a Deus.

«Se vivemos, é para o Senhor que vivemos; e se morremos, é para o Senhor que morremos» (v. 8). O baptizado tornou-se pertença do Senhor, colocou-se do lado de Jesus, que Se tornou o Senhor da sua vida. O seu modo de viver há-de inspirar-se nessa realidade, nesse sentido de pertença ao Senhor. E «cada um de nós terá de dar contas de si mesmo a Deus» (v. 12). Por isso, o cristão há-de viver pelo Senhor e para o Senhor, ultrapassando preconceitos no modo de acolher a diversidade e a fraqueza. A melhor hospitalidade é acolher o outro, o próximo, o irmão. Ninguem deve fechar-se na sua concha. Pelo contrário, respeitando os caminhos pessoais, somos todos chamdos a abrir-nos a relações de caridade, de que Cristo é, ao fim e ao cabo, a fonte.

Evangelho: Lucas 15, 1-10

Naquele tempo, aproximavam-se de Jesus todos os cobradores de impostos e pecadores para o ouvirem. 2Mas os fariseus e os doutores da Lei murmuravam entre si, dizendo: «Este acolhe os pecadores e come com eles.» 3Jesus propôs-lhes, então, esta parábola:
4«Qual é o homem dentre vós que, possuindo cem ovelhas e tendo perdido uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai à procura da que se tinha perdido, até a encontrar? 5Ao encontrá-la, põe-na alegremente aos ombros 6e, ao chegar a casa, convoca os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida.’ 7Digo-vos Eu: Haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão.» 8«Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perde uma, não acende a candeia, não varre a casa e não procura cuidadosamente até a encontrar? 9E, ao encontrá-la, convoca as amigas e vizinhas e diz: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida.’ 10Digo-vos: Assim há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte.»

Estamos no coração do evangelho de Lucas. É no capítulo 15 que o segundo evangelista concentra a mensagem principal da sua obra: o evangelho da misericórdia. Ao mesmo tempo, Lucas aproxima-se o mais possível do Jesus histórico, que veio anunciar e incarnar, no meio de nós, o amor misericordioso do Pai.
Lucas começa por apresentar o contexto histórico (vv. 1-3) em que Jesus contou as três parábolas. Os publicanos e pecadores vinham «para o ouvirem» (v. 1). Os fariseus e os escribas «murmuravam» contra ele. As parábolas da ovelha perdida e da dracma perdida – com a do pai misericordioso, que Jesus apresenta como ícone de Deus-Pai – devem ser interpretadas à luz desse contexto histórico, pois iluminam a situação daquilo ou de quem estava perdido e a alegria de quem pôde encontrar o que estava perdido.
A alegria do homem serve para falar da alegria de Deus. Lucas sublinha três vezes essa alegria do Pai, que tanto amou o mundo que lhe deu o seu Filho, tirando desse dom a máxima alegria para Si.

Meditatio

Quantas vezes, andamos angustiados com a nossa vida e com a perspectiva da morte. Mas, se estamos em Cristo, se somos de Cristo, não há que temer. «Como todos morrem em Adão, assim em Cristo todos voltarão a receber a vida. Mas cada um na sua própria ordem: primeiro, Cristo; depois, aqueles que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda.» (1 Cor 15, 22-23). Mais do que viver ou morrer, importar “pertencer a Cristo”, ser de Cristo, praticar a caridade para com o irmão. O resto, que é muitíssimo, porque é “voltar a receber a vida”, vem em consequência.
A parábola do “bom pastor” quer ensinar-nos a paixão de Deus pela vida de cada homem. Ele não sossega enquanto não encontrar aquele que se afastou d´Ele, que se perdeu. Ao encontrá-lo, transborda de alegria e convida à festa. Talvez seja esta a mensagem que espero: Alguém interessa-Se por mim. O meu Criador não deseja mais nada senão saber se estou vivo e em segurança.
Tenho que estar disponível para me deixar encontrar, para “ver” a alegria de Deus por minha causa. Então posso compreender algo sobre a beleza da vida, que não é terreno a explorar o mais possível, mas dom a celebrar. Deus deu-me a vida e faz tudo para que a viva em plenitude, e faz tudo para que continue a vivê-la para além da morte. É a sua misericórdia! Vivendo n´Ele e por Ele, a vida terá sentido e sabor. Com Ele aprendo a não obstaculizar a vida dos outros e a “dar” a minha própria vida, imitando a sua misericórdia.
As riquezas espirituais foram comparadas à chama. Uma chama nada perde ao comunicar-se. Pelo contrário, cresce e irradia luz e calor. Quem a quiser esconder, corre o risco de a apagar, por falta de oxigénio. O mesmo sucede com as riquezas espirituais. Recordemos que, na primitiva Igreja de Jerusalém, a comunhão de bens, além de unir os corações, provocava «favor de todo o povo» (Act 2, 47). Para nós, filhos do Pe. Dehon, trata-se de pôr o que somos e temos ao serviço da construção de um mundo mais justo e mais humano, em solidariedade especialmente com os mais pobres, os oprimidos, os explorados, o mais desprotegidos e marginalizados. O nosso carisma profético exige de nós uma presença religiosa no mundo, nas necessidades humanas e espirituais dos homens, sobretudo dos mais pobres material e espiritualmente.

 

Oratio

Senhor, faz-me compreender profundamente aquela atitude de espírito, que me impede de ser orgulhoso, de me apoiar em mim mesmo, e me faz abandonar nas tuas mãos, com tudo o que sou e faço, sabendo que tudo me vem de Ti e que, na partilha com os outros, multiplico os bens que me deste. Ajuda-me a não julgar os outros. Ajuda-me a repartir com todos o bem precioso da misericórdia, que usas para comigo, certo de que nada perderei, mas muito mais hei-de receber, porque é dando que se recebe. Amen.

Contemplatio

O bom Pastor tem um coração cheio de afecto e de dedicação pelas suas ovelhas (Jo 10). Conhece-as pelo seu nome e elas seguem-no. Dá a vida para as salvar: «Dou a minha vida pela glória de meu Pai, diz o Salvador, porque o amo e ele ama-me porque dou a minha vida pela sua glória (Jo 10, 17). Ora bem, dou também a minha vida pelas
minhas ovelhas, pela sua salvação eterna. Assim, as minhas verdadeiras ovelhas conhecem-me e amam-me». Sou do número destas verdadeiras ovelhas, que amam ardentemente o Bom Pastor do tabernáculo? Infelizmente não, sou uma pobre ovelha imprudente, que erra pelos bosques expostos aos animais ferozes. E o Bom Pastor quer procurar-me, chama-me, quer pegar-me nos seus ombros, perto do seu coração. Será uma grande alegria para ele encontrar-me, comunicará aos seus amigos, convidá-los-á a alegrarem-se com ele (Lc 15). Posso ler esta parábola do Salvador e ficar indiferente? Ele chama-me, espera-me, está triste pela minha ausência, pela minha frieza, pela minha indiferença. Oh! Como o Salvador tem um Coração amoroso e como eu tenho um coração duro! Senhor, fazei violência ao meu coração. (Leão Dehon, OSP 3, 18s.).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Se vivemos, é para o Senhor que vivemos
se morremos, é para o Senhor que morremos» (Rm 14, 8).