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SEGUNDA-FEIRA

31ª Semana do Tempo comum

Lectio

Primeira leitura: Romanos 11, 29-36

Irmãos: os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis. 30Outrora vós desobedecestes a Deus, mas agora alcançastes misericórdia, devido à desobediência deles; 31do mesmo modo, também eles desobedeceram agora, em favor da misericórdia que alcançastes, para que também eles venham agora a alcançar misericórdia. 32Porque Deus encerrou a todos na desobediência, para com todos usar de misericórdia. 33Oh, que profundidade de riqueza, de sabedoria e de ciência é a de Deus! Como são insondáveis as suas decisões e impenetráveis os seus caminhos! 34Quem conheceu o pensamento do Senhor? Quem lhe serviu de conselheiro? 35Quem antes lhe deu a Ele, para que lhe seja retribuído? 36Porque é dele, por Ele e para Ele que tudo existe. Glória a Ele pelos séculos! Ámen.

«Os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis» (v. 29). Se, por causa da desobediência dos Judeus, o anúncio da salvação foi dirigido aos pagãos, e estes fizeram experiência da misericórdia divina, essa mesma experiência pode servir de incitamento aos Judeus para competirem com eles na fé, acolhendo o que no princípio recusaram. Deus quer usar de misericórdia (cf. v. 32). A desobediência de cada um dos homens e dos povos pode ser vista como instrumento no plano de salvação de Deus, que, finalmente, pode ajudar a reconciliar com Ele todos os povos. Na verdade, os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis (cf. v. 29), tal como o seu amor por Israel, por causa dos pais (Rm 11, 28). É algo que Lhe importa e de que não desiste. Sendo assim, brota espontaneamente o hino (vv. 33-36) em que Paulo louva a profundidade, e a impenetrabilidade da sabedoria de Deus, o amor de Deus pelo qual existem todas as coisas e que enche de significado a existência.

Evangelho: Lucas 14, 12-14

Naquele tempo, disse Jesus a um dos principais fariseus, que O tinha convidado para uma refeição: «Quando deres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos; não vão eles também convidar-te, por sua vez, e assim retribuir-te. 13Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. 14E serás feliz por eles não terem com que te retribuir; ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.»

Mais uma vez, no ambiente de uma refeição, depois de ter curado um hidrópico em dia de sábado, e depois de ter proposto uma parábola, Jesus adverte o chefe dos fariseus que O tinha convidado. As palavras de Jesus brotam da sua experiência, da observação atenta das realidades e comportamentos dos que O rodeiam. O Mestre interpreta tudo de modo simbólico e transfere-o para o domínio religioso. As duas partes deste pequeno texto correspondem-se perfeitamente: o paralelismo antitético facilita a sua compreensão: «Quando deres um almoço ou um jantar… pelo contrário, quando deres um banquete…». O ensinamento claro de Jesus vai direito à sensibilidade dos seus destinatários. Jesus alerta para um comportamento de aparente generosidade, que, na realidade, é egoísta. Este tipo de comportamento, não só é mesquinho, mas também compromete as relações interpessoais. A situação oposta, sugerida por Jesus, traduz, pelo contrário, um convite genuinamente evangélico, que leva ao centro da doutrina de Jesus: privilegiar os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos, que são aqueles que o Senhor ama. É a mensagem das bem-aventuranças (Lc 6, 20-26). A bem-aventurança, e a promessa do v. 14, completam admiravelmente o ensinamento de Jesus.

Meditatio

Paulo leva-nos a reflectir, mais uma vez, sobre a gratuidade da misericórdia divina para connosco. Ninguém, por primeiro, deu algo a Deus, para poder ser retribuído (cf. v. 35). Todos, hebreus e pagãos, foram desobedientes a Deus. Mas «Deus encerrou a todos na desobediência, para com todos usar de misericórdia» (v. 32). Estamos na lógica do amor misericordioso, desinteressado, gratuito. É a lógica em que devemos entrar para compreendermos o Evangelho, nos enchermos de paz e de confiança, e nos comprometermos na misericórdia para com os outros.
No evangelho, Jesus ensina-nos, de modo muito espontâneo, mas paradoxal, esta mesma lógica: «Quando deres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos; não vão eles também convidar-te, por sua vez, e assim retribuir-te.» (v. 12). É um conselho estranho! O mais natural é convidarmos para o almoço ou para o jantar, os amigos, os familiares, as pessoas que têm influência na sociedade, e nos podem ajudar a resolver algum problema ou a alcançar determinado objectivo. Numa palavra: o mais habitual é convidarmos quem nos possa de algum modo retribuir. Mas Jesus insiste: «Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. E serás feliz por eles não terem com que te retribuir; ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.» (vv. 13-14). Geralmente pensamos que a bem-aventurança, a felicidade, está em receber. Mas Jesus ensina o contrário, apontando-nos o caminho da gratuidade, do amor desinteressado. É aí que se encontra a verdadeira alegria. Se fizermos o bem, à espera de retribuição, estamos no caminho errado. Pelo contrário: se dermos a quem não nos pode retribuir, estamos no bom caminho, na lógica divina do amor, que não se compra nem se vende.
A linguagem da gratuidade consegue pronunciar palavras libertadoras e expressar gestos vivos e vivificantes. É uma linguagem fora de moda, uma vez que andamos encandeados pelas miragens do útil, do eficiente, do produtivo. Mas a gratuidade é um dos atributos de Deus. Deus é gratuidade: dá e dá-Se, e não seria Deus/Amor se não fosse assim.
A reparação, além de acolhimento do amor, correspondência ao amor, união à oblação de amor de Cristo ao Pai, é também partilha da gratuidade absoluta do Pai e de Cristo para com os homens, especialmente «os mais desprotegidos» (Cst 5), os mais miseráveis, os marginalizados, os desesperados, os publicanos, os pecadores, como fez Jesus.

 

Oratio

Senhor, o teu amor é misericórdia, que me ergue do catre da minha paralisia, do abismo dos meus erros, das regiões desoladas do meu sem-sentido, das trevas oprimentes das minhas dúvidas. O teu amor é gratuito, incondicional, desarmadilhado, desinteressado. Amar, e só amar, é a tua alegria, a tua vida! É o mesmo que me pedes em relação aos meus irmãos, particularmente os pequenos e pobres. Liberta-me do egoísmo que me afasta dos outros e de mim mesmo, do egoísmo que ilusoriamente julgo tornar-me forte, mas que, na verdade, me torna mais fraco. Deus de misericórdia e de gratuidade, amar e só amar, seja a minha alegria, porque amar e só amar
é viver. Amen.

Contemplatio

Quem vem? O Pai de misericórdia que nos ama ternamente. – Chama-nos seus filhinhos: filioli. Descreveu-se com complacência na parábola do filho pródigo. Eu sou este filho pródigo, que viveu, se não na luxúria, pelo menos na vaidade e na inutilidade. Volto para o meu Pai, hesitante, tímido, temeroso, mas ele está lá, que me acolhe com amor. O seu coração bate fortemente no seu peito. Deseja-me com ardor, observa, procura. E se regresso, atira-se ao meu pescoço e aperta-me contra si, coração contra coração. E chama os seus servos, os seus anjos, para me darem tudo o que perdi. Nada falta: o manto de outrora, o anel de nobreza, os sapatos, e o vitelo gordo para a festa. O Coração de Jesus está emocionado; os seus olhos choram de ternura, mas sorriem de alegria: «Alegremo-nos, diz o bom Mestre, este filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado». (Leão Dehon, OSP 3, p. 653).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Deus encerrou a todos na desobediência,
para com todos usar de misericórdia» (Rm 11, 32).