Print Friendly, PDF & Email

Lectio

Primeira leitura: Sabedoria 13, 1-9

São insensatos todos aqueles homens em que se instalou a ignorância de Deus e que, a partir dos bens visíveis, não foram capazes de descobrir aquele que é, nem, considerando as obras, reconheceram o Artífice. 2Antes foi o fogo, o vento ou o ar subtil, a abóbada estrelada, ou a água impetuosa, ou os luzeiros do céu que tomaram por deuses, governadores do mundo. 3Se, fascinados pela sua beleza, os tomaram por deuses, aprendam quão mais belo que tudo é o Senhor, pois foi o próprio autor da beleza que os criou. 4E se os impressionou a sua força e o seu poder, compreendam quão mais poderoso é aquele que os criou, 5pois na grandeza e na beleza das criaturas se contempla, por analogia, o seu Criador. 6Estes, contudo, merecem só uma leve censura porque talvez se extraviem, apenas por buscarem Deus e quererem encontrá-lo. 7Movendo-se no meio das suas obras, investigam-nas, mas deixam-se seduzir pela aparência, pois são belas as coisas que vêem. 8De qualquer modo, nem sequer estes são desculpáveis, 9porque, se tiveram tanta capacidade para poderem perscrutar o universo, como não descobriram, primeiro, o Senhor dessas coisas?

A grandeza e a beleza da Criação remetem-nos para o Criador. Mas o autor do nosso texto, que vive em ambiente helenista, onde predominam os cultos pagãos politeístas, verifica que nem sempre os homens foram capazes de ler correctamente a Criação. A consideração da grandeza do mundo criado, e da sabedoria de Deus, não é nova. Encontramo-la no livro de Job (36, 22-26) e em Isaías (40, 12-14). Mas é impressionante a acentuação da beleza (v. 3).
Há que remontar ao Senhor de todas as criaturas, Àquele que formou tudo quanto existe, porque «o que é invisível nele – o seu eterno poder e divindade – tornou-se visível à inteligência, desde a criação do mundo, nas suas obras.» (Rm 1, 20). Mas Deus, que deixou que «cada povo seguisse o seu caminho» (Act 14, 16), imprimiu na criação as marcas da sua passagem para que pudéssemos encontrá-l´O. Isso nem sempre aconteceu (v. 1). Mas não têm desculpa, porque «o que de Deus se pode conhecer está à vista deles, já que Deus lho manifestou» (Rm 1, 19).

Evangelho: Lucas 17, 26-37

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 26Como sucedeu nos dias de Noé, assim sucederá também nos dias do Filho do Homem: 27comiam, bebiam, os homens casavam-se e as mulheres eram dadas em casamento, até ao dia em que Noé entrou na Arca e veio o dilúvio, que os fez perecer a todos. 28O mesmo sucedeu nos dias de Lot: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam, construíam; 29mas, no dia em que Lot saiu de Sodoma, Deus fez cair do céu uma chuva de fogo e enxofre, que os matou a todos. 30Assim será no dia em que o Filho do Homem se revelar. 31Nesse dia, quem estiver no terraço e tiver as suas coisas em casa não desça para as tirar; e, do mesmo modo, quem estiver no campo não volte atrás. 32Lembrai-vos da mulher de Lot. 33Quem procurar salvar a vida, há-de perdê-la; e quem a perder, há-de conservá-la. 34Digo-vos que, nessa noite, estarão dois numa cama: um será tomado e o outro será deixado. 35Duas mulheres estarão juntas a moer: uma será tomada e a outra será deixada. 36Dois homens estarão no campo: um será tomado e o outro será deixado.» 37Tomando a palavra, os discípulos disseram-lhe: «Senhor, onde sucederá isso?» Respondeu-lhes: «Onde estiver o corpo, lá se juntarão também os abutres.»

Jesus quer ensinar aos discípulos a verdadeira esperança. Por isso, completa o discurso sobre a sua última vinda. Para que a esperança não se torne utópica e não crie ilusões fáceis, Jesus une-a à fé. A fé, por sua vez, une-nos, desde já, ao Senhor e à sua morte e ressurreição. Unindo a esperança à fé, ficamos a saber quem esperamos, e não nos interessa quando ou como isso acontecerá.
Jesus ilustra o ensinamento com dois exemplos: o de Noé (vv. 26s.) e o de Lot (vv. 28s.). Só aparentemente estes dois factos históricos evidenciam o carácter improviso e repentino do dilúvio, no caso de Noé, e da chuva de fogo, no caso de Lot. O que Jesus quer acentuar é a necessidade de estar prontos quando Deus se manifestar no seu poder: prontos a reconhecê-lo, prontos para ser introduzidos na alegria eterna e na comunhão com Ele. O verdadeiro ensinamento de Jesus é, pois, este: não devemos considerar apenas Noé e Lot como figuras de crentes, mas também os seus contemporâneos, representados pela mulher de Lot (v. 32). Viviam esquecidos de Deus e preocupados com os bens terrenos: foi nessa situação que foram surpreendidos pelo castigo de Deus. É a sua indiferença perante a imprevisível intervenção de Deus, e a sua cegueira espiritual, é a sua incapacidade para se darem conta da dramaticidade dos tempos que atrai a atenção de Jesus, do evangelista e a nossa.

Meditatio

A Criação, na multiplicidade das suas formas e manifestações, oferece-nos um precioso espaço para a nossa relação com Deus. Mais ainda: as criaturas falam-nos do Criador. Sendo assim, a Criação é a primeira manifestação da beleza e do amor de Deus, e é, ao mesmo tempo, a primeira palavra com que respondemos ao seu amor.
A palavra de Jesus, hoje, diz-nos que Ele há-de voltar. Quando tal acontecer, compreenderemos que a nossa vida vale na medida em que a damos a Ele, e a gastamos no cumprimento dos nossos deveres de cada dia, em união com Ele. É desse modo que estaremos prontos para o encontro definitivo. Não poderá surpreender-nos a vinda d´Aquele com quem vivemos em permanente relação.
No tempo de Jesus, os Judeus desejavam ardentemente a vinda do Reino de Deus. Várias vezes interrogaram Jesus sobre o «dia do Filho do homem», em que se havia de realizar o desígnio da justiça divina. Jesus nunca indicou uma data. Limitou-se a exortar à vigilância, a estar prontos. O Senhor não queria fazer profecias extraordinárias, tão ao gosto das pessoas do seu tempo, como do nosso. O mais importante era que compreendessem, e também nós compreendamos, que é preciso estar prontos para receber Deus na nossa vida, seja nos acontecimentos extraordinários como nos de cada dia. Quem não estiver preparado pode ser surpreendido, «como sucedeu nos dias de Noé… e sucedeu nos dias de Lot: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam, construíam». Quando Deus veio, não os encontrou preparados. Também na nossa vida, o encontro com Deus pode acontecer de modo inesperado. A morte, mesmo para quem está gravemente doente, chega sempre de improviso! Há, pois, que estar preparados, vivendo em união com o Senhor. A árvore cai para onde pende. Quem vive em união com o Senhor, «em Cristo», só pode morrer em união com o Senhor, «em Cristo» (cf. Rm 6, 1ss.).

Oratio

Senhor Jesus, dou-vos graças
por todos os mistérios da nossa salvação e da nossa redenção. Procurar-vos-ei doravante fielmente com Madalena. Não quero perder-vos mais por minha causa. Por isso, evitarei o pecado, desapegar-me-ei das criaturas, e viverei no recolhimento e na união com o vosso divino coração. (Leão Dehon, OSP 3, p. 377).

Contemplatio

É preciso fazer o que Deus quer. Isso é marcado pelo nosso estado, pelo nosso regulamento de vida. «Aplico-me, dizia Nosso Senhor, àquilo que o meu Pai quer» (Lc 2). É preciso fazê-lo com cuidado. Jesus fez bem todas as coisas. Coloquemo-nos muitas vezes esta questão: «O que faria Nosso Senhor neste momento em meu lugar, e como o faria?» Não ceder à preguiça, que é a mãe de todas as tentações. Não se deixar levar pela pressa natural. Tudo por Deus, tudo por Jesus, com ele e sob o seu olhar. Nada de dissipação, nada de ligeireza. É preciso possuir a nossa alma docemente na união com Deus, com Nosso Senhor. União, no trabalho, aos sentimentos do Coração de Jesus. Tudo pelo amor de Deus e pela reparação. «Tende cuidado, diz o piedoso Luís de Blois, em oferecer as vossas boas obras e os vossos exercícios ao dulcíssimo e sacratíssimo Coração de Jesus Cristo, para que sejam purificados por este Coração e aperfeiçoados; porque este Coração cheio de amor e de ternura apraz-se nisso, e está sempre pronto a aperfeiçoar em vós, de uma maneira excelentíssima, o que há de imperfeito» (Miroir spirituel). (Leão Dehon, OSP 3, p. 112s.).

Actio

Repete frequentemente e vive a palavra:
«Caminhai no amor» (cf. 2 Jo 6).