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Lectio

Primeira leitura: Sabedoria 2, 23 – 3, 9

Deus criou o homem para a incorruptibilidade e fê-lo à imagem do seu próprio ser. 24Por inveja do diabo é que a morte entrou no mundo, e hão-de prová-la os que pertencem ao diabo. 1As almas dos justos estão nas mãos de Deus e nenhum tormento os atingirá. 2Aos olhos dos insensatos pareceram morrer, a sua saída deste mundo foi tida como uma desgraça, 3a sua morte, como uma derrota. Mas eles estão em paz. 4Se aos olhos dos homens foram castigados, a sua esperança estava cheia de imortalidade. 5Depois de terem sofrido um pouco, receberão grandes bens, pois Deus os provou e achou dignos de si. 6Ele os provou como ouro no crisol e aceitou-os como um holocausto. 7No tempo da intervenção de Deus, os justos resplandecerão e propagar-se-ão como centelhas através da palha. 8Julgarão as nações e dominarão os povos, e o Senhor reinará sobre eles para sempre. 9Aqueles que nele confiam compreenderão a verdade, e os que são fiéis no amor habitarão com Ele, pois a graça e a misericórdia são para os seus eleitos.

«Deus criou o homem para a incorruptibilidade» (v. 23), isto é, para a imortalidade, esperança daqueles que n´Ele confiam (cf. v. 9). É esta a mensagem do nosso texto, construído a partir da sorte aparente/real dos justos. O destino original do homem é a imortalidade, isto é, uma vida que não conhece a morte, uma vez que foi feito à imagem de Deus (2, 23), ainda que, «por inveja do diabo» (2, 24), a morte se apresente como espectro da existência.
Pela primeira vez, ao aprofundar a questão da retribuição – os justos devem ser premiados e os maus castigados – e usando linguagem filosófica, por influência da cultura helenista, fala-se de vida eterna. E isso acontece ao comentar Gn 2-3, onde se narra como, desde as origens, a morte e a vida se atravessam no caminho do homem.
É preciso confiar no Senhor, é preciso ir além das aparências, onde se fixam os que olha, de modo apressado e superficial, o tempo que passa. É preciso esperar que termine o tempo da provação, talvez aquele porque passava o povo hebreu na época dos Macabeus, sob o rei Antíoco Epífanes. Então será satisfeita a confiança dos justos, e de todos os que esperaram contra toda a esperança. Os justos receberão, resplandecerão, dominarão (cf. vv. 5-9), porque, na verdade, «estão em paz» (v. 3), «estão nas mãos de Deus» (v. 1), desde já e para sempre.

Evangelho: Lucas 17, 7-10

Naquele tempo, disse o Senhor: «Qual de vós, tendo um servo a lavrar ou a apascentar gado, lhe dirá, quando ele regressar do campo: ‘Vem cá depressa e senta-te à mesa’? 8Não lhe dirá antes: ‘Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, enquanto eu como e bebo; depois, comerás e beberás tu’? 9Deve estar grato ao servo por ter feito o que lhe mandou? 10Assim, também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer.’»

Jesus, depois de ter falado da fé, dirige-se aos apóstolos e, por meio da parábola do servo (seria mais exacto traduzir «escravo»), recomenda-lhes que se façam servos («escravos») de todos. Mais uma vez, Jesus acentua que, na lógica do Reino, não conta tanto o que se faz quanto a intenção, o estilo, o método com que se faz. Não recomenda uma humildade genérica, ou protocolar: o que Lhe interessa realmente é o que pensam e pretendem fazer os apóstolos, quando se põem ao seu serviço e ao serviço da sua causa. Deus não precisa de nós, nem das nossas ajudas; mas quer colaboradores em total sintonia com o seu projecto de salvação, aqui e agora personificado em Jesus de Nazaré.
«Escravos inúteis» (v. 10), isto é, comuns, simples… O que Jesus quer que os apóstolos interiorizem é a atitude que, Ele mesmo, demonstrará na véspera da paixão: depor o manto, servir os irmãos e, no fim, julgar-se e declarar-se «escravos inúteis» (cf. Lc 22, 24-27; Jo 13, 1-17).

Meditatio

O livro da Sabedoria convida-nos a olhar em profundidade o mundo, a vida, o tempo que passa, sem nos deixarmos iludir pelas aparências: «As almas dos justos estão nas mãos de Deus… Aos olhos dos insensatos pareceram morrer, a sua saída deste mundo foi tida como uma desgraça, a sua morte, como uma derrota. Mas eles estão em paz. Se aos olhos dos homens foram castigados, a sua esperança estava cheia de imortalidade» (vv. 1-4). A ilusão de quem julga pelas aparências está em acreditar que quem é contrariado, perseguido, atormentado pelos homens, é profundamente infeliz. Mas a realidade é bem diferente: aquele que é perseguido por causa da sua fé está nas mãos de Deus, unido a Ele, cheio de esperança e de paz, em qualquer situação. Quem consegue ver o mais profundo da realidade dá-se conta de que a felicidade não está nos prazeres mundanos. Estes provocam no homem um terrível vazio, que o leva a procurar mais prazeres, numa correria louca para encontrar satisfação e plenitude de vida.
O mártir sabe que não está só. Unido à paixão de Cristo, tem consciência de o próprio Cristo sofre com ele, sofre nele. «Deus os provou e achou dignos de si. Ele os provou como ouro no crisol e aceitou-os como um holocausto» (vv. 5s.).
Em todos os sofrimentos, busquemos a intenção de Deus, que é sempre uma intenção de amor. Prova-nos como ouro no crisol para nos purificar, para nos conduzir a um amor mais profundo, mais desinteressado. Se alcançarmos de Deus a graça de compreender isto, estaremos sempre em paz, mesmo no meio dos maiores sofrimentos. Pensemos nos Mártires, mas também em tantos outros Santos, como Francisco de Assis, que, já doente e cego, entoou o cântico do irmão Sol. Pensemos em tantos outros santos, que encontramos ao longo da vida, e que, no meio de enormes sofrimentos, nos souberam transmitir serenidade e paz. Recordo concretamente um cristão, que encontrei em Moçambique, em 1967, e que, já no leito de morte, cantava a alegria do encontro com o Senhor, que sabia estar prestes a acontecer. Lembro uma enfermeira que, a morrer de cancro, num hospital de Lisboa, transmitia paz, serenidade e esperança a quem dela se aproximava. É bem certo que: «aqueles que confiam em Deus compreenderão a verdade, e os que são fiéis no amor habitarão com Ele, pois a graça e a misericórdia são para os seus eleitos.» (v. 9).
O cristão consegue ver para além das suas aparências mais ou menos dramáticas da morte. O seu sofrimento é iluminado pela esperança, tanto no que se refere à sua morte como à dos outros, a quem se une, “na esperança” de os rever no céu. Também nós, dehonianos, participamos dessa esperança. Mas para além dela, consideramos a sua e a nossa morte como o úl
timo e supremo acto da nossa oblação de amor e de reparação, em união “à oblação reparadora de Cristo ao Pai pelos homens” (Cst 6), a continuar na eternidade.

Oratio

Senhor, tudo o que sou e tenho, de Ti o recebi. Ajuda-me a que faça de toda a minha existência uma restituição dos teus dons. Dá-me a certeza de que já estou Contigo naquela vida que durará eternamente, e de que a morte é apenas uma terrível passagem. Aumenta em mim a fé nesta eternidade de amor, que já saboreio em cada cintila de amor humano que recebo. Creio, Senhor, que, como acordo todas as manhãs, um dia ressuscitarei na tua aurora. Não será um prémio a que tenho direito, mas o definitivo transbordar da tua infinita misericórdia. Amen.

Contemplatio

Aconteceu a S. Policarpo o que tinha acontecido ao seu mestre S. João, o fogo do seu coração ultrapassou e extinguiu o fogo material com que o envolviam. Tinha-se oferecido ao suplício. Como o quisessem pregar ao poste: «Deixai-me, tinha dito, aquele que me dá a força para sofrer o fogo, dar-me-á a graça de permanecer firme sobre a fogueira, sem o socorro dos vossos pregos». Contentaram-se a ligá-lo com cordas. Assim amarrado, ergueu os seus olhos ao céu e disse: «Senhor, Deus todo poderoso, dou-vos graças pelo que me haveis concedido neste dia, por ser posto no número dos vossos mártires e tomar parte no cálice do vosso Cristo, a fim de que eu ressuscite para a vida eterna. Que eu seja admitido hoje com eles na vossa presença, como uma vítima de agradável odor, tal como a haveis preparado, predito e cumprido, vós que sois o verdadeiro Deus; eu vos bendigo, vos glorifico pelo pontífice eterno e celeste, Jesus Cristo vosso filho, ao qual seja dada glória, assim como a vós e ao Espírito Santo, agora e por toda a eternidade. Amen!» Quanto disse amen, acenderam o fogo, mas por um milagre surpreendente, a chama, em vez de consumir o santo mártir, estendeu-se à volta dele como a vela de um barco inchada pelo vento. Os pagãos, vendo que o fogo se recusava a servi-los, mandaram ferir o santo com um golpe de espada e o seu sangue extinguiu a fogueira. Venera-se ainda, no anfiteatro de Esmirna, a recordação deste drama. (Leão Dehon, OSP 3, p. 93s.).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Deus criou o homem para a incorruptibilidade» (Sb 2, 23).