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Um lema bastante comum no mundo da psicologia diz que “o que cura é a relação” (Yalom), pelo que uma vida isolada, auto-referencial e auto-suficiente é uma vida doente e moribunda. Com efeito, ninguém pode viver como se fosse uma ilha e unicamente na imaginação poderá existir um ser totalmente privado de relações.

Ao recordar São Francisco de Assis como padroeiro de todos os que estão envolvidos no campo da ecologia, o papa Francisco diz que este santo italiano “amava e era amado pela sua alegria, a sua dedicação generosa, o seu coração universal. Era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade e numa maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmo. Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior” (LS 10). Dito de outro modo, a harmonia nas relações aparece como a vacina que nos protege contra uma enfermidade galopante no nosso tempo: uma solidão feita de tristeza, precisamente por estar caracterizada pelo enfraquecimento, ruptura e ausência de vínculos.

Desde o princípio, toda e qualquer existência pessoal é tecida de um conjunto de relações que lhe dão forma e consistência. Ainda que nada nossa vida sejam raros e privilegiados esses momentos de encontro íntimo e autêntico connosco mesmos, com o outro, com Deus e com a realidade natural, não nos podemos esquecer que “toda a vida verdadeira é encontro” (Buber), ou seja, experiência de relação. Ora, é precisamente esta experiência que ajuda a curar as feridas do passado e os eventuais bloqueios no desenvolvimento, porque a relação é em si mesma terapêutica e uma fonte de saúde para a pessoa. Na verdade, “é possível ter necessidade de pouco e viver muito, sobretudo quando se é capaz de dar espaço a outros prazeres, encontrando satisfação nos encontros fraternos, no serviço, na frutificação dos próprios carismas, na música e na arte, no contacto com a natureza, na oração. A felicidade exige saber limitar algumas necessidades que nos entorpecem, permanecendo assim disponíveis para as múltiplas possibilidades que a vida oferece” (LS 223).

Em suma, “é sempre possível desenvolver uma nova capacidade de sair de si mesmo rumo ao outro. Sem tal capacidade, não se reconhece às outras criaturas o seu valor, não se sente interesse em cuidar de algo para os outros, não se consegue impor limites para evitar o sofrimento ou a degradação do que nos rodeia. A atitude basilar de se auto-transcender, rompendo com a consciência isolada e a auto-referencialidade, é a raiz que possibilita todo o cuidado dos outros e do meio ambiente; e faz brotar a reacção moral de ter em conta o impacto que possa provocar cada acção e decisão pessoal fora de si mesmo. Quando somos capazes de superar o individualismo, pode-se realmente desenvolver um estilo de vida alternativo e torna-se possível uma mudança relevante na sociedade” (LS 208).

 

José Domingos Ferreira, scj