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O poeta António Gedeão (1906-1997) cantava, no seu poema Impressão Digital, que «os meus olhos são uns olhos. / E é com esses olhos uns / que eu vejo no mundo escolhos / onde outros, com outros olhos, / não vêem escolhos nenhuns». Com efeito, a forma como olhamos o mundo à nossa volta não é indiferente e diz muito sobre quem somos. Não conseguimos ver a realidade da mesma maneira, simplesmente porque não há duas pessoas iguais. Ora, isto não é uma limitação nossa, mas uma fonte permanente de novidade e enriquecimento para todos.

A problemática ecológica está a pedir que a conversão do nosso olhar caminhe em direcção a «um olhar de conjunto» (LS 110). De facto, «a fragmentação do saber realiza a sua função no momento de se obter aplicações concretas, mas frequentemente leva a perder o sentido da totalidade, das relações que existem entre as coisas, do horizonte alargado: um sentido, que se torna irrelevante» (LS 110). Este «olhar abrangente» (LS 135) é fundamental para devolver o equilíbrio ao cosmos, ao permitir «individuar caminhos adequados para resolver os problemas mais complexos do mundo actual, sobretudo os do meio ambiente e dos pobres, que não se podem enfrentar a partir de uma única perspectiva nem de um único tipo de interesses» (LS 110). É-nos pedido que sejamos homens e mulheres, não só de coração grande, mas também de vistas largas, capazes de abarcar e abraçar as mais diversas dimensões da realidade, sem excluir nem desprezar nenhuma.

Este olhar de conjunto implica, ao mesmo tempo, uma nova autoconsciência. A verdade é que «não haverá uma nova relação com a natureza, sem um ser humano novo. Não há ecologia sem uma adequada antropologia» (LS 118). Esta renovada autoconsciência deve levar-nos a valorizar o dom da nossa existência e da nossa liberdade, mas também a experiência da nossa fragilidade e contingência. No fundo, precisamos de crescer na consciência que tudo nos é dado e, ao mesmo tempo, dar corpo a esta experiência espiritual.

Esta autoconsciência é integral, porque se baseia nas quatro relações fundamentais do ser humano: consigo mesmo, com os outros, com a natureza e com Deus. Só assim poderemos dar uma resposta significativa a essas perguntas que atravessam toda a história da humanidade: Quem sou eu? Com quem chego a ser quem sou? Qual é a minha origem natural? De quem recebo o dom da minha existência?

Fica claro então que «não podemos iludir-nos de sanar a nossa relação com a natureza e o meio ambiente, sem curar todas as relações humanas fundamentais. […] Para uma relação adequada com o mundo criado, não é necessário diminuir a dimensão social do ser humano nem a sua dimensão transcendente, a sua abertura ao Tu divino. Com efeito, não se pode propor uma relação com o ambiente, prescindindo da relação com as outras pessoas e com Deus» (LS 119).

José Domingos Ferreira, scj