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A natureza não existe para si, mas é, em si mesma, mistério de abertura e entrega. Desde o momento da sua criação, ela expressa aquela doação permanente e total que está inscrita e gravada no coração da Trindade. É dom de Deus à humanidade e vive esta dinâmica como identidade, sentido e realização do seu ser próprio.

A natureza está criada para se dar e não pode deixar de o fazer, pois não há greve nem reforma que lhe valham. Uma árvore, ao chegar a época devida, oferece os seus frutos saborosos, atraindo a si muitos seres vivos, também o ser humano. Uma árvore, que nega o seu fruto, está a definhar e a encaminhar-se para a morte. Esta pró-existência é uma nota característica da natureza, que a converte num sustento imprescindível para a vida do ser humano, que sem ela não pode viver, desenvolver-se e relacionar-se com Deus, consigo mesmo e com os outros.

A natureza, que é mãe, converte-se então em mestra, porque revela o modo como estamos chamados a viver. Ensina-nos a viver na mesma dinâmica de pró-existência, a pôr a nossa vida ao serviço dos outros e de causas bem maiores que a satisfação dos nossos interesses pessoais. A natureza manifesta uma verdade fundamental na nossa vida e que não podemos esquecer: viver descentrado de si próprio é ser muito mais feliz e também muito mais saudável; sair da autorreferencialidade é ganhar qualidade de vida, é viver em abundância.

Talvez porque nos esquecemos disto, estamos agora a sofrer esta forte e pesada crise ecológica, que tem a sua origem nesse “notável excesso antropocêntrico, que hoje, com outra roupagem, continua a minar toda a referência a algo de comum e qualquer tentativa de reforçar os laços sociais. Por isso, chegou a hora de prestar novamente atenção à realidade com os limites que a mesma impõe e que, por sua vez, constituem a possibilidade dum desenvolvimento humano e social mais saudável e fecundo. Uma apresentação inadequada da antropologia cristã acabou por promover uma concepção errada da relação do ser humano com o mundo. Muitas vezes foi transmitido um sonho prometeico de domínio sobre o mundo, que provocou a impressão de que o cuidado da natureza fosse actividade de fracos. Mas a interpretação correcta do conceito de ser humano como senhor do universo é entendê-lo no sentido de administrador responsável” (LS 116).

Não se trata apenas de cuidar da natureza – que já não é coisa pouca –, mas sobretudo de escutar as suas lições e aprender a sua sabedoria. Precisamos de deslocar o foco do nosso interesse e prestar mais atenção a esse substrato, que é muito mais o solo onde se apoiam os nossos pés. A criação ensina-nos – como mais ninguém – a beleza de dar-se.

 

José Domingos Ferreira, scj