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Este é o convite que o Senhor nos faz hoje e sempre!  

Celebrar a Solenidade do Coração de Jesus é celebrar este Deus que tem coração e nos fala ao coração. A Palavra de Deus que a liturgia nos propõe neste dia é uma palavra que nos fala de amor. E não podia ser de outra forma, porque Deus é Amor! Amar é a sua essência e é dele a iniciativa do amor. Ele não nos ama em retribuição do nosso amor, ama-nos mesmo que nós não O amemos, ama-nos apesar de nós, das nossas fragilidades, quedas e infidelidades.

Deus não nos ama nem nos escolhe porque somos santos e perfeitos, mas para nos oferecer a

possibilidade de tendermos a essa santidade e perfeição, de caminharmos continuamente rumo a esse ideal de amor e bondade que só em Deus podemos encontrar e que só Deus pode preencher em Plenitude.

A celebração da Solenidade do Coração de Jesus é ocasião privilegiada para contemplar este

Deus de Coração grande, que ama, acolhe e perdoa todos os seus filhos de todas as gerações. Ao ser amados assim, sem limites nem reservas, somos também chamados a entrar nesta dinâmica de amor, não de um amor feito de belas teorias e encantadoras ideias, mas de um amor que se realiza e concretiza em gestos e ações de um quotidiano vivido na solidariedade, na partilha e no encontro com irmãos e irmãs com quem nos cruzamos pelos caminhos da vida.  Se o Senhor nos convida a encontrar nele o descanso e alívio para os nossos cansaços e dificuldades, também nos desafia a sermos, nós mesmos, porto seguro, alívio e amparo para os mais cansados, frágeis, marginalizados e vulneráveis da nossa Humanidade.

A Igreja compreendeu muito bem esta necessidade de estarmos atentos uns aos outros, especialmente aos desamparados e deserdados de sociedades tantas vezes baseadas em princípios e ideais pouco justos e pouco fraternos. A opção preferencial pelos pobres é um princípio basilar da Doutrina Social da Igreja e deve ter consequências práticas nas opções pastorais da Igreja. O nosso Fundador, Padre Leão Dehon, percebeu muito bem esta necessidade de estar aos lado dos mais pobres e carenciados do seu tempo, ao tomar a opção coerente de ir ao encontro dos operários explorados e despojados da sua dignidade ao trabalharem em condições desumanas, sem horários dignos, sem salários justos, sem direitos respeitados nem voz para os reivindicar. O Padre Dehon compreendeu que a devoção ao Coração de Jesus, para ser autêntica e coerente, não podia limitar-se a umas fórmulas de piedade, a belas orações, ladainhas, actos de oblação ou de desagravo. Todas essas fórmulas eram importantes, mas deviam ter correspondência na prática quotidiana: alguém que consagra a sua vida ao Coração de Jesus é, necessariamente, alguém que se consagra aos irmãos, dando particular atenção às periferias existenciais de cada tempo e de cada lugar. Só pode consagrarse ao Coração de Jesus alguém que queira abrir o seu coração a um amor desinteressado e sem limites aos irmãos, a exemplo de Cristo, que nos amou primeiro.

É precisamente isso que nos lembra o nosso Superior Geral na carta que enviou a toda a Família Dehoniana para esta Solenidade. Com o título “Dar de beber a quem tem sede, dar de comer a quem tem fome”, a mensagem do P. Heiner Wilmer e seu Conselho parte dos exemplos de Henry Dunant, fundador da Cruz Vermelha Internacional e primeiro Prémio Nobel da Paz, e do exemplo evangélico do Bom Samaritano. Estes exemplos, diz-nos o Superior Geral, devem servir de inspiração à nossa ação e dedicação aos que encontramos com fome e sede, não apenas fome e sede materiais, mas fome e sede de vida, de razões de viver, de razões para acreditar e confiar num futuro com sentido e horizonte. A exemplo de Dunant, do Bom Samaritano e de tantos missionários que nos precederam, devemos fazer-nos próximos dos pobres e carenciados do nosso mundo.

Que o Coração de Jesus nos ajude e inspire, para que sejamos homens e mulheres de coração, verdadeira Igreja em saída, qual hospital de campanha instalado nas periferias existenciais da nossa Humanidade.

José Agostinho Sousa