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Tempo Comum – Anos Pares
XI Semana – Segunda-feira
Lectio

Primeira leitura: 1 Reis 21, 1-6

Naquele tempo, 1Nabot de Jezrael tinha uma vinha junto ao palácio de Acab, rei da Samaria. 2Disse então Acab a Nabot: «Cede-me a tua vinha para que eu a transforme em horta, pois fica junto da minha casa. Dar-te-ei em troca uma vinha melhor; ou, se te convier, pagar-te-ei o seu valor em dinheiro.» 3Nabot disse a Acab: «Pelo Senhor! Seria um sacrilégio ceder-te a herança de meus pais!» 4Acab voltou para casa triste e irritado, pelo facto de Nabot lhe ter dito: «Não te darei a herança de meus pais.» Deitou-se na cama, voltou o rosto para a parede e não quis mais comer. 5Sua esposa veio ter com ele e perguntou-lhe: «Por que razão estás assim irritado e não queres comer?» 6Ele respondeu-lhe: «Porque falei a Nabot de Jezrael, dizendo-lhe: ‘Cede-me a tua vinha por dinheiro ou, se mais te convier, dar-te-ei por ela outra vinha’, e ele respondeu-me: ‘Não te darei a minha vinha.’ 7Então Jezabel, sua esposa, disse-lhe: «Não és tu o rei de Israel? Levanta-te, come, não te aflijas! Eu mesma te darei a vinha de Nabot de Jezrael.» 8Escreveu cartas em nome de Acab, selando-as com o selo real, e enviou-as aos anciãos e aos magistrados da cidade, concidadãos de Nabot. 9Nelas lhes dizia: «Proclamai um jejum e fazei sentar Nabot na primeira fila da assembleia. 10Fazei vir à sua presença dois homens malvados que o acusem dizendo: ‘Tu blasfemaste contra Deus e contra o rei!’ Levai-o, depois, para fora da cidade e apedrejai-o até ele morrer.» 11Os homens da cidade, os anciãos e os magistrados, concidadãos de Nabot, fizeram o que lhes mandara Jezabel, conforme o conteúdo da carta que ela lhes enviara. 12Proclamaram um jejum e fizeram Nabot sentar-se em lugar de honra. 13Vieram então os dois malvados, puseram-se na presença de Nabot e depuseram contra ele perante o povo, dizendo: «Nabot blasfemou contra Deus e contra o rei!» Fizeram-no sair da cidade, apedrejaram-no e ele morreu. 14Mandaram então dizer a Jezabel: «Nabot foi apedrejado e morreu.» 15Quando Jezabel teve conhecimento que Nabot fora apedrejado e já estava morto, disse a Acab: «Levanta-te e toma posse da vinha que Nabot de Jezrael recusara ceder-te por dinheiro; Nabot já não é vivo! Morreu!» 16Mal Acab ouviu dizer que Nabot tinha morrido, levantou-se logo para descer até à vinha de Nabot de Jezrael, a fim de tomar posse dela.

O rei Acab confia mais em manobras políticas do que na protecção de Deus. Instigado pela mulher, mancha-se com um duplo crime: a morte de Nabot, um honesto israelita, que se recusava a ceder por venda ou por troca uma vinha, que possuía junto da residência real de verão; o roubo da vinha, que o proprietário, agora morto, se negara a vender por ser património da família. Este homicídio, e este furto, revelam a degradação moral da monarquia, apesar da encenação com que se pretendia conferir legalidade à acção de Acab: proclamação de um jejum, convocação da assembleia, como era costume fazer em tempos de calamidade pública. O próprio Nabot foi designado para presidir à assembleia. Tudo estava preparado por Jezabel para fazer recair sobre Nabot a responsabilidade da calamidade, possivelmente mais uma seca prolongada. E assim foi, com a colaboração de dois malvados, que acusaram Nabot de blasfémia, fazendo cair sobre ele a maldição. A maldição do rei, tal como a de Deus, comportava a lapidação (Ex 22, 27; Lv 24, 16), sempre que fosse sufragada por duas testemunhas (Nm 35, 30; Dt 17, 6), que, neste caso, são falsas.
Neste relato, ressaltam uma série de paixões e de atropelos, tais como a ambição e o cinismo da rainha, e o abuso do poder, que se notam no tom provocador das suas palavras a Acab: «Não és tu o rei de Israel?» (v. 7).

Evangelho: Mateus 5, 38-42

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 38«Ouvistes o que foi dito: Olho por olho e dente por dente. 39Eu, porém, digo-vos: Não oponhais resistência ao mau. Mas, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. 40Se alguém quiser litigar contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa. 41E se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele duas. 42Dá a quem te pede e não voltes as costas a quem te pedir emprestado.»

A quinta antítese consiste na chamada «lei de Talião» (Ex 21, 24; Lv 14, 19s.; Dt 19, 21). Essa lei, que já encontramos no Código de Hamurabi (séc. XVIII a. C. ), foi necessária numa cultura em que a vingança não tinha limite. Baseava-se no princípio da retribuição e na exigência de reparação. Quando foi dada, era uma lei «progressista», pois punha freio à retorsão (cf. Gn 4, 23s.). Não deve ser julgada à luz do Evangelho. Os próprios judeus se sentiam embaraçados perante tão horrendo princípio. Por isso, em vez de a aplicarem à letra, substituíam-na por sanções pecuniárias.
Jesus ensina a ser longânimes, a não responder com a vingança ou com a intolerância às ofensas. Assim se quebra a espiral da violência e da prepotência. Isto vale também quando é posta em causa a nossa integridade física e a integridade dos nossos bens, a começar pelo tempo: a capa (v. 40) servia para se defender das intempéries e para cobrir o corpo durante as horas de repouso; a milha (v. 41) era o caminho permitido em dia de sábado. Paulo retomará este ensinamento de Cristo e escreverá: «Não pagueis a ninguém o mal com o mal… Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem» (Rm 12, 17.21).
Estas exigências de Jesus não são contrárias à ordem que deve existir na sociedade. Ele próprio dá o exemplo: pede explicações a quem lhe bateu (Mc 14, 48; Jo 18, 23) e sofre a humilhação; Paulo, para se defender da injustiça, invoca a sua qualidade de cidadão romano, recorrendo mesmo ao supremo tribunal, a César. Uma coisa é a defesa dos próprios direitos, outra é a violência, a intolerância.

Meditatio

A história de Nabot ilustra a vitória da violência sobre o pobre. Não teria feito melhor em ceder a vinha a Acab, que até lhe oferecia dinheiro por ela, ou a troca por outra? Não, porque não se tratava simplesmente de uma propriedade, ou de uma propriedade qualquer. Vender ou trocar aquela vinha era por em risco a sua vocação de israelita, que tinha ao seu cuidado uma parte da terra, herança sagrada. É por isso que Nabot responde a Acab: «Pelo Senhor! Seria um sacrilégio ceder-te a herança de meus pais!» (v. 3). Opor-se à injustiça é normal quando se trata de outros. Quando se trata de nós mesmos, Jesus ensina-nos a ser mansos, indulgentes e generosos até ao extremo: «se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra» (Mt 5, 39). A violência não se combate com a viol&ec
irc;ncia. Só o bem pode vencer o mal. Só o amor é sempre vitorioso.
Mas a história de Nabot lembra-nos que há um limite para a condescendência perante as injustiças: a fidelidade à vontade de Deus. Jesus, que se opõe fortemente a toda a injustiça e abuso, para ser fiel à vontade do Pai, sujeita-se à máxima injustiça, que foi a sua morte na cruz. «Por isso mesmo é que Deus o elevou acima de tudoe lhe concedeu o nome que está acima de todo o nome» (Fl 2, 9). Quem quer participar na sua glória, há-de participar primeiro no mistério da sua caridade.
Participar no mistério da caridade de Cristo não é uma piedosa abstracção. O amor activo não é fraco; é muito mais forte do que a violência, que caracteriza a cega brutalidade e é indigna do homem. A preferência pelos métodos não violentos pode levar-nos a reflectir sobre o enorme poder da opinião pública. Bem o conhecem e usam com exagero, até se tornarem sub-repticiamente violentos, os políticos, os industriais, o mundo do comércio, bombardeando o povo por meio dos mass media, a fim de alcançarem determinados objectivos políticos, económicos, financeiros, comerciais.
Há também que mobilizar-se para promover uma opinião pública favorável à justiça e à paz, ao respeito pelo ambiente e pela vida. O caminho da não-violência, como já demonstrou Gandhi na independência da Índia e, mais recentemente, o demonstraram os Países do Leste europeu, na conquista das liberdades fundamentais do homem, é tudo menos passividade e ineficácia.
Um dos objectivos da vida e acção do Pe. Dehon foi elevar “massas populares, por meio do reino da justiça e da caridade cristã». Segundo o Fundador, é «um trabalho a continuar» pelos membros da Congregação (CC nn. 386-388).

Oratio

Senhor, bem sabes como tenho dificuldade em perder, como estou agarrado ao meu tempo, às minhas coisas, às minhas ideias. Tenho dificuldade em ceder, em condescender, em entrar no jogo dos outros. Muitas vezes, me barrico nas minhas defesas e tutelo os meus direitos, reais ou presumidos, com a ilusão de ter sempre razão, de não reconhecer os meus erros, de conseguir sempre impor-me. Mas tu pedes que viva desarmado. Se com alguma coisa me devo medir, é com a tua cruz. Faz-me compreender que, só quem decide perder, acaba por encontrar o melhor de si mesmo. Amen.

Contemplatio

Nosso Senhor não veio destruir a lei; explicou, desenvolveu a lei moral com mais clareza, mais extensão; deu-lhe o sentido verdadeiro; purificou-a das falsas interpretações farisaicas; acrescentou-lhe o que faltava, e elevou-a a um ideal de perfeição que nunca tivera até então, e que deve conservar até ao fim dos séculos.
Deus tinha-nos dado a lei sumariamente no Sinai: resumia-se em dois preceitos: amarás o teu Deus de todo o coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Era necessária a delicadeza do Coração de Jesus para bem compreender toda a plenitude do mandamento divino e todo o seu alcance, e para o explicar sem mistura de vistas terrestres.
Só Ele tinha poder para acrescentar ao preceito a força do exemplo no cumprimento perfeito de toda a lei, de maneira a poder dizer: dei-vos o exemplo, para que façais como me vistes fazer. Nosso Senhor restabeleceu-a em vários pontos.
A lei prescrevia o amor do próximo. Os Judeus entendiam isto somente a respeito dos membros da sua raça, e ainda assim é hoje. Nosso Senhor diz-nos que isso se aplica a todos os homens, e que é preciso amar os nossos próprios inimigos e fazer o bem àqueles que nos odeiam, como o nosso Pai do céu que faz brilhar o sol sobre os bons e sobre os maus. (Leão Dehon, OSP4, p. 27s.).

Actio

Repete frequentemente e vive hoje a palavra
«Dá a quem te pede.» (Mt 5, 42).

| Fernando Fonseca, scj |