Luau, 7 de Setembro de 2005
Neste dia tínhamos programado lavar o carro junto ao rio na aldeia de Samaria onde temos a nossa lavra no território da antiga missão. Como sempre, a curiosidade das crianças acompanhou-nos em todo o tempo. Num lugar onde, para além do nascer e por do sol e do invariável decorrer do tempo, poucas coisas diferentes acontecem no suceder dos dias, qualquer coisa que aconteça torna-se o facto assinalável para esta gente.
A movimentação começa pelo aparecimento do carro dos missionários. Das cabanas da aldeia surge o espontâneo pelotão das crianças que porfiam em vencer o andamento do carro na sua descida para o rio. Começam a surgir alguns gestos de abertura, pois alguns já nos vão conhecendo e até fazem questão de nos saudar pelo nome e com uma frágil mão de criança cumprimentam-nos pelos adultos que andam mais ocupados e não costumam ser tão espontâneos.
Entretanto, iniciámos a tarefa da limpeza geral do carro que tinha pó acumulado já de muitos meses e necessitava urgentemente de uma lavagem do compartimento do motor. Com os escassos meios de que dispomos, servimo-nos de um pulverizador agrícola para aplicar um pouco de gasóleo que auxiliasse a remoção do sujidade já antiga e depois foi necessário esfregar com capim molhado até restituir a cor natural à chapa e às peças do motor. Colaborar nesta azáfama de limpeza foi uma festa para estas crianças que nos acompanham cheias de curiosidade.
E não ficaram por aqui, pois a nossa missão era também cuidar da nossa lavra que começa já a reverdecer com bananeiras, batatas e milho e mais terreno que estamos preparando. Em tudo eles foram incansáveis seguidores e imitadores, particularmente na tarefa da rega que se fez com um cordão humano trazendo a água desde o rio até à plantação.
E no final de tudo isto uma sobremesa indispensável: a boleia como muito bem eles sabem dizer! É uma espécie de recompensa que gostamos de dar pois sentimos que nestes gestos se consolida uma relação de confiança que pensamos fazer bem parte da nossa missão.
Neste sábado tive mesmo que dar o meu lugar e vir dependurado no degrau exterior do carro que dá bem para apoiar-se e foi nesta situação que pude participar num acontecimento engraçado.
Lá para trás vinha a correr um pequenito dos seus 5 anitos muito aflito e de olhos suplicantes quase em lágrimas pois não tinha logrado subir para a tão desejada boleia. Pedi ao P. Joaquim que parasse, ao que ele condescendeu. Aquela criança não podia deixar de ser atendida! Agarrei-a de um braço e veio ali mesmo comigo dependurada do exterior do carro. Que alegria vibrava naquele bracito! Pude perceber pelos sussurros quase imperceptíveis que trocava com os amiguinhos que ocupavam o meu lugar no interior do carro, que a felicidade de uns e de outros era imensa por aqueles duzentos metros de boleia!
E foi assim que na manhã deste sábado vivi uma pequenina história neste canto de Angola, que tive gosto em vos contar e cada vez que isto acontece lembro como estas crianças estão disponíveis para aprender e fazer coisas novas com quem as puder acompanhar.
| Jorge Alves, scj |