02 | março | terça-feira
De Luena ao Luau
Dia de viagem de Luena (antiga Luso) para Luau (antiga Teixeira de Sousa). Celebrámos a missa às 7h30, presidida pelo Pe. Maggiorino Madella. Depois do pequeno-almoço fizemos as despedidas do paço episcopal. O nome é pomposo, mas a casa é muito simples e pobre. Tem um aspecto senhorial, construída no tempo em que os portugueses por cá estavam, mas as condições internas são humildes. A água canalizada não funciona, porque não há sistema para elevar a água e as tubagens estão estragadas. Foi um voltar aos anos sessenta… Na casa de banho de cada quarto – também na do bispo – há um bidão com água, um balde e uma bacia…. O que de mais moderno tem a casa episcopal é um sistema de painéis fotovoltaicos, instalado há 20 anos, que fornece energia diária à casa.
O Pe. Joaquim arrumava as bagagens na parte de trás do carro todo-terreno. Uma mala térmica levava os abastecimentos para a viagem. Depois amarrou-as seguramente com cordas. Olhávamos desconfiados uns para os outros…
– É preciso tanto, Jaquim? Perguntou alguém.
– Estão a rir, mas vocês vão ver e vão dar-me razão…
Acomodámo-nos. Éramos sete passageiros. Atravessámos a cidade para poente e depois virámos em direcção a norte, passando ao lado de Capanga, local da nossa possível comunidade missionária em Angola. Fica a 5 km do centro da cidade. No dia anterior e naquela noite chovera. As poças de água na estrada davam o sinal da recente chuvada. A estrada é uma obra de engenharia do tempo dos portugueses. A base é de gravilha, depois leva um mistura de terra areada com cimento onde se assentam os duros blocos de argamassa. Por cima é espalhada uma leve camada de alcatrão. Passados todos estes anos ainda há alguns troços de estrada bem conservados. Mas a falta de manutenção fez desaparecer o alcatrão e o descuido dos sistemas de escoamento de água fez abrir buracos que se sentem muito bem… É uma estrada importante porque liga duas importantes cidade do interior: Luena e Saurimo, porém o estado em que está, é mesmo paupérrimo. A uma certa altura acaba-se aquela estrada e começa a estrada de terra batida com altos e baixos muito acentuados. Com as chuvas os baixos estão cobertos de água e não se sabe bem que profundidade podem ter. Há quem fica lá enterrado. Os únicos veículos que conseguem percorrer esta estrada são as bicicletas, as motorizadas, os jeepes de grande porte e os camiões. São os que encontramos no estrada. Vemos muito gente naquela estrada. Muitos a pé, alguns de bicicleta ou motorizada. Uns vão para a cidade e levam produtos para trocar com coisas de que têm necessidade. Outros vêm da cidade trazendo as compras. Esta estrada é meio de comunicação com imensas aldeias dispersas pela floresta. Uma recente lei do governo angolano obriga as pessoas das aldeias mais pequenas e do interior a deslocarem-se para outras aldeias situadas próximo das estradas. O objectivo é facilitar a prestação dos serviços de saúde, educação, etc. Ao longo da estrada estão as marcas da guerra: tanques e carros de guerra destruídos nos bombardeamentos ou abandonados à medida que se perdiam posições… Dizem que em tempos, nesta zona, havia gazelas, elefantes, leões… Nada disso se vê agora. Tudo a guerra levou. A dureza do percurso leva-nos ao encontro de aldeias que vão aparecendo nas bermas da estrada. Na cidade as construções são em tijolo, rebocadas e pintadas. A cobertura é em terraço ou em telha. Nos arredores da cidade, como Capanga, proliferam os bairros de lata onde o zinco impera. Nestas aldeias da floresta as construções são normalmente redondas, em madeira, e cobertas de colmo. De algumas casas sai fumo pelo tecto, sinal de que estão a cozinhar. Os habitantes da “nova geração” têm construções rectangulares, cobertas a folhas de zinco.
À velocidade de 10-20 km/hora lá se vai percorrendo a estrada cheia de poças de água e de lama que engole os pneus dos veículos. Muitas vezes o estado é tal, que se tem de procurar alternativas. E aquilo que seria uma estrada de seis metros, torna-se facilmente numa estrada de doze metros com diversos sulcos profundos abertos pela passagem dos veículos. Foi numa dessas zonas de grande risco de ficar literalmente enterrados na lama que encontrámos um camião metido na lama. Meia dúzia de homens procuravam modo de o tirar dali. Não ía ser tarefa fácil. A habilidade e o sangue frio do Pe. Joaquim fizeram o Toyota 4×4 chegar ao outro lado do lamaçal. Sentimos um arrepio a que se juntou um alivio profundo.
Um elemento paisagístico que de vez em quando surge no percurso é a “chana”. Trata-se de uma zona baixa, sem árvores onde o capim atinge um metro de altura. Nesta época estão alagadas e formam-se lagos e canais de água onde as pessoas constroiem barragens de madeira para mais facilmente apanharem o peixe. É esse peixe que abrem, limpam e deixam secar ao sol.
Próximo de Dala deixámos a estrada que leva a Saurimo. Saímos à direita, em direcção a Nordeste, tomando a estrada que nos leva ao Luau. Aqui a estrada é estreita e alcatroada. Nas zonas mais baixas o alcatrão desapareceu e armam-se buracos de lama. Durante este percurso encontrámos apenas um jeep. É uma estrada pouco frequentada.
O relógio batia as 12h30. Parámos junto à saída de Sacaluaco para almoçar. Tínhamos feito cerca de 110 km. Ainda faltavam mais de duzentos quilómetros para fazer… A mala térmica escondia o petisco à portuguesa: pão, queijo, sardinha e atum de conserva, sumo e cerveja… Sagres… comprada em Luena. Comemos, esticámos as pernas e retomámos viagem. A estrada, bastante razoável, permitia avançar à média de 80 km/hora. Avançámos uns bons quilómetros… até voltarmos à terra batida, às lombas é à lama…
A paz tem muito benefícios. Um deles é o progresso. Daqui a uns anos esta estrada será uma realidade completamente diferente. De facto, a uma determinada altura, encontramos a estrada em obras: pontos marcados nas laterais, mais à frente o desbaste para o alargamento já feito e por fim a substituição do piso por uma terra mais dura e consistente. Crê-se que em breve venha o alcatrão. É uma grande empresa chinesa que está à frente desta obra.
Umas boas dezenas de quilómetros mais à frente encontramos outra obra em estado bem mais avançado. Esta está a ser executada pela AFA, uma empresa madeirense, propriedade de dois antigos seminaristas do Colégio Missionário. São 130 quilómetros de concessão. Uma parte do percurso está pronto a receber o alcatrão. A outra parte está já alcatroada e é uma excelente pista para altas velocidades, longe do controlo dos radares!!! Os sistemas de drenagem – importantíssimos numa zona onde chove imenso – estão em fase de conclus&atild
e;o. Mais atrasada está a construção de algumas pontes sobre diversos rios. Foi ao passar sobre a ponte improvisada sobre o rio Luembe (a nova ponte está já em fase de conclusão) que tivemos o nosso único azar de viagem: um furo no pneu do nosso jeep. Parámos, forçosamente. Em menos de 10 minutos fez-se a operação de mudança de pneu. Nestas longas e difíceis viagens leva-se sempre dois pneus sobressalentes. O outro lá estava sobre a grade do tejadilho, pronto para o que desse e viesse. Felizmente não foi necessário…
A noite já cai e o Luau estava à nossa frente. O cansaço que tinha tomado conta de nós desapareceu. Entrámos na cidade timidamente iluminada. Podemos perceber que o Luau tem 3 longas e largas avenidas com um jardim ao meio a separar as faixas de rodagem. A casa alugada onde vivem os missionários fica num extremo da cidade. Eram 18h30 quando transpusemos o portão de ferro. Graças a Deus, chegámos bem. O Pe. Jorge e o Bartolomeu (primeiro postulante dehoniano) aguardavam-nos. Os cumprimentos foram acompanhados pelo aperitivo (azeitonas e tremoços) para o jantar que depressa veio para a mesa. Eram horas e a barriga já dava horas! O jantar foi bastante prolongado com conversas agradáveis onde não faltaram as recordações dos velhos tempos e as curiosidades culturais do povo desta região.
Depois do jantar combinámos o horário para o dia seguinte e fomos descansar. Não havia condições para, ao fim do dia, escrever a respectiva crónica…
» Zeferino Policarpo, scj