Em nome do comércio justo

Se 19 de Março é já de si especial, por nos trazer a celebração da Solenidade de São José e do Dia do Pai, o deste ano tornou-se ainda mais marcante para nós, Dehonianos, ao vermos um dos nossos a ser distinguido com o muito prestigiado Prémio Norte-Sul do Conselho da Europa. O Senhor Presidente da Assembleia da República, Doutor Jaime Gama, lembrou na abertura da sessão solene, no Salão Nobre do Parlamento, que este Prémio é atribuído desde 1995, distinguindo todos os anos duas personalidades, habitualmente uma mulher e um homem, que se tenham destacado na defesa dos Direitos Humanos e na promoção da dignidade da Pessoa.
Apresentou o nosso confrade Pe Francisco Van der Hoff como um “camponês doutorado”, numa referência explícita aos vários Doutoramentos e outros títulos académicos e honoríficos que possui. O Conselho da Europa atribuiu este Prémio ao nosso confrade pelo trabalho que tem desenvolvido com e pelos camponeses do Estado mexicano de Oaxaca e toda a sua acção de promoção do comércio justo a nível mundial. Trabalhando ao lado dos mais pobres, simples e humildes, o Pe Francisco Van der Hoff tem procurado promover aquelas populações desfavorecidas, defendendo os seus direitos e dignidade, lutando por uma sociedade mais justa, em que os pobres sejam protagonistas dos seus próprios destinos. Fundou a Associação Max Havelaar e a marca do comércio justo, hoje presentes em 21 países, entre os quais Portugal. O objectivo é colocar directamente no mercado os produtos dos agricultores, cultivados com métodos biológicos e orgânicos, respeitando o equilíbrio ecológico.
No discurso proferido aquando da entrega do Prémio pelo Senhor Presidente da República, Professor Cavaco Silva, o Pe Francisco destacou a necessidade de se promover a defesa da natureza e os direitos dos mais carenciados da Humanidade, e de se alargar o âmbito do comércio justo, lamentando as barreiras que ainda lhe são colocadas, sobretudo no Mundo Ocidental. Mas deixou a esperança de ver esse mercado cada vez mais alargado. Relevou os enormes contrastes existentes na distribuição da riqueza a nível mundial, mostrando a convicção de que o verdadeiro amor só pode assentar em corações pobres, abertos e disponíveis para promover os mais débeis da sociedade. Considerou que a atribuição deste Prémio se deve sobretudo à esperança, à força interior e à união que levou aqueles camponeses a associar-se e a trabalhar por um futuro melhor.
É de toda a justiça fazer referência à outra premiada, a Senhora Mukhtaran Bibi, paquistanesa, que se tem destacado pelo seu trabalho incansável na promoção da dignidade das mulheres e na defesa dos seus direitos. Deixou-nos um impressionante testemunho de coragem e de força de vontade, não se deixando abater pelo sofrimento nem pela deplorável acção de violência de que foi alvo. Tem corrido mundo, a narrar a sua história e a dizer que é necessário “lutar pelos nossos direitos e pelos direitos da próxima geração”. Nesse sentido, tem fundado escolas, onde procura que a próxima geração tenha acesso à educação e à consciencialização dos seus direitos e dignidade.
Ao fim da tarde, o Pe Francisco Van der Hoff juntou-se à nossa comunidade do Seminário de Nossa Senhora de Fátima, tendo connosco celebrado a Missa solene do dia de São José e partilhado da nossa refeição. Acompanharam-no o Superior Provincial da Holanda, Pe Harry Peels e o senhor Lupe, camponês de Oaxaca. Tanto na Missa como no convívio informal após o jantar, o Pe Francisco deixou-nos um testemunho de vida que muito nos entusiasmou e incentivou a prosseguirmos a nossa caminhada na fidelidade ao carisma que nos legou o Pe. Dehon. Obrigado, Pe Francisco Van der Hoff!

| José Agostinho F. Sousa, scj |