#EstamosEmCasa nº 3

Não tenho a pretensão de escrever um tratado, nem dar uma lição de moral. Partilho o que acredito e sinto nestes dias em que a nossa sociedade, privada, mas responsabilizada, vive.

Acompanho ao minuto as notícias que marcam a atualidade no nosso país e no mundo e que entram pelas nossas casas 24h por dia. Muitas com finais felizes, outras com finais menos felizes.

Rezava há dois dias com o Papa Francisco a oração do Pai Nosso e, nas palavras introdutórias, ele recordava-nos que: “Também nós, confiamos nas mãos de Deus”. É esta a confiança que nos deve unir. Temos muitos motivos para acreditar e ter fé! Deus não abandona os seus filhos! Recordamos os 16 Uruguaios que ficaram nos Andes a 3600 metros, durante 72 dias isolados; os 33 mineiros no Chile a 688 metros abaixo de terra, durante 69 dias; os 13 meninos na Tailândia, nas grutas debaixo de água, durante 18 dias. Medo? Frio? Incerteza? Angústia? Solidão? Frustração? Acredito que foram sentimentos que tiveram durante todo o período até serem resgatados. Mas o que os manteve vivos? Escutando nos meios de comunicação as partilhas feitas por aqueles que sentiram na primeira pessoa estes sofrimentos, a palavra de ordem era: Acreditar!

Numa entrevista feita ao Nobel da Química do ano 2013, Michael Levitt, biofísico da Universidade de Stanford, o mesmo partilhava que “é preciso controlar o pânico… nós vamos ficar bem!” Dependerá de cada um nós manter esta serenidade, mesmo quando parece que estamos a remar contra a maré.

Tenho estado em contacto com alguns profissionais de saúde que começam a ficar esgotados e frustrados perante a impotência de conseguir lidar com a morte de um utente. Profissionais privados das suas famílias. Alguns vivem mergulhados na tristeza por nem poderem demonstrar o afeto por aqueles que mais amam, estando unidos apenas por um ecrã que ao mesmo tempo que aproxima os distancia. São estes, hoje, também, o rosto de Deus no nosso Portugal, no nosso mundo. Mesmo que muitos deles possam não acreditar em Deus, nós acreditamos que eles são a prova de que as nossas preces são escutadas pelo Criador. Outro exemplo foi divulgado há quatro dias: o P. Giuseppe Berardelli, da diocese de Bergamo, de 72 anos, abdicou do ventilador que o mantinha vivo para dar vida a um jovem. Aí está Deus! Como vemos, Ele continua a caminhar a nosso lado e a sofrer juntamente com cada um de nós. Não queiramos culpar Deus pela maldade da humanidade. Lutemos pela vida como estes profissionais de saúde fazem nas 24h do dia.

Se há umas semanas estávamos preocupados em falar da vida humana na dignidade, neste momento não temos mãos a medir para salvar todos os que estão ao nosso alcance, independentemente da idade. Porquê? Porque acreditamos que a vida deve ser defendida até ao último suspiro! Confiemos! Acreditemos! Nós vamos ficar bem! E cumpramos as orientações que são dadas pelos nossos governantes.

Caros Cristãos, sei que muitos de vós estais a sofrer pelo facto de estares privados dos sacramentos, mas podeis acreditar que cada um dos nós, padres, estamos a rezar por cada um de vós e por toda a comunidade cristã, mesmo que para nós também nos custe celebrar sem cada um de vós! Sim, custa-nos e também estamos a sofrer!

Mas peço-vos um compromisso: que depois de passarem estes momentos difíceis, vos unais a nós e construamos uma Igreja ainda mais feliz, ainda mais saudável, onde todos se sintam co-responsáveis e agentes pastorais. Que Deus nos ajude a viver na serenidade estes dias, semanas e quiçá meses, vivendo uma Quarentena na Quaresma.

P. Igor André, scj
#dehonianos #scj #estamosemcasa