Semana de Jul 19th
-
16º Domingo do Tempo Comum - Ano A 16º Domingo do Tempo Comum - Ano A
19 de Julho, 2026
Ano A
16º DOMINGO DO TEMPO COMUMTema do 16º Domingo do Tempo Comum
A liturgia do 16º Domingo do Tempo Comum convida-nos a descobrir o Deus paciente e cheio de misericórdia, a quem não interessa a marginalização do pecador, mas a sua integração na comunidade do "Reino"; e convida-nos, sobretudo, a interiorizar essa "lógica" de Deus, deixando que ela marque o olhar que lançamos sobre o mundo e sobre os homens.
A primeira leitura fala-nos de um Deus que, apesar da sua força e omnipotência, é indulgente e misericordioso para com os homens - mesmo quando eles praticam o mal. Agindo dessa forma, Deus convida os seus filhos a serem "humanos", isto é, a terem um coração tão misericordioso e tão indulgente como o coração de Deus.
O Evangelho garante a presença irreversível no mundo do "Reino de Deus". Esse "Reino" não é um clube exclusivo de "bons" e de "santos": nele todos os homens - bons e maus - encontram a possibilidade de crescer, de amadurecer as suas escolhas, de serem tocados pela graça, até ao momento final da opção definitiva.
A segunda leitura sublinha, doutra forma, a bondade e a misericórdia de Deus. Afirma que o Espírito Santo - dom de Deus - vem em auxílio da nossa fragilidade, guiando-nos no caminho para a vida plena.LEITURA I - Sab 12,13.16-19
Leitura do Livro da Sabedoria
Não há Deus, além de Vós,
que tenha cuidado de todas as coisas;
a ninguém tendes de mostrar que não julgais injustamente.
O vosso poder é o princípio da justiça
e o vosso domínio soberano
torna-Vos indulgente para com todos.
Mostrais a vossa força
aos que não acreditam na vossa omnipotência
e confundis a audácia daqueles que a conhecem.
Mas Vós, o Senhor da força, julgais com bondade
e governais-nos com muita indulgência,
porque sempre podeis usar da força quando quiserdes.
Agindo deste modo, ensinastes ao vosso povo
que o justo deve ser humano
e aos vossos filhos destes a esperança feliz
de que, após o pecado, dais lugar ao arrependimento.AMBIENTE
O "Livro da Sabedoria" é o mais recente de todos os livros do Antigo Testamento (aparece durante a primeira metade do séc. I a.C.). O seu autor - um judeu de língua grega, provavelmente nascido e educado na Diáspora (Alexandria?) - exprimindo-se em termos e concepções do mundo helénico, faz o elogio da "sabedoria" israelita, traça o quadro da sorte que espera o justo e o ímpio no mais-além e descreve (com exemplos tirados da história do Êxodo) as sortes diversas que tiveram os pagãos (idólatras) e os hebreus (fiéis a Jahwéh). O seu objectivo é duplo: dirigindo-se aos seus compatriotas judeus (mergulhados no paganismo, na idolatria, na imoralidade), convida-os a redescobrirem a fé dos pais e os valores judaicos; dirigindo-se aos pagãos, convida-os a constatar o absurdo da idolatria e a aderir a Jahwéh, o verdadeiro e único Deus... Para uns e para outros, só Jahwéh garante a verdadeira "sabedoria" e a verdadeira felicidade.
O texto que nos é proposto pertence à terceira parte do livro (cf. Sab 10,1-19,22). Nessa parte, recorrendo, sobretudo, à técnica do midrash, o autor faz a comparação entre os castigos que Deus lançou contra os "ímpios" (os pagãos) e a salvação reservada aos "justos" (o Povo de Deus).
O autor começa por mostrar como a "sabedoria" de Deus se manifestou na história de Israel (cf. Sab 10,1-11,14). Em contraste, vai descrever como é que Deus tratou os egípcios (cf. Sab 11,15-20) e os idólatras cananeus (cf. Sab 12,3-19). O texto que nos é proposto faz parte desta última perícopa.
Os cananeus eram, na perspectiva dos israelitas, uma raça maldita e perversa, que cometiam crimes especialmente hediondos: "praticavam obras detestáveis, ritos ímpios, e eram cruéis assassinos dos seus filhos" (Sab 12,4-5). Deus podia tê-los eliminado rapidamente (cf. Sab 12,9); no entanto, retardou o mais possível o castigo (cf. Sab 12,8), dando-lhes várias oportunidades de se arrependerem e de mudarem de vida (cf. Sab 12,10).MENSAGEM
Nessas circunstâncias, Jahwéh deu provas de extrema moderação e manifestou a sua bondade, a sua misericórdia, a sua justiça. Deus não tinha que provar nada a ninguém, pois ninguém lhe podia pedir contas; se agiu dessa forma equilibrada e moderada, é porque é um Deus justo. A "justiça" não é, no Antigo Testamento, a estrita aplicação da lei; mas é, sobretudo, a fidelidade à própria essência. Ora, a essência de Deus é amor, bondade e misericórdia; por isso, ser justo equivale, para Deus, a revelar amor, benevolência e bondade na sua atitude para com os homens.
O que é mais significativo aqui é que a "justiça de Deus" não se exerce sobre o Povo de Deus, mas sobre um povo "de má estirpe" e de "maldade congénita" (Sab 12,10): é a universalidade da salvação que assim é sugerida.
Por outro lado, o autor vê neste comportamento "justo" de Deus uma lição para Israel. Que é que, desta forma, Deus ensina ao seu Povo?
Ensina, em primeiro lugar, que Deus não quer a morte do pecador, mas sim que ele se converta e viva; por isso, "fecha os olhos" diante do pecado do homem, a fim de o convidar ao arrependimento.
Ensina, em segundo lugar, que "o justo deve ser amigo dos homens" (Sab 12,19): se a lógica de Deus é uma lógica de perdão e de misericórdia, o Povo de Deus deve adoptar a mesma lógica e assumir atitudes de bondade, de amor, de misericórdia, de tolerância, nas suas relações comunitárias. Mais: a bondade e a compreensão não devem ser reservadas para aqueles que são bons, mas também para aqueles que fazem insistentemente o mal.ACTUALIZAÇÃO
Para a reflexão e actualização da Palavra, podem tomar-se as seguintes indicações:
• O nosso texto apresenta-nos um Deus tolerante e justo, em quem a bondade e a misericórdia se sobrepõem à vontade de castigar. Ele não quer a destruição do pecador, mas a sua conversão; Ele ama todos os homens que criou, mesmo aqueles que praticam acções erradas. Ora, todos nós conhecemos bem este quadro de Deus, pois ele aparece-nos a par e passo na Palavra revelada... Mas já o interiorizámos suficientemente?
• Interiorizar esta "fotografia" de Deus significa "empapar-nos" da lógica do amor e da misericórdia e deixar que ela transpareça em gestos para com os nossos irmãos. Isso acontece realmente? Qual a nossa atitude para com aqueles que nos fizeram mal, ou cujos comportament
os nos desafiam e incomodam? Faz sentido catalogar os homens em bons e maus e defendermos uma justiça implacável para com aqueles que praticam acções erradas?• Muitas vezes, percebemos certos males que nos incomodam como "castigos" de Deus pelo nosso mau proceder. No entanto, este texto deixa claro que Deus não está interessado em castigar os pecadores... Quando muito, procura fazer-nos perceber, com a pedagogia de um pai cheio de amor, o sem sentido de certas opções e o mal que nos fazem certos caminhos que escolhemos.
SALMO RESPONSORIAL - Salmo 85 (86)
Refrão: Senhor, sois um Deus clemente e compassivo.
Vós, Senhor, sois bom e indulgente,
cheio de misericórdia para com todos os que Vos invocam.
Ouvi, Senhor, a minha oração,
atendei a voz da minha súplica.Todos os povos que criastes virão adorar-vos, Senhor,
e glorificar o vosso nome,
porque Vós sois grande e operais maravilhas,
Vós sois o único Deus.Senhor, sois um Deus bondoso e compassivo,
paciente e cheio de misericórdia e fidelidade.
Voltai para mim os vossos olhos
e tende piedade de mim.LEITURA II - Rom 8,26-27
Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos:
O Espírito Santo vem em auxilio da nossa fraqueza,
porque não sabemos que pedir nas nossas orações;
mas o próprio Espírito intercede por nós
com gemidos inefáveis.
E Aquele que vê no íntimo dos corações
conhece as aspirações do Espírito,
sabe que Ele intercede pelos santos
em conformidade com Deus.AMBIENTE
Há já alguns domingos que Paulo nos vem propondo uma catequese sobre o caminho a seguir para poder acolher a salvação que Deus oferece. A salvação é um dom de Deus, dom gratuito que é fruto da bondade e do amor de Deus (cf. Rom 3,21-5,11). Essa salvação chega-nos através de Jesus Cristo (cf. Rom 5,12-8,39); e actua em nós pelo Espírito que Jesus derrama sobre aqueles que aderem ao seu projecto e entram na sua comunidade (cf. Rom 8,1-39) - a comunidade do Reino.
No passado domingo, Paulo convidava os crentes a decidirem-se pela vida "segundo o Espírito". Dizia-nos que essa opção terá uma dimensão cósmica e que ajudará a vencer os desequilíbrios e desarmonias que destroem a criação de Deus. Trata-se, no entanto, segundo Paulo, de um caminho difícil, que exige padecimentos, renúncias, purificações, renovação da vida.
Como é que o cristão pode fazer essa opção? Como é que ele percebe, claramente, qual é o caminho? Donde recebe ele a força para viver "segundo o Espírito"?MENSAGEM
É Deus que nos dá a força de viver "segundo o Espírito". No entanto, devemos continuamente pedir a Deus, nosso Pai, essa graça.
Na verdade, nem sempre sabemos o que devemos pedir, pois nem sempre conseguimos discernir entre a vida "segundo a carne" e a vida "segundo o Espírito". No entanto, o próprio Espírito Santo "vem em auxílio da nossa fraqueza" (vers. 26a). O que é que Ele faz? Como é que Paulo entende a intervenção do Espírito a este propósito?
O texto não é explícito. Segundo uma interpretação, nós temos dificuldade em articular devidamente os nossos desejos e necessidades e é o Espírito que se encarrega de formulá-los em nosso lugar. Segundo outra interpretação, o Espírito junta a sua intercessão "inefável" aos nossos gemidos, fazendo com que a nossa oração chegue até Deus.
Num e noutro caso, o Espírito faz de mediador eficaz no nosso diálogo com Deus. Ele é nosso "intérprete" e intercessor, elevando-nos ao Deus que conhece o coração. E esta oração (que o Espírito dirige em nosso lugar, ou que o Espírito "apoia") é sempre acolhida por Deus, pois está em conformidade com os planos e os projectos de Deus (vers. 27).ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, considerar as seguintes linhas:
• Antes de mais, há neste texto um convite implícito a tomarmos consciência do amor que Deus nos dedica e da sua preocupação com a nossa salvação, com a nossa realização plena. Não somos minúsculos grãos de areia abandonados ao sabor das tempestades cósmicas num universo sem fim; somos filhos amados de Deus, a quem Ele não desiste de indicar, todos os dias, os caminhos da felicidade e da vida definitiva. Nos momentos de crise, de derrota, de falência, é preciso conservar os olhos postos nesta certeza: Deus ama-nos; por isso, oferece-nos, de forma gratuita e incondicional, a salvação.
• O Espírito de Deus, vivo e actuante na história do mundo e na vida de cada homem ou mulher é a "prova provada" do amor de Deus por nós. O Espírito oferece-nos cada dia a vida de Deus, leva-nos ao encontro de Deus, faz com que a nossa voz chegue ao coração de Deus. É preciso, no entanto, disponibilidade para o acolher e atenção aos sinais através dos quais Ele nos conduz ao encontro de Deus. Acolher o Espírito é sair do egoísmo, do orgulho, da auto-suficiência e procurar descobrir, com humildade e simplicidade, os caminhos de Deus, os desafios de Deus.
• O ritmo da vida moderna é estonteante... As exigências profissionais, os problemas familiares, o inferno do trânsito, a necessidade de ganhar a vida atiram-nos de corrida em corrida, sempre ocupados, sempre cansados, sempre carregados de stress, prisioneiros de uma máquina que nos desumaniza e que não nos deixa centrar a nossa atenção no essencial, reequacionar os nossos valores e prioridades. É preciso, no entanto, encontrar tempo e espaço para reflectir, para redefinir o sentido da nossa existência, para perceber se estamos a conduzir a nossa vida "segundo a carne" ou "segundo o Espírito".
• O verdadeiro crente é o que vive em comunhão com Deus. Não prescinde desses momentos de diálogo, de partilha, de escuta, de louvor a que chamamos oração. É nesse diálogo intenso, verdadeiro, diário que o crente, através do Espírito, intui a lógica de Deus, a sua verdade, o projecto que Ele tem para cada homem e para o mundo. Esforço-me por encontrar espaço para o diálogo com Deus e para fortalecer a minha intimidade com Ele?
ALELUIA - cf. Mt 11,25
Aleluia. Aleluia.
Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque revelastes aos pequeninos os mistérios do reino.EVANGELHO - Mt 13,24-43
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
Jesus disse às multidões mais esta parábola:
"O reino dos Céus pode comparar
-se a um homem
que semeou boa semente no seu campo.
Enquanto todos dormiam, veio o inimigo,
semeou joio no meio do trigo e foi-se embora.
Quando o trigo cresceu e deu fruto,
apareceu também o joio.
Os servos do dono da casa foram dizer-lhe:
'Senhor, não semeaste boa semente no teu campo?
Donde vem então o joio?
Ele respondeu-lhes: 'Foi um inimigo que fez isso'.
Disseram-lhe os servos:
'Queres que vamos arrancar o joio?'
'Não! - disse ele –
não suceda que, ao arrancardes o joio,
arranqueis também o trigo.
Deixai-os crescer ambos até à ceifa
e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros:
Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar;
e ao trigo, recolhei-o no meu celeiro'".Jesus disse-lhes outra parábola:
"O reino dos Céus pode comparar-se a um grão de mostarda
que um homem tomou e semeou no seu campo.
Sendo a menor de todas as sementes,
depois de crescer, é a maior de todas as hortaliças
e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos".
Disse-lhes outra parábola:
"O reino dos Céus pode comparar-se ao fermento
que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha,
até ficar tudo levedado".
Tudo isto disse Jesus em parábolas,
e sem parábolas nada lhes dizia,
a fim de se cumprir o que fora anunciado pelo profeta,
que disse: "Abrirei a minha boca em parábolas,
proclamarei verdades ocultas desde a criação do mundo".Jesus deixou então as multidões e foi para casa.
Os discípulos aproximaram-se d'Ele e disseram-Lhe:
"Explica-nos a parábola do joio no campo".
Jesus respondeu:
"Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem
e o campo é o mundo.
A boa semente são os filhos do reino,
o joio são os filhos do Maligno
e o inimigo que o semeou é o Demónio.
A ceifa é o fim do mundo
e os ceifeiros são os Anjos.
Como o joio é apanhado e queimado no fogo,
assim será no fim do mundo:
o Filho do homem enviará os seus Anjos,
que tirarão do seu reino todos os escandalosos
e todos os que praticam a iniquidade,
e hão-de lançá-los na fornalha ardente;
aí haverá choro e ranger de dentes.
Então, os justos brilharão como o sol
no reino do seu Pai.
Quem tem ouvidos, oiça".AMBIENTE
Continuamos em contacto com as "parábolas do Reino". O Evangelho deste domingo apresenta-nos mais um bloco de três imagens ou comparações ("parábolas") que pretendem revelar aos discípulos e às multidões que rodeiam Jesus, a realidade do "Reino".
Já vimos, no passado domingo, porque é que Jesus pregava por "parábolas": porque a linguagem parabólica é uma linguagem rica, expressiva, questionante; porque a "parábola" é uma excelente arma de controvérsia, muito útil em contextos polémicos; porque a "parábola" faz as pessoas pensar e incita-as à procura da verdade. Por tudo isto, as "parábolas" são uma linguagem privilegiada para apresentar o Reino, para incitar as pessoas a descobrir o Reino e para as levar a aderir ao Reino.
Das três parábolas que nos são hoje propostas, duas (o grão de mostarda e o fermento) procedem da tradição sinóptica; a outra (a parábola do trigo e do joio) só aparece em Mateus (além de aparecer também numa antiga colecção de "ditos" de Jesus, conhecida como "Evangelho de Tomé").
Também desta vez percebe-se - tanto nas parábolas, como nas explicações que as acompanham - a preocupação "pastoral" de Mateus: ele não é um jornalista a transcrever o que Jesus disse; mas é um "pastor" que procura exortar, animar, ensinar e fortalecer a fé dessa comunidade cristã a que o Evangelho se dirige.MENSAGEM
A primeira parábola que nos é proposta é a parábola do trigo e do joio (vers. 24-30). Trata-se de um quadro da vida quotidiana: há um "senhor" que semeia boa semente no seu campo, um "inimigo" que semeia o joio (nome de uma erva gramínea que nasce entre o trigo e o danifica) e "servos" dedicados, preocupados com o futuro da colheita. Tudo parece normal; o anormal é a reacção do "senhor" à "crise": dá ordens para que deixem crescer trigo e joio lado a lado e que só na altura da ceifa seja feita a selecção do bom e do mal, do que é para queimar e do que é para guardar nos celeiros.
A parábola deve ser entendida no contexto do ministério de Jesus. Ele conviveu com os pecadores, com os marginais, com os que levavam vidas moralmente condenáveis. Sentou-se à mesa com gente desclassificada, deixou-se tocar por pecadoras públicas, convidou um publicano a integrar o seu grupo de discípulos... Com esse comportamento "escandaloso", Ele quis dizer a todos esses que a religião oficial excluía, que Deus os amava e que os convidava a fazer parte da sua família, a integrar a comunidade da salvação, a serem membros de pleno direito da comunidade do "Reino".
Os fariseus consideravam inaceitável a atitude de Jesus. Para eles, quem não cumpria a Lei tinha de ser excluído do Povo santo de Deus e não tinha o direito de fazer parte do "campo" de Deus. A "lógica" dos fariseus condiz com a "lógica" de Deus?
Nesta parábola, Jesus pretende dar-nos uma lição sobre a "lógica" de Deus. Sugere que a "lógica" de Deus não é uma "lógica" de destruição, de segregação, de exclusão, mas é uma "lógica" de amor, de misericórdia, de tolerância. O Deus de Jesus Cristo é um Deus paciente e misericordioso, lento para a ira e rico de misericórdia, que dá sempre ao homem todas as oportunidades para refazer a existência e para integrar plenamente a comunidade do "Reino". Ele tem um plano de salvação e de graça que oferece gratuitamente a todos os homens, bons e maus; depois, no tempo oportuno, ver-se-á quem são os maus e quem são os bons. De resto, não é muito fácil separar o bom e o mau, porque as duas realidades coexistem em todos os "campos", em todos os corações.
O "senhor" da parábola é esse Deus paciente, que dá ao homem todas as oportunidades, que não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva.
Os "servos" com excesso de zelo são os crentes (que trabalham no campo do "senhor") rígidos e intolerantes, incapazes de olhar o mundo e o coração dos homens com a bondade, a serenidade e a paciência de Deus.
O "campo" é o mundo e a história, onde coexistem
o trigo (os sinais de esperança, de vida, de amor que tornam este mundo mais belo e mais feliz) e o joio (os sinais de morte, responsáveis pelo sofrimento, pela opressão, pela escravidão). É também o coração de cada homem e de cada mulher, capaz de opções de vida e capazes de opções de morte.
Jesus garante: os métodos de Deus não passam pelo castigo imediato, pela intolerância face às opções dos homens, pela incompreensão dos erros dos seus filhos; os métodos de Deus passam por deixar os homens crescer em liberdade, integrando a comunidade dos filhos de Deus.
Nos vers. 36-43, temos a aplicação que Mateus faz da parábola do trigo e do joio à vida da sua comunidade.
Nesta "explicação", o eixo central da parábola original passa a ser outro. A problema já não é se na "lógica" de Deus o trigo e o joio podem crescer juntos, mas é a questão do "juízo" que espera bons e maus: Mateus insiste que, no "dia da colheita" (imagem que, nos profetas, se identifica com o dia do "juízo de Deus" sobre os homens e o mundo), os bons receberão a recompensa e os maus receberão o castigo.
Estamos nos finais do séc. I (década de 80). Já passou o entusiasmo dos primeiros anos; a vida das comunidades cristãs é marcada pela monotonia, pela falta de entusiasmo e empenho, pela mediocridade, pelo laxismo. Os cristãos aburguesaram-se e nem sempre vivem de forma empenhada e comprometida a sua fé. Como despertar de novo nos crentes o entusiasmo inicial?
Mateus vai usar os métodos dos pregadores do seu tempo... Recorrendo à linguagem e aos símbolos da apocalíptica, Mateus lembra aos cristãos da sua comunidade o juízo futuro de Deus. Os símbolos utilizados (o joio queimado no fogo, a fornalha ardente, o choro e o ranger de dentes) destinam-se a impressionar os crentes, a obrigá-los a inflectir os seus esquemas de vida e a voltar à fidelidade ao Evangelho. Portanto, não temos aqui uma descrição de como será o "fim do mundo"; o que temos aqui é um convite urgente e emocionado à conversão, ao aprofundamento do compromisso com Jesus e com o Evangelho.
O Evangelho deste domingo propõe-nos ainda duas outras parábolas: a parábola do grão de mostarda (vers. 31-32) e a parábola do fermento (vers. 33). São duas parábolas muito semelhantes, quer quanto ao conteúdo, quer quanto à forma.
Numa e noutra, o quadro é o mesmo: sublinha-se a desproporção entre o início e o resultado final. O grão de mostarda é uma semente muito pequena, que no entanto pode dar origem a um arbusto de razoáveis dimensões; o fermento apresenta um aspecto perfeitamente insignificante, mas tem a capacidade de fermentar uma grande quantidade de massa. Estas duas comparações servem para apresentar o dinamismo do "Reino". O "Reino" anunciado por Jesus compara-se ao grão de mostarda e ao fermento: parece algo insignificante, que tem inícios muito modestos e humildes, mas contém potencialidades para encher o mundo, para o transformar e renovar. Trata-se de um dinamismo de vida nova que começa como uma pequena semente lançada à terra numa província obscura e insignificante do império romano, mas que vai lançar as suas raízes, invadir história dos homens e potenciar o aparecimento de um mundo novo.
Com estas parábolas, Jesus responde às objecções daqueles que não acreditavam que da mensagem de um carpinteiro de Nazaré, pudesse surgir uma proposta de vida, capaz de fermentar o mundo e a história. Ele garante-nos que o "Reino" é uma realidade irreversível, que veio para ficar e para transformar o mundo. Escutar estas parábolas é receber uma injecção de ânimo e de esperança, capaz de levar a um compromisso mais sério e mais exigente com o "Reino".ACTUALIZAÇÃO
A reflexão pode fazer-se a partir dos seguintes dados:
• O Evangelho deste domingo garante-nos, antes de mais, que o "Reino" é uma realidade irreversível, que está em processo de crescimento no mundo. É verdade que é difícil perceber essa semente a crescer ou esse fermento a levedar a massa, quando vemos multiplicarem-se as violências, as injustiças, as prepotências, as escravidões... É difícil acreditar que o "Reino" está em processo de construção, quando o materialismo, a futilidade, o comodismo, a procura da facilidade, o efémero sobressaem, de forma tão marcada, na vida de grande parte dos homens e das mulheres do nosso tempo... A Palavra de Deus convida-nos, contudo, a não perder a confiança e a esperança. Apesar das aparências, o dinamismo do "Reino" está presente, minando positivamente a história e a vida dos homens.
• Na verdade, falar do "Reino" não significa falarmos de um "condomínio fechado", ao qual só tem acesso um grupo privilegiado constituído pelos "bons", pelos "puros", pelos perfeitos", e de onde está ausente o mal, o egoísmo e o pecado... Falar do "Reino" é falar de uma realidade em processo de construção, onde cada homem e cada mulher têm o direito de crescer ao seu ritmo, de fazer as suas escolhas, de acolher ou não o dom de Deus, até à opção final e definitiva. É falarmos de uma realidade onde o amor de Deus, vivo e actuante, vai introduzindo no coração do homem um dinamismo de conversão, de transformação, de renascimento, de vida nova.
• Neste Evangelho temos também uma lição muito sugestiva sobre a atitude de Deus face ao mal e aos que fazem o mal. Na parábola do trigo e do joio, Jesus garante-nos que os esquemas de Deus não prevêem a destruição do pecador, a segregação dos maus, a exclusão dos culpados. O Deus de Jesus Cristo é um Deus de amor e de misericórdia, sem pressa para castigar, que dá ao homem "todo o tempo do mundo" para crescer, para descobrir o dom de Deus e para fazer as suas escolhas. Não percamos nunca de vista a "paciência" de Deus para com os pecadores: talvez evitemos ter de carregar sentimentos de culpa que oprimem e amarguram a nossa breve caminhada nesta terra.
• A "paciência de Deus" com o joio convida-nos também a rejeitarmos as atitudes de rigidez, de intolerância, de incompreensão, de vingança, nas nossas relações com os nossos irmãos. O "senhor" da parábola não aceita a intolerância, a impaciência, o radicalismo dos "servos" que pretendem "cortar o mal pela raiz" e arrancar o mal (correndo o risco de serem injustos, de se enganarem e de meterem mal e bem no mesmo saco). Às vezes, somos demasiados ligeiros em julgar e condenar, como se as coisas fossem claras e tudo fosse, sem discussão, claro ou escuro... A Palavra de Deus convida-nos a moderar a nossa dureza, a nossa intolerância, a nossa intransigência e a contemplar os irmãos (com as suas falhas, defeitos, diferenças, comportamentos religiosa ou socialmente incorrectos) com os olhos benevolentes, compreensivos e pacientes de Deus.
• Convém termos sempre presente o seguinte: não há o mal quimicamente puro de um lado e o bem quimicamente puro do outro... Mal e bem misturam-se no mundo, na vida e no coração de cada um de nós. Dividir as nações em boas (as que têm uma política que serve os nossos interesses) e más (as que têm uma política que lesa os nossos interesses), os grupos sociais em bons (os que defendem valores com os quais concordamos) e maus (os que defendem valores que não são os nossos), os indivíduos em bons (os amigos, aqueles que nos apoiam e que estão sempre de acordo connosco) e maus (aqueles que nos fazem frente, que nos dizem verdades que são difíceis de escutar, que não concordam connosco)... é uma atitude simplista, que nos leva frequentemente a assumir atitudes injustas, que geram exclusão, marginalização, sofrimento e morte. Mais uma vez: saibamos olhar para o mundo, para os grupos, para as pessoas sem preconceitos, com a mesma bondade, compreensão e tolerância que Deus manifesta face a cada homem e a cada mulher, independentemente das suas escolhas e do seu ritmo de caminhada.
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 16º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 16º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo... Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa... Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.2. DE UM DOMINGO A OUTRO.
Se temos mantido a sugestão de unidade com o domingo precedente, é conveniente fazer uma alusão a isso no início da celebração. A decoração floral da igreja, embora simples, pode aproveitar símbolos presentes no Evangelho de hoje: espigas de trigo, grão, ervas daninhas... Tal simbolismo pode ajudar a dar sentido à Boa Nova de Jesus Cristo.3. UMA SEGUNDA LEITURA MUITO BREVE.
É, sem dúvida, a mais breve das segundas leituras do leccionário que nos é proposta neste domingo: apenas algumas linhas. Por essa razão, é conveniente proclamá-la lentamente, com algumas pausas entre as frases. O silêncio ajudar-nos-á a acolher a voz do Espírito e a vontade de Deus...4. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.No final da primeira leitura:
Pai, nós Te louvamos com as palavras que confiaste aos teus profetas e que lemos nas nossas assembleias: nós Te damos graças porque cuidas de cada um de nós, és paciente e sempre pronto a ajudar-nos.
Nós Te pedimos: torna-nos atentos à tua presença, que o teu Espírito nos torne curiosos de Ti, receptivos e cheios de admiração por tudo aquilo que és.No final da segunda leitura:
Ó Deus, que vês o fundo dos corações, nós Te bendizemos pelo teu Espírito, que é a tua presença em nós, o teu sopro de vida em nós.
Nós Te recomendamos todas as nossas assembleias de oração, nas nossas igrejas e nas nossas casas: que o teu Espírito venha em socorro da nossa fraqueza e nos inspire as palavras para Te cantar, Te louvar e Te rezar.No final do Evangelho:
Bendito sejas, ó Pai, pelo Reino dos céus, que manifestas no meio de nós e em nós. Ele é o bom grão que semeaste para renovar a nossa terra, ele é a semente que cresce e o fermente que age.
Nós Te pedimos: que o teu Espírito nos torne pacientes. Diante do mal, mantém-nos confiantes na presença e na força do teu Reino.5. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher uma das Orações Eucarísticas para Assembleias com Crianças, que recordam em termos simples a obra de Cristo.6. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Sem alternativa! O bom grão semeado no nosso campo era promessa de uma boa ceifa. Mas eis que o joio veio poluir a seara. Que tipo de compromissos aceitamos na nossa vida? Deus é paciente! Mas se temos ouvidos, é urgente escutar o seu apelo à conversão. É urgente escolher o nosso campo: o do Senhor ou o do Maligno. Não há alternativa!UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 - 1800-129 LISBOA - Portugal
Tel. 218540900 - Fax: 218540909
portugal@dehonianos.org - www.dehonianos.org -
XVI Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares XVI Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares
20 de Julho, 2026
Tempo Comum - Anos Pares
XVI Semana - Segunda-feiraLectio
Primeira leitura: Miqueias 6, 1-4. 6-8
1Ouvi o que diz o Senhor: «Levanta-te! Advoga a tua causa diante das montanhas, e ouçam as colinas a tua voz! 2Ouvi, ó montanhas, o processo do Senhor, prestai atenção, fundamentos da terra! Porque o Senhor entrou em litígio com o seu povo, e vai litigar com Israel: 3'Povo meu, que te fiz, ou em que te contristei? Responde-me. 4Tirei-te da terra do Egipto, livrei-te da casa da escravidão e enviei, diante de ti, Moisés, Aarão e Míriam. 6Com que me apresentarei ao Senhor, e me prostrarei diante do Deus excelso? Irei à sua presença com holocaustos, com novilhos de um ano? 7Porventura o Senhor receberá com agrado milhares de carneiros ou miríades de torrentes de azeite? Hei-de sacrificar-lhe o meu primogénito pelo meu crime, o fruto das minhas entranhas pelo meu próprio pecado? 8Já te foi revelado, ó homem, o que é bom, o que o Senhor requer de ti: nada mais do que praticares a justiça, amares a lealdade e andares humildemente diante do teu Deus.
Este oráculo de Miqueias é um significativo exemplo do género literário chamado requisitório judicial, muito usado quando se pretendia fazer justiça. Invocavam-se as divindades como principais testemunhas e também a própria natureza. Javé, «em litígio com o seu povo» (v. 2), não pode arrolar como testemunhas outros deuses, mas arrola toda a criação.
A acusação de Javé contra Israel tem o tom de uma lamentação cheia de ternura. Israel é o povo de Deus, escolhido e constituído como tal (cf. Dt 32, 6), guiado para a liberdade, ligado a Deus por uma aliança eterna. E tudo apenas porque Deus o ama (cf. Dt 7, 7s.). Mas Israel tornou-se um povo infiel. E é disso que Deus o acusa, recordando-lhe as origens e tudo o que fez por ele. Deus espera que o seu povo tome consciência da própria identidade e a manifeste com uma vida coerente.
Israel reconhece o seu pecado e dispõe-se a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para aplacar a indignação divina: numerosos sacrifícios cruentos de animais valiosos, abundantes sacrifícios incruentos e, até, a imolação de primogénitos, usada entre os cananeus, mas que a Lei lhes proibia.
O profeta intervém para reafirmar a vontade de Deus, tantas vezes manifestada pelos profetas. Miqueias sintetiza em três pontos as exigências da vontade divina: justiça social, amor (cf. Ex 20, 12-17; Dt 5, 16-21), submissão obediente e dócil a Deus, vivendo permanentemente na sua "companhia". O orgulho e a arrogância afastam de Deus e separam do próximo. O amor e a humildade restauram a comunhão com Deus e com os irmãos.Evangelho: Mateus 12, 38-42
Naquele tempo, 38 intervieram, então, alguns doutores da Lei e fariseus, que lhe disseram: «Mestre, queremos ver um sinal feito por ti.» 39Ele respondeu-lhes: «Geração má e adúltera! Reclama um sinal, mas não lhe será dado outro sinal, a não ser o do profeta Jonas. 40Assim como Jonas esteve no ventre do monstro marinho, três dias e três noites, assim o Filho do Homem estará no seio da terra, três dias e três noites. 41No dia do juízo, os habitantes de Nínive hão-de levantar-se contra esta geração para a condenar, porque fizeram penitência quando ouviram a pregação de Jonas. Ora, aqui está quem é maior do que Jonas! 42No dia do juízo, a rainha do Sul há-de levantar-se contra esta geração para a condenar, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. Ora, aqui está alguém que é maior do que Salomão!»
A atitude dos doutores da lei e dos fariseus representa aquilo a que se poderia chamar "racionalismo religioso". É a atitude daqueles que, para crerem, exigem acontecimentos sensacionais extraordinários. Jesus indigna-se com essa posição. Ele e a sua palavra são "o sinal" a acolher por aqueles que querem conhecer os mistérios do reino de Deus (cf. Mt 11, 25-27). Por isso, em Marcos, recusa outros sinais (cf. 8, 11). Em Mateus faz o mesmo, ao lembrar o sinal Jonas. Os ninivitas pagãos souberam reconhecer em Jonas um sinal de Deus e converteram-se. Os doutores da lei e os fariseus nem o sinal da morte e da ressurreição do Filho do homem haviam de reconhecer. É que um sinal de Deus só se compreende a partir da fé! E a fé não resulta de uma evidência, de um cálculo lógico, mas da disponibilidade para acolher o dom de Deus, que é o próprio Jesus. Os doutores da lei e os fariseus não tinham essa disponibilidade. Como poderiam compreender o sinal de Jesus morto e ressuscitado? A rainha do Sul fez uma longa viagem para ouvir Salomão (1 Rs 10). Mas eles recusavam-se a escutar Jesus, que é muito mais do que Salomão, porque é a sabedoria e a Palavra de Deus em pessoa, o sinal definitivo de Deus para o mundo.
Meditatio
Na primeira leitura, Deus move um processo contra Israel. Arrola como testemunha a Natureza, que assistiu espantada às maravilhosas intervenções com que tirou o seu povo do Egipto e o conduziu à terra da liberdade. Começa por um requisitório com as perguntas que a Igreja agora utiliza na liturgia de sexta-feira santa: «Povo meu, que te fiz, ou em que te contristei? Responde-me. Tirei-te da terra do Egipto, livrei-te da casa da escravidão e enviei, diante de ti, Moisés, Aarão e Míriam» (vv. 3-4). O povo mostra-se surdo às lamentações amorosas de Deus, e permanece na ingratidão. Mas, de repente, mostra-se disposto à conversão e até a uma exagerada generosidade: «Com que me apresentarei ao Senhor, e me prostrarei diante do Deus excelso? Irei à sua presença com holocaustos, com novilhos de um ano? Porventura o Senhor receberá com agrado milhares de carneiros ou miríades de torrentes de azeite? Hei-de sacrificar-lhe o meu primogénito pelo meu crime, o fruto das minhas entranhas pelo meu próprio pecado?» (vv. 6-7). Contudo, Deus não quer do homem ofertas mirabolantes. Apenas quer as que já lhe foram indicadas: «nada mais do que praticares a justiça, amares a lealdade e andares humildemente diante do teu Deus» (v. 8). O "extraordinário", que Deus pretende de nós, é que caminhemos com Ele na simplicidade, abrindo-nos aos seus dons e às suas inspirações.
Quantas vezes, também nós, como os doutores da lei e os escribas, exigimos de Deus sinais extraordinários, como se Ele estivesse pronto a satisfazer mecanicamente os nossos caprichos. Mas, o que Deus quer é estabelecer connosco uma relação pessoal na liberdade e na responsabilidade. Quer ajudar-nos a crescer e deseja-nos adultos no espírito. Não pretende que queimemos etapas, mas que nos preocupemos em amadurecer na fé e na relação com Ele. Há, pois, que resistir à tentação de querer «ver» e tocar» para crer. Quanta gente anda, ainda hoje, atrás de magias e superstições, na tentativa de «ver» e tocar» o invisível e intocável, gast
ando tempo e dinheiro!
Interroguemo-nos sobre a nossa fé. A atitude que temos perante os irmãos, e na vivência do culto, revela o que vai no nosso coração. Deus, em Jesus, fez-se nosso companheiro de viagem. Abramos com simplicidade e humildade os olhos da fé para O reconhecermos!
As nossas Constituições apontam a relação pessoal com Cristo como o centro da nossa experiência de fé (Cst 9). Essa relação permite-nos, como ao Pe. Dehon, estar atentos e perceber os sinais da presença do Senhor no meio de nós (Cst 28), bem como aos «sinais dos tempos», para vivermos a nossa vocação respondendo adequadamente às necessidades da Igreja e do mundo.Oratio
Quão ridículo sou, Senhor, quando pretendo novas provas da tua amorosa presença na minha vida, e na vida do mundo, e acabo por não aceitar aquelas que, tão generosamente, me ofereces. Perdoa a minha pretensiosa arrogância, nunca satisfeita com os teus dons. Perdoa as minhas tentativas de Te olhar de cima para baixo, como se eu fosse grande e Tu, pequeno. Sei que nunca Te espantas nem cansas comigo. Tomaste mesmo a iniciativa de Te fazer pequeno, para me ensinares que é percorrendo o caminho da humildade, da confiança e do amor, que me tornarei verdadeiramente humano, e reconhecerei filho do Pai, capaz de ver os sinais da sua amorosa presença no mundo. Por isso, ó Senhor, Te quero louvar e bendizer, hoje e sempre. Amen.
Contemplatio
O pecado é um ultraje feito ao nosso Deus, ao nosso Criador, ao nosso Salvador, que não merece senão adoração e amor. É o non serviam (não servirei) de Satanás que nós repetimos todos os dias. É a revolta de um súbdito contra o rei dos reis ao qual tudo deve. É o ultraje de um amigo ao seu amigo, de um filho ao seu pai, e de que amigos se trata aqui? De que filhos? De que pai? É um desprezo de Deus, da sua lei, das suas proibições, das suas justiças e da sua bondade.
Desprezamos o nosso Deus, que tanto nos amou, para escutarmos Satanás. Renovamos os desprezos com que os judeus oprimiram Nosso Senhor em Jerusalém, os seus desdenhos, os seus levantar de ombros. Gritamos como eles: não queremos Jesus, mas Barrabás!
O pecado é a mais negra ingratidão. Escutamos o nosso Deus, o qual nos diz pelos profetas Isaías e Miqueias: «Meu povo, que te fiz eu? Em que te contristei para que me trates assim? - Eduquei os meus filhos com bondade, cresceram sob a minha mão, e depois desprezaram-me. - Plantei-te com cuidado, ó minha vinha bem-amada, tu eras uma planta de eleição e eis que te transformaste numa cepa selvagem». (Leão Dehon, OSP 3, p. 113s.).Actio
Repete frequentemente e vive hoje a palavra
«Aqui está alguém que é maior do que Salomão!» (Mt 12, 42).| Fernando Fonseca, scj |
-
XVI Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares XVI Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares
21 de Julho, 2026
Tempo Comum - Anos Pares
XVI Semana - Terça-feiraLectio
Primeira leitura: Miqueias 7, 14-15. 18-20
14Apascenta com o cajado o teu povo, o rebanho da tua herança, os que habitam isolados nas florestas no meio dos prados. Sejam eles apascentados em Basan e Guilead, como nos dias antigos. 15Mostra-nos os teus prodígios, como nos dias em que nos tiraste do Egipto. 18Qual é o Deus que, como Tu, apaga a iniquidade e perdoa o pecado do resto da sua herança? Não se obstina na sua cólera, porque prefere a bondade. 19Uma vez mais, terá compaixão de nós, apagará as nossas iniquidades e lançará os nossos pecados ao fundo do mar. 20Mostrarás a tua fidelidade a Jacob, e a tua bondade a Abraão, como juraste a nossos pais, desde os tempos antigos.
Miqueias viveu e pregou no século VIII a. C. O texto que concluiu o seu livro, segundo o parecer dos exegetas, é do período pós-exílico. O povo voltou a Canaã, mas a realidade é bem diferente da que fora anunciada pelos profetas, e lhe mantivera viva a esperança durante o exílio em Babilónia. Ao regressar, Israel reencontra as inimizades ancentrais, quer internas quer externas. Os povos vizinhos ocupavam as melhores terras, e Israel tem que contentar-se com zonas menos férteis e de mais difícil acesso. Então, volta-se para Javé, pastor de Israel, para que conduza o seu rebanho a melhores pastagens, como fizera outrora, quando o conduziu da escravidão do Egipto para a liberdade da Terra prometida, no meio de sinais e prodígios. A evocação das "maravilhas de Deus" durante o êxodo, reconduz ao evento da aliança, que fez Israel conhecer o amor de Deus, mas também tomar consciência da sua própria identidade como povo de Deus. Era o que o povo mais precisava naquele momento difícil.
A oração salmódica, que constitui este texto, termina louvando a misericórdia de Deus que perdoa as culpas (v. 18), porque é «lento para a ira e rico de misericórdia» (Ex 34, 6), não busca o castigo para os homens, mas a sua conversão, a fim de os cumular dos seus dons. Por essa razão, a oração torna-se explícita: «Mostrarás a tua fidelidade a Jacob, e a tua bondade a Abraão, como juraste a nossos pais, desde os tempos antigos» (v. 20).Evangelho: Mateus 12, 46-50
Naquele tempo, 46estava Ele ainda a falar à multidão, quando apareceram sua mãe e seus irmãos, que, do lado de fora, procuravam falar-lhe. 47Disse-lhe alguém: «A tua mãe e os teus irmãos estão lá fora e querem falar-te.» 48Jesus respondeu ao que lhe falara: «Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?» 49E, indicando com a mão os discípulos, acrescentou: «Aí estão minha mãe e meus irmãos; 50pois, todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe.»
Marcos informa que os familiares de Jesus não acreditavam nele. Até pensavam que tinha enlouquecido. Por isso, tentavam levá-lo para casa (Mc 3, 21). Mateus achou essas informações demasiado escandalosas para os seus leitores e, em vez delas, oferece-nos um tema que tem paralelo em Marcos (3, 31-35).
Jesus está a falar à multidão, quando chegam os seus familiares e manifestam vontade de falar com Ele. Jesus, ao levantar a questão sobre quem são os seus parentes, declara que essa condição não é fruto da carne e do sangue, mas da escuta e actuação da sua palavra. Os fariseus e os escribas, que não acreditam n´Ele, fecham-se na busca de um sinal, sem se darem conta de que estavam diante da própria realidade, superior a qualquer sinal (cf. Mt 12, 38-42). Os discípulos, que escutam a sua palavra, abrem-se à comunhão com Ele, superior à que decorre dos laços de consanguinidade.
Jesus é a Palavra. Quem a acolhe, torna-se, n´Ele, filho do Pai. O verdadeiro filho faz a vontade do Pai, tal como a fez Jesus, ao deixar-se enviar ao mundo (cf. Jo 6, 8). Com estas palavras, Jesus realça a grandeza de Maria, sua Mãe, que o gerou, segundo a carne, fazendo-se discípula, acolhendo a vontade do Pai: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38).Meditatio
Na primeira leitura, um grupo de exilados, que regressou cheio de esperanças a Canaã, mas que se deparou com muitas dificuldades, continua a olhar o futuro com esperança, porque confia em Deus. Por isso, dirige-lhe uma ardente prece: «Apascenta com o cajado o teu povo, o rebanho da tua herança, os que habitam isolados nas florestas no meio dos prados... Mostra-nos os teus prodígios, como nos dias em que nos tiraste do Egipto» (vv. 14-15). Um povo atribulado procura refazer a sua vida e a sua história pela oração humilde e confiante. Deseja os territórios férteis do Carmelo, de Basan e de Guilead, mas sabe que não dispõe de forças para os ocupar. Então, volta-se para Deus. Não fizera Ele maravilhas quando tirou Israel do Egipto? Não exigia o novo êxodo prodígios semelhantes? É certo que Israel pecara e sofria as consequências do seu pecado. Mas Javé é Aquele Deus que «perdoa o pecado e absolve a culpa», pela sua misericórdia e fidelidade.
A misericórdia e a fidelidade de Deus, que os regressados de Babilónia invocavam, manifestou-se plenamente em Jesus Cristo, morto e ressuscitado. Na Cruz, o Senhor matou a morte e o mal, redimindo-nos e possibilitando-nos uma vida nova e feliz, na comunhão com Deus e com os irmãos. É essa a grande maravilha realizada por Deus: fazer-nos seus «familiares», participantes da sua vida divina. Talvez estejamos muito habituados a estas verdades, e elas já não nos impressionem, nem delas tiremos as devidas consequências. Portamo-nos como crianças mimadas, que se julgam credoras de tudo o que os pais lhes dão, e só sabem fazer novas exigências. Deus é, na verdade, fiel, e oferece-nos sempre o seu amor, o seu perdão. E nós, como nos relacionamos com Ele? Jesus diz-nos que entra em comunhão com Ele quem faz a sua vontade. Interessa-nos a vontade de Jesus, que é também a vontade do Pai? Que fazemos para procurá-la? A vontade de Deus nem sempre coincide com o nosso ponto de vista, com os nossos sentimentos. Deus manifesta-nos a sua vontade, antes de mais, pela sua Palavra. Em Jesus, disse-nos tudo o que queria dizer-nos. Conhecemos a Sagrada Escritura? Como procuramos conhecer, cada vez mais, essa «carta de Deus aos homens»? Conhecer implica «fazer». Vivemos em coerência com a Palavra escutada?
Não é suficiente escutar a Palavra, é preciso guardá-la e pô-la em prática, como fez a Virgem Maria: «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a Tua palavra» (Lc 1, 38). «Sede daqueles que põem em prática a palavra - exorta Tiago - e não apenas ouvintes, enganando-vos a vós mesmos» (1, 22). «Escutar», em sentido bíblico, é «compreender», «acolher» na vida, «ir a Jesus»; é «acreditar», «guarda
r no coração»; é «obedecer» e «fazer». A verdadeira «escuta da Palavra» realiza-se quando se ama, não por palavras, mas «com obras e em verdade» (1 Jo 3, 18).
Encontramos esta «escuta da Palavra» no Pe. Dehon, desde seminarista, como testemunham os dois primeiros cadernos do seu "Diário". Quase todos os conteúdos das suas notas têm raiz na Escritura. As citações são tomadas sem qualquer diferença tanto do Antigo como do Novo Testamento.Oratio
Senhor, o teu gesto e a tua palavra, no evangelho de hoje, impressionam-me vivamente. Com uma expressão paradoxal, sem negares a tua família carnal, ou menosprezares a tua Mãe, ensinas-me que a verdadeira união Contigo se realiza, não pelos laços do sangue, mas pela adesão à vontade do Pai. Assim, fico a saber que a vontade do Pai é um tesouro inestimável. Mas, quantas vezes, me encontro afastado e mesmo em contradição com ela! Queria uma vida diferente, sem lutas, sem sofrimentos; queria ser diferente do que sou fisicamente, psicologicamente, espiritualmente... Faz-me compreender que a vontade do Pai é o melhor para mim e ajuda-me a cumpri-la fielmente, em todas as situações, cada dia da minha vida. Amen.
Contemplatio
A Sagrada Família refaz a longa rota do deserto. Jesus tinha seis anos desta vez, percorre a pé estas longas jornadas da rota, e sabemos como o deserto é fatigante.
Depois chegou para Maria e José a prova da dúvida e da incerteza. O anjo tinha dito: «Regressai à terra de Israel». Mas o país de Israel é vasto. Devia fixar-se em Belém onde a família tinha ainda alguns contactos, onde as recordações do nascimento de Jesus teriam um encanto particular? Deviam escolher Jerusalém onde parecia que deviam desenrolar-se os acontecimentos relativos ao Messias? Compete a S. José, chefe da família, tomar uma decisão. Que responsabilidade! Deus apraz-se muitas vezes a deixar assim as almas tomarem uma decisão por elas mesmas, segundo as circunstâncias. Foi assim que os Magos, em Jerusalém, perderam a estrela e tiveram de consultar Herodes e os escribas.
José estava em angústia. Em Heliópolis, tinha ignorado os acontecimentos políticos, mas ao aproximar-se de Jerusalém, é informado que foi Arquelau, filho de Herodes, quem sucedeu ao seu pai. Não se dão os mesmos perigos para a vida de Jesus que há seis anos? A atenção de Arquelau pode ser atraída para este menino, que tinha fugido e que agora regressava. Que fazer? S. José reza. Deus não o deixará na dúvida. Inclina-se a retirar-se para a Galileia, onde a pequena casa de Nazaré os espera, e o anjo vem confirmá-lo na sua resolução. Assim os Magos reencontraram a estrela, depois que fizeram o possível para a suprirem. Rezemos, e Deus nunca nos deixará ignorar a sua vontade (Leão Dehon, OSP 3, p. 141s.).Actio
Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Quem fizer a vontade de meu Pai, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe»
(Mt 12, 50).| Fernando Fonseca, scj |
-
S. Maria Madalena S. Maria Madalena
22 de Julho, 2026Maria, presumivelmente nascida em Magdala, pequena povoação nas margens do lago de Tiberíade, é uma das mulheres que seguiram e serviram o Senhor durante a sua vida pública (cf. Mt 20, 55s.). Diz-se que, libertada por Jesus da opressão dos demónios, O seguiu fielmente até aos pés da cruz. Quando, no primeiro dia da semana, foi ao túmulo de Jesus, e o encontrou vazio, permaneceu junto dele a chorar e a perguntar pelo seu Mestre. Encontrou-O quando O ouviu chamar pelo seu nome: "Maria!". E tornou-se a primeira testemunha da Ressurreição, levando a Boa Notícia aos próprios Apóstolos.
Lectio
Primeira leitura: Cântico dos Cânticos 3, 1-4ª
Eis o que diz a esposa: No meu leito, toda a noite, procurei aquele que o meu coração ama; procurei-o e não o encontrei. 2Vou levantar-me e dar voltas pela cidade: pelas praças e pelas ruas, procurarei aquele que o meu coração ama.Procurei-o e não o encontrei.3Encontraram-me os guardas que fazem ronda pela cidade: «Vistes aquele que o meu coração ama?» 4Mal me apartei deles, logo encontrei aquele que o meu coração ama.
O livro do Cântico dos Cânticos, não só consagra o amor entre o homem e a mulher, mas é, sobretudo, a expressão simbólica do amor de Deus pelo seu povo. Também aquele e aquela que têm sede de Deus experimentam longas noites de silêncio, de incompreensível ausência, que lhes purificam os desejos, por vezes bastante redutivos. E, então, reacende-se o desejo de Deus, mais ardente, mais desinteressado, mais vital. É preciso perseverar na ânsia de encontrar a Deus, pedir ajuda e conselho a quem possa ajudar a encontrá-lo, sabendo que Ele é maior do que os nossos desejos e do que aqueles que nos ajudam a procurá-lo. Se não desistirmos de O procurar, Ele aparecerá quando e onde menos O esperarmos.
Evangelho: João 20, 1.11-18
No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã, ainda escuro, e viu retirada a pedra que o tapava. 11E ficou junto ao túmulo, da parte de fora, a chorar. Sem parar de chorar, debruçou-se para dentro do túmulo, 12e contemplou dois anjos vestidos de branco, sentados onde tinha estado o corpo de Jesus, um à cabeceira e o outro aos pés. 13Perguntaram-lhe: «Mulher, porque choras?» E ela respondeu: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram.» 14Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus, de pé, mas não se dava conta que era Ele. 15E Jesus disse-lhe: «Mulher, porque choras? Quem procuras?» Ela, pensando que era o encarregado do horto, disse-lhe: «Senhor, se foste tu que o tiraste, diz-me onde o puseste, que eu vou buscá-lo.» 16Disse-lhe Jesus: «Maria!» Ela, aproximando-se, exclamou em hebraico: «Rabbuni!» - que quer dizer: «Mestre!» 17Jesus disse-lhe: «Não me detenhas, pois ainda não subi para o Pai; mas vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: 'Subo para o meu Pai, que é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso Deus.'» 18Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: «Vi o Senhor!» E contou o que Ele lhe tinha dito.
Maria de Magdala, com o seu ardente amor por Jesus, permanece fiel mesmo depois da tragédia do Calvário. Procura-o obstinadamente, e nem o sepulcro vazio a fazem desanimar. Esta mulher é símbolo da Igreja/Esposa, e de toda a alma que procura a Cristo, sabendo que não tem para Lhe oferecer senão lágrimas de amor. O Senhor Ressuscitado e Glorioso deixa-se encontrar por quem assim O procura. Mas só O reconheceremos quando Ele nos chamar pelo nome e nos der a perceber que nos conhece mais a fundo do que pensamos. O encontro encher-nos-á de alegria e far-nos-á viver uma vida nova transfigurada pelo Senhor.
Meditatio
Maria Madalena é, para nós, modelo de amor ardente, fiel, reverente, um amor que não sabe e não quer estar longe d´Aquele que ama e que O procura mesmo depois da morte.
Há diversos tipos de investigação, de procura. A investigação científica, a investigação literária, a procura do sucesso. E todas dão algum sentido à vida. Mas a investigação mais adequada ao homem, mais digna dele é a procura de Deus por amor. Tal procura faz o homem sair de si mesmo em direção ao outro, ao amado, a Cristo, Deus feito homem. "Procurei-o e não o encontrei", diz a esposa dos Cantares. E teve que sair de casa e da cidade para o encontrar. Maria Madalena poderia dizer o mesmo, pois nem sequer encontrou o corpo do seu Senhor. Mas não desistiu de O encontrar, como, tantas vezes, fazemos nós, nos momentos de desolação. Ficou junto ao túmulo, a chorar, a fazer perguntas... E encontrou-O! Encontrou-O quando, Ele mesmo, se deu a conhecer, chamando-a pelo nome: "Maria!". Então, abriram-se-lhe os olhos da mente e do coração: "Rabuni!", exclamou. Os nossos esforços são precisos. Mas não são suficientes para encontrar Jesus. A fé é um dom, uma graça. Há que procurar persistentemente, tenazmente, na oração. Mais tarde ou mais cedo o Senhor revela-nos a sua grandeza e poderemos gritar: "Vi o Senhor!" e dar testemunho do Ressuscitado, como Madalena, os Apóstolos e tantos irmãos ao longo da história, e ainda nos nossos dias. Quem conheceu a longa noite da espera e do desejo tornou-se, muitas vezes, testemunha ardorosa e eficaz da Ressurreição do Senhor.
Oratio
Santa Maria Madalena, derramando lágrimas, e procurando Jesus, acabaste por encontrá-lo. Bebeste na fonte da misericórdia, e foste saciada. Tornaste-te a primeira testemunha da Ressurreição, e a evangelizadora dos próprios Apóstolos. Hoje, dirijo-me a ti, confiando na tua poderosa intercessão junto do Senhor Jesus. Também eu sou pecador. Também eu procuro o meu Senhor, no meio de muitas trevas. Alcança-me a graça da compunção, a graça da humildade, e o desejo da pátria celeste. Que lave os meus pecados nas lágrimas do arrependimento e seja saciado do amor e da misericórdia que brotam do Lado aberto e do Coração trespassado do meu Senhor. Ámen.
Contemplatio
Jesus pede o amor puro, o amor desinteressado. Quer que aceitemos a aridez, se ela se apresenta, e que mesmo procurando-o, saibamos prescindir da doçura da sua presença. Procuremos Jesus com um amor desvelado, como Madalena, com um amor verdadeiramente dedicado, com o desejo de lhe oferecer o perfume do nosso afeto e da nossa compaixão. Não podemos estar sempre junto de Jesus na oração, saibamos também servi-lo na pessoa dos seus irmãos. Jesus diz a Madalena: «Vai ter com os meus irmãos para lhes participares a minha ressurreição». Vamos ter com os seus irmãos para lhes sermos piedosamente úteis, edificando-os, falando-lhes d'Ele, realizando junto deles algum ato de apostolado. Procuremos Jesus fielmente e de todo nunca o abandonemos, nem por temor, nem por desânimo, nem por causa da nossa vida passada, nem por causa das tentações e das perseguições. Com que ardor Madalena procura o seu bem amado! Ela é a primeira junto do sepulcro no dia de Páscoa. Lá está antes do nascer do dia. Corre a informar-se junto de S. Pedro e de S. João. Volta, mantém-se lá à espera, chora. Dirige-se àquele que ela julga ser o jardineiro, e é Jesus mesmo que a recompensa com o seu afeto tão terno. Mas diz-lhe o «Não me toques!», para lhe recordar que o nosso amor deve ser absolutamente puro, sobrenatural e desinteressado. (Leão Dehon, OSP 4, p. 82s.).
Actio
Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
"Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura" (2 Cor 5, 17)
----
S. Maria Madalena (22 Julho)
XVI Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares XVI Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares
22 de Julho, 2026
Tempo Comum - Anos Pares
XVI Semana - Quarta-feiraLectio
Primeira leitura: Jeremias 1, 1.4-10
1Palavras de Jeremias, filho de Hilquias, um dos sacerdotes que viviam em Anatot, terra de Benjamim: 4A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 5«Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta das nações.» 6E eu respondi: «Ah! Senhor Deus, eu não sei falar, pois ainda sou um jovem.» 7Mas o Senhor replicou-me: «Não digas: 'Sou um jovem'. Pois irás aonde Eu te enviar e dirás tudo o que Eu te mandar. 8Não terás medo diante deles pois Eu estou contigo para te livrar» - oráculo do Senhor. 9Em seguida, o Senhor estendeu a sua mão, tocou-me nos lábios e disse-me: «Eis que ponho as minhas palavras na tua boca; 10a partir de hoje, dou-te poder sobre os povos e sobre os reinos, para arrancares e demolires, para arruinares e destruíres, para edificares e plantares.»
Começamos, hoje, a escutar as «palavras de Jeremias» (v. 1), hebraísmo que indica, não só o que o profeta disse, mas também o que fez e os acontecimentos da sua vida. Jeremias pertencia a uma família sacerdotal. Nasceu em Anatot, cidade levítica da montanha, pertencente à tribo de Benjamim, como Jerusalém. Exerce o seu ministério num período particularmente difícil, e mesmo dramático, que vai desde a tentativa de reforma de Josias até à tomada de Jerusalém (cerca de 526-587 a. C.).
Hoje escutamos o relato da sua vocação. Jeremias tem cerca de 20 anos. Sabe-se conhecedor de Deus e conhecido por Ele. Esse conhecimento, segundo a cultura hebraica passa pelo coração. Trata-se, pois, de um conhecimento amoroso, que faz dele um consagrado, isto é, alguém separado de tudo o resto e exclusivamente dedicado a Deus e ao seu serviço. Jeremias sente-se concretamente chamado a ser profeta entre as nações. Dá-se conta de que, para isso, fora chamado e destinado, ainda antes de ser formado no seio de sua mãe. Mas Jeremias é um homem tímido, e treme perante a revelação que Deus lhe faz. Não quer ser diferente dos outros homens. Sente-se como uma criança ainda incapaz de falar. «Eu estou contigo para te livrar» (v. 8), diz-lhe o Senhor. Diante do imperativo divino, Jeremias rende-se. De lábios purificados pela «mão» do Senhor, ainda que a tremer, atacou corajosamente a idolatria, a perversão dos costumes. Que grande luta interior! De um lado, as exigências da fé; de outro lado, a fragilidade humana. Em luta idêntica, mas infinitamente maior, até Cristo suou sangue!Evangelho: Mateus 13, 1-9
1Naquele dia, Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar. 2Reuniu-se a Ele uma tão grande multidão, que teve de subir para um barco, onde se sentou, enquanto toda a multidão se conservava na praia. 3Jesus falou-lhes de muitas coisas em parábolas: «O semeador saiu para semear. 4Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho: e vieram as aves e comeram-nas. 5Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra: e logo brotaram, porque a terra era pouco profunda; 6mas, logo que o sol se ergueu, foram queimadas e, como não tinham raízes, secaram. 7Outras caíram entre espinhos: e os espinhos cresceram e sufocaram-nas. 8Outras caíram em terra boa e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; e outras, trinta. 9Aquele que tiver ouvidos, oiça»
Mateus apresenta-nos, no capítulo 13 do seu evangelho, sete parábolas sobre o mistério do reino de Deus. A liturgia propõe-nos, hoje, a primeira. Jesus centra a atenção dos seus ouvintes numa imagem bem conhecida, revelando algo de Si mesmo em relação à Palavra que veio anunciar. Tal como o semeador espalha a semente, sem a preocupação de a poupar, assim Jesus proclama a palavra do Pai a todos, sem distinções nem reservas. É a palavra de vida. E Ele foi enviado pelo Pai para que todos «tenham vida e a tenham em abundância» (Jo 10, 10). Mas, tal como a sorte da semente depende do terreno onde cai, assim a Palavra produz fruto conforme o coração que a recebe. Era essa a experiência de Jesus, que já vira agudizar-se a crise entre Ele, por um lado, e os fariseus e os escribas por outro (cf. Mt 12, 1-14.22-32).
A parábola tem uma conclusão surpreendente, que é a sua mensagem central: o terreno fértil dá uma colheita extraordinariamente abundante, para além de qualquer razoável expectativa. De igual modo, a palavra proclamada por Jesus, apesar de não suscitar o interesse esperado, e até de sofrer oposição, terá uma fecundidade maravilhosa, que só entende quem tem fé, quem reconhece no evangelho de Jesus a vontade do Pai, e está pronto a acolhê-la e a pô-la em prática (cf. Mt 12, 50).Meditatio
A palavra é importante. Através dela, tomamos consciência de ser pessoas humanas, comunicamos o que pensamos e sentimos, recebemos a comunicação dos outros, contactamos com o património cultural do passado, conhecemos mundos muito afastados dos nossos... Mas a Palavra de Deus é ainda mais importante! Sem essa semente, não há vida, porque falta a comunicação com Deus, única fonte de toda a realidade.
Para comunicar com os homens, Deus envia os profetas, por Ele escolhidos e chamados, para transmitirem a sua Palavra. Foi o que aconteceu com Jeremias: «Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta das nações» (v. 5). É uma tarefa superior às forças humanas. Apesar das promessas divinas, o profeta procura esquivar-se: «Ah! Senhor Deus, eu não sei falar, pois ainda sou um jovem» (v. 6). Mas Deus não aceita a desculpa: «Não digas: 'Sou um jovem'... Não terás medo, pois Eu estou contigo» (vv. 6-7). Deus estará efectivamente com Jeremias. O profeta sofrerá muito, porque as palavras que Deus «lhe põe na boca» (cf. v. 9) o irão tornar malvisto pelo povo. Acabará mártir. Mas a sua vida não será um fracasso: depois da morte, a figura de Jeremias será engrandecida cada vez mais; os seus ensinamentos serão lidos, meditados e comentados...
Jeremias viveu para a missão, guiado pela força irresistível da Palavra de Deus «para arrancar e demolir, para arruinar e destruir, para edificar e plantar» (v. 10).
O evangelho fala-nos da generosidade com que Deus lança à terra, aos nossos corações, a semente da Palavra. Essa Palavra tal como a chuva e a neve, é eficaz (cf Is 55, 10). Todavia, o homem pode contrariar essa eficácia, quando não acolhe a Palavra, ou a acolhe sem as devidas disposições. Mas, quando um coração bem disposto a recebe, produz muito fruto: «Outras (sementes) caíram em terra boa e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; e outras, trinta» (v. 8).
O Pe. Dehon espera dos seus religiosos que sejam no mundo «profetas do amor e servidores da reconciliação
dos homens... em Cristo» (Cst 7). Tal missão só se realiza dando ao mundo Cristo, Palavra de Deus, que antes é preciso escutar e acolher no coração: «Nós conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem» (1 Jo 4,16) (Cst 9). Nunca foi fácil ser profeta, como bem ilustra o caso de Jeremias. Nem hoje é fácil. Quantos bispos, sacerdotes, religiosos, leigos, são assassinados, todos os anos, no exercício da sua missão! Só a confiança, o abandono, a disponibilidade de uma vida totalmente oferecida a Deus permitem ser profetas, também hoje.Oratio
Senhor Jesus, hoje, quero pedir-Te que o poder da tua Palavra actue na minha vida, me faça morrer e me faça viver: me faça morrer ao meu egoísmo, ao medo de realizar a dimensão profética do meu baptismo, à timidez em anunciar a Palavra que és Tu; me faça viver cada vez mais para Ti e, Contigo, para o Pai e para os irmãos. Faz-me profeta do teu amor e servidor da reconciliação que, na tua morte e ressurreição, realizaste e ofereceste a todos os homens. Faz-me acreditar na força do teu Espírito. Abre os meus ouvidos e o meu coração à tua Palavra, para que me deixe guiar por ela, a única «que pode salvar a nossa vida». Amen.
Contemplatio
Jesus leva com grande dor esta cruz: bajulans sibi crucem. Ela é pesada, esta cruz, mais do que o comportam as forças de um homem, e Jesus já está esgotado pela sua agonia no jardim das Oliveiras, por todas as impressões desta noite, na qual foi traído, julgado, abandonado, pelo jejum, pela flagelação, a coroação de espinhos e os maus tratos de todo o género. A cruz repousa sobre as suas chagas, abertas sobre os seus ombros pela flagelação. E tudo isto ainda não seria nada, se a cruz não representasse para Ele o peso de todos os nossos pecados, cuja carga Ele assumiu.
É um suplício ignominioso. Jesus é assemelhado aos mais vis culpados, aos escravos criminosos. Está colocado entre dois malfeitores, ladrões e assassinos. Atravessa toda a cidade que O escarnece e despreza. Um arauto público precede-O e anuncia a sua condenação. Era o costume. Os fariseus e os sacerdotes seguem-n'O triunfantes. A multidão é imensa, pois é o tempo das festas da páscoa. Tantos que O aclamavam dias antes, desacreditam-n´O hoje.
Jesus pode aplicar a si as palavras de Jeremias: «Vós que passais no caminho, vede se é possível imaginar-se dor semelhante à minha!» (Lam 1, 12). (Leão Dehon, OSP 4, p. 284s.).Actio
Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Consagrei-te e constituí-te profeta das nações» (Jr 1, 5).| Fernando Fonseca, scj |
-
S. Brígida, Religiosa, Padroeira da Europa S. Brígida, Religiosa, Padroeira da Europa
23 de Julho, 2026Santa Brígida nasceu na Suécia em 1303. Casou muito jovem e teve oito filhos. Já membro da Ordem terceira de S. Francisco, depois da morte do marido, iniciou uma vida de grande austeridade e penitência, continuando a viver na família. Acabou por fundar uma Ordem Religiosa e, partindo para Roma, foi para todos exemplo de grande virtude. Fez diversas peregrinações e escreveu muitas obras em que narra as suas experiências místicas. Morreu em Roma em 1373. É a santa mais famosa dos países escandinavos. Com S. Catarina de Sena e S. Teresa Benedita da Cruz, é padroeira da Europa.
Lectio
Primeira leitura: Gálatas 2, 19-20
Irmãos: Eu pela Lei morri para a Lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo. 20Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim.
Paulo diz, "pela Lei morri para a Lei, a fim de viver para Deus" (v. 19). Ele era um daqueles judeus que afirmavam que a aceitação da Lei produzia por si mesma (ex opere operato) a vinculação a Deus. Ao converter-se, morreu para essa conceção pelagiana do religioso: considerar que, nas relações do homem com Deus, é o homem que tem a iniciativa. Pelo contrário, a vida religiosa está, por assim dizer, acima do "eu": "Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim." (v. 20). Não se trata de nenhuma substituição. Paulo não está a fazer antropologia, mas a expor a sua experiência religiosa. Se a presença de Deus no homem fosse o resultado de um esforço puramente humano, "a graça de Deus" seria como que "inútil". A fé é sempre um dom gratuito. Não há mecanismo catequético ou evangelizador que, por si só, produza a graça nos crentes. A "graça" é mesmo gratuidade de Deus. Compete-nos "apenas" acolhê-la e corresponder-lhe.
Evangelho: João 15, 1-8
Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos: "Eu sou a videira verdadeira e o meu Pai é o agricultor. 2Ele corta todo o ramo que não dá fruto em mim e poda o que dá fruto, para que dê mais fruto ainda. 3Vós já estais purificados pela palavra que vos tenho anunciado. 4Permanecei em mim, que Eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em mim. 5Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanece em mim e Eu nele, esse dá muito fruto, pois, sem mim, nada podeis fazer. 6Se alguém não permanece em mim, é lançado fora, como um ramo, e seca. Esses são apanhados e lançados ao fogo, e ardem. 7Se permanecerdes em mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes, e assim vos acontecerá. 8Nisto se manifesta a glória do meu Pai: em que deis muito fruto e vos comporteis como meus discípulos."
A alegoria da videira e dos ramos garante-nos que a promessa da presença de Jesus no meio de nós está cumprida. Há que "permanecer" n´Ele para produzir os frutos que Deus espera de nós, ou melhor, permitir ao Espírito, a "seiva" divina, que produza em nós os seus frutos. Por nós mesmos, não podemos produzi-los. A obra de Jesus, que culminou na sua morte, "limpou-nos". No nosso texto é a Palavra que aparece como meio de purificação. Esta Palavra é a comunicação de Jesus aos seus discípulos através da sua vida, da sua morte, da sua pessoa. Há que permanecer n´Ele.
Meditatio
Santa Brígida deixou-se purificar pela Palavra. Na capela do SS. Sacramento, na Basílica de S. Paulo, em Roma, há uma estátua de mármore da santa em atitude de quem escuta a voz de Jesus Cristo, que lhe fala da cruz. Aos pés da estátua há uma legenda que diz: "Com o ouvido atento recebe as palavras do seu Deus Crucificado; recebe o Verbo de Deus no seu coração". Efetivamente, uma caraterística de S. Brígida foi a sua intimidade constante com Jesus, a sua familiaridade, as suas íntimas comunicações, e a sua docilidade infantil. O que mais nos espanta nela é a união extraordinária da vida interior e exterior. É uma santa mística que vivia no céu e também uma santa peregrina, em constante movimento de fundações e visitas a santuários.
Casada com o príncipe Merício, descendente dos reis da Suécia, levou, com o marido, uma vida feliz, no cumprimento fiel dos seus deveres de esposos e de pais. Deus, todavia, tinha um outro projeto de vida para ela. O marido morreu muito mais cedo do que ambos imaginavam. Então, Brígida repartiu equitativamente os bens pelos filhos e consagrou-se inteiramente a Deus, numa vida austera de oração e penitência. Em 1349, Brígida seguiu para Roma com uma filha, a futura S. Catarina da Suécia. Praticou uma vida de grande pobreza, chegando a pedir esmolas. A quem a repreendia, por causa da sua condição nobre, respondeu: "Como Jesus se abaixou sem pedir o vosso consentimento, porque não havia eu de prescindir dele quando me esforço por imitá-lo?".
Uns dez anos antes de morrer, fundou a ordem de S. Salvador, que ainda hoje existe em diversos países. Depois de peregrinar à Terra Santa, com a filha Catarina e outros dois filhos, regressou a Roma, onde faleceu a 23 de Julho de 1373. Da peregrinação à Terra Santa, dizia: "Foram os mais belos quinze meses da minha vida". Foi na Terra Santa que "se cumpriu o mistério da nossa redenção e donde a Palavra de Deus se difundiu até aos confins do mundo... As pedras sobre as quais caminhou o nosso Redentor permanecem para nós carregadas de recordações e continuam a "gritar" a Boa Nova". É uma espécie de "quinto evangelho". (Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Dei, 89). Como tantos outros cristãos, ao longo dos séculos, S. Brígida, fez essa experiência, no século XIV.Oratio
"Bendito sejais, meu Senhor Jesus Cristo, que, para nossa salvação, permitistes que o vosso Lado e o vosso Coração fossem trespassados pela lança e fizestes brotar abundantemente do vosso peito sangue e água para nossa redenção... Honra sempiterna vos seja dada, meu Senhor Jesus Cristo, que ao terceiro dia ressuscitastes dos mortos e Vos manifestastes vivo àqueles que escolhestes... Louvor e glória eterna a Vós, Senhor Jesus Cristo, que enviastes o Espírito Santo aos corações dos discípulos e comunicastes às almas o vosso imenso amor. Louvor e glória eterna a Vós, Senhor Jesus Cristo". Ámen. (S. Brígida).
Contemplatio
Permaneçamos unidos à videira. O agricultor corta da videira os ramos mortos e aqueles que não dão frutos. Limpa os sarmentos que dão frutos, para que produzam ainda mais. «É assim que fará o Pai celeste, diz-nos Nosso Senhor: todo o ramo que não der fruto em mim, cortá-lo-á; atirá-lo-á para longe de mim, será privado da seiva que é a graça e cairá na morte espiritual. Mas os que prometem fruto, podá-los-á, purificá-los-á através de alguma prova e curá-los-á das suas inclinações depravadas, para que deem ainda mais frutos». «Quanto a vós, dizia ainda Nosso Senhor, estais todos podados e purificados pelas instruções que vos dei; mas para que esta purificação se conserve e complete, para que a vossa fecundidade em obras de salvação se desenvolva, uni-vos sempre mais intimamente a mim, permanecei em mim e eu, por minha parte, permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na vinha, se não está aderente à cepa donde tira a seiva vivificante, assim não podeis produzir nada, se não permanecerdes em mim». Sim, Senhor, quero permanecer em vós. Sinto que é a condição da vida, da fecundidade e da felicidade. Quero permanecer em vós pela fidelidade da minha recordação, da minha ternura e da minha dedicação, pela conformidade dos meus pensamentos aos vossos pensamentos, dos meus sentimentos aos vossos sentimentos, das minhas alegrias às vossas alegrias, das minhas tristezas às vossas tristezas, do meu querer à vossa vontade. Só quero ter convosco uma existência, um fim, uma felicidade: a glória de Deus, o reino do Sagrado Coração e a salvação das almas. (Leão Dehon, OSP 3, p. 457s.).
Actio
Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
"Permanecei em mim, que Eu permaneço em vós" (Jo 15, 4).----
S. Brígida, Religiosa, Padroeira da Europa (23 Julho)XVI Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares XVI Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares
23 de Julho, 2026
Tempo Comum - Anos Pares
XVI Semana - Quinta-feiraLectio
Primeira leitura: Jeremias 2, 1-3. 7-8. 12-13
1A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 2«Vai e grita aos ouvidos de Jerusalém, dizendo: Assim fala o Senhor: 'Recordo-me da tua fidelidade no tempo da tua juventude, dos amores do tempo do teu noivado, quando me seguias no deserto, na terra em que não se semeia. 3Israel era, então, propriedade sagrada do Senhor, primícias da sua colheita. Todos os que ousavam comer dela, pagavam, e sobrevinha-lhes a desgraça' - oráculo do Senhor. 7Introduziu-vos numa terra fértil, para comerdes os seus saborosos frutos. Mas, tendo entrado, profanastes a minha terra e fizestes abominável a minha herança. 8Os sacerdotes não se interrogaram: «Onde está o Senhor?» Os doutores da Lei não me reconheceram, os pastores revoltaram-se contra mim, e os profetas profetizaram em nome de Baal e seguiram deuses inúteis. 12Pasmai, ó céus, acerca disto! Tremei de espanto e de horror! - oráculo do Senhor. 13Porque o meu povo cometeu um duplo crime: abandonou-me, a mim, nascente de águas vivas, e construiu cisternas para si, cisternas rotas, que não podem reter as águas.»
Em sintonia com a reforma deuteronomista iniciada por Josias, e no estilo dos profetas anteriores, especialmente Oseias, Jeremias pronuncia o seu primeiro oráculo. Chamado a ser profeta entre as nações, começa por Jerusalém, coração de todo o mal. Exprime-se usando o género literário da Aliança e da sua ruptura, vigente no direito internacional do tempo. Convoca o acusado e testemunhas, faz uma revisão histórica dos favores, do elenco das obrigações e pronuncia um ultimatum ou declaração de guerra. Pela boca do profeta, Deus coloca Israel perante as suas responsabilidades e pede-lhe contas pela sua infidelidade à Aliança. Deus recorda-se do tempo do êxodo e da estadia no deserto, tempo idílico de comunhão, quando o povo respondia com docilidade e obediência ao seu amor absoluto (v. 2). Por seu lado, Deus sempre tutelou Israel, sua propriedade (v. 3), e, fiel à promessa, conduziu-o à terra rica e fértil de Canaã (v. 7ª.).
Mas Israel, posto em segurança, abandonou a Deus e profanou, com o seu pecado, a terra santa que habita. Os primeiros a atraiçoar a Aliança, virando-se para os ídolos, foram os chefes e guias do povo, isto é, os reis, os sacerdotes e os profetas. Por isso, a criação inteira é chamada a testemunhar o absurdo de um povo que, tendo feito uma experiência tão íntima e profunda da vida de amor e de comunhão com Deus, se voltou para os ídolos. Era como abandonar uma fonte de água viva, para ir beber em cisternas rotas.Evangelho: Mateus 13, 10-17
Naquele tempo, 10aproximando-se de Jesus, os discípulos disseram-lhe: «Porque lhes falas em parábolas?» 11Respondendo, disse-lhes:«A vós é dado conhecer os mistérios do Reino do Céu, mas a eles não lhes é dado. 12Pois, àquele que tem, ser-lhe-á dado e terá em abundância; mas àquele que não tem, mesmo o que tem lhe será tirado. 13É por isso que lhes falo em parábolas: pois vêem, sem ver, e ouvem, sem ouvir nem compreender. 14Cumpre-se neles a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis; e, vendo, vereis, mas não percebereis. 15Porque o coração deste povo tornou-se duro, e duros também os seus ouvidos; fecharam os olhos, não fossem ver com os olhos, ouvir com os ouvidos, compreender com o coração, e converter-se, para Eu os curar. 16Quanto a vós, ditosos os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem. 17Em verdade vos digo: Muitos profetas e justos desejaram ver o que estais a ver, e não viram, e ouvir o que estais a ouvir, e não ouviram.»
Que pretendia Jesus, ao servir-se de parábolas que os seus ouvintes não podiam entender? Esta questão preocupava os cristãos das primeiras comunidades, que sentiam a necessidade de explicar e interpretar essa forma de anúncio inacessível de modo imediato e, por outro lado, enfrentavam a oposição e o escândalo do povo eleito que, em grande parte, não tinha acolhido o Messias. A resposta já foi apontada na parábola do semeador: há quem esteja disponível e há quem resista à palavra de Jesus. Essa atitude interior faz toda a diferença. Há quem se converta e atinja a bem-aventurança, e há quem não se converta, ouvindo sem compreender e vendo sem perceber. Deus anunciara a Isaías (6, 9s.) as dificuldades que o profeta havia de encontrar na sua missão. Tudo isso se verificou na vida do profeta, mas, sobretudo, na vida de Jesus e, depois d´Ele, na vida da Igreja. A Bíblia aponta a Deus como causa primeira dos eventos, mas não é Ele que determina a docilidade ou a dureza do coração do homem. Isso depende do próprio homem, chamado a assumir, em primeira pessoa, a responsabilidade pelas suas opções diante da palavra que lhe é dirigida.
Meditatio
Jeremias escuta a voz de Deus que lhe diz: «Vai e grita aos ouvidos de Jerusalém» (v. 2). Jerusalém tornara-se dura de ouvidos. Mas Deus força-lhe a surdez, porque a quer como nos inícios da viagem de libertação pelo deserto: «Recordo-me da tua fidelidade no tempo da tua juventude, dos amores do tempo do teu noivado, quando me seguias no deserto» (v. 2). É o tempo do primeiro amor, que ilumina o sentido da vida, ainda que tudo à volta seja deserto. Corre-se sempre o risco de esquecer esse amor, ainda que Deus esteja sempre connosco, eternamente fiel: «Introduziu-vos numa terra fértil... Mas profanastes a minha terra» (v. 7). É o que acontece quando, esquecendo o chamamento de Deus, pecamos.
Deus, como testemunho do seu amor, cumulou-nos de dons. Justamente espera pela nossa correspondência. Se, em vez de O procurarmos a Ele, nos procuramos a nós mesmos, deixamos de ver as suas intenções divinas, e perdemos a direcção certa. Em vez de caminharmos para o Senhor, «nascente de águas vivas», iremos à procura de «cisternas rotas» (v. 15) para saciar a nossa sede.
No evangelho, os discípulos perguntam a Jesus: «Porque lhes falas em parábolas?» (v. 10). Jesus responde: «Falo-lhes em parábolas: pois vêem, sem ver, e ouvem, sem ouvir nem compreender» (v. 13). Que quer dizer: ver sem ver, ouvir sem ouvir nem compreender? É a atitude dos fariseus, que, embora escutando as palavras de Jesus, e vendo os seus milagres, lhe pedem um sinal: «Mestre, queremos ver um sinal feito por ti» (Mt 12, 38). Não querem ver, e não vêem. Nós, por graça de Deus, vemos. Mas corremos o risco de ver superficialmente, de escutar sem procurar compreender. Não vemos nem escutamos em profundidade. Nem sequer os dons do Senhor! Ver bem, ver em profundidade, é ver em tudo o amor do Senhor. Escutar bem, é corresponder a esse amor.
Deus criou livremente o universo e, entre tantas criaturas que O louvam (as ervas, as flores, os pássaros, as estrelas...) quis uma, o homem, que tivesse capacidade para O amar, para corresponder ao Seu amor.
Por isso lhe deu a liberdade. Um amor forçado não é amor. O pecado consiste em usar a liberdade para se afastar do amor de Deus, para não lhe corresponder. Mas o dom da liberdade consagra-nos ao amor de Deus, e permite-nos corresponder-lhe, de todo o coração.
Como precisamos todos nós, leigos, religiosos e sacerdotes, de voltar ao primeiro amor, ao fervor na nossa juventude, do nosso baptismo, da nossa profissão religiosa, da nossa ordenação sacerdotal. Não nos tocam também as palavras do Senhor, pelo seu profeta: «Os sacerdotes não se interrogaram... Os doutores da Lei não me reconheceram, os pastores revoltaram-se contra mim, e os profetas profetizaram em nome de Baal e seguiram deuses inúteis»? Voltemos para a «nascente de águas vivas»! Bebamos do Coração de Cristo!Oratio
Senhor, aumenta a minha fé, para que possa ver e reconhecer as intenções do teu amor e corresponder-lhe. Vivo tão mergulhado nesta sociedade de consumo, cheia de coisas prontas a usar, a vestir, a comer, a ouvir, que Te perco de vista, e não Te consigo ouvir. Muitas vezes, prefiro ouvir palavras cintilantes mas inconsistentes, proclamadas pelo charlatão de turno. As tuas palavras são mais difíceis de compreender, mas dão a vida.
Perdoa-me, Senhor! Apoia misericordiosamente o meu desejo de conversão. Preciso de olhos limpos pela fé, de ouvidos capazes de discernir a tua voz no meio da confusão de tantos sons. Preciso, sobretudo, de um coração disponível para acolher a verdade sobre Ti e a verdade sobre mim; preciso de um coração pronto a amar e suficientemente humilde para se deixar amar no modo que quiseres. É o que Te peço, hoje, com toda a confiança. Amen.Contemplatio
É Jesus e o seu Coração que são o dom de Deus. O seu Pai amou tanto os homens que lhes deu o seu Filho único, para os resgatar, para lhes comunicar a sua graça e os reconduzir a si. É portanto somente por Nosso Senhor que podemos ir ao Pai.
E o próprio Nosso Senhor ama tanto os homens, aos quais o seu Pai o deu, que Ele mesmo dá os primeiros passos para os ganhar ao seu amor.
Nós ficamos muitas vezes surdos as estes passos que são as suas doces inspirações e a graça dos seus sacramentos. Se o conhecêssemos melhor, se soubéssemos melhor qual é este nosso amigo que nos fala no segredo do nosso coração e que solicita o nosso amor, apressar-nos-íamos para ir ter com ele e lhe pediríamos estas águas vivas da graça, que tanto deseja espalhar. Ele deseja tanto possuir o coração dos homens e nós pensamos tão pouco nele! Se o conhecessem melhor, todos os corações se abririam a ele. (Leão Dehon, OSP 2, p. 282).Actio
Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Muitos profetas e justos desejaram ver o que estais a ver, e ouvir o que estais a ouvir» (Mt 13, 17).| Fernando Fonseca, scj |
-
XVI Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares XVI Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares
24 de Julho, 2026
Tempo Comum - Anos Pares
XVI Semana - Sexta-feiraLectio
Primeira leitura: Jeremias 3, 14-17
Assim fala o Senhor: 14«Voltai, filhos rebeldes, porque Eu sou vosso dono - oráculo do Senhor. Tomar-vos-ei um de uma cidade, e dois de uma família e hei-de reconduzir-vos a Sião. 15Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos conduzirão com inteligência e sabedoria. 16E, quando vos multiplicardes e vos tornardes numerosos na terra, então - oráculo do Senhor - não se falará mais na Arca da aliança do Senhor; não lhes virá ao pensamento, não se lembrarão nem sentirão necessidade dela e não se fará outra. 17Naquele tempo, chamarão a Jerusalém 'Trono do Senhor' e hão-de juntar-se a ela, a Jerusalém, em nome do Senhor, todas as nações, e não voltarão a ir atrás da maldade dos seus corações perversos».
A vocação de Jeremias tinha duas vertentes: edificar e plantar; arrancar e demolir. A perícopa anterior era claramente pejorativa, condenatória, exigente. Agora, o capítulo terceiro apresenta-nos a outra vertente, com um oráculo de consolação certamente introduzido pelo redactor final da obra, depois da queda de Jerusalém. O profeta exorta os seus contemporâneos à conversão: «Voltai» (v. 14) é a palavra-chave do convite à mudança de vida, à conversão (chub, metanoia). O primeiro passo consistirá em reconhecer Javé como único Senhor e guia do povo. Se tal acontecer, Israel terá um futuro ainda mais esplendoroso do que o seu passado, em que Deus será o único rei de Jerusalém. A sua presença tornará supérflua a da Arca da Aliança, e ninguém mais lamentará o seu desaparecimento. O reconhecimento da soberania de Deus juntará todos os povos que, sem dureza de coração, seguirão a sua vontade e não a «maldade dos seus corações perversos» (v. 17).
Evangelho: Mateus 13, 18-23
Naqueles dias, disse Jesus aos seus discípulos: 18«Escutai, pois, a parábola do semeador. 19Quando um homem ouve a palavra do Reino e não compreende, chega o maligno e apodera-se do que foi semeado no seu coração. Este é o que recebeu a semente à beira do caminho. 20Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos é o que ouve a palavra e a acolhe, de momento, com alegria; 21mas não tem raiz em si mesmo, é inconstante: se vier a tribulação ou a perseguição, por causa da palavra, sucumbe logo. 22Aquele que recebeu a semente entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza sufocam a palavra que, por isso, não produz fruto. 23E aquele que recebeu a semente em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende: esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta.»
Ao explicar a parábola do semeador, Jesus desvia a atenção do semeador que lança a semente para as causas da sua diferente recepção. Explicitando a comparação, passa-se da verificação do êxito, combatido mas surpreendente, da pregação do reino de Deus por Jesus e pelos continuadores da sua obra, para a consideração dos motivos que levam os ouvintes e fechar-se ou a abrir-se ao anúncio e, portanto, à conversão.
O evangelista faz uma releitura da parábola, fazendo realçar como a dureza de coração seja obra do maligno, que peca desde a origem (cf. 1 Jo 2, 22; 3, 8). O homem secunda a obra do maligno quando, deixando-se absorver pelos sofrimentos, pelas incompreensões, pelas riquezas, não permite à palavra de Jesus lançar raízes na sua existência. Pelo contrário, quem é dócil à palavra de Jesus, produz abundantes frutos e entra a fazer parte daqueles «bem-aventurados» e «pequeninos» aos quais são revelados os mistérios do Reino (cf. Mt 13, 16).Meditatio
«Filhos rebeldes», homens desorientados pelo maligno, somos nós, é a humanidade. Mas Deus não esquece o seu povo. Apesar de todas as desorientações e fracassos, podemos confiar n´Ele, que nos garante: «Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos conduzirão com inteligência e sabedoria» (v. 15). E continua: «Quando vos multiplicardes...» (v. 16). Jesus também termina a sua parábola com uma promessa de fecundidade: «Aquele que recebeu a semente em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende: esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta» (v. 23). Deus não se cansa de semear, de chamar, de prometer. Se fala de terrenos áridos, pedregosos, é porque sabe que, também eles, se podem tornar «boa terra», capaz de maravilhosa fecundidade. O que é preciso é «voltar»: «Voltai!» (v. 14), convertei-vos! Onde quer que estejamos, ainda que desorientados, estamos cercados pelo amor misericordioso de Deus, que põe todo o interesse em nós, que está sempre pronto a renovar-nos o dom da vida, que não nos retira a possibilidade de sermos seus amigos. «Voltar» para Deus, e para o seu amor, não é uma experiência humilhante, mas o prelúdio de uma sinfonia de verdadeira vida, capaz de saciar os nossos mais profundos anseios. Ninguém está incapacitado de se abrir à sua Palavra. Não há circunstâncias em que ela não possa ecoar, ser escutada e actuar «para arrancar e demolir, para arruinar e destruir, para edificar e plantar» (Jr 1, 10). Por isso, «não se falará mais na Arca da aliança do Senhor; não lhes virá ao pensamento, não se lembrarão nem sentirão necessidade dela e não se fará outra» (v. 16). Se isto era verdade para os homens do Antigo Testamento, muito mais é verdade para nós. Se Jerusalém se tornou «Trono do Senhor», onde se juntavam «todas as nações» (v. 17), em Jesus, Deus tornou-se Emanuel, Deus connosco, «coração da humanidade e do mundo» (Cst 19).
Acolhamos o dom destas mensagens, que o Senhor hoje nos oferece, e façamo-las ecoar na vida de cada dia, abrindo-nos confiadamente ao seu poder misericordioso.Oratio
Senhor, meu Deus, que sussurras no mais íntimo do meu ser: «Volta!», faz-me experimentar o amor que tens por mim, o desejo que tens de mim. Tu desejas-me mais do que eu Te desejo. Se me afasto de Ti, continuas a procurar-me. Se não escuto a tua voz, continuas a lançar a semente da Palavra com generosa abundância. Se não atendo o teu pedido, insistes. Obrigado pela tua fidelidade. Como é bom conhecê-la, não para retardar o regresso, mas para não desanimar com as dificuldades do caminho. Continua a pronunciar a tua palavra para mim. Com a força do Espírito, caminharei rumo à tua intimidade, e deixarei que a semente da tua palavra produza em mim muitos frutos. Amen.
Contemplatio
Uma parte do grão cai sobre um terreno fértil, mas é sufocado pelos espinhos.
Os apelos de Jesus são escutados por algumas almas que s&a
tilde;o como terrenos repletos de raízes e de sementes de ervas daninhas. Estes terrenos não foram mondados. Estes corações não foram purificados. Não são sensíveis ao amor de Nosso Senhor, mas não têm coragem para renunciar aos afectos naturais e sensuais, aos apegos apaixonados. E o amor de Nosso Senhor é depressa sufocado por todos estes afectos e paixões absorventes.
Nosso Senhor é um Deus ciumento. Não quer corações partilhados. Retira-se destes corações onde o colocam ao nível das criaturas. Como poderia comprazer-se nesta promiscuidade?
Mas há uma parte da semente que cai na boa terra e que produz o cêntuplo. Nosso Senhor ao dizer-nos isto considerava com alegria as almas fervorosas, a almas unidas a Ele, que recebem abundantemente a semente pela fidelidade da oração, pela regularidade habitual, pelo recolhimento, pela vida interior, pela união aos mistérios do Sagrado Coração. Oh! São então sementeiras de todo o dia e dão frutos ao cêntuplo. Como Nosso Senhor se satisfaz a cultivar estas terras férteis, que dão ao seu Coração tantos frutos de puro amor! (Leão Dehon, OSP 4, p. 121).Actio
Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«O que recebeu a semente em boa terra dá fruto» (Mt 13, 23).| Fernando Fonseca, scj |
-
S. Tiago, Apóstolo S. Tiago, Apóstolo
25 de Julho, 2026S. Tiago, chamado "o Maior", para se distinguir de outro apóstolo do mesmo nome, era filho de Zebedeu e de Salomé, e irmão de S. João Evangelista (cf. Mc 15, 40; Mt 27, 56). Com ele, e com Pedro, fez parte do grupo dos primeiros três discípulos de Jesus, o grupo mais íntimo, que acompanhou o Senhor na Transfiguração e na Agonia. Figura proeminente da igreja, Tiago foi preso em Jerusalém, por ordem de Herodes Agripa, sendo o primeiro apóstolo a derramar o seu sangue, em testemunho da sua fé, nos dias da Páscoa (cf. At 12, 1-3), por volta do ano 44. O seu culto desenvolveu-se notavelmente em Compostela que, desde a Idade Média, se tornou um dos centros de peregrinação mais concorridos, em todo o mundo.
Lectio
Primeira leitura: Segunda Coríntios 4, 7-15
Irmãos: Nós trazemos este tesouro em vasos de barro, para que se veja que este extraordinário poder é de Deus e não é nosso. 8Em tudo somos atribulados, mas não esmagados; confundidos, mas não desesperados; 9perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não aniquilados. 10Trazemos sempre no nosso corpo a morte de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifesta no nosso corpo. 11Estando ainda vivos, estamos continuamente expostos à morte por causa de Jesus, para que a vida de Jesus seja manifesta também na nossa carne mortal. 12Assim, em nós opera a morte, e em vós a vida. 13Animados do mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: Acreditei e por isso falei, também nós acreditamos e por isso falamos, 14sabendo que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus, também nos há-de ressuscitar com Jesus, e nos fará comparecer diante dele junto de vós. 15E tudo isto faço por vós, para que a graça, multiplicando-se na comunidade, faça aumentar a acção de graças, para a glória de Deus.
A liturgia aplica literalmente ao apóstolo Tiago o que Paulo diz a partir da sua própria experiência: "Trazemos sempre no nosso corpo a morte de Jesus" (10ª). Há uma mensagem que começa em Jesus, passa de Jesus a Paulo, de Paulo a Tiago e assim sucessivamente, ao longo da história, formando uma corrente de testemunhas, ou melhor, de "mártires" no sentido próprio do termo. Quem recebe a graça de derramar o sangue por amor de Cristo e dos irmãos, pode dizer, com verdade, que leva em si a morte de Cristo. Mas também o pode dizer quem vive serenamente a radicalidade evangélica no seu dia-a-dia. A Palavra do "mártir" é significativa e eficaz porque, à eloquência da palavra, junta a do sangue derramado.
Evangelho: Mateus 20, 20-28
Naquele tempo, aproximou-se de Jesus a mãe dos filhos de Zebedeu, com os seus filhos, e prostrou-se diante dele para lhe fazer um pedido. 21«Que queres?» - perguntou-lhe Ele. Ela respondeu: «Ordena que estes meus dois filhos se sentem um à tua direita e o outro à tua esquerda, no teu Reino.» 22Jesus retorquiu: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu estou para beber?» Eles responderam: «Podemos.»23Jesus replicou-lhes: «Na verdade, bebereis o meu cálice; mas, o sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence a mim concedê-lo: é para quem meu Pai o tem reservado.» 24Ouvindo isto, os outros dez ficaram indignados com os dois irmãos. 25Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores, e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. 26Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo; e 27quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo. 28Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão.»
Mateus parece usar de uma fina ironia ao narrar o episódio que hoje escutamos. Facilmente desculpamos a mãe, que, como tal, quere o melhor para os filhos. Mas já não somos tão compreensivos para com os dois irmãos que, sem pensar muito, se declaram prontos a beber o cálice com Jesus. Mas Jesus, muito ao seu jeito, transformando a hipótese em profecia, prediz, efetivamente, a morte que Tiago irá padecer por causa da sua radical fidelidade ao Mestre e ao Evangelho. Ao mesmo tempo, aproveita para dar uma lição de humildade útil a todos, também outros apóstolos irritados e desdenhosos.
Meditatio
Partimos, hoje, de uma afirmação de Jesus que nos permite penetrar no seu coração, conhecer as suas disposições mais profundas: "o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão" (v. 28). Jesus tem consciência de ser o Filho imolado por amor, para redenção dos irmãos. Vive conscientemente e decididamente a espiritualidade do Servo de Javé, a espiritualidade do Cordeiro imolado. E não fica por belas palavras ou ideais meramente românticos. A sua espiritualidade "vitimal" ou, se preferirmos, "oblativa" até à imolação concretiza-se no "serviço" vivido no total despojamento de si mesmo e em plena confiança no Pai. É o Servo de Deus, mas também o servo "de muitos", isto é, de todos aqueles que o Pai lhe confiou como irmãos, oprimidos pelo pecado mas abertos ao dom da libertação. Recebeu das mãos do Pai o cálice da paixão, e bebeu-o até à última gota, até à morte de cruz, entregando-se confiadamente nas mãos do Pai.
Os Apóstolos também "beberam o cálice do Senhor, e tornaram-se amigos de Deus", como diz a antífona da comunhão da festa de S. Tiago inspirada em Mt 20, 22-23. Foi esta a glória dos Apóstolos, e concretamente a de Tiago, que esperava outra bem diferente, quando decidiu seguir Jesus. Quem está com Jesus só pode aspirar a uma glória semelhante à d´Ele: a de participar na sua cruz, nos seus sofrimentos, em profunda união com Ele, em favor de muitos.Oratio
Senhor Jesus, tu és o Filho de Deus Pai que vives e manifestas a tua submissão numa total disponibilidade. Tu és a Palavra que ilumina o nosso caminho: o que dizes vale para ti e vale para nós, e para todos os que livremente te escolheram como Senhor e Mestre. Viveste o teu martírio em todos os momentos da tua vida na terra. Quem te conhece sabe que, para ti, ser servo significa viver tudo por Deus e tudo pelos irmãos. É a "lei real", de que fala na sua carta, o teu apóstolo Tiago. Enche-me do teu Espírito, para toda a minha vida se torne uma oblação santa e agradável ao Pai, pelos homens. Ámen.
Contemplatio
Tiago e João, Pedro e André eram muito afetuosos, muito amigos para com Nosso senhor, sobretudo os três primeiros. Eram os discípulos do Sagrado Coração, os amigos de Jesus. Por isso, Nosso Senhor os tinha sempre junto de si. Eram os seus íntimos, os seus confidentes. Muitas vezes os tomava à parte e lhes dava uma confiança que não dava aos outros. Para a ressurreição da filha de Jairo, a exclusão dos outros é fortemente assinalada no Evangelho. S. Marcos diz: «Jesus não permitiu a nenhum dos seus discípulos que o seguisse, exceto Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago». S. Lucas diz: «Não permitiu a ninguém entrar na casa com os pais, exceto Pedro, Tiago e João» (8, 51). Para a transfiguração, S. Mateus (17, 2) e S. Marcos (9, 1) dizem-nos: Jesus tomou à parte Pedro, Tiago e João, sozinhos consigo, e levou-os à montanha para rezar. O privilégio é ainda acentuado. No repouso do Monte das Oliveiras, diante de Jerusalém, da qual Nosso Senhor predisse a destruição, tem alguns privilegiados sentados junto de si. E era sem dúvida normalmente assim. Estes tinham os seus segredos. Interrogavam-no em segredo, secretamente, diz S. Mateus (24, 4) à parte, separadamente, diz S. Marcos (13, 3); mas quem eram estes quatro privilegiados? S. Marcos dá-nos os seus nomes. Era Pedro, Tiago, João e André. Na Ceia, Pedro, João e Tiago estavam sentados junto de Jesus. Se eu pudesse pelo meu amor e pela minha fidelidade merecer ser um verdadeiro discípulo do Sagrado Coração! Para o Getsémani, S. Mateus (26, 36) e S. Marcos (14, 33) dizem-nos: «Jesus deixou os seus discípulos à entrada do jardim, mas tomou consigo Pedro, Tiago e João». Os outros não estavam suficientemente formados para suportarem sem escândalo o espetáculo da agonia, mas estes três fizeram um melhor noviciado, foram tão dóceis e tão afetuosos! (L. Dehon, OSP 3, p. 311-312).
Actio
Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
"Beberam o cálice do Senhor, e tornaram-se amigos de Deus"
(antífona da comunhão da festa de S. Tiago).
----S. Tiago, Apóstolo (25 Julho)
XVI Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares XVI Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares
25 de Julho, 2026
Tempo Comum - Anos Pares
XVI Semana - SábadoLectio
Primeira leitura: Jeremias 7, 1-11
1A palavra do Senhor foi dirigida a Jeremias, nestes termos: 2«Coloca-te à porta do templo do Senhor e proclama aí este discurso: «Escutai a palavra do Senhor, habitantes de Judá, que entrais por estas portas para adorar o Senhor. 3Assim fala o Senhor do universo, o Deus de Israel:Endireitai os vossos caminhos e emendai as vossas obras e Eu habitarei convosco neste lugar. 4Não vos fieis em palavras de mentira, dizendo: 'Templo do Senhor, templo do Senhor! Este é o templo do Senhor'. 5Mas, se endireitardes os vossos caminhos e emendardes as vossas obras, se verdadeiramente praticardes a justiça uns com os outros, 6se não oprimirdes o estrangeiro, o órfão e a viúva, nem derramardes neste lugar o sangue inocente, se não seguirdes, para vossa desgraça, deuses estrangeiros, 7então, Eu permanecerei convosco neste lugar, nesta terra que dei desde sempre e para sempre a vossos pais. 8Contudo, eis que vos enganais a vós mesmos, confiando em palavras vãs, que de nada vos servirão. 9Roubais, matais, cometeis adultérios, jurais falso, ofereceis incenso a Baal e procurais deuses que vos são desconhecidos; 10e depois, vindes apresentar-vos diante de mim, neste templo, onde o meu nome é invocado, e exclamais: 'Estamos salvos!' Mas seguidamente voltais a cometer todas essas abominações. 11Porventura, este templo, onde o meu nome é invocado, é a vossos olhos, um covil de ladrões? Ficai sabendo que Eu vi todas estas coisas - oráculo do Senhor.
Esta perícopa dá início a uma nova secção, na obra de Jeremias. Trata-se de uma colecção de oráculos dispersos certamente feita por um dos discípulos do profeta. Estes oráculos reflectem a situação histórica, moral e religiosa, que seguiu à morte de Josias, durante o reinado de Joaquim.
A palavra de Deus leva Jeremias até à porta do templo, morada de Deus e lugar santo por excelência. Aí, o profeta estigmatiza a hipocrisia dos que vêm prestar culto a Deus, mas não cumprem os mandamentos. Os injustos, os assassinos, os ladrões, os adúlteros, os que juram falso, os que vivem uma fé sincretista, não escaparão aos castigos divinos, só por entrarem no templo e apresentarem ofertas e sacrifícios ao Senhor (vv. 5-10). É um absurdo pensar que Deus possa ser conivente com tais crimes. Deus é santo e, quem entra no templo, há-de viver em santidade. O templo não pode ser «um covil de ladrões» (v. 11). Os criminosos profanam o templo santo, habitado por Deus santo. Por isso, merecem o castigo divino (v. 11). Para escapar a esse castigo só há um caminho: converter-se, isto é, melhorar o próprio comportamento, as próprias acções, e viver segundo os mandamentos de Deus (vv. 3-5).Evangelho: Mateus 13, 24-30
Naquele tempo, 24Jesus propôs-lhes outra parábola: «O Reino do Céu é comparável a um homem que semeou boa semente no seu campo. 25Ora, enquanto os seus homens dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e afastou-se. 26Quando a haste cresceu e deu fruto, apareceu também o joio. 27Os servos do dono da casa foram ter com ele e disseram-lhe: 'Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio?' 28'Foi algum inimigo meu que fez isto' - respondeu ele. Disseram-lhe os servos: 'Queres que vamos arrancá-lo?' 29Ele respondeu: 'Não, para que não suceda que, ao apanhardes o joio, arranqueis o trigo ao mesmo tempo. 30Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa; e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em feixes para ser queimado; e recolhei o trigo no meu celeiro.'»
Jesus apresenta mais uma parábola, desta vez, com dois semeadores. O primeiro lança à terra boa semente de trigo; o segundo lança à terra sementes de joio, erva daninha que irá prejudicar a sementeira. Este campo semeado de bom trigo e de joio é a Igreja, que está nos seus inícios, mas também toda a humanidade. Numa e noutra crescem lado a lado o trigo e o joio. Os servos querem eliminar a erva daninha. Mas o dono do campo tem outra lógica: «Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa» (v. 30). Deste modo, Jesus revela-nos o coração do Pai, que deixa crescer os bons e os maus. Só na altura da ceifa os separará e lhes dará diferente destino. Deus não intervém para arrancar o mal presente na Igreja e no mundo, presente no coração do homem. Só no momento do juízo ficará patente quem praticou o bem e quem praticou o mal. Ao excesso de zelo de quem pretende a todo o custo e imediatamente eliminar o mal, e quem o faz, contrapõe-se a tolerância de Deus, que não é um qualquer pacifista, mas conhece os tempos de crescimento do coração humano. Era o que já verificava, com grande espanto, o autor do livro da Sabedoria: «Tu tens compaixão de todos, pois tudo podes e desvias os olhos dos pecados dos homens, a fim de os levar à conversão» (Sb 11, 23).
Meditatio
O povo de Jerusalém sentia-se seguro junto do templo onde Deus habitava. Como podia o Senhor abandonar uma cidade onde tinha a sua morada? Aproveitando esse sentimento de segurança, Jerusalém abandonava-se a todo o género de abusos, levando uma vida incoerente com a Aliança. Jeremias insurge-se contra essas ilusões religiosas do seu povo: «Roubais, matais, cometeis adultérios, jurais falso, ofereceis incenso a Baal e procurais deuses que vos são desconhecidos; e depois, vindes apresentar-vos diante de mim, neste templo, onde o meu nome é invocado, e exclamais: 'Estamos salvos!' Mas seguidamente voltais a cometer todas essas abominações» (vv. 9-10).
Para agradar a Deus, não é suficiente ir aos lugares sagrados e participar no culto. É indispensável viver segundo a vontade de Deus. Não há que confiar nas palavras mentirosas dos que dizem: «'Templo do Senhor, templo do Senhor! Este é o templo do Senhor'. Mas, se endireitardes os vossos caminhos e emendardes as vossas obrasentão, Eu permanecerei convosco neste lugar» (cf. vv. 4-7).
Os avisos de Jeremias e, sobretudo, as palavras de Jesus devem fazer-nos pensar! Onde nos leva a nossa confiança em Deus? Se nos permite descurar os nossos deveres, não é verdadeira confiança, porque essa leva à docilidade, à generosidade. E então, sim: Deus jamais faltará com a sua ajuda, e dará a graça para caminharmos no seu amor.
O evangelho leva-nos a reflectir na paciência de Deus e na nossa intolerância. Perante o mal, é espontâneo revoltar-nos contra quem o faz. Por vezes, até nos escandalizamos com Deus, que não intervém para eliminar o sofrimento provocado pelas doenças, pelas prepotências dos outros, pelo egoísmo de tantos... Quem faz tanto mal, semeando morte e sofrimento, não deveria morrer? Estas e outras perguntas vêm do sentido de impotência que experimentamos diante do mal. Deus não nem sempre responde imediatamente aos nossos clamores. Até esperou três dias para responder ao grito do seu próp
rio Filho cravado na cruz! Como é grande a paciência de Deus! Como é incómoda, também para Ele, que sofre ao ver sofrer os seus filhos! Mas Deus não pode retirar-nos o grande dom da liberdade que nos concedeu! Seria bom até perguntar-nos como usamos esse dom, se o pomos ao serviço do bem ou ao serviço do mal. Não é possível descer a compromissos e, no momento do encontro face a face com Deus, há-de revelar-se claramente a opção feita por cada um. De nada servirá uma religiosidade que se limite a práticas exteriores, que não envolva o coração e a vida. Mais importante do que perguntar pela razão do mal, é perguntar: «que faço para promover o bem?».
A paciência de Deus há-de inspirar e motivar a nossa paciência, em todas as circunstâncias, com todas as pessoas. Há que aceitar serenamente os sofrimentos da vida. E são tantos! Há que saber respeitar os passos dos outros. Mesmo na actividade pastoral, há que aceitar o ritmo das pessoas e das comunidades. Na actividade missionária ad gentes, há que respeitar a lentidão de quem não tem a nossa cultura, a nossa longa tradição cristã. Recordemos que «um é o que semeia e outro o que recolhe» (cf. Jo 4, 27) e que há quem planta e quem rega, mas só Deus faz crescer (cf. 1 Cor 3, 6-7). A evangelização deve ter a sabedoria do camponês que respeita os ritmos da natureza. O missionário é sempre um semeador, não um vendedor ambulante de receitas mágicas com efeito imediato.
A paciência leva-nos também a aceitar o pluralismo: pluralismo de nacionalidade na comunidade, pluralismo de métodos de apostolado, diferenças de sensibilidade, de maneiras de viver e de agir.
Finalmente, a paciência dá-nos capacidade de colaboração, seja com a Igreja local para realizar honestamente os seus planos pastorais, seja com os confrades, com os outros religiosos e religiosas da diocese, com o clero local, e ainda a capacidade de valorizar e envolver os leigos.Oratio
Senhor, a tua paciência, por vezes, escandaliza-me! Como compreender que toleres o mal, mesmo quando se revela claramente na tua Igreja? Não é sua missão testemunhar a tua santidade? Sempre pronto a apontar o argueiro no olho dos outros, esquecendo a trave que tenho no meu, não entendo, nem quero entender a tua paciência e tolerância, até porque pressinto que me pedes a mesma atitude para com os meus irmãos. Infunde em mim o teu Espírito Santo, para que produza os seus doze frutos, concretamente o da paciência, e torne o meu coração semelhante ao teu. Amen.
Contemplatio
Não nos apoiemos sobre a estima do mundo. Um dia nos aclamará e no dia seguinte entregar-nos-á à cruz. Apoiemo-nos no amor de Nosso Senhor. Temos disso uma nova prova em todos os ultrajes e humilhações que quis suportar por nós. Verdadeiramente foi um amor sem limites que nos mostrou em toda a sua Paixão. Até quando havemos de ter um coração duro e insensível?
Se somos objecto dos desprezos do mundo e dos seus insultos, suportemo-los humildemente. Nosso Senhor está lá, e dá-nos o exemplo. Ele era justo e calava-se. Nós que somos culpados, não poderemos sofrer nada para expiar as nossas faltas?
Imitemos a paciência, a doçura, a resignação do Coração de Jesus. Que importa que o mundo nos odeie e nos despreze, se Deus está contente connosco e se nos concede a sua protecção e o seu amor paterno?
Hoje cremo-nos muito inocentes e indignamo-nos contra os judeus, mas infelizmente não fizemos muitas vezes como eles? Não preferimos Barrabás a Jesus Cristo, o demónio ou os seus satélites ao Filho de Deus, uma vil satisfação a um acto de virtude?
Quando cometemos o pecado, preferimos a criatura a Deus, e muitas vezes, que criatura? Deus diz em Isaías: «Ó meu povo, a quem me comparastes, quando preferistes ídolos?» (Is 46,5). (Leão Dehon, OSP 3, p. 335s).Actio
Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa» (Mt 13, 30).| Fernando Fonseca, scj |