Natal em Belém

Não é fácil resumir em poucas linhas acontecimentos tão bonitos que marcam a nossa vida. Estou a falar, por certo, da minha participação nas cerimónias de Natal, em Belém, na Palestina, neste ano de 2007.
Foi uma experiência única que começou de uma maneira empenhativa mas, ao mesmo tempo, engraçada: com outros colegas e pessoas conhecidas de um deles, fui a pé até Belém, também de modo a poder viver de um modo mais peregrinante este Natal. Ao todo, são 12 km que separam Jerusalém de Belém, com um "check-point" (atravessar o muro da separação de Israel e Palestina) pelo meio. Era, de certa forma, ponto de meditação que íamos a Belém para celebrar o nascimento do Rei da Paz, mas tivemos de passar por situações de ausência de paz e, sobretudo, de falta de confiança. Fiquei muito tocado por, ao entrar em Belém, quando estava para chegar o Presidente da Autoridade Palestiniana, as ruas estarem polvilhadas de soldados e polícias, armados com armas, não de brincar: até para a festa da paz, se tem de usar as armas para manter essa mesma paz ou, pelo menos, para que não haja guerra.
Dizia que esta experiência de caminhar tinha sido interessante, porque connosco caminhava um casal franco-americano que estava à espera do nascimento do seu filho para o dia 24 ou 25. Durante o caminho, a criança não nasceu e não sei qual é o ponto da situação no momento em que escrevo. Mas podíamos assim admirar a esperança dos futuros pais e, de certa forma, reviver a caminhada de Maria e José até Belém.
As cerimónias foram presididas pelo Patriarca Latino de Jerusalém e concelebradas por alguns bispos e, seguramente, centenas de padres que, como eu, tinham obtido a autorização para a concelebração. A Igreja de Santa Catarina, que confina com a Basílica da Natividade, de custódia ortodoxa, estava cheia. As celebrações começaram às 23.30h com o Ofício de Leitura e, às 24.00h, com o canto da calenda de Natal – o Solene Anúncio do Nascimento do Senhor – os sinos tocaram de festa, a que se seguiu o canto do Glória.
Na homilia, feita em Árabe e Francês, o Patriarca apelou à unidade dos habitantes desta terra, apelando assim a um Natal de paz. Penso que todos tínhamos este pensamento na ideia: rezar pela paz.
A celebração terminou com uma procissão à gruta da Natividade, onde se leu o Evangelho de São Lucas, do Nascimento do Senhor.
Pernoitamos em Belém, porque, no dia de Natal, tínhamos a Missa tradicional do Bíblico, na Gruta onde, segundo a Tradição, viveu São Jerónimo. A esta celebração presidiu o Cardeal Martini que vive connosco aqui, em Jerusalém, no Pontifício Instituto Bíblico. Na homilia, apelou a passar da natural linguagem do coração, proporcionada por esta quadra, à linguagem da mente. Terminava dizendo que é necessário ser simples para acolher a mensagem do Evangelho. Penso que é um apelo que se pode aqui deixar para todos.

Alguns aspectos interessantes
* O Natal é a festa da união dos povos. Nas nossas celebrações não podíamos vir de muitos mais países para adorar este Menino, como os pastores há 2000 anos; não só a grande diversidade de nacionalidades dos alunos do Bíblico ajudava à festa, mas desde os concelebrantes até aos membros da assembleia, podíamos apreciar a diversidade de proveniências.
* Natal é festa de paz. Quem preparou o altar para a nossa Missa na Capela de São Jerónimo foi uma pessoa do Iraque. Rezámos por esse país, pedindo que este fosse um ano de mudança. E assim o esperamos…

A todos desejo um Santo Natal e um Ano Novo cheio das bênçãos de Deus!

| Ricardo Freire, scj |