Necrológio da Província Portuguesa – Apresentação

“Recordai-vos dos vossos chefes”

“Não se deveria morrer, quando nos amamos. A família não deveria conhecer a morte. Está unida para a eternidade e para a eternidade, dá a vida a outras pessoas… Viver significa, com frequência, separar-se; morrer, pelo contrário, quer dizer reunir-se. Não é um paradoxo: para quem chegou ao amor maior, a morte é uma consagração e não uma rotura. No fundo, ninguém morre verdadeiramente, porque ninguém pode sair de Deus. Aquele que nos pareceu afastar-se imprevistamente continua o seu caminho. Foi como que um voltar da página, enquanto escrevia a sua vida. Perdemos dele o que possuíamos temporariamente; mas só se possui eternamente aquilo que se perdeu. A vida e a morte não são mais do que aspectos diferentes de um único destino; quando aí entra de coração, não se distingue mais” (cfr. A. G. Sertillanges, Nos disparus, Paris 1970, 5-10).
O Pe. Dehon entendia assim a vida e a morte, particularmente entre os membros da família religiosa que fundou, a Congregação. Lá pelo fim da sua vida, escrevia no Diário (Notes Quotidiennes):
“Vivo muito com os meus mortos: os meus pais, amigos, antigos directores, antigos alunos. Uma centena dos meus religiosos já partiu para junto do Bom Deus, entre eles, homens que muito trabalharam e rezaram: o Pe. André, o Pe. Rasset, o Pe. Roth, o Pe. Guillaume… Saúdo-os todas as manhãs e todas as noites, com os meus padroeiros celestes” (NQT XLIV, 139.
“Penso constantemente no céu; vivo com os meus protectores e os meus amigos lá de cima; desejo ardentemente vê-los em breve: Cupio dissolvi et esse cum Christo (cfr. Phil I, 23). Poderá isso ser uma ilusão, e poderei perder o meu céu? Não creio. Sagrado Coração de Jesus, tenho confiança em Vós” (NQT XLV, 16).
O presente trabalho foi-me inspirado pelo que fez o Pe. Egídio Driedonkx, SCJ, no seu livro “Calendário Histórico da Congregação – Agenda Dehoniana”. Segui-lhe o método e imitei-lhe o estilo, porque me pareceram práticos e interessantes. Como é um óptimo confrade, vai perdoar-me o atrevimento, o que, desde já, agradeço.
Já temos um bom grupo de confrades que, terminada a sua caminhada na terra, partiram para a casa do Pai. Todos mais ou menos conhecemos as suas boas qualidades, os seus trabalhos pela Província e, acima de tudo, pelo Reino do Coração de Jesus, mas também as suas limitações, defeitos e, talvez mesmo, pecados. Coisas dos homens, que também nós somos. Agora que morreram, faz-nos bem recordá-los, isto é, fazê-los voltar ao coração, lembrá-los com amor e gratidão. Estimulam-nos a caminhar, lembram-nos que é no meio de muitas tribulações que o Senhor nos conduz para Ele e nos salva, e que é com a nossa natureza frágil, animada pela Graça, que devemos dar a nossa “cooperação na sua obra redentora no coração do mundo” (Cst 23). Acima de tudo, intercedem por nós.
Sendo assim, sigamos o conselho do autor da Carta aos Hebreus: “Recordai-vos dos vossos chefes, que vos anunciaram a palavra de Deus. Considerai o êxito da sua carreira e imitai a sua fé”.

Aveiro, 12 de Agosto de 2003.

[ Fernando Fonseca, scj  ]