O fruto da terra…

Uma verdadeira ecologia desemboca, mais tarde ou mais cedo, na Eucaristia, centro da vida cristã. Com efeito, ela constitui “um modo privilegiado em que a natureza é assumida por Deus e transformada em mediação da vida sobrenatural” (LS 235). O «Pão da vida» começa por ser «fruto da terra» e o Vinho da salvação é «fruto da videira».

“A criação encontra a sua maior elevação na Eucaristia. A graça, que tende a manifestar-se de modo sensível, atinge uma expressão maravilhosa quando o próprio Deus, feito homem, chega ao ponto de fazer-Se comer pela sua criatura. No apogeu do mistério da Encarnação, o Senhor quer chegar ao nosso íntimo através dum pedaço de matéria. Não o faz de cima, mas de dentro, para podermos encontrá-Lo a Ele no nosso próprio mundo. Na Eucaristia, já está realizada a plenitude, sendo o centro vital do universo, centro transbordante de amor e de vida sem fim” (LS 236).

Em cada Eucaristia, toda a criação dá graças a Deus, ao descobrir a sua elevada dignidade e ao reconhecer-se sustentada e amada pelo Criador. Os cristãos professam a sua fé num «Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis». Por isso, uma celebração eucarística é sempre “um acto de amor cósmico”, pois acontece sempre “sobre o altar do mundo”. A natureza não é um escolho ou um impedimento e nem sequer é posta entre parêntesis, sempre que uma comunidade se reúne para celebrar a sua fé. Pelo contrário, “a Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação. O mundo, saído das mãos de Deus, volta a Ele em feliz e plena adoração” (LS 236). 

Ao aproximarmo-nos da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus, não nos esqueçamos que “a Eucaristia é também fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente, e leva-nos a ser guardiões da criação inteira” (LS 236). Viver em atitude de «missa permanente» abre-nos ao cuidado pela obra das mãos de Deus e faz-nos experimentar uma profunda gratidão por tantos bens colocados à nossa disposição, para que realmente possamos ser felizes. No entanto, querer viver uma «missa permanente» tem de levar-nos também a curar e reparar essas feridas, que actualmente debilitam a natureza e que fazem com que a nossa felicidade seja ilusória e pouco sustentável.

Afinal, se recebemos tantos bens de Deus e se os acolhemos em perfeitas condições, como podemos pretender entregá-los e oferecê-los num tamanho estado de degradação?

José Domingos Ferreira, scj