▬ Alguns seminaristas do Colégio Missionário, do Instituto Missionário e do Seminário Pe. Dehon, juntamente com os seus formadores e três leigos amigos, foram, na passada semana, em peregrinação ao túmulo do Apóstolo São Tiago, em Compostela. Os participantes afirmam que se tratou de uma experiencia inesquecível. Aqui queremos partilhar algumas das emoções que todos vivemos.
A ideia ‘maluca’ de partir a pé desde Valença do Minho até Santiago de Compostela (cerca de 120 km) surgiu do Pe. António Loureiro, novo orientador disciplinar do Colégio Missionário. Objectivo: marcar os nossos jovens seminaristas com uma forte experiência de fé. Uma experiência nova à luz da qual não existam dúvidas de que a vida de seminário, e o discernimento vocacional que aí se propõe, são propostas de Deus que devem ser vividas com entusiasmo profundo e profícua alegria!
De Coimbra e do Porto chegou, de imediato, notícia do desejo de participar nesta iniciativa. Juntamo-nos todos, o que acrescentou a este projecto ainda mais uma inestimável riqueza: o convívio e a amizade entre os seminaristas da Madeira e do Continente.
A nossa peregrinação, desde logo apoiada pelo Superior Provincial, Pe. Barbosa, passou, então, a ter contornos provinciais. Dividimos entre os três seminários os encargos e as tarefas de preparação e ficamos ansiosamente à espera do início desta pioneira actividade. No colégio Missionário, por exemplo, o quadro da sala de aula iniciou a contagem decrescente 4 semanas, 27 dias, 648 horas antes da partida para Lisboa.
Animados pelo tema “Não Temas! Caminha!”, caminhamos pela Galiza a fora desde quarta-feira a sábado (1 a 4 de Abril), até à mesma catedral que milhões de cristãos já visitaram pietatis causa.
Tal como o povo bíblico, cremos que, ao longo do caminho, o Senhor nos foi guiando, com a ajuda de São Tiago, em todos os aspectos do caminho de uma peregrinação.
Em seguida, deixamos-vos o Diário da Nossa Caminhada, e alguns dos testemunhos dos seminaristas acerca desta experiência.
Diário da nossa Peregrinação a Santiago de Compostela
Terça-feira, dia 0
Seminário Padre Dehon
Já estamos todos juntos, seminaristas e formadores do Funchal, de Coimbra e do Porto, de perto e de muito longe, prontos a começar a caminhar. Começou, finalmente, a odisseia tão ansiada!
Todo este dia foi especial! Tanto pelo que já fizemos, como, e especialmente, pela ansiedade, que nos domina, de fazer o que nos espera…
Hoje foi dia de convívio, dia de conhecer e de encetar as primeiras relações entre grupos. Como não podia deixar de ser, houve jogo de futebol. Equipas mistas – ficámos todos a ganhar.
Depois, ao fim da tarde, o sinal de partida oficial: uma cerimónia de envio, durante a Eucaristia. O Pe. Loureiro, que presidiu, foi claro e fluente, como é seu estilo: por fora, vamos juntos caminhar em direcção ao túmulo de um apóstolo; por dentro, vai, cada um, em direcção ao próprio Cristo – só assim terá sentido o que vamos fazer…
Agora à noite ainda tivemos tempo para fazer um convívio todos juntos. Já quase nos conhecemos todos…
Quarta-feira, dia 1 – manhã
Valença do Minho
Chegamos a Valença do Minho, cidade na qual começaremos a caminhar. Já sinto um formigueiro na ponta dos dedos… O Rio Minho, cruzado pela ponte internacional, sorri-nos!
Todos, somos vinte e cinto. Sete da Madeira (o Agostinho, o Fred, o David Ganilo, o Domingo, o Jorge, o António e o Paulo), outros sete de Coimbra (o Joaquim, o José Vieira, o Rodrigo, o Pedro, o Leonel, o David Silva e o Hugo), três do Porto (o Micael, o José Neto e o Hélder), cinco superiores (o Pe. Loureiro, o Pe. João, o Pe. Roberto, o Pe. Amaro e o Pref. Emanuel), e três leigos amigos (o Sr. Abílio, a D. Maria e a D. Ilka), que nos darão apoio logístico.
Os chefes estão a chamar… É agora a hora da verdade!
Quarta-feira, dia 1 – noite
Valença – Redondela | 30,7 km
Finalmente chegamos ao nosso albergue de hoje, em Redondela. Estamos de pernas para o ar, conforme as ordens de quem tem mais experiencia do que nós nestas coisas! Foram trinta quilómetros de camilhada, estamos estafados. O ritmo foi bom… Quem tiver disposto a isso, ainda pode dar uma volta por Redondela, depois dos banhos e do jantar. Redondela é uma cidadezinha muito catita. O povo parece acolhedor. Há um belo rio mesmo ao lado do nosso albergue que, diga-se, tem óptimas condições… Mas haverá candidatos?!
As primeiras bolhas já apareceram. Parece que o David é o campeão na matéria. Que eu saiba, já se contam pelo menos três.
Às dez horas vamos deitar-nos. Estou tão ansioso por esse momento como estava pela partida!
Quinta feira, dia 2
Redondela – Barro | 29,7 km
Partimos cedo de Redondela, bem descansados e dispostos a uma nova jornada. Por incrível que pareça a opinião geral é que a etapa de hoje foi mais fácil que a de ontem. O Pessoal diz que já lhe apanhou o jeito, mas ainda assim foram outros trinta quilómetros, com mais subidas e descidas do que ontem.
Entre ontem e hoje vimos tanta coisa que já nem sei bem quando e onde é que vi o quê… Estamos a seguir à risca o Caminho Português de Santiago. As setinhas e conchas que encontramos não deixam margem para dúvidas sobre o percurso que devemos seguir. Na maior parte do trajecto, o nosso caminho coincide com uma antiga Via Romana que ligava a cidade de Braga ao norte e este da Península Ibérica. Estamos a calcar as mesmas pontes que os soldados dos grandes imperadores romanos. É difícil e impressionante tentar imaginar toda a história da estrada que seguimos: a vida e os feitos dos milhões de pessoas que a percorreram antes de nós ao longo dos séculos… Provavelmente, o próprio Viriato andou por aqui!!
O albergue de Barro não é mais do que umas pequenas casinhas com dois quartos e casas de banho. Coubemos todos dentro de uma delas. Felizmente, temos um ambiente catito e acolhedor. Tudo indica que o povo galego cuida e estima muito o Caminho Jacobeu e os seus peregrinos.
O prefeito esteve a cuidar das bolhas. O David continua a bater recordes… mas não desiste de caminhar, o que nos deixa a todos mais animados. Se ele pode, toda a gente tem de poder!
Às sete da tarde rezámos missa junto de um dos muitos cruzeiros medievais que podemos encontrar no caminho. Foi um momento muito interessante… O lugar diz-nos muito, a Palavra de Deus, escolhida para a ocasião, foi extremamente tocante, Sentiu-se cada momento da eucaristia de uma forma muito próxima e profunda.
Agora vamos jantar. As cozinheiras de serviço esmeraram-se.
Sexta-feira, dia 3
Barro – Teo | 41.4 km
Parece que o mundo nos vai cair em cima, com especial incidência na ponta dos pés!
Já sabíamos que a terceira etapa seria a mais penosa. Quarenta e um quilómetros sem parar, mas nada nos fazia esperar que não tivéssemos lugar no albergue de
Teo. Acontece que o albergue é pequeno e um outro grupo de peregrinos chegou antes de nós (só aqui para nós – eles apenas fizeram dez quilometros hoje).
E agora? Alguns dizem que devemos continuar a pé, já hoje, até Santiago. Estão loucos! O Pe. Loureiro foi à procura de solução: em princípio iremos de carrinha até ao albergue de “Monte do Goso”, que fica já em Santiago, e, amanhã, voltaremos de novo de carrinha para recomeçar, aqui, em Teo, a nossa peregrinação. Enfim, um grande percalço…
Mas quarenta quilómetros tem muito mais para se contar do que apenas um final tribulado! Por exemplo, hoje o Sr. Abílio, um dos leigos que veio connosco e que anda sempre com uma carrinha de apoio de frente para trás, fez anos, 63, precisamente… Mas não é só… hoje foi dia de muitas pontes romanas, de dezenas de cruzeiros e monumentos medievais. De vilas e vilas tipicamente espanholas, e de campos e campos como na Madeira não se vê!
Passámos por bosques, muitos bosques… algumas árvores pareciam acenar-nos, enquanto abanavam ao vento. De alguém surgiu a ideia: estão a mandar cumprimentos a Santiago! Para quem tem fé, não é uma ideia tola de todo! E também por estradas, muitas estradas… o Prefeito e o António tomaram a iniciativa de cumprimentar os condutores que se cruzavam connosco. Muitos respondiam. Cada buzinadela, especialmente as dos camiões, dava-nos força e fazia-nos esquecer as dores por mais dez metros, mesmo ao David.
Sábado, dia 4
Teo – Barro | 13,9 km
Acordamos em Santiago, mas voltamos a Teo ainda de noite.
O dia estava chuvoso e tínhamos treze quilómetros pela frente mas nada disso nos preocupava… Uma só coisa tinhamos em vista: Santiago.
A caminhada fez-se num ápice… Com um esforço redobrado por manter o grupo todo unido… À medida que fomos entrando na cidade de Santiago as setas foram escaseando… Mas isso não interessava… ia-se sempre em frente, como se sentisse a catedral…
Quando chegamos à parte mais antiga da cidade, toda em pedra, o entusiasmo que todos sentíamos começou a manifestar-se. Primeiro com os cajados no chão: pum, pum, pum… Depois os vivas, cada vez mais altos e sonoros: a Portugal, à Galisa, ao Pe. Loureiro, ao Pe. Dehon, ao aniversariante do dia (é verdade, hoje também houve aniversariante – o ‘Zé’ Vieira, dezoito anos) e a Santiago.
Às onze e meia chegamos à praça da catedral… são indiscritíveis os sentimentos que tivemos… Uma confusa mistura de alegria, alívio, gratidão e de render de armas perante tão magestosa catedral e tão impressionante lugar.
Houve mais vivas, ainda mais altos, com os cajados ergidos no ar… Rezamos para agradecer ao apóstolo esta experiência. Mais vivas, muitos mais.
Entramos na catedral… houve missa para os peregrinos ao meio-dia. Mais uma experiência indiscritível, sobretudo o momento do “botafumeiro”.
O presidente acabou assim a celebração: “a peregrinaçao que fizestes não termina aqui… a alegria que sentis deveis fazê-la sentir aos outros através de um testemunho de vida cristã autêntica. Uma vida como a do apóstolo que visitastes e como a do próprio Cristo, nosso amigo.” Ninguém discordou…
A seguir à missa, fomos buscar as nossas Compostelas, uma espécie de certificado de que fizemos esta peregrinação, e, depois, as indispensáveis recordações.
Agora, voltamos a “Monte do Goso”. Vamos jantar e descansar. Amanhã é Domingo de Ramos, Dia Mundial da Juventude e nos participaremos nas cerimónias da Catedral.
Domingo – dia 5
Santiago
Chegou ao fim esta nossa experiência. Foi fascinante!…
Desde os extensos quilómetros passados lado a lado, aos momentos de oração, ao convívio, às refeições… tudo!
No restinho ainda houve tempo para manifestamos a nossa alegria com um concerto espontâneo das músicas da InsTuna, que rendeu €2,49 que foram integralmente doados a uma instituição de caridade. E ainda para os discursos da praxe.
As despedidas foram uma realidade necessariamente sofrida… Mas não faz mal, porque já se sente, no ar, com o coração, que esta edição não foi a primeira e a última.
2 Testemunhos
Santiago, para mim, foi espectacular, foi um “superar-me” porque nunca pensei que fosse possível fazer 120 km, logo eu que sou fraquinho.
Achei tudo espectacular, desde o encontro com os seminaristas continentais à chegada a Santiago.
Foi uma experiência fora do normal e no meu ver muito positiva.
Acho que quero repetir porque foi um momento de encontro com os outros seminaristas, com Deus, com outras realidades e comigo.
Fred Gonçalves – Funchal
Perguntei-me se conseguiria chegar a Santiago. Mas a força, o espírito positivo do grupo ajudou-me.
Esperança de não ter bolhas nos pés foi o que mais tive. Esperança de encontrar bons relacionamentos com novas pessoas o que ficou bem sucedido.
Resmunguei muito por ter de acordar muito cedo.
Esforço foi preciso principalmente nas três subidas a pique e na penúltima etapa.
Gostei muito desta experiência, gostei das pessoas que me acompanharam, gostei das paisagens, da comida, resumindo, gostei de tudo.
Rico fiquei, na minha vocação, sabedoria, fortaleci-me fisicamente.
Igual. Durante a caminhada apercebi-me de uma coisa que nunca me tinha passado pela cabeça. Todos somos iguais no sofrimento e na alegria, pois não interessou se alguém era rico ou pobre, madeirense ou continental. Todos vivemos esses momentos da mesma maneira.
Nunca irei, decerto, esquecer esta minha primeira e nova experiência.
Olhos e coração apostos para adquirir novas experiências como esta para me ajudar a discernir na minha caminhada vocacional.
Pedro Miguel Coimbra
» Emanuel Vitor