ANO A
1.º DOMINGO DO ADVENTO
Tema do 1.º Domingo do Advento
Iniciamos hoje a caminhada do advento. Ao longo dos próximos dias, passo a passo, iremos preparar o caminho para que Jesus possa vir ao nosso encontro e nós possamos reconhecê-l’O e acolhê-l’O quando Ele chegar. A Palavra de Deus que escutaremos nestes dias vai ajudar-nos a balizar esse caminho. A liturgia deste primeiro domingo do advento diz-nos: “vigiai”, “estai atentos”, “não vos deixeis adormecer”. Seria dramático se, por comodismo, por desleixo, por indiferença, por distração, perdêssemos a oportunidade de acolher Aquele que vem libertar o mundo e imprimir um dinamismo novo à história dos homens.
Na primeira leitura, o profeta Isaías partilha connosco o seu sonho da paz universal e da comunhão fraterna de todos os povos e nações. Trata-se de uma utopia ingénua e impossível? Trata-se de uma promessa de Deus; e as promessas de Deus não costumam cair em saco roto. Jesus, Aquele cujo nascimento celebraremos no final do advento, foi enviado por Deus ao nosso encontro para concretizar essa promessa.
Na segunda leitura, Paulo de Tarso avisa os cristãos de Roma – e os cristãos de todas as épocas e lugares – que o tempo está a passar e que se aproxima o dia da nossa libertação definitiva. Portanto, é altura de abandonarmos as “obras das trevas” e de nos revestirmos das “armas da luz”. O Senhor Jesus vai chegar; temos de estar preparados para o encontro com Ele.
O Evangelho traz-nos parte de um discurso de Jesus pronunciado diante dos discípulos, no Monte das Oliveiras, poucos dias antes da Sua paixão e morte. A indicação que Jesus deixa é clara: “Vigiai, estai sempre preparados, não vos deixeis distrair por futilidades, vivei atentos aos desafios que Deus vos lança, não esqueçais a Boa nova que vos propus, olhai com amor e misericórdia os irmãos que caminham ao vosso lado, empenhai-vos a cada instante na construção de um mundo mais justo, mais humano e mais feliz”. Para os discípulos de Jesus, o desleixo, a preguiça, a indiferença, o conformismo, não são opção.
LEITURA I – Isaías 2, 1-5
Visão de Isaías, filho de Amós,
acerca de Judá e de Jerusalém:
Sucederá, nos dias que hão de vir,
que o monte do templo do Senhor
se há de erguer no cimo das montanhas
e se elevará no alto das colinas.
Ali afluirão todas as nações
e muitos povos ocorrerão, dizendo:
«Vinde, subamos ao monte do Senhor,
ao templo do Deus de Jacob.
Ele nos ensinará os seus caminhos
e nós andaremos pelas suas veredas.
De Sião há de vir a lei
e de Jerusalém a palavra do Senhor».
Ele será juiz no meio das nações
e árbitro de povos sem número.
Converterão as espadas em relhas de arado
e as lanças em foices.
Não levantará a espada nação contra nação,
nem mais se hão de preparar para a guerra.
Vinde, ó casa de Jacob,
caminhemos à luz do Senhor.
CONTEXTO
O profeta Isaías (autor dos capts. 1-39 do Livro de Isaías) nasceu por volta do ano 760 a. C., no tempo do rei Ozias. De origem nobre, parece ter vivido em Jerusalém.
Isaías sentiu-se chamado por Deus à vocação profética quando tinha cerca de vinte anos. Sabemos também que casou e teve filhos. Desconhecemos o nome da esposa, conhecida somente como “a profetiza” (Is 8,3). Quanto aos filhos, receberam nomes simbólicos: Sear Yasub (“um resto voltará” – Is 7,3) e Maher Salal Hash Baz (“toma despojos, apanha velozmente a presa” – Is 8,3). Neste pormenor, Isaías identifica-se com o profeta Oseias: toda a sua existência, inclusive no âmbito familiar, está ao serviço da mensagem que Deus lhe confia.
O carácter de Isaías pode conhecer-se suficientemente através da sua obra. É um homem decidido, sem falsa modéstia, que se oferece voluntariamente a Deus no momento do seu chamamento vocacional. Seguramente, faz parte dos notáveis do país: participa nas decisões relativas ao Reino, falando com autoridade aos altos funcionários (cf. Is 22,15) e mesmo aos reis (Is 7,10). É enérgico e nunca se deixa desanimar. É inimigo da anarquia (cf. Is 3,1-9); mas isso não significa que apoie as classes altas. Na verdade, os seus maiores ataques são dirigidos aos grupos dominantes: autoridades, juízes, latifundiários, políticos. É duro e irónico com as mulheres da classe alta de Jerusalém (cf. Is 3,16-24; 32,9-14). Defende com paixão os oprimidos, os órfãos, as viúvas (cf. Is 1,17), o povo explorado e desencaminhado pelos governantes (cf. Is 3,12-15).
Os últimos oráculos de Isaías são de 701 ou, talvez, de 689 a. C., alturas em que o rei assírio Senaquerib invadiu Judá e pôs cerco a Jerusalém. Isaías deve ter morrido poucos anos depois, embora não saibamos ao certo quando. Um apócrifo judeu do séc. I d. C. – “Ascensão de Isaías” – afirma que foi assassinado pelo rei ímpio Manassés.
O texto de Is 2,2-4 encontra-se – com algumas variantes e uma adição – em Mi 4,1-3, o que parece favorecer a hipótese de uma fonte comum, anterior a Isaías e a Miqueias, na qual os redatores dos dois livros se teriam inspirado (embora haja quem defenda, mais simplesmente, que o texto original é de Isaías e que Miqueias apenas o reproduziu com ligeiras variações).
Pelo conteúdo estamos, provavelmente, diante de um oráculo inspirado nas grandes movimentações de peregrinos que, por alturas das festas, sobem para Jerusalém. Imaginemos, como hipótese, que o poeta contempla, a partir do monte Sião, a chegada das caravanas que acorrem em peregrinação para celebrar uma festa popular – por exemplo, a festa das Tendas… Ele nota que essas caravanas procedem de todas as partes do território habitado pelo Povo de Deus; vê-as convergir para a cidade santa, subir pela colina em direção ao Templo onde reside Deus; à medida que se aproximam, o poeta ouve distintamente os “cânticos de ascensão” com que os peregrinos saúdam o Senhor e pedem a paz para Jerusalém e para toda a nação… Subitamente, na fantasia do poeta, a cena transforma-se: ele vê, num futuro sem data definida, uma multidão de povos de todas as raças e nações que, atraídas por Javé, se dirigem ao encontro da salvação de Deus. É, provavelmente, um “sonho” destes que dá origem a este oráculo escatológico. Estamos diante de um dos oráculos mais inspirados e mais belos de todo o Antigo Testamento.
MENSAGEM
Na visão do profeta, o “monte do Senhor” (o monte sobre o qual está construído o Templo de Jerusalém, o lugar onde Deus reside no meio do Seu povo) eleva-se e transforma-se no centro do mundo, sobressaindo entre todos os montes, não por ser o mais alto, mas por ser a morada de Javé (vers. 2a.b). De todo o lado chegam caravanas de povos e de nações que confluem para a cidade santa e sobem montanha acima, ao encontro do Senhor (vers. 2c-3a)… Quem foi que convocou todas essas pessoas, que força as atrai?
A resposta está no próprio cântico que acompanha a caminhada de toda esta gente: “vinde, subamos ao monte do Senhor, ao templo do Deus de Jacob. Ele nos ensinará os seus caminhos e nós andaremos pelas suas veredas. De Sião há de vir a lei e de Jerusalém a palavra do Senhor” (vers. 3b.c.d.e). Todos esses que chegam vêm atraídos por Javé e pela força irresistível da Sua Palavra; querem conhecer o ensinamento (a Tora, a Lei de Deus) e ser instruídos nos caminhos de Deus. A Palavra salvadora e libertadora de Javé atrai e agarra todos os povos, lança-os num movimento único e universal, reúne-os à volta do mesmo Deus, o soberano universal.
À medida que todos se juntam à volta de Deus, escutam a sua Palavra e aprendem os seus caminhos, as divisões, as hostilidades, os conflitos que dividem os povos vão-se desvanecendo. Primeiro, todos aceitam a arbitragem justa e pacífica de Deus (vers. 4a); depois, compreendem que não são necessárias armas: as máquinas de guerra transformam-se em instrumentos pacíficos de trabalho e passam a servir para cultivar a terra (vers. 4b.c.d). Do encontro com Deus e com a sua Palavra, resulta a harmonia, o progresso, o entendimento entre os povos, a vida em abundância, a paz universal.
Este quadro é o reverso de Babel… Na história da torre de Babel (cf. Gn 11,1-9), os homens escolheram o confronto com Deus, o orgulho e a autossuficiência; e isso conduziu à divisão, ao conflito, à confusão, à falta de entendimento, à dispersão… Agora, os homens escolheram escutar Deus e seguir os caminhos indicados por Ele; o resultado é a reunião de todos os povos, o entendimento, a harmonia, o progresso, a paz universal.
Quando se concretizará, finalmente, esta magnífica utopia da paz universal e da comunhão fraterna de todos os povos e nações?
INTERPELAÇÕES
- A utopia sonhada pelo profeta Isaías começa a realizar-se em Jesus. Ele é a Palavra viva de Deus, que Se fez carne e veio habitar no meio de nós (cf. Jo 1,14), a fim de trazer a “paz aos homens” amados por Deus (cf. Lc 2,14). Da escuta dessa Palavra, nasce a comunidade universal da salvação, animada pelo Espírito e aberta a todos os povos da terra (cf. At 2,5-11). Se é verdade que esta “história de salvação” tem a marca da iniciativa divina, também é verdade que o homem tem de responder positivamente à ação de Deus: o profeta alude a gentes de todo o lado que, correspondendo ao apelo de Deus, se põem a caminho em direção ao “monte do Senhor”. Sim, Deus chama; mas aqueles que escutam esse chamamento têm de abandonar a vida cómoda em que estão instalados e partir ao encontro de Deus, dispostos a acolher a Palavra de Deus e a deixarem-se transformar por ela. Nós estamos precisamente a começar a nossa caminhada de advento. O caminho que temos à frente, nestes dias, leva-nos ao encontro de Jesus. Estamos dispostos a deixar para trás as nossas certezas, as nossas seguranças, os nossos cómodos espaços de conforto, os nossos velhos hábitos e preconceitos, para ir ao encontro de Jesus? Estamos dispostos a acolher Jesus na nossa vida, a escutar a sua Palavra, a aderir a essa proposta de vida que Jesus nos veio fazer? O que tencionamos fazer, nesta caminhada de advento, para que no nosso coração e na nossa vida haja espaço para Jesus?
- A verdade é que, mais de dois mil anos depois de Jesus, a utopia sonhada pelo profeta Isaías, parece absurdamente distante… A história dos homens continua a ser manchada pela violência, pelo ódio e pelo sangue derramado; a humanidade continua a recorrer à guerra e ao conflito para resolver os diferendos; a ambição dos grandes do mundo continua a lançar as nações umas contra as outras; o diálogo entre as nações e os acordos de paz parecem, tantas e tantas vezes, contaminados por um cinismo atroz; a injustiça e a exploração continuam a fazer crescer, a cada momento, o número de homens e mulheres condenados a uma vida sem sentido e sem esperança; milhões e milhões de homens e mulheres continuam todos os dias a ser atirados para fora da história e abandonados nas bermas da estrada que a humanidade percorre… Jesus falhou, ou somos nós que nos recusamos a acolher as indicações que Ele nos veio dar? O que é que está a impedir ou a atrapalhar a chegada desse mundo de justiça e de paz que Isaías anunciou? Qual a nossa responsabilidade pessoal no “adiamento” desse mundo novo de paz, de justiça e de fraternidade? Que podemos fazer para que o sonho de Isaías – o sonho de todos os homens de boa vontade – se concretize?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 121 (122)
Refrão: Vamos com alegria para a casa do Senhor.
Alegrei-me quando me disseram:
«Vamos para a casa do Senhor».
Detiveram-se os nossos passos
às tuas portas, Jerusalém.
Para lá sobem as tribos, as tribos do Senhor,
segundo costume de Israel, para celebrar o nome do Senhor;
ali estão os tribunais da justiça,
os tribunais da casa de David.
Pedi a paz para Jerusalém:
«Vivam seguros quantos te amam.
Haja paz dentro dos teus muros,
tranquilidade em teus palácios».
Por amor de meus irmãos e amigos,
pedirei a paz para ti.
Por amor da casa do Senhor,
pedirei para ti todos os bens.
LEITURA II – Romanos 13, 11-14
Irmãos:
Vós sabeis em que tempo estamos:
Chegou a hora de nos levantarmos do sono,
porque a salvação está agora mais perto de nós
do que quando abraçámos a fé.
A noite vai adiantada e o dia está próximo.
Abandonemos as obras das trevas
e revistamo-nos das armas da luz.
Andemos dignamente, como em pleno dia,
evitando comezainas e excessos de bebida,
as devassidões e libertinagens, as discórdias e os ciúmes;
não vos preocupeis com a natureza carnal,
para satisfazer os seus apetites,
mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo.
CONTEXTO
Roma, a capital do império, era, na época de Paulo, uma cidade com cerca de um milhão de habitantes. Neste número estavam incluídos cerca de 50.000 judeus.
Não se conhece, com pormenor, a origem da comunidade cristã de Roma. Provavelmente, o cristianismo chegou a Roma levado por judeus palestinos convertidos a Cristo. Uma antiga tradição diz que foi Pedro quem anunciou o Evangelho em Roma, por volta do ano 42, e que da sua pregação resultou uma florescente comunidade cristã. No entanto, essa informação não é certa. Paulo, na carta que escreve aos cristãos de Roma, não lhe faz qualquer referência.
Paulo decide escrever aos cristãos da comunidade de Roma quando está prestes a terminar a sua terceira viagem missionária. Prepara-se para retornar à Palestina, onde vai entregar os donativos recolhidos em diversas igrejas do oriente, destinados a ajudar financeiramente os cristãos de Jerusalém. Sente, contudo, que terminou a sua missão no Mediterrâneo oriental, pois as igrejas que fundou e acompanhou estão organizadas e já podem caminhar sozinhas. Tem planos para se dirigir para ocidente, pensando inclusive em ir até à Espanha para aí anunciar o Evangelho (cf. Rm 15,24-28).
Dirigindo-se por carta aos cristãos de Roma, Paulo aproveita para estabelecer laços com eles e para lhes apresentar os principais problemas que o preocupam, entre os quais sobressai a questão da unidade (um problema que a comunidade cristã de Roma, afetada por dificuldades de relacionamento entre judeo-cristãos e pagano-cristãos, conhecia bem). Com serenidade e lucidez, evitando qualquer polémica, expõe-lhes as linhas mestras do Evangelho que anuncia. A Carta aos Romanos é uma espécie de resumo da teologia paulina. Estamos no ano 57 ou 58.
Na primeira parte da Carta (cf. Rm 1,18-11,36), Paulo vai fazer notar aos cristãos divididos que o Evangelho é a força que congrega e que salva todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Embora o pecado seja uma realidade universal, que afeta todos os homens (cf. Rm 1,18-3,20), a “justiça de Deus” dá vida a todos, sem distinção (cf. Rm 3,1-5,11); e é em Jesus Cristo que essa vida se comunica e que transforma o homem (cf. Rm 5,12-8,39). Batizado em Cristo, o cristão morre para o pecado e nasce para uma vida nova. Passa a ser conduzido pelo Espírito e torna-se filho de Deus; libertado do pecado e da morte, produz frutos de santificação e caminha para a Vida eterna. Na segunda parte da carta (cf. Rm 12,1-15,13) Paulo, de uma forma bastante prática, exorta os cristãos a viverem de acordo com o Evangelho de Jesus.
O texto que hoje nos é proposto pertence à segunda parte da carta. Depois de exortar os cristãos que pertencem à comunidade de Roma ao amor mútuo (cf. Rm 13,8-10), Paulo deixa-lhes uma recomendação sobre a forma de esperar o Senhor que vem.
MENSAGEM
Quando Jesus deixou o mundo e reentrou na glória do Pai, começou a última fase da história da salvação. É o “tempo da Igreja”, o tempo em que os discípulos de Jesus, conduzidos pelo Espírito, caminham na história e dão testemunho no mundo da salvação de Deus. Esta fase chegará ao seu termo quando Cristo vier novamente, no final dos tempos. Entretanto, como é que os discípulos de Jesus devem viver até lá? Qual a atitude que eles devem ter enquanto esperam a vinda do Senhor?
Paulo lembra aos cristãos de Roma – e aos cristãos de todos os tempos e lugares – que o tempo está a passar e que, em cada dia, estão a aproximar-se do encontro definitivo com Deus (vers. 11). Diz mesmo: “a noite vai adiantada e o dia está próximo” (vers. 12). Paulo pensava, provavelmente, na vinda mais ou menos iminente de Jesus Cristo, a fim de concluir a história da salvação; no entanto, a ausência de especulações apocalípticas mostra claramente que o interesse de Paulo não é no “quando” e no “como”, mas no significado e nas consequências dessa vinda.
Na perspetiva de Paulo, o fundamental é que os discípulos de Jesus não se deixem adormecer. “Adormecer”, no entendimento de Paulo, é instalar-se numa vida que esteja em contradição com os valores do Evangelho; é acomodar-se à mediocridade, ancorar a existência em valores que não dão sentido pleno à vida. O apóstolo fala, concretamente, em “comezainas e excessos de bebida”, “devassidões, libertinagens, discórdias e ciúmes” (vers. 13). Isso é, para Paulo, “viver nas trevas”.
O cristão, no entanto, quando fez a opção por Jesus, abandonou as obras das trevas. O seu horizonte passou a ser outro; nasceu para uma nova realidade, para uma vida nova, liberta do egoísmo e do pecado. Revestiu-se de Cristo e, iluminado por Cristo, vive na fé, no amor, no serviço, no perdão, dando testemunho da vida de Deus no meio dos seus irmãos (vers. 14). Agora identifica-se com Cristo e é um homem novo. Vive na luz. Mantém-se acordado, atento, vigilante, para não mergulhar outra vez nas trevas. Caminha ao encontro de Cristo, de olhos postos na vida que há de vir. Sabe para onde vai e não se deixa tentar por caminhos que não conduzem a lado nenhum. É dessa forma que os crentes esperam o Senhor que vem.
INTERPELAÇÕES
- O apóstolo Paulo deixa aos cristãos de Roma diversas recomendações para o caminho… Numa delas pede-lhes que abandonem “as obras das trevas” e se revistam das “armas da luz”. As sugestões de Paulo continuam válidas, vinte séculos depois. Em pleno séc. XXI há diversas nuvens sombrias a pairar sobre o mundo, a ameaçar as nossas vidas e pôr em causa o nosso futuro. Recorremos à guerra para resolver os conflitos e as diferenças entre os homens; continuamos a produzir armas de destruição maciça para “garantir a paz”; exploramos a natureza até limites impossíveis, degradamos o ambiente, colocamos em risco a sustentabilidade do planeta; multiplicamos as estruturas que produzem mentira, injustiça, exploração, opressão, sofrimento, morte; alimentamos visões egoístas da vida e deixamos para trás, abandonados na berma do caminho que a humanidade percorre, os mais frágeis, os mais necessitados, os mais pobres… Queremos mesmo continuar a construir uma história onde as “obras das trevas” têm tanta preponderância? Sentimo-nos, de algum modo, responsáveis pelo poder que as “obras das trevas” têm no nosso mundo e no destino de tantos homens e mulheres? Da nossa parte, o que podemos fazer para que as “obras das trevas” não atirem a humanidade para um beco sem saída?
- Paulo, a propósito de “abandonar as obras das trevas” também nos alerta para o nosso estilo pessoal de vida, para os nossos valores pessoais, para os “deuses” que colocamos no centro das nossas vidas, para as coisas a que damos importância primordial… Pede-nos, por exemplo, para evitarmos “as comezainas e os excesso de bebida, as devassidões e libertinagens, as discórdias e os ciúmes”. Ele está convicto de que tudo isso é incompatível com o viver “em Cristo”. Quando alguém opta por Jesus e se torna seu discípulo – Paulo chama a isso “revestir-se de Cristo” – afasta-se de tudo aquilo que contradiz a simplicidade, a integridade, a verdade do Evangelho. Na nossa vida pessoal praticamos as “obras da luz”? Quais são as nossas prioridades, os valores fundamentais que colocamos na base da nossa existência? O nosso estilo pessoal de vida é compatível com as exigências do Evangelho que Jesus nos deixou?
- Talvez sejamos pessoas generosas, de boa intenção e de boa vontade, que acolheram o chamamento de Jesus e que optaram por abraçar o projeto que Ele veio apresentar aos homens… No entanto, por mais verdadeira e sincera que tenha sido a nossa adesão a Jesus, temos que reencontrar-nos a cada passo com essa nossa opção inicial. Com o passar do tempo, com a monotonia, com o cansaço que a vida traz, com a preguiça que sempre nos espreita, temos uma tendência natural para “adormecer”, para cair na no comodismo, na passividade, na inércia. Então, deixamos correr as coisas e o nosso compromisso com Jesus e o Evangelho vai-se esbatendo. É uma tendência natural, que é preciso contrariar. Por isso, Paulo diz-nos: “acordai!; renovai o vosso entusiasmo pelos valores do Evangelho; é preciso estar preparado – sempre preparado – para acolher o Senhor que vem”. Mantemo-nos atentos, despertos, vigilantes, a fim de que a nossa vida seja coerente com os compromissos que assumimos, enquanto discípulos de Jesus?
- Paulo, com os pés bem assentes na terra, reconhece as sombras que cobrem o mundo. No entanto, o olhar que ele lança sobre a história dos homens é um olhar de esperança: “o Senhor vem! A noite vai adiantada e o dia está próximo”. Deus não nos abandona; Ele vem ao nosso encontro para nos libertar e para construir connosco um mundo novo de justiça e de paz. Neste tempo de advento, preparamo-nos para celebrar a vinda de Jesus à história dos homens. Por muito que nos inquietem as trevas que envolvem o mundo, a presença do Filho de Deus no meio de nós garante-nos que a injustiça, a exploração, o sofrimento, a morte não são o final inevitável deste caminho que estamos a percorrer. O mal não triunfará; a última palavra que a história vai ouvir é a Palavra libertadora e salvadora de Deus. Somos sustentados por esta esperança? Damos ao mundo e aos homens um testemunho de esperança?
ALELUIA – Salmo 84, 8
Aleluia. Aleluia.
Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia
e dai-nos a vossa salvação.
EVANGELHO – Mateus 24, 37-44
Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Como aconteceu nos dias de Noé,
assim sucederá na vinda do Filho do homem.
Nos dias que precederam o dilúvio,
comiam e bebiam, casavam e davam em casamento,
até ao dia em que Noé entrou na arca;
e não deram por nada,
até que veio o dilúvio, que a todos levou.
Assim será também na vinda do Filho do homem.
Então, de dois que estiverem no campo,
um será tomado e outro deixado;
de duas mulheres que estiverem a moer com a mó,
uma será tomada e outra deixada.
Portanto, vigiai,
porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor.
Compreendei isto:
se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão,
estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa.
Por isso, estai vós também preparados,
porque na hora em que menos pensais,
virá o Filho do homem.
CONTEXTO
Os capítulos 24 e 25 do Evangelho segundo Mateus apresentam o último grande discurso de Jesus antes da sua paixão e morte. Para compô-lo, Mateus reelaborou o chamado “discurso escatológico” de Marcos (cf. Mc 13), ampliando-o e mudando substancialmente o tema central: se no discurso transmitido por Marcos a questão principal é a dos sinais que precederão a destruição de Jerusalém e do Templo, no discurso reelaborado por Mateus a temática central é a vinda do Filho do homem e a forma como os discípulos de Jesus devem preparar essa vinda.
Esta mudança de perspetiva pode explicar-se a partir da situação da comunidade de Mateus no início da década de 80 do primeiro século (a época em que o Evangelho de Mateus é composto). Havia dez anos que Jerusalém tinha sido destruída pelas tropas de Tito e ainda não tinha acontecido a segunda vinda de Jesus. Os crentes estavam desanimados, desiludidos e acomodados… Mateus via com preocupação os sinais de relaxamento, de desleixo, de esmorecimento que iam aparecendo por todo o lado e sentia que era preciso reavivar a fé, a paixão por Jesus e pelo Evangelho, o compromisso com o Reino de Deus. Nas palavras que Jesus um dia dirigiu aos discípulos em Jerusalém, pouco antes da sua morte, a propósito do final dos tempos, Mateus encontrou uma mensagem desafiante, capaz de acordar os cristãos e de os motivar para uma vida mais comprometida.
A linguagem destes capítulos é estranha e enigmática… Trata-se, no entanto, de um género frequentemente usado por alguns grupos judeus e cristãos da época de Jesus. É a linguagem “apocalíptica”, porque o seu objetivo é “revelar algo escondido” (“apocaliptô”). Dirigido a comunidades que vivem numa situação de sofrimento, de desespero, de perseguição, o discurso apocalíptico propõe-se animar os crentes, dar-lhes esperança, mostrar-lhes que a vitória final será de Deus e dos que souberem manter-se fiéis até ao fim.
Uns dias antes da sua paixão e morte, Jesus e os discípulos tinham saído do Templo de Jerusalém e tinham parado a ver “as construções do Templo” (Mt 24,1). Por essa altura, as obras de ampliação e de restauração do templo, iniciadas no ano 19 a.C. pelo rei Herodes, continuavam (só foram concluídos por volta do ano 63 d.C.) e enchiam de admiração todos os que por ali passavam. A área do templo ocupava uma superfície de mil e quinhentos metros quadrados e as pedras utilizadas na construção chegavam a ter vinte metros de comprimento. Coberto de mármore branco, o templo refletia os raios do sol e brilhava como uma joia preciosa. As portas tinham incrustações de ouro e no interior havia tapeçarias de linho finíssimo de cor azul, escarlate e púrpura. Jesus comentou: “vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra: tudo será destruído” (Mt 24,2). Depois, Jesus e os discípulos atravessaram o vale do Cedron e subiram o Monte das Oliveiras. Aí sentaram-se por um momento a descansar e a contemplar a cidade. Os discípulos, impressionados pelo comentário de Jesus, pediram-Lhe: “diz-nos quando acontecerá tudo isto e qual o sinal da tua vinda e do fim do mundo” (Mt 24,3). O “discurso escatológico” surge na sequência desse pedido.
O trecho que a liturgia deste domingo nos convida a escutar integra a segunda parte do “discurso escatológico” (cf. Mt 24,36-25,46). Aí Jesus refere-se, sobretudo, à forma como os seus discípulos devem viver enquanto esperam a vida definitiva do Senhor.
MENSAGEM
Há uma verdade que deve estar sempre no horizonte dos discípulos de Jesus: a segunda vinda do Senhor é certa. Essa convicção deve condicionar a forma como os discípulos se situam perante a vida.
Será possível saber o dia e a hora em que isso acontecerá? Jesus recusa-se a alinhar em previsões desse tipo (“quanto àquele dia e àquela hora, ninguém o sabe: nem os anjos do céu, nem o filho; só o Pai” – Mt 24,36). De resto, mais bem importante do que saber o dia certo e a hora exata é estar preparado para o encontro com o Senhor que vem. Nesse sentido, Jesus recomenda aos discípulos que se mantenham vigilantes e vivam com sentido de responsabilidade. Para que os discípulos tenham plena consciência do que está em jogo, Jesus recorre a três exemplos bem expressivos.
O primeiro (vers. 37-39) traz-nos o quadro da humanidade na época de Noé (cf. Gn 6-8). Nessa altura, os homens viviam numa alegre inconsciência, preocupados unicamente em aproveitar o momento e em gozar a vida o melhor possível (“nos dias que precederam o dilúvio, comiam e bebiam, casavam e davam em casamento” – vers. 38). Quando o dilúvio chegou, de improviso, apanhou-os de surpresa (vers. 39). Só Noé e a sua família estavam preparados: entraram na “arca” que tinham construído, salvaram as suas vidas, tornaram-se a semente de uma nova humanidade. Se o “gozar” a vida ao máximo for para o homem a prioridade fundamental, ele arrisca-se a passar ao lado daquilo que é importante e a não cumprir o seu papel no mundo. Não estará preparado quando o Senhor vier ao seu encontro.
O segundo (vers. 40-41) coloca-nos diante de duas situações da vida quotidiana: o trabalho nos campos e a moagem do trigo para fazer o pão. Uma e outra pertencem ao quadro banal da vida de todos os dias. Será aí – na “faina” habitual de todos os dias – que Jesus nos encontrará quando vier ao nosso encontro. Estaremos preparados para Ele e para os desafios que Ele nos traz? Embalados pelo ritmo trivial dos nossos afazeres e compromissos diários, podemos correr o risco de estreitar os nossos horizontes e de perder de vista aquilo que dá pleno sentido à nossa existência. Apesar da monotonia, da fadiga, da acomodação, temos de manter-nos vigilantes e atentos para reconhecermos o Senhor que, de repente, se apresenta na nossa vida.
O terceiro (vers. 43-44) refere o caso de um homem que, em lugar de permanecer vigilante, adormece e deixa a sua casa desprotegida. Se um ladrão aparecer, a meio da noite, o dono da casa não conseguirá impedi-lo de se apossar dos bens ali guardados. “Adormecer”, descuidar a vigilância, pode significar perder coisas verdadeiramente importantes, até mesmo falhar a vida.
Como devemos viver, nós que caminhamos pela história e que nos defrontamos todos os dias com as vicissitudes, as contrariedades, as alegrias e as tristezas que a vida nos vai trazendo? Jesus responde: “deveis viver atentos, vigilantes, preparados”. Jesus não entra em pormenores e não explica em que consiste essa vigilância e essa preparação; mas os discípulos que O escutam sabem bem do que Ele fala: têm de viver cumprindo a cada instante, com empenho e responsabilidade, o papel que Deus lhes confiou; têm de olhar permanentemente à volta para detetar, escutar e abraçar os desafios sempre novos que Deus lhes vai colocando no caminho.
INTERPELAÇÕES
- Os evangelhos registaram, de diversas formas, uma das mais profundas preocupações de Jesus em relação aos seus discípulos: que eles, com o decorrer do tempo, deixassem enfraquecer o entusiasmo inicial, perdessem a capacidade de se sentirem provocados pelo Evangelho, se instalassem numa fé “morna” e numa religião rotineira, se acomodassem numa “zona de conforto” sem exigência nem risco, cedessem ao facilitismo e ao “deixa andar” da maioria. Por isso, Jesus não se cansava de recomendar-lhes: “vigiai”, “vivei despertos”, “estai sempre preparados”. Jesus tinha razão: o grande perigo que nos espreita é precisamente essa conformação e esse adormecimento que nos roubam a capacidade de sermos “sal da terra e luz do mundo”. O cansaço, a monotonia, a preguiça, o conformismo vão enfraquecendo a nossa decisão, o nosso compromisso, a nossa capacidade de dar testemunho profético e de nos empenharmos na construção do Reino de Deus. Enquanto discípulos de Jesus, enviados por Ele a anunciar e a construir o Reino de Deus, como nos sentimos: entusiasmados e comprometidos, ou acomodados e desanimados? Continuamos atraídos por Jesus e pelo seu projeto, ou vivemos distraídos por todo o tipo de questões secundárias? Ainda temos vontade de seguir atrás de Jesus e de viver ao seu estilo, ou vivemos tranquilamente e sem exigência, vogando simplesmente ao sabor da corrente?
- “Vigiar” é, antes de mais, vivermos atentos a Deus. É procurarmos a cada instante escutar o seu chamamento, os apelos que Ele nos faz, os desafios que Ele constantemente nos deixa; é encontrarmos tempo e espaço para dialogarmos com Deus; é procurarmos compreender a vontade de Deus a nosso respeito e obedecermos àquilo que Ele nos pede; é não permitirmos que outros deuses tomem conta do nosso coração e da nossa vida. “Vigiar” é não perdermos de vista Jesus, esforçarmo-nos por viver ao seu estilo, segui-l’O sem hesitações no caminho do amor e do dom da vida; é insistirmos em ver a vida como Jesus a via, em olhar os nossos irmãos com o olhar de Jesus, em compreender o mundo com a compreensão de Jesus; é nunca desistirmos de sonhar com Jesus o “sonho” do Reino de Deus e empenharmo-nos a cada instante em torná-lo realidade; é deixarmo-nos interpelar constantemente pelo Evangelho, assentarmos a nossa vida de todos os dias sobre os valores que ele aponta. Deus é, a cada instante, o centro da nossa existência? Vivemos constantemente atentos ao caminho que Jesus nos aponta?
- “Vigiar” é, também, “olhar com olhos de ver” o mundo que nos rodeia. Muitas vezes vivemos numa alegre inconsciência, anestesiados pelo nosso conforto e bem-estar, isolados no nosso pequeno mundo, sem repararmos nas realidades que nos cercam e sem nos preocuparmos com os problemas que afligem os nossos irmãos. Concentramo-nos apenas nos nossos interesses particulares, nas nossas preocupações pessoais, nos nossos projetos estreitos. Caminhamos indiferentes à sorte dos pobres, dos abandonados, dos “pequeninos”, daqueles cuja voz nunca se faz ouvir, daqueles que os acidentes da vida e a maldade dos homens atiraram para a berma da estrada da vida. Para não nos desgastarmos nem incomodarmos, preferimos ignorar tudo aquilo que desfeia o mundo e que traz sofrimento à vida dos homens. Jesus aprovaria uma opção deste tipo? Podemos alhear-nos das realidades do mundo e do sofrimento dos nossos irmãos como se isso não nos dissesse respeito?
- Começamos hoje a nossa caminhada de advento. Não se trata de um “caminho” geográfico, mas sim de um “caminho” espiritual. Ao longo deste “caminho” preparamo-nos para acolher o Senhor que vem. Nesta primeira etapa do caminho do advento, a palavra-chave que a liturgia nos propõe é “vigiai”. Não podemos continuar distraídos, a perder tempo com coisas sem valor, a enterrarmo-nos na lama dos caminhos que não levam a nenhum lado, a deixar-nos enredar em interesses mesquinhos e fúteis. Se insistirmos em continuar a olhar para o chão, provavelmente iremos passar pelo Senhor que vem ao nosso encontro sem o reconhecer e sem o acolher. Talvez seja boa ideia fazermos uma lista das coisas que tolhem os nossos passos, que nos roubam a liberdade, que não deixam espaço no nosso coração para o Senhor que vem… Comprometemo-nos a elaborar essa lista? Iremos cortar da nossa vida tudo aquilo que nos impede de caminhar ao encontro de Jesus?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 1.º DOMINGO DO ADVENTO
(adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)
A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 1º Domingo do Advento, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
GESTO DE RECOLHIMENTO E DE ACOLHIMENTO:
O gesto-símbolo para este primeiro domingo poderia ser: começar por nos sentarmos em silêncio, depois do presidente da assembleia ter dito, por exemplo: “Irmãos e irmãs, façamos silêncio, é preciso vigiar, o Senhor vem…”. Depois, após um bom momento de recolhimento, entoa-se o cântico de entrada seguido da palavra de acolhimento; ou o presidente profere umas palavras de acolhimento, seguindo-se o cântico de entrada.
FAZER A PROCISSÃO DO LIVRO DA PALAVRA.
Depois da oração de coleta, que conclui o rito de abertura da celebração, o lecionário é trazido do fundo da igreja por um leigo, rodeado de quatro crianças com velas acesas ou lamparinas. Depois da leitura do Evangelho, o lecionário é colocado, aberto, num lugar preparado e visível para toda a assembleia.
BILHETE DE EVANGELHO.
Aos homens sem armas, Deus promete a vitória da Paz. Um homem desarmado é um homem vulnerável… mas ele pode também desarmar os violentos que lhe fazem face. Jesus veio precisamente desarmar os homens. Apresenta-Se como “Príncipe da Paz”. Proclama felizes os construtores de Paz, porque a Paz é uma obra: faz-se a Paz, infelizmente também se faz a guerra. Neste período da nossa história marcado pela violência, apresentemo-nos sem armas: apenas com a da reconciliação, dando um passo; a do diálogo, escutando e falando; a do respeito, olhando e ousando falar; a da solidariedade, estendendo a mão… Os desarmados não são pessoas que baixam os braços dizendo: “nunca se conseguirá!” A vitória é-lhes assegurada pelo próprio Deus: “Glória a Deus e paz na terra aos homens por Ele amados!”
ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Bendito sejas, Deus nosso Pai! Numa humanidade ferida pelas espadas e pelas lanças das querelas e das guerras, Tu revelaste o caminho da paz, comunicando a Palavra e instruindo o teu povo.
Nós Te pedimos pelas Igrejas espalhadas por todo o universo: que elas irradiem a tua luz para traçar no mundo o caminho da paz.
No final da segunda leitura:
Deus Nosso Pai, nós Te bendizemos pelo tempo da salvação: Tu nos anuncias o fim da noite e a vinda do dia, e em cada domingo se torna presente a ressurreição do teu Filho, Jesus, nosso irmão.
Nós Te pedimos por nós mesmos: guarda-nos das atividades das trevas, reveste-nos para o combate da luz, reveste-nos do Senhor Jesus.
No final do Evangelho:
Nós Te damos graças, ó Pai, pela tua vigilância e pela tua solicitude: mesmo nas infelicidades da nossa terra, Tu vigias os teus fiéis, com atenção e bondade.
Nós Te pedimos ainda: que o teu Espírito nos torne atentos e preparados, que o teu Filho Jesus nos encontre em situação de vigilância, na oração e na atenção ao próximo.
ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística III, por se relacionar mais explicitamente com os textos da liturgia da Palavra de hoje…
PALAVRA EXPLICADA 1: SIÃO.
SIÃO. É a antiga denominação do lugar de Jerusalém, antes da instalação dos Hebreus. Em sentido estrito, este nome designa a colina sul da cidade, mas foi estendido em seguida a toda a cidade (2Re 19,31). É aplicado, em particular, ao lugar do templo (Is 2,3, primeira leitura deste domingo), como lugar da presença de Deus (Am 1,2). A população da cidade era chamada “Filha de Sião”, como é indicado pelos Evangelhos para a entrada de Jesus em Jerusalém (Mt 21,5 e Jo 12,15, que citam Zac 9,9 e Is 62,11). Nas visões cristãs do mundo que virá, o monte Sião é transposto para o céu, para a grande reunião da multidão dos eleitos (os 144.000 segundo Ap 14,1), na cidade celeste do Deus vivo (Heb 12,22). Antigas tradições cristãs situavam igualmente, nesta mesma colina de Sião, o local (chamado cenáculo) no qual Jesus tinha celebrado a Ceia, considerando também como o lugar onde se encontravam os apóstolos no Pentecostes (At 2,1). Nesta compreensão, Sião era, pois, o lugar de nascimento da Igreja. Na liturgia, isso orientou a compreensão dos salmos, que evocam Sião e a sua aplicação à Igreja.
PALAVRA EXPLICADA 2: VIGÍLIA.
VIGÍLIA. A oração na noite é uma originalidade cristã, como testemunham já os Atos a propósito da prisão de Pedro (12,12), depois de Paulo e de Silas (16,25), e a propósito do encontro de Troas (20,7). Por volta do ano 250, um regulamento de comunidade (“Tradição Apostólica” 41) justificava a vigília pela parábola do cortejo nupcial e o convite de Cristo a vigiar (Mt 25,6.13), para acrescentar: “os antigos que transmitiram a tradição ensinaram-nos assim que a esta hora toda a criação repousa um momento para louvar o Senhor: os astros, as árvores, as águas e todos os anjos, com as almas dos justos. Eis a razão pela qual aqueles que creem devem apressar-se em rezar a esta hora”. Do século IV veio-nos o testemunho de São Basílio de Cesareia: “Entre nós, durante a noite, o povo levanta-se para se dirigir à casa de oração. Depois de passar a noite numa salmodia repartida em vários coros e na qual intercalam orações, quando o dia começa já a aparecer, todos juntos, numa só voz e num só coração, fazem subir para o Senhor o salmo da confissão”.
ATENÇÃO ÀS CRIANÇAS: Pensar em Jesus!
Durante a celebração, se houver a coroa de Advento com as quatro velas, pode-se pedir às crianças para acender a primeira vela, com uma palavra de introdução. Mas pode-se também pensar em algo relacionado com as palavras de Jesus no Evangelho: “na hora em que menos pensais…” No fundo, ao longo dos dias, pensamos regularmente em Jesus? Um modo de fazer as crianças pensar em Jesus é entregar a cada uma, no final da celebração, uma pequena carta, com o título: “Advento 2016 – Eu penso em ti, Jesus!” E, por baixo, as crianças anotarão, durante a semana, os momentos em que terão pensado em Jesus.
PALAVRA PARA O CAMINHO.
Vigiai! Para esperar o quê? Ou quem? Que esperamos concretamente? Vigiai! Como no tempo de Noé ou de Jesus, estamos absorvidos por tantos interesses! Vigiai! A vida é curta! Paulo indica-nos alguns meios muito práticos para ficar vigilantes e reorientar a nossa espera. Vigiai! Em tempo de Advento, em cada dia da semana que nos é dada para viver
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
www.dehonianos.org