04º Domingo do Tempo Comum – Ano A [atualizado]

ANO A

4.º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Tema do 4.º Domingo do Tempo Comum

Como podemos construir uma existência que faça sentido e que não corra o risco de fracassar? Sobre que valores devemos assentar a construção do edifício da nossa vida? As leituras que a liturgia nos convida a escutar no quarto domingo comum respondem a estas questões. Convidam-nos a confiar completamente em Deus e a colocar n’Ele – e só n’Ele – a nossa esperança; desafiam-nos a seguir atrás de Jesus e a viver ao seu estilo.

Na primeira leitura, o profeta Sofonias deixa aos seus contemporâneos um convite a viverem como humildes e pobres. Os “pobres” são aqueles que, não possuindo bens materiais nem seguranças humanas, tendem a depositar toda a sua confiança e esperança em Deus; são aqueles que encontram em Deus refúgio, conforto e felicidade. Eles são os preferidos de Deus. Deus cuidará deles e acompanhá-los-á em cada passo do caminho que percorrem.

Na segunda leitura, o apóstolo Paulo pede aos cristãos de Corinto que não apostem na sabedoria humana como caminho para construir uma vida com sentido. Paulo propõe-lhes, em contrapartida, que acolham a “loucura da cruz” e que optem por seguir Jesus incondicionalmente, vivendo ao seu estilo, abraçando os valores que Ele abraçou, percorrendo com Ele o caminho do amor e do dom da vida. É aí que está a verdadeira sabedoria, a sabedoria que conduz à salvação e à vida plena.

No Evangelho Jesus apresenta a magna carta do Reino de Deus. Recuperando uma linguagem frequente na tradição bíblica e judaica, Jesus apresenta oito “bem-aventuranças”, oito portas para entrar na comunidade do Reino de Deus, oito propostas que definem o estilo de vida que os seus seguidores devem adotar, oito “apontadores” que mostram como construir uma vida feliz e com sentido. Nas oito bem-aventuranças, Jesus oferece aos seus discípulos um resumo perfeito do seu Evangelho.

 

LEITURA I – Sofonias 2,3; 3,12-13

Procurai o Senhor, vós todos os humildes da terra,
que obedeceis aos seus mandamentos.
Procurai a justiça, procurai a humildade;
talvez encontreis proteção no dia da ira do Senhor.
Só deixarei ficar no meio de ti um povo pobre e humilde,
que buscará refúgio no nome do Senhor.
O resto de Israel não voltará a cometer injustiças,
não tornará a dizer mentiras,
nem mais se encontrará na sua boca uma língua enganadora.
Por isso, terão pastagem e repouso,
sem ninguém que os perturbe.

 

CONTEXTO

Em 734 a.C. Acaz, rei de Judá, confrontado com a ameaça militar de uma coligação formada pelo rei de Damasco e pelo rei de Israel, pediu ajuda a Tiglat-Pileser III, rei da Assíria (cf. 2Rs 16,7). Tiglat Pileser III derrotou os dois aliados, pondo fim à ameaça contra Judá; mas, na sequência, o rei Acaz tornou-se vassalo da Assíria. Judá passou a girar na órbita política da Assíria e teve de abrir as portas às influências culturais e religiosas dos assírios (cf. 2Rs 16,10-18). Diversos costumes estranhos e cultos pagãos irromperam então em Jerusalém, pondo em causa a identidade nacional e minando a fidelidade do Povo a Javé. Essa situação manteve-se durante o longo reinado do ímpio Manassés (698-643 a.C.), altura em que o próprio rei reconstruiu os lugares de culto aos deuses estrangeiros, levantou altares ao deus Baal, ofereceu o seu filho em holocausto, dedicou-se à adivinhação e à magia, colocou no Templo de Jerusalém a imagem da deusa Astarte (cf. 2Rs 21,3-9). Paralelamente, continuavam a multiplicar-se as injustiças sociais, as arbitrariedades, as violências que danificavam o tecido social e que faziam sofrer os mais pobres. Tudo isto configurava uma grave violação da Aliança e colocava Judá fora da órbita de Deus: o povo vangloriava-se da relação especial que tinha com Javé, mas vivia completamente à margem dos mandamentos de Deus. Quando em 639 a.C. o rei Josias (639-609 a.C.) subiu ao trono, Judá estava a precisar urgentemente de uma profunda reforma política, social e religiosa. Josias, o novo rei, lançou-se a essa tarefa.

Sofonias começou o seu ministério profético por essa altura. É provável que, numa primeira fase da reforma religiosa empreendida por Josias, Sofonias tivesse sido o verdadeiro motor das mudanças que o rei pretendeu introduzir na vida da nação. Não sabemos quanto tempo durou o ministério de Sofonias. A maior parte dos biblistas prolongam-no até 625 a.C., aproximadamente.

A mensagem de Sofonias deve situar-se neste ambiente histórico. O profeta denuncia a idolatria cultual, as injustiças cometidas contra os mais pobres, o materialismo, a despreocupação religiosa, os abusos da autoridade… Consciente de que Javé não pode continuar a pactuar com o pecado de Judá, Sofonias deixa um aviso: se nada mudar, vai chegar o dia do Senhor, isto é, o dia da intervenção de Deus em que os maus serão castigados e a injustiça será banida da terra (cf. Sf 1,2-2,3). Da ira do Senhor escaparão, contudo, os humildes e os pobres, os que se mantiverem fiéis à Aliança.

O fim da pregação de Sofonias não é, contudo, anunciar um castigo irrevogável, fruto da ira de Deus contra o seu povo; mas é provocar a conversão, passo fundamental para chegar à salvação.

 

MENSAGEM

O texto que a liturgia do quarto domingo comum nos propõe como primeira leitura começa com uma exortação aos “humildes”. Convida-os a procurar o Senhor (cf. Sf 2,3).

Quem são esses humildes a quem Sofonias se dirige? São aqueles confiam em Deus e se entregam nas suas mãos, que se dispõem a seguir os caminhos de Deus, que aceitam as propostas de Deus e que não se colocam contra Ele. São, além disso, aqueles que praticam a justiça, que respeitam os direitos dos mais débeis, que não cometem arbitrariedades, que não assumem uma atitude de superioridade para com os seus irmãos, que não tratam os outros com prepotência… Equivalem aos “pobres” das bem-aventuranças. Os que vivem nessa atitude não estão perdidos: encontrarão “proteção no dia da ira do Senhor”.

No lado oposto estão os orgulhosos e autossuficientes. São os que não querem saber de Deus, que ignoram os mandamentos de Deus, que escolhem caminhos onde Deus não está. São, além disso, aqueles que praticam a injustiça, que vivem na mentira, que tratam os outros com arrogância, que não respeitam a dignidade dos seus irmãos. Esses, no “grande Dia do Senhor” – dia de ira, de angústia, de destruição e devastação, de trevas e escuridão, de nuvens e de névoas espessas, de trombetas e de alarme (Sf 1,14-16), sofrerão as consequências da indignação de Deus.

Depois, o nosso texto salta para o capítulo 3 para nos propor o quadro “pós-intervenção de Deus”. Exterminados os orgulhosos, os arrogantes e os prepotentes (cf. Sf 3,11), ficarão os pobres e os humildes: um “resto de Israel” que se entregará nas mãos do Senhor e Lhe obedecerá em tudo, que “não mais cometerá injustiças nem dirá mentiras” (cf. Sf 3,12-13). Esse “resto” será uma espécie de viveiro para o reflorescimento da nação. Daqui nascerá um povo novo, de coração transformado, capaz de viver na fidelidade a Deus e à Aliança.

Na sequência, a catequese de Israel falará sempre dos “pobres” como os preferidos de Deus. A designação “pobres” já não indica apenas um grupo economicamente débil, mas refere-se sobretudo a uma categoria de pessoas que assumem uma atitude espiritual de abertura a Deus e aos irmãos. O verdadeiro crente – o “pobre” – é aquele que é humilde, simples, pacífico, piedoso, que confia em Deus e se entrega nas suas mãos, que obedece às propostas de Deus e que é justo e solidário com os irmãos.

 

INTERPELAÇÕES

  • Os profetas são a voz de Deus que ecoa no mundo. Eles trazem-nos o sonho de Deus para o mundo e para os homens. Escutá-los é, frequentemente, questionarmo-nos sobre a forma como temos distorcido o projeto de Deus. Andamos há muitos séculos a construir um mundo e uma história onde os que “contam”, os que têm visibilidade, os que toda a gente inveja e aplaude, os que conduzem os destinos dos povos são os “fortes”, os ricos, os poderosos, os que se impõem aos outros, os que têm sede de poder e de protagonismo… Contudo, o profeta Sofonias diz-nos hoje que Deus não se revê nas lógicas, nas atitudes e nos valores dos ricos, dos orgulhosos, dos prepotentes, dos que dominam o mundo e pretendem construir a história dos homens sobre a injustiça, a mentira, a violência, a corrupção, a ganância. Sofonias, com a linguagem típica dos pregadores da sua época, garante: chegará o dia em que os orgulhosos e os prepotentes perceberão a estupidez das suas escolhas e se arrependerão pela forma como construíram as suas vidas. Nesse dia, Deus ficará do lado dos humildes e dos pobres e sentar-se-á com eles à mesa da vida eterna. O que achamos disto? O que nos sugere a preferência de Deus pelos humildes e pobres? A que tipo de gente queremos confiar a condução dos destinos dos homens e do mundo?
  • Sofonias, traduzindo em linguagem humana as indicações de Deus, deixa aos seus contemporâneos um convite a viverem como “pobres”. Os “pobres” são aqueles que, não possuindo bens materiais nem seguranças humanas, tendem a depositar toda a sua confiança e esperança em Deus. A catequese de Israel, talvez com alguma ingenuidade, apresenta-os como pessoas humildes, simples, pacíficas, bondosas, piedosas, generosas, justas, tementes a Deus, que vivem na escuta de Deus, que confiam incondicionalmente em Deus, que caminham na obediência às indicações de Deus. Deus ama-os como filhos muito queridos. O “pobre” é, no universo bíblico, o crente verdadeiro, o crente perfeito, o crente “modelo”. Identificamo-nos com este “modelo”?
  • O profeta Sofonias deixa aos seus contemporâneos um forte apelo à conversão. Diz mesmo que não há outra saída – para quem quer viver uma vida com sentido – senão optar por uma mudança efetiva, uma mudança radical na maneira de pensar e de agir. A “conversão”, na teologia profética, significa abandonar os caminhos do egoísmo, da autossuficiência, do orgulho, da mentira, da injustiça e “voltar para trás”, ao encontro de Deus; significa reencontrar-se com Deus, escutar e acolher novamente as indicações de Deus, passar a trilhar outra vez os caminhos de Deus, deixar-se guiar por Deus e pelos seus mandamentos. Pessoalmente, estamos dispostos a renunciar, na construção da nossa vida, a uma lógica de prepotência, de orgulho, de ambição, de autoritarismo, de autossuficiência? Estamos dispostos a voltar para Deus e a viver “segundo Deus”?

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 145 (146), 7.8-9a.9bc-10

Refrão 1: Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus.

Refrão 2: Aleluia.

O Senhor faz justiça aos oprimidos,
dá pão aos que têm fome
e a liberdade aos cativos.

O Senhor ilumina os olhos dos cegos,
o Senhor levanta os abatidos,
o Senhor ama os justos.

O Senhor protege os peregrinos,
ampara o órfão e a viúva
e entrava o caminho aos pecadores.

O Senhor reina eternamente.
O teu Deus, ó Sião,
é Rei por todas as gerações.

 

LEITURA II – 1 Coríntios 1, 26-31

Irmãos:
Vede quem sois vós, os que Deus chamou:
não há muitos sábios, naturalmente falando,
nem muitos influentes, nem muitos bem-nascidos.
Mas Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo
para confundir os sábios;
escolheu o que é vil e desprezível,
o que nada vale aos olhos do mundo,
para reduzir a nada aquilo que vale,
a fim de que nenhuma criatura se possa gloriar diante de Deus.
É por Ele que vós estais em Cristo Jesus,
o qual Se tornou para nós sabedoria de Deus,
justiça, santidade e redenção.
Deste modo, conforme está escrito,
«quem se gloria deve gloriar-se no Senhor».

 

CONTEXTO

Corinto, capital da Província romana da Acaia, era, no séc. I, uma cidade nova e próspera. Servida por dois portos de mar, possuía as características típicas das cidades marítimas: era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após semanas de navegação. Na cidade pontificava Afrodite, deusa do amor, em cujo tempo se praticava a prostituição sagrada. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.

Do esforço evangelizador de Paulo, entre os anos 50 e 52, nasceu a comunidade cristã de Corinto. De uma forma geral, era uma comunidade viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1 Cor 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1 Cor 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1 Cor 1,19-2,10). Afinal, a comunidade mergulhava as suas raízes em terreno adverso, onde os valores cristãos corriam o risco de ser sufocados pelos valores da brilhante cultura grega.

Pelas informações que constam da primeira Carta de Paulo aos Coríntios (escrita em Éfeso, durante a terceira viagem missionária de Paulo), percebemos que um dos problemas que perturbavam a comunidade cristã de Corinto era a identificação da experiência cristã com o mundo das escolas filosóficas gregas. As diversas figuras de referência da comunidade cristã eram vistas, pelos cristãos de Corinto, como mestres que propunham caminhos diversos para se chegar à plenitude da sabedoria e da realização humana. Portanto, cada crente escolhia o seu “mestre” e aderia ao “caminho” por ele proposto. Os discípulos desses vários mestres empenhavam-se em demonstrar a excelência e a superior sabedoria do mestre escolhido. Ora, isto era fonte de discussões intermináveis e de divisões que afetavam a unidade e a comunhão.

Ao saber isto, Paulo ficou muito alarmado: as divisões e os partidos punham em causa o essencial da fé. Paulo procura, então, demonstrar aos coríntios que entre os cristãos não há senão um mestre, que é Jesus Cristo; e a experiência cristã não é a busca de uma filosofia que abra ao discípulo as portas da sabedoria, pelo menos dessa sabedoria humana que os gregos buscavam. Aliás, Cristo não foi um mestre que se distinguiu pela elegância das suas palavras, pela sua arte oratória ou pela lógica do seu discurso filosófico; Ele foi o Deus que, por amor, veio ao encontro dos homens e lhes ofereceu a salvação através do dom da vida.

Os coríntios devem estar bem conscientes disto: o caminho cristão não é uma busca de sabedoria humana, mas uma adesão a Cristo crucificado – o Cristo do amor e do dom da vida. N’Ele manifesta-se, de forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus. É em Cristo e na sua cruz que os coríntios devem procurar a verdadeira sabedoria que conduz à vida eterna.

 

MENSAGEM

A sabedoria humana (a filosofia, os raciocínios lógicos, os discursos construídos com belas palavras) que os coríntios procuram com tanta ansiedade talvez ofereça alguma satisfação intelectual; mas situa a vida do homem num horizonte limitado, terreno, ilusório, passageiro. Não proporciona vida eterna, não dá sentido pleno à vida do homem, não é fonte de salvação. Quem estiver interessado em dar sentido pleno à sua vida, tem de descobrir e de acolher a lógica de Deus.

Ora, a lógica de Deus é bem estranha, humanamente falando. Em lugar de apresentar aos homens um sistema filosófico sólido, fundado em raciocínios inatacáveis e convincentes, Deus propõe-lhes a linguagem da cruz. No centro da proposta de Deus está um galileu pobre, condenado a uma morte infame (“escândalo para os judeus e loucura para os gentios” – 1Cor 1,23), que ofereceu a sua vida para trazer aos homens a salvação. Dando a vida até à última gota de sangue, amando até ao extremo, Ele venceu a injustiça, a violência, a mentira, o ódio, a morte; e ofereceu a todos os que aderem à sua proposta aquilo que nenhuma filosofia é capaz de assegurar: a salvação, a vida verdadeira e eterna. É “a loucura da cruz”; mas “o que é loucura de Deus é mais sábio que os homens; e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1,25).

Sim, a lógica de Deus confunde os homens; mas a verdade é que ela funciona perfeitamente. Como exemplo, Paulo apresenta o caso da própria comunidade cristã de Corinto: entre os coríntios não abundam os ricos, os poderosos, os de boas famílias, os intelectuais, os aristocratas; pelo contrário, a maior parte dos membros da comunidade são escravos, trabalhadores, gente simples e pobre. Apesar disso, Deus escolheu-os e chamou-os à fé; e a força de Deus vai-se manifestando a cada passo nessa comunidade de gente frágil, em situação de debilidade, desprezada aos olhos do mundo. Enquanto os homens apostam nos mais ricos, nos mais fortes, nos mais bem preparados intelectualmente, nos que asseguram maiores hipóteses de êxito do ponto de vista humano para a concretização dos seus projetos, Deus chama os pobres, os débeis, aqueles que o mundo ignora ou despreza: enriquece-os com os seus dons, manifesta através deles o seu poder, faz deles suas testemunhas. Como os coríntios constatam todos os dias, a força de Deus manifesta-se na fraqueza. Por isso, para a concretização do projeto de Deus não contam para nada os títulos, as qualidades, os méritos pessoais ou de classe, as capacidades intelectuais, a elegância da linguagem.

Conscientes disso, os cristãos de Corinto devem abster-se de colocar a sua esperança e a sua segurança em pessoas, por muito brilhantes e cheias de qualidades humanas que elas possam ser. Também devem abster-se de correr atrás de esquemas humanos de sabedoria, por muito sedutores e fascinantes que eles possam parecer. A sabedoria humana é incapaz, por si só, de salvar; e, ao produzir orgulho e autossuficiência, até pode afastar o homem de Deus e da salvação.

Em contrapartida, Paulo pede aos cristãos de Corinto que coloquem a sua esperança e segurança em Jesus Cristo, que na cruz deu a vida por amor. Para Paulo, a cruz manifesta a “sabedoria de Deus”; e é essa sabedoria que deve atrair o olhar e apaixonar o coração dos coríntios.

 

INTERPELAÇÕES

  • O que é que dá sentido à nossa vida? O que é que determina o nosso êxito ou o nosso fracasso? O que é que faz que a nossa vida valha a pena? Muitos acreditam que o segredo da realização plena do homem está em fatores humanos: a família em que se nasceu, a escola que se frequentou, os títulos que se obtiveram, o poder que se conquistou, a capacidade intelectual, a competência profissional, o reconhecimento social, o bem-estar económico… O apóstolo Paulo avisa que colocar a própria esperança e a própria segurança em fatores de âmbito puramente humano é apostar no “cavalo errado”. Os fatores humanos falham, são contingentes, têm validade limitada, são incapazes de saciar a nossa sede de vida eterna. Paulo propõe, em contrapartida, que nos dispúnhamos a acolher a “loucura da cruz” e que optemos por seguir Jesus incondicionalmente, vivendo ao seu estilo, abraçando os valores que Ele abraçou, percorrendo com Ele o caminho do amor e do dom da vida. O que pensamos disto? A indicação de Paulo fará sentido? Dispomo-nos a abraçar a lógica de Deus e a buscar a nossa plena realização nos valores de Jesus e do Evangelho?
  • Paulo afirma que Deus escolhe os pequenos, os pobres, os humildes, os mais frágeis, aqueles que tantas vezes a sociedade não valoriza, aqueles que não são mencionados nos livros de história, aqueles que nunca são convidados para os eventos sociais, aqueles que são invisíveis aos olhos dos homens para, através deles, concretizar a sua obra de salvação. É precisamente nessa fragilidade que se revela a força de Deus. Somos capazes de reconhecer a presença de Deus nos nossos irmãos mais humildes, mais esquecidos, naqueles que na sua humildade passam despercebidos, naqueles que não têm voz nem vez? Que valor lhes damos?
  • Paulo convida os cristãos de Corinto a não perderem de vista Cristo Jesus, “o qual Se tornou para nós sabedoria de Deus, justiça, santidade e redenção”. Com a sua vida, com as suas palavras, com os seus gestos, com o seu amor até ao extremo, com a sua obediência ao Pai, com o seu anúncio do Reino de Deus, Cristo apontou-nos o caminho que conduz à vida verdadeira. Cristo é, para nós, o mestre da verdadeira sabedoria? Caminhamos atrás d’Ele sem o perder de vista? Abraçamos sem hesitar a sabedoria que Ele nos propõe, mesmo quando ela está em contradição com a sabedoria do mundo?

 

ALELUIA – Mateus 5, 12a

Aleluia. Aleluia.

Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa.

 

EVANGELHO – Mateus 5,1-12

Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n’O os discípulos
e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

 

CONTEXTO

Depois de nos apresentar Jesus (Mt 1,1-2,23) e de definir a sua missão (cf. Mt 3,1-4,11), Mateus vai mostrar-nos como Jesus concretiza a missão que o Pai Lhe confiou (cf. Mt 4,12-18,35). No centro dessa missão está o anúncio do Reino de Deus. As “bem-aventuranças” ocupam um lugar central nesse anúncio.

Mateus, na construção do seu Evangelho, concedeu uma importância significativa aos “ditos” de Jesus. O evangelista agrupou a maior parte desses “ditos” em cinco discursos atribuídos a Jesus (cf. Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25). É provável que o autor do primeiro Evangelho visse nesses cinco discursos uma nova Lei, destinada a substituir a antiga Lei dada por Deus ao seu povo, o “ensinamento” que Israel guardou nos cinco livros da Tora (Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio).

O primeiro desses discursos de Jesus é conhecido como o “sermão da montanha” (cf. Mt 5-7). Reúne um importante conjunto de palavras de Jesus que Mateus ordenou e apresentou com a intenção de oferecer à sua comunidade as coordenadas fundamentais da proposta cristã. O evangelista vê, no “Sermão da montanha”, um novo código ético, uma nova Lei, que supera e substitui a antiga Lei dada por Deus ao seu Povo.

Mateus situa esta intervenção de Jesus no cimo de um monte. A indicação geográfica não é inocente: transporta-nos à montanha da Lei (o Sinai), o cenário em que Deus deu a antiga Lei a Israel. Agora é Jesus que, também numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus a nova Lei que deve guiar todos os que estão interessados em aderir ao Reino de Deus. Mateus, no entanto, sugere algumas diferenças entre aquilo que aconteceu no monte Sinai e aquilo que vai acontecer no monte das Bem-aventuranças. Antes de mais, no grupo que recebeu a Lei dada no Sinai, só havia israelitas; no grupo que sobe ao monte com Jesus parece haver uma “multidão” de gente de diversas origens e etnias (cf. Mt 4,25), conferindo à proposta que Jesus vai apresentar uma inquestionável sugestão de universalidade: a nova Lei, trazida por Jesus, destina-se a todos os povos. Por outro lado, Mateus desenha o quadro do “sermão da montanha” de Jesus com traços bem diferentes do cenário do Sinai… Não há, como no relato da teofania do Sinai, qualquer referência ao fogo, ao fumo, aos trovões e relâmpagos que geravam medo entre o povo (cf. Ex 19,16.18), nem uma delimitação do terreno que impeça o povo de se aproximar do monte da revelação (cf. Ex 19,12.21): na montanha onde Jesus fala, os discípulos estão próximos de Jesus e escutam-no com tranquilidade e sem medo (cf. Mt 5,1). Jesus, o novo Moisés que traz a nova Lei, abre as portas a uma nova realidade, a uma nova forma de comunhão e de relação entre Deus e o seu povo.

As “bem-aventuranças” que Mateus coloca na boca de Jesus, são consideravelmente diferentes das bem-aventuranças que aparecem no Evangelho segundo Lucas (cf. Lc 6,20-26). Mateus tem oito “bem-aventuranças” (e uma exortação final), enquanto Lucas só apresenta quatro; além disso, Lucas prossegue com quatro “maldições”, que estão ausentes do texto mateano. Outras notas características da versão de Mateus são a espiritualização (os “pobres” de Lucas são, para Mateus, os “pobres em espírito”) e a aplicação dos “ditos” originais de Jesus à vida da comunidade e ao comportamento dos cristãos. É provável que o texto de Lucas seja mais fiel à tradição original e que o texto de Mateus tenha sido trabalhado e retocado pela catequese cristã.

 

MENSAGEM

As “bem-aventuranças” são fórmulas relativamente frequentes na tradição bíblica e judaica. Aparecem, quer nos anúncios proféticos de alegria futura (cf. Is 30,18; 32,20; Dn 12,12), quer nas ações de graças pela alegria presente (cf. Sl 32,1-2; 33,12; 84,5.6.13), quer nas exortações a uma vida sábia, refletida e prudente (cf. Pr 3,13; 8,32.34; Sir 14,1-2.20; 25,8-9; Sl 1,1; 2,12; 34,9). Contudo, elas referem-se sempre uma felicidade que é dom de Deus.

As “bem-aventuranças” evangélicas devem ser entendidas no contexto da pregação sobre o Reino de Deus. Jesus proclama “bem-aventurados” os que estão numa situação de debilidade, de pobreza, de aflição (os pobres, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os que sofrem perseguição por causa da justiça), porque Deus está a ponto de instaurar o Reino de Deus e a situação deles vai mudar radicalmente; Jesus proclama “bem-aventurados” aqueles que dão testemunho dos valores de Deus (os mansos, os misericordiosos, os puros de coração, os construtores da paz), porque podem fazer parte da comunidade do Reino de Deus e serão chamados filhos de Deus.

As quatro primeiras “bem-aventuranças” referidas por Mateus (vers. 3-6) estão relacionadas entre si. Dirigem-se aos “pobres” (as segunda, terceira e quarta “bem-aventuranças” são apenas desenvolvimentos da primeira, que proclama: “bem-aventurados os pobres em espírito”). Saúdam a felicidade daqueles que se entregam confiadamente nas mãos de Deus e procuram sempre fazer a vontade de Deus; daqueles que, de forma consciente, deixam de colocar a sua confiança e a sua esperança nos bens, no poder, no êxito, nos homens, para esperar e confiar em Deus; daqueles que aceitam renunciar ao egoísmo e manterem-se disponíveis para Deus e para os outros.

Os “pobres em espírito” são os pequenos, os humildes, aqueles que não possuem nada a não ser Deus; são aqueles que se entregam nas mãos de Deus e que confiam totalmente n’Ele; são aqueles que abraçam o projeto de Deus sem reticências nem condições e estão sempre disponíveis para servir os seus irmãos.

Os “que choram” são aqueles que, pelas mais diversas razões, vivem mergulhados na aflição e no sofrimento; são os que não conseguem ver uma luz ao fundo do túnel e derramam o seu desespero em lágrimas amargas. A chegada iminente do Reino de Deus vai mudar a sua história, vai fazer com que a sua triste situação seja mudada em consolação, alegria e esperança.

Os mansos (os “humildes”) são aqueles que recusam a violência como forma de resolver as diferenças e os conflitos; são os pacíficos, os que têm paciência com os que erram, os que não respondem na mesma moeda quando são agredidos ou quando são vítimas dos abusos e da prepotência dos injustos; são aqueles que têm a coragem de quebrar a espiral de violência que continuamente suja de sangue a história do mundo e dos homens. A sua atitude pacífica e bondosa evoca a misericórdia e a bondade de Deus. A sua mansidão anuncia um mundo construído em moldes novos e fará deles membros de pleno direito do Reino de Deus.

Os “os que têm fome e sede de justiça” são aqueles que se mantêm fiéis a Deus, os que desejam cumprir a vontade de Deus, os que só desejam fazer aquilo que Deus considera justo e bom. É a “justiça” no sentido bíblico, como fidelidade aos compromissos assumidos para com Deus e para com os outros homens. Essa “fome” e essa “sede” – essa preocupação nunca descurada em cumprir a vontade de Deus – será plenamente saciada para todos aqueles que aderirem à comunidade do Reino de Deus e passarem a viver do dinamismo de vida nova que Jesus lhes traz.

Um segundo grupo de “bem-aventuranças” (vers. 7-11) está orientado para definir o comportamento cristão. Enquanto no primeiro grupo se constatam situações, neste segundo grupo propõem-se atitudes que os discípulos de Jesus devem assumir.

Os “misericordiosos” são aqueles que têm um coração capaz de se compadecer dos seus irmãos. É o sentimento de Jesus quando encara o sofrimento dos doentes (cf. Mt 9,27-28; 15,20-21; 17,15; 20,30-31); é o sentimento que leva Jesus a acolher, a perdoar, a abraçar os pecadores e os marginais. Os misericordiosos serão felizes porque experimentarão, também eles, a misericórdia de Deus.

Os “puros de coração” são, provavelmente, os que se apresentam diante do Senhor com “as mãos inocentes e o coração limpo”, os “que não erguem o espírito para as coisas vãs, nem juram pelo que é falso” (Sl 24,4); são aqueles que não pactuam com qualquer forma de idolatria, não defraudam os seus semelhantes, não cultivam a mentira, a duplicidade e o engano. Esses “verão a Deus”, quer dizer, terão sempre Deus a seu lado, acompanhando-os e ajudando-os no caminho.

Os “que promovem a paz” são aqueles que lutam ativamente pela paz, pelo bem-estar de todos, pela harmonia a todos os níveis; são os que se recusam a aceitar que a violência e a lei do mais forte governem as relações humanas; são aqueles que procuram ser – às vezes com o risco da própria vida – instrumentos de reconciliação entre os homens. Esses serão felizes porque o Deus do amor e da paz chamá-los-á seus filhos.

Os “que sofrem perseguição por amor da justiça” são aqueles que, por causa da sua fidelidade a Deus, são perseguidos, maltratados e condenados; são os que lutam pela instauração do Reino de Deus e que, por essa razão, são desautorizados, humilhados, agredidos, marginalizados. O próprio Jesus foi perseguido, condenado à morte e executado na cruz por causa da sua fidelidade ao projeto do Pai. Esses poderão experimentar a tentação de suavizar o seu testemunho, de moderar a sua radicalidade, de abandonar a luta para não ter problemas; mas Jesus, a partir da sua própria experiência, garante-lhes: o mal nunca vos vencerá; e, no final do caminho, espera-vos o triunfo, a vida plena.

No final das “bem-aventuranças” (vers. 11), o evangelista Mateus põe na boca de Jesus uma exortação dirigida a todos aqueles que são perseguidos por causa de Jesus e do Evangelho. Esta exortação – que é, na prática, uma aplicação concreta da oitava bem-aventurança – convida todos os que fazem parte da comunidade do Reino de Deus a manterem-se fiéis, a resistirem ao sofrimento e à adversidade. Indubitavelmente, receberão de Deus a recompensa que a sua fidelidade merece.

As “bem-aventuranças” definem o modelo de vida que os seguidores de Jesus devem adotar. São “oito portas” para entrar na comunidade do Reino de Deus. Elencam os valores fundamentais do projeto de Jesus.

As “bem-aventuranças” também são uma mensagem de esperança e de alento para os pobres, os humildes, os sofredores. Anunciam que Deus os ama e que está do lado deles; confirmam que a libertação está a chegar e que a sua situação vai mudar; asseguram que eles vivem já na dinâmica do mundo novo que Jesus veio propor e que, nesse “lugar”, vão encontrar a felicidade e a vida plena que ansiosamente esperam.

 

INTERPELAÇÕES

  • Dois mil anos depois de Jesus ter feito o “sermão da montanha”, as “bem-aventuranças” continuam a soar aos nossos ouvidos de uma forma estranha e paradoxal. Deixam-nos perplexos e algo desconcertados, pois apontam num sentido que parece ir contra o senso comum. Parecem subverter todas as nossas lógicas e contradizer tudo aquilo que sabemos sobre êxito e fracasso. São um desafio que ameaça todas as nossas certezas e seguranças, a nossa sabedoria convencional e a nossa organização social. Poderão realmente ser um caminho para a felicidade e para a plena realização do ser humano? Jesus tem razão quando garante que a verdadeira felicidade se alcança por caminhos completamente diferentes dos que a sociedade atual propõe? As “bem-aventuranças” serão uma desculpa de fracassados, conversa de gente que não tem coragem para competir, para se impor, para triunfar, ou serão uma forma de construir um mundo diferente, mais justo, mais humano e mais fraterno? O nosso mundo ganharia alguma coisa se abandonássemos a competitividade e a luta feroz pelo êxito humano e optássemos por viver na lógica das “bem-aventuranças”? Seríamos mais livres e mais felizes se renunciássemos a certos valores que a sociedade impõe e passássemos a viver de acordo com os valores propostos por Jesus?
  • “Felizes os pobres em espírito”. Os “pobres em espírito” são aqueles que, sem bens materiais, sem a proteção dos poderosos, sem seguranças humanas, se entregam confiadamente nas mãos de Deus, colocam toda a sua esperança em Deus, acolhem de braços abertos as indicações de Deus. Apresentam-se com humildade, desconhecem a arrogância e a autossuficiência, estão sempre disponíveis para servir os seus irmãos, são uma luz que brilha na noite do mundo. É assim que vivemos?
  • “Felizes os que choram”. Na verdade, Deus não gosta de nos ver sofrer e chorar. O choro que resulta da doença sem remédio, das ofensas contra a nossa dignidade, das feridas que as injustiças deixam, não é uma coisa boa. Mas Jesus diz que Deus irá consolar os que choram, dar-lhes força para vencer as dificuldades, ficar do lado deles, eliminar as causas do seu sofrimento. Então, vencidos os motivos das lágrimas, os que choram voltarão a rir. Confiamos em Deus, no seu cuidado, no seu amor, mesmo quando as lágrimas não nos deixam ver as estrelas?
  • “Felizes os mansos” (os “humildes”). Vivemos num mundo competitivo e agressivo, onde a violência explode pelas razões mais fúteis. O não responder à violência com uma violência igual ou maior será uma estupidez, ou será sinal de que somos filhos de um Deus misericordioso e compassivo? Se não desarmarmos a espiral de violência e de ódio que envolve tantos problemas e povos, qual o futuro da humanidade? Como é que nós, pessoalmente, reagimos quando somos atropelados pela violência e pela injustiça?
  • “Felizes os que têm fome e sede de justiça”. Os “que têm fome e sede de justiça” são aqueles que se preocupam genuinamente em acertar, em serem fiéis aos compromissos que têm com Deus, em fazerem aquilo que é “de justiça”. Passamos ao lado da vida se vivemos de forma ligeira, distraída, perdendo oportunidades, sem cumprir a missão que nos foi confiada. Somos gente que leva a sério os compromissos que tem com Deus e com os irmãos, que procura estar sempre atento para fazer o que deve fazer?
  • “Felizes os misericordiosos”. Nunca, em nenhuma outra época da história, estivemos tão conectados uns com os outros; nunca, em nenhuma outra época da história, pudemos acompanhar tão de perto, em tempo real, os dramas e as angústias dos nossos irmãos; e nunca, em qualquer outra época da história, nos fechamos tanto aos sofrimentos dos outros. Globalizou-se a indiferença; fechamo-nos no nosso egoísmo e passamos ao lado de quem sofre sem nos determos. Sentimo-nos responsáveis pelos nossos irmãos? Somos testemunhas, junto deles, do Deus misericordioso e compassivo?
  • “Felizes os puros de coração”. Os “puros de coração” são aqueles que não vivem escravizados a deuses efémeros, não pactuam com coisas duvidosas, não constroem as suas vidas sobre mentiras e enganos. Num mundo de onde o que é verdade de manhã é mentira à tarde e o “chico-espertismo” é um modo de vida, os “puros de coração” representam a honestidade, a verticalidade, a fidelidade aos valores e aos compromissos. Somos fiáveis, “de confiança”, na nossa relação com Deus e com os irmãos? Somos testemunhas do Deus sempre fiel, que nunca nos trai nem engana?
  • “Felizes os que promovem a paz”. Os conflitos, as guerras, as violências eclodem por todo o lado, causam um sofrimento indizível e erguem barreiras de ódio que separam os homens. Alguns, no entanto, os que “são chamados filhos de Deus”, procuram derrubar esses muros, construir pontes de entendimento e de diálogo, fomentar a fraternidade, a solidariedade, o encontro, a comunhão. Somos construtores de muros que separam, ou de pontes que aproximam? Aceitamos ser, no meio dos nossos irmãos, arautos da reconciliação e promotores da paz?
  • “Felizes os que sofrem perseguição por amor da justiça”. Hoje como ontem, aqueles que se mantêm fiéis a Deus e lutam para que o plano de Deus se concretize no mundo e na história desagradam aos donos do mundo; por isso são perseguidos, desautorizados, ridicularizados condenados, silenciados… Alguns desistem e preferem não correr riscos, não andar contra a corrente, não incomodar os fazedores de opinião que ditam o certo e o errado; outros insistem a tempo e fora de tempo, em serem sinais e testemunhas da vida de Deus. E nós, de que lado ficamos?
  • As “bem-aventuranças” dão-nos um retrato bem bonito do coração paternal e maternal de Deus. Garantem-nos que Deus é sensível ao sofrimento dos seus filhos e que sente um carinho especial pelos que sofrem mais. Ele está sempre disponível para confortar os que estão feridos e magoados e para os ajudar a sair da sua triste situação. Como é que vemos e sentimos esta “sensibilidade” de Deus pelos mais frágeis e pequenos? Agrada-nos? É para nós fonte de esperança? O carinho de Deus pelos que precisam mais de amor inspira-nos e leva-nos a cuidar especialmente dos nossos irmãos que a vida maltrata?

 

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 4.º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)

 

  1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

Ao longo dos dias da semana anterior ao 4.º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

 

  1. PARA A PROCLAMAÇÃO DAS BEM-AVENTURANÇAS.

Como criar, ao longo da liturgia da Palavra, uma progressão cujo ponto culminante seria a Boa Nova? Uma proposta muito simples: o leitor da primeira leitura avança acompanhado por alguém que leva uma luz (vela) e os dois, depois da leitura terminada, ficam junto do ambão; os mesmos gestos para o leitor (cantor) do salmo e para o leitor da segunda leitura; finalmente, o Livro dos Evangelhos é levado em procissão, também acompanhado por alguém com uma vela acesa, até ao ambão. Todos ficam à volta do ambão, formando um “povo de luz” e dando uma solenidade particular à proclamação das Bem-aventuranças de Mateus.

 

  1. BILHETE DE EVANGELHO.

O “ofertório”, um ato litúrgico… Quando vimos à missa, os nossos corações estão cheios da nossa vida e da vida dos nossos irmãos, com as alegrias, os sofrimentos, os projetos, as questões, as inquietudes, a esperança. Com o pão e o vinho, no momento do ofertório, é um pouco desta vida que oferecemos concretamente. O dinheiro é o que nós ganhamos; ele é feito para ser partilhado. O “ofertório” é, pois, um ato litúrgico. Querer que a comunidade cristã à qual pertencemos possa viver é uma obra de justiça. Quando beneficiamos dos serviços de uma associação, a ela aderimos financeiramente. Temos muitas ocasiões para aderir financeiramente à comunidade cristã – e os cristãos são generosos. Procuremos valorizar ou revalorizar o nosso “ofertório”…

 

  1. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.

Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

 

No final da primeira leitura:

Deus, Pai e pastor do teu povo, nós Te bendizemos pela tua paciência e pela tua bondade. Quando Israel se afastava do caminho da justiça, Tu recordava-lo pelos teus profetas, para o converter e o conduzir para Ti.

Nós procuramos o teu rosto e Te pedimos: purifica-nos da mentira e do engano, faz-nos procurar a justiça e a humildade.

 

No final da segunda leitura:

Deus de infinita sabedoria, nós Te damos graças, porque nos chamaste; escolhes aqueles que são fracos e desprezados, para lhes fazer descobrir a tua sabedoria, no teu Filho, desprezado no calvário, mas vitorioso na Páscoa.

Pomos em Ti a nossa confiança e estendemos as mãos para o teu Filho: Ele é a nossa justiça, a nossa santificação e a nossa redenção.

 

No final do Evangelho:

Nosso Pai dos céus, bendito sejas, Tu que abres ao teu povo a terra prometida e o Reino dos céus, Tu que o sacias com a tua justiça, Tu que nos chamas teus filhos e descobres-nos o teu rosto.

Faz-nos estar entre os pobres, os mansos, os aflitos, os misericordiosos, os famintos da tua justiça, os corações puros e as testemunhas do teu Reino.

 

  1. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.

Pode-se escolher a Oração Eucarística II para as Missas com Crianças.

 

  1. PALAVRA PARA O CAMINHO.

Um pequeno resto… “Só deixarei ficar no meio de ti um povo pobre e humilde, que buscará refúgio no nome do Senhor…” Um pequeno “resto” de gente que procura Deus na verdade, numa Igreja minoritária no seio de uma sociedade que só crê na riqueza, no poder, nas performances. Gente que procura a justiça, a humildade, a doçura, a paz, o perdão… Este programa entra na minha vida?

 

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA

Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
www.dehonianos.org