13º Domingo do Tempo Comum – Ano C [atualizado]

ANO C

13.º DOMINGO COMUM

Tema do 13º Domingo comum

A liturgia do décimo terceiro domingo comum lembra-nos que Deus conta connosco para intervir no mundo, para transformar o mundo, para salvar o mundo. Como respondemos ao Deus que chama? Com disponibilidade, com generosidade, com radicalidade, com entrega total? Estamos realmente disponíveis para abraçar os desafios de Deus?

A primeira leitura conta-nos a história da “vocação” de um homem chamado Eliseu. O apelo de Deus chega-lhe através da voz do profeta Elias. Confrontado com o desafio de Deus, Eliseu corta completamente com o passado e caminha decidido ao encontro do projeto que Deus lhe quer confiar. A resposta do profeta Eliseu pode ser modelo para as nossas respostas ao Deus que nos chama e que nos envia a “curar” o mundo.

O Evangelho apresenta-nos os primeiros passos do “caminho” que Jesus percorre com os discípulos em direção a Jerusalém.  Mais do que um caminho geográfico, é um caminho espiritual. Enquanto caminham atrás de Jesus, os discípulos vão aprendendo o que significa seguir comprometer-se com o Reino de Deus. Jesus pede-lhes radicalidade, entrega generosa, compromisso total com a construção do Reino de Deus.

Na segunda leitura, Paulo convida os “discípulos” a percorrerem sem hesitações o caminho apontado por Jesus: o caminho do amor, da entrega, do dom da vida. Paulo garante aos cristãos da Galácia – e a nós também – que esse “caminho” leva ao encontro da verdadeira liberdade. Quem aceita percorrê-lo vive animado pelo dinamismo do Espírito; e encontra a vida eterna, a plena realização.

 

LEITURA I – 1 Reis 19,16b.19-21

Naqueles dias, disse o Senhor a Elias:
«Ungirás Eliseu, filho de Safat, de Abel-Meola,
como profeta em teu lugar».
Elias pôs-se a caminho e encontrou Eliseu, filho de Safat,
que andava a lavrar com doze juntas de bois
e guiava a décima segunda.
Elias passou junto dele e lançou sobre ele a sua capa.
Então Eliseu abandonou os bois,
correu atrás de Elias e disse-lhe:
«Deixa-me ir abraçar meu pai e minha mãe;
depois irei contigo».
Elias respondeu:
«Vai e volta, porque eu já fiz o que devia».
Eliseu afastou-se, tomou uma junta de bois e matou-a;
com a madeira do arado assou a carne,
que deu a comer à sua gente.
Depois levantou-se e seguiu Elias,
ficando ao seu serviço.

 

CONTEXTO

A voz profética de Elias faz-se ouvir no Reino do Norte (Israel), no século IX a.C., durante os reinados de Acab (873-853 a.C.) e de Ocozias (853-852 a.C.). Eliseu, discípulo e sucessor de Elias, dá o seu testemunho profético logo a seguir, nos reinados de Jorão (853-842 a.C.) e Jehú (842-814 a.C.).

Por essa época, a preocupação dos reis do Norte (Israel) em facilitar o intercâmbio cultural, comercial e político com os países da zona abriu o país à influência estrangeira. Essa realidade sentiu-se de forma especial no campo religioso. De facto, diversos deuses dos povos da zona (especialmente Baal) entraram no radar religioso de Israel e assumiram uma certa preponderância, em detrimento da fé tradicional em Javé. É, portanto, uma época de sincretismo religioso, em que a fé em Javé e a fé em Baal se misturavam no entendimento popular, dando lugar a um conjunto de práticas religiosas que estavam muito distantes da pureza da fé javista.

Neste contexto, Elias aparece como grande defensor da fidelidade a Javé. Ele é o representante dos israelitas fiéis que recusavam a coexistência de Javé e de Baal no horizonte da fé de Israel. Num episódio dramático, o próprio profeta chegou a desafiar os profetas de Baal para um duelo religioso que terminou com um massacre de quatrocentos profetas de Baal no monte Carmelo (cf. 1 Re 18). Esse episódio é, mais do que um facto histórico, é uma apresentação teológica da luta sem tréguas que nessa época se trava entre os fiéis a Javé e os que abrem o coração às influências culturais e religiosas de outros povos. Para além da questão do culto, Elias defende a Lei em todas as suas vertentes (veja-se, por exemplo, a sua defesa intransigente das leis da propriedade em 1 Re 21, no célebre episódio da usurpação da vinha de Nabot): ele representa os pobres de Israel, na sua luta contra a aristocracia e os comerciantes todo-poderosos que subvertiam a seu bel-prazer as leis e os mandamentos de Deus.

A luta de Elias no sentido de preservar os valores fundamentais da fé javista, será continuada nos reinados seguintes por um dos seus discípulos – Eliseu. A primeira leitura do décimo terceiro domingo comum apresenta-nos, precisamente, o relato do chamamento de Eliseu.

 

MENSAGEM

Na sequência da vitória de Elias contra os profetas de Baal, no Monte Carmelo (cf. 1 Re 18), o profeta teve que fugir, pois a rainha Jezabel, a esposa estrangeira do rei Acab, queria matá-lo. Elias dirigiu-se para o sul e chegou ao monte Horeb (cf. 1 Re 19,1-7), a montanha onde Deus se revelou aos hebreus libertados do Egito e onde o povo se comprometeu na Aliança com Deus (cf. Ex 19,1-8).

A cena que nos é narrada pela primeira leitura deste domingo passa-se no Horeb. Elias, desanimado porque o seu testemunho profético parece votado ao fracasso, apresenta a Deus o seu relatório: os filhos de Israel abandonaram a Aliança e não querem mais saber do seu Deus; além disso, o profeta corre risco de vida, pois é perseguido pela rainha e pelo rei de Israel. Elias sente-se velho e cansado. Que poderá ainda fazer para que os israelitas voltem a Deus e vivam na fidelidade à Aliança?

Deus pede a Elias que volte e que unja Eliseu, um homem de Abel-Meola, para ser o seu sucessor na missão de reconduzir Israel aos caminhos da Aliança. Eliseu será (juntamente com Jehú, futuro rei de Israel e de Hazael, futuro rei de Damasco) o instrumento de Deus na aniquilação de Acab, o rei infiel a Javé e à Aliança.

O autor do relato passa então a narrar o “chamamento” de Eliseu… O camponês Eliseu está no campo, com os bois, a lavrar a terra quando Elias o encontra e lhe apresenta o convite de Deus para ser profeta. O “profeta” não é um ser extraordinário que, de forma inopinada, cai no mundo dos homens; mas é uma pessoa normal, que tem o seu trabalho, a sua família, a sua vida. É com pessoas “normais” que Deus conta para concretizar o seu projeto no mundo.

O desafio profético é apresentado a Eliseu através de um gesto: Elias lança sobre os ombros de Eliseu a sua capa. Este gesto tem de ser entendido à luz da crença de que as roupas ou os objetos pertencentes a uma pessoa, representavam essa pessoa e continham qualquer coisa do seu poder. Ao lançar sobre Eliseu a sua capa, Elias comunica-lhe o seu poder e o seu espírito profético (cf. 2 Re 2,13-14; 4,29-31; Lc 8,44; At 19,12).

Como é que Eliseu responde ao desafio que Deus lhe lança através do gesto de Elias? Aceita-o, simplesmente, sem objeções ou pedidos de explicação. Pede apenas a Elias que o deixe ir despedir-se da sua família. Segundo o relato, Eliseu imolou uma junta de bois, queimou o arado, assou a carne dos bois e deu-a a comer à sua família; depois, seguiu Elias e ficou ao seu serviço. O gesto de Eliseu de imolar os bois e queimar o arado significa o abandono da vida antiga, a renúncia à antiga profissão; o banquete oferecido “à sua gente” significa, provavelmente, a rutura com a própria família e a entrega total à missão profética. Eliseu está agora completamente livre para levar até ao fim a missão profética que Deus quer confiar-lhe.

 

INTERPELAÇÕES

  • Diante da injustiça, da violência, da maldade que ferem o mundo, muitos homens e mulheres perguntam porque é que Deus não atua e não impõe a justiça, a harmonia, o bem. A história da salvação, no entanto, fala das reiteradas intervenções de Deus para “curar” as feridas abertas pelo egoísmo dos homens. A verdade é que Deus não intervém no mundo e na vida dos homens de forma espalhafatosa, prepotente, dominadora, impositiva; mas Deus vem ao encontro dos homens de forma discreta, sem se impor, no respeito absoluto pela nossa liberdade. Fá-lo através de homens e mulheres que escolhe e que envia ao mundo para serem no meio dos seus irmãos arautos e testemunhas do projeto de Deus. Deus não nos obriga a nada; mas não cessa de nos fazer ouvir a sua voz. Talvez antes de criticarmos Deus por “não fazer nada” devamos escutar os profetas que Ele nos envia e acolher as indicações que eles, em nome de Deus, nos deixam. Estamos dispostos a acolher os desafios de Deus que os profetas nos trazem?
  • A história da “vocação” de Eliseu não é uma história excecional, que só acontece a alguns privilegiados; mas é a história de todos aqueles que, pelo batismo, aceitaram fazer parte da família de Deus. No dia em que fomos batizados fomos ungidos com o óleo do crisma e fomos constituídos “profetas”, testemunhas e arautos de Deus no mundo. Cada um de nós é chamado a desempenhar a sua missão profética de forma diferente; mas cada um de nós, na realidade dos seus limites e das suas qualidades, da sua “pobreza” e da sua “riqueza”, tem como missão fazer ouvir a voz de Deus em qualquer lugar onde a vida nos leve. Sentimo-nos “profetas”, arautos e testemunhas da vida de Deus?
  • Elias descobre que Deus o chama à missão profética através da mediação de Elias. A resposta ao Deus que nos chama é pessoal; mas, no nosso caminho vocacional temos, frequentemente, de contar com pessoas que nos fazem chegar os apelos de Deus e nos ajudam a discernir os passos a dar até chegarmos à definição total da nossa resposta. Nos momentos de dúvida, de incerteza, de perplexidade, dispomo-nos a escutar alguém que possa ajudar-nos a tomar as decisões corretas para responder a Deus?
  • A resposta de Eliseu ao chamamento de Deus é exemplar. Sem pedir explicações, sem apresentar condições, abraça o desafio que Deus lhe apresenta. O texto descreve de uma forma muito sugestiva essa opção radical de Eliseu por Deus: ele desfaz-se da junta de bois e do arado que eram, até então, os seus instrumentos de trabalho; oferece um banquete de despedida à sua gente, marcando assim a sua libertação dos laços afetivos que o sujeitavam… Eliseu corta todas as amarras com o passado e fica completamente disponível para o serviço de Deus. A nossa resposta ao Deus que nos chama é assim radical, total, sem hesitações, com total compromisso?

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 15 (16), 1-2a.5.7-8.9-10.11

Refrão: O Senhor é a minha herança.

Defendei-me, Senhor: Vós sois o meu refúgio.
Digo ao Senhor: «Vós sois o meu Deus».
Senhor, porção da minha herança e do meu cálice,
está nas vossas mãos o meu destino.

Bendigo o Senhor por me ter aconselhado,
até de noite me inspira interiormente.
O Senhor está sempre na minha presença,
com Ele a meu lado não vacilarei.

Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta,
e até o meu corpo descansa tranquilo.
Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,
nem deixareis o vosso fiel sofrer a corrupção.

Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida,
alegria plena na vossa presença,
delícias eternas à vossa direita.

 

LEITURA II – Gálatas 5,1.13-18

Irmãos:

Foi para a verdadeira liberdade que Cristo nos libertou.
Portanto, permanecei firmes
e não torneis a sujeitar-vos ao jugo da escravidão.
Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade.
Contudo, não abuseis da liberdade
como pretexto para viverdes segundo a carne;
mas, pela caridade,
colocai-vos ao serviço uns dos outros,
porque toda a Lei se resume nesta palavra:
«Amarás o teu próximo como a ti mesmo».
Se vós, porém, vos mordeis e devorais mutuamente,
tende cuidado, que acabareis por destruir-vos uns aos outros.
Por isso vos digo:
Deixai-vos conduzir pelo Espírito
e não satisfareis os desejos da carne.
Na verdade, a carne tem desejos contrários aos do Espírito,
e o Espírito desejos contrários aos da carne.
São dois princípios antagónicos
e por isso não fazeis o que quereis.
Mas se vos deixais guiar pelo Espírito,
não estais sujeitos à Lei de Moisés.

 

CONTEXTO

A Galácia situava-se na Ásia Menor, na região da Anatólia central (atual Turquia). A região recebeu o nome de Galácia por causa de algumas tribos de origem gálica que ali se estabeleceram no séc. III a.C., depois de terem atravessado a Macedónia. A principal cidade da região era Ancira (atual Ancara), que se tornou a capital do reino gálata. O rei gálata Amintas, ao morrer (ano 25 a.C.), legou a Roma os seus territórios. Desde então, a Galácia ficou a ser uma província romana. Era esse o cenário na época neotestamentária.

Paulo de Tarso, o “apóstolo das gentes”, teve diversos contatos com os povos da Galácia. Na sua primeira viagem apostólica, Paulo evangelizou a parte sul da província romana da Galácia: Pisídia, Licaónia, Frígia (cf. At 13,14-25); mais tarde, nas suas segunda e terceira viagens missionárias Paulo voltou a cruzar, desta vez mais a norte, as terras da Galácia (cf. At 16,6; 18,23).

A Carta aos Gálatas sugere que o apóstolo, ao atravessar a Galácia, se deteve algum tempo na região, afetado por um problema de saúde (cf. Gl 4,13). Acolhido pelos hospitaleiros gálatas, Paulo anunciou-lhes o Evangelho. Do anúncio de Paulo nasceram diversas comunidades cristãs. No entanto, a formação cristã dos gálatas ficou incompleta porque Paulo não pode ficar mais tempo com eles.

Pensa-se que terá sido durante a sua terceira viagem missionária que Paulo escreveu a Carta aos Gálatas. Estaríamos aí pelos anos 56-57, pouco antes da redação da Carta aos Romanos. O que é que motivou esta carta?

Paulo soube que alguns pregadores cristãos tinham deixado um rasto de confusão nas comunidades cristãs da Galácia. Por aquilo que Paulo diz na Carta, percebe-se claramente que se trata de “judaizantes”: cristãos de origem judaica que procuravam impor nas comunidades a prática da Lei de Moisés (cf. Gl 3,2; 4,21; 5,4) e, em particular, a circuncisão (cf. Gl 2,3-4; 5,2; 6,12). Esses “judaizantes” condenavam Paulo e o Evangelho que ele anunciava; diziam mesmo que Paulo não tinha qualquer autoridade e não estava em comunhão com os outros apóstolos.

Paulo defendia que a circuncisão não era importante para a adesão a Cristo. Na sua opinião, a Lei de Moisés tinha sido superada pela novidade de Jesus Cristo. Portanto, os gálatas não deviam deixar-se enganar por aqueles que queriam impor-lhes a observância das leis religiosas judaicas. Será que os gálatas, depois de terem experimentado a liberdade que Cristo traz, estavam dispostos a acolher as indicações dos “judaizantes” e a tornarem-se escravos da Lei de Moisés?

O texto que a liturgia deste domingo nos propõe como segunda leitura integra a terceira parte da Carta (cf. Gl 5,1-6,10). Aí Paulo ensina que a salvação oferecida por Jesus faz de nós pessoas livres, “homens novos” que vivem à imagem de Jesus, animados pelo Espírito. É assim, segundo Paulo, que os cristãos devem viver.

 

MENSAGEM

Paulo, para não deixar qualquer dúvida, oferece aos gálatas, logo no início da perícope, uma afirmação categórica: “Foi para a verdadeira liberdade que Cristo nos libertou” (vers. 1a). Cristo derrotou tudo aquilo que podia manter-nos escravos, incluindo o pecado e a morte; e tornou livres todos aqueles que aceitam caminhar com Ele. A liberdade que Cristo nos conquistou é verdadeira, total e definitiva. Depois de tal “conquista”, compete-nos mantermo-nos na senda da liberdade. Quem recebeu de Cristo a possibilidade de ser livre não pode deixar-se apanhar de novo por qualquer esquema que signifique um regresso à escravidão (vers. 1b). Logo a seguir, num desenvolvimento que a nossa leitura não conservou, Paulo identifica a escravidão com a submissão à Lei de Moisés e à circuncisão (vers. 2-4).

O nosso texto salta depois para o vers. 13. Paulo passa aí a explicar aos gálatas em que consiste a liberdade para o cristão. Tratar-se-á da faculdade de escolher entre duas coisas distintas e opostas? Não. Tratar-se-á de uma espécie de independência ético-moral, em virtude da qual cada um pode fazer o que lhe apetece, sem barreiras de qualquer espécie? Também não. Para Paulo, a verdadeira liberdade consiste em viver no amor (vers. 13-14). O que nos escraviza, nos limita e nos impede de alcançar a vida em plenitude (“salvação”) é o egoísmo, o orgulho, a autossuficiência; mas, superar esse fechamento em nós próprios e fazer da nossa vida um dom de amor, torna-nos verdadeiramente livres. Só é autenticamente livre aquele que se libertou de si próprio, aquele vive para amar a Deus e para dar-se aos outros.

Como é que esta “liberdade” (a capacidade de amar, de dar a vida) nasce em nós? Adquirimos essa liberdade quando aderimos a Cristo e passamos a viver d’Ele. A adesão a Cristo gera na pessoa um dinamismo interior que a identifica com Cristo e lhe dá uma capacidade infinita de amar, de superar o egoísmo, o orgulho e os limites – ou seja, com uma capacidade infinita de viver em liberdade. É o Espírito que alimenta a cada instante essa vida de liberdade (ou de amor) que se gerou em nós a partir da nossa adesão a Cristo (vers. 16).

Quem vive do Espírito é livre e não faz as obras do “escravo” (Paulo enumera, mais à frente, as obras de quem é escravo: “fornicação, impureza, devassidão, idolatria, feitiçaria, inimizades, contenda, ciúme, fúrias, ambições, discórdias, partidarismos, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas” – cf. Gl 5,19-21); viver na liberdade, “segundo o Espírito”, é fazer obras que testemunham a realidade de Deus (Paulo enumera, mais à frente, os valores em que assenta a vida daquele que é livre e vive no Espírito: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio – cf. Gl 5,22-23).

 

INTERPEÇAÇÕES

  • A liberdade é uma das mais belas invenções de Deus. Nós, seres humanos, estamos conscientes disso e prezamos muito a liberdade: fazemos todo o tipo de sacrifícios para assegurar o direito de sermos livres. É no exercício da liberdade que nos realizamos plenamente como pessoas: tomamos decisões, descobrimos os nossos limites, percebemos as nossas infinitas possibilidades, traçamos o nosso caminho. Pode acontecer, no entanto, que encaremos o exercício da nossa liberdade de uma forma exclusivamente centrada em nós: no nosso “eu”, nos nossos interesses pessoais, nas nossas ambições, na nossa forma pessoal de ver as coisas. Nesse caso, a liberdade toca as fronteiras do egoísmo, fecha-nos em nós, manifesta-se em “tiques” de autoritarismo, de orgulho, de autossuficiência… Ora, a liberdade vivida assim, deixa de ser liberdade e conduz à escravidão: à nossa e à dos irmãos que procuramos submeter à nossa vontade ou aos nossos interesses. Como é que entendemos e vivemos a liberdade que Deus nos ofereceu?
  • Paulo lembra-nos que Cristo, dando a sua vida por todos e amando-nos “até ao extremo”, derrotou tudo aquilo que nos mantinha na escravidão: o egoísmo, a maldade, a violência, o orgulho, a autossuficiência, a ambição, até a própria morte. Quem adere a Cristo e se identifica com Ele, quem ama como Cristo e é capaz de fazer da sua vida um serviço a Deus e aos irmãos, vive livre de todas essas escravidões. Por isso, Paulo considera que só somos verdadeiramente livres quando amamos. Quando a nossa vida se cumpre em registo de amor, deixamos de viver obcecados connosco, deixamos de cuidar exclusivamente dos nossos interesses, projetos e ambições, deixamos de viver apenas centrados em nós próprios, passamos a ver o outro, a cuidar do outro, a preocuparmo-nos em promover o outro. Tornamo-nos livres, verdadeiramente livres. É esta experiência de liberdade que fazem hoje tantas pessoas que não guardam a própria vida para si próprias, mas fazem dela uma oferta de amor aos irmãos mais necessitados. Como dar este testemunho e passar esta mensagem aos homens do nosso tempo, sempre obcecados com a verdadeira liberdade? Como explicar que só o amor nos faz totalmente livres?
  • Falar da Igreja formada por pessoas livres em Cristo, implica falar de uma comunidade cristã voltada para o amor, para a partilha, para as necessidades e carências dos irmãos que estão à sua volta. É isso que realmente acontece com as nossas comunidades? Damos este testemunho de liberdade no dom da vida aos irmãos que nos rodeiam? As nossas comunidades são comunidades de homens e mulheres livres que vivem no amor e na doação, ou comunidades de homens e mulheres escravos, presos aos seus interesses pessoais e egoístas, que se magoam e ofendem por coisas sem importância, dominados por interesses mesquinhos e capazes de gestos sem sentido de orgulho e de prepotência?

 

ALELUIA

Refrão: Aleluia.

Falai, Senhor, que o vosso servo escuta.
Vós tendes palavras de vida eterna.

 

EVANGELHO – Lucas 9,51-62

Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo,
Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém
e mandou mensageiros à sua frente.
Estes puseram-se a caminho
e entraram numa povoação de samaritanos,
a fim de Lhe prepararem hospedagem.
Mas aquela gente não O quis receber,
porque ia a caminho de Jerusalém.
Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus:
«Senhor,
queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?».
Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os.
E seguiram para outra povoação.
Pelo caminho, alguém disse a Jesus:
«Seguir-Te-ei para onde quer que fores».
Jesus respondeu-lhe:
«As raposas têm as suas tocas,
e as aves do céu os seus ninhos;
mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça».
Depois disse a outro: «Segue-Me».
Ele respondeu:
«Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai».
Disse-lhe Jesus:
«Deixa que os mortos sepultem os seus mortos;
tu, vai anunciar o reino de Deus».
Disse-Lhe ainda outro:
«Seguir-Te-ei, Senhor;
mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família».
Jesus respondeu-lhe:
«Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás
não serve para o reino de Deus».

 

CONTEXTO

Lucas, seguindo o esquema do Evangelho de Marcos, situou a primeira parte do ministério de Jesus na região geográfica da Galileia (cf. Lc 4,14-9,50): é na Galileia (na sinagoga de Nazaré) que Ele apresenta o “programa” que se propõe concretizar (cf. Lc 4,16-30); é nas aldeias e cidades da Galileia que Ele anuncia o Reino de Deus, com palavras e com gestos poderosos; é na Galileia que Ele começa a reunir à sua volta um grupo de discípulos dispostos a viver a aventura do Reino de Deus… No final da etapa da Galileia, os discípulos, tocados por tudo o que viram e escutaram, já não têm dúvidas: esse Jesus que os convidou a segui-l’O é “o Messias de Deus” (Lc 9,20) que veio trazer ao mundo a salvação.

Depois disso, Jesus decidiu dar um passo em frente e dirigir-se para Jerusalém, a capital religiosa de Israel. Ele sentia que era necessário confrontar as autoridades religiosas judaicas e desafiá-las a acolher o Reino de Deus. A partir de 9,51, Lucas narra precisamente esse “caminho” que Jesus vai percorrer com os discípulos, até Jerusalém.

A narração do “caminho” para Jerusalém é a parte mais original do Evangelho de Lucas. Enquanto Marcos (cf. Mc 10) e Mateus (cf. Mt 19-20) contam esta “viagem” em breves linhas, Lucas dedica-lhe dez capítulos (cf. Lc 9,51-19,28). O “caminho para Jerusalém” tem, na reflexão teológica apresentada por Lucas, uma importância particular.

Essa importância tem, antes de mais, a ver com a centralidade de Jerusalém na conceção teológica de Lucas. No Antigo Testamento, Jerusalém é o lugar onde acontece a salvação, porque é lá que estão as instituições mediadoras da salvação (o rei, a lei, o templo, o sacerdócio). Mas Jerusalém é também, na catequese judaica, o lugar onde o Messias se vai manifestar e apresentar a Israel a sua proposta libertadora. Por isso Jesus, “o Messias de Deus”, deve dirigir-se para Jerusalém. Lá irá irromper a salvação de Deus; e, segundo Lucas, é de lá que a proposta de salvação apresentada em Jesus sairá para ir ao encontro do mundo.

Os discípulos acompanham Jesus no caminho para Jerusalém. Esse caminho, mais do que um caminho geográfico, é um caminho espiritual e teológico. À medida que caminham, os discípulos vão sendo confrontados com a lógica do Reino e vão sendo desafiados a acolher os valores do Reino. Por vezes manifestam grandes dificuldades em “acompanhar” Jesus e em entender as suas propostas (cf. Lc 9,54-56; 18,31-34); mas a cada passo vão crescendo na fé e consolidando a sua adesão a Jesus. O caminho para Jerusalém torna-se, para os discípulos, uma verdadeira escola de seguimento de Jesus, de identificação com Jesus, de plena adesão a Jesus. Quando chegam a Jerusalém, na conclusão da viagem, os discípulos estão mais preparados para serem, no futuro, as testemunhas de Jesus em todos os cantos da terra.

 

MENSAGEM

Jesus e os discípulos começam a caminhar para Jerusalém. Para sublinhar a determinação de Jesus, Lucas diz que Ele “endureceu o rosto” (vers. 51). A expressão leva-nos a Is 50,7, onde define a decisão irrevogável do “Servo de Javé” em cumprir a vontade de Deus. Aqui, serve para descrever a absoluta disponibilidade de Jesus para concretizar o projeto do Pai.

Os primeiros passos do caminho para Jerusalém levam Jesus e os discípulos a aproximarem-se de uma povoação samaritana não identificada. Não foram bem acolhidos. Por detrás da hostilidade com que foram recebidos está, certamente, a dificuldade de convivência entre judeus e samaritanos, que tem fundas raízes históricas. Aliás, era por isso que os peregrinos que iam da Galileia para Jerusalém para participar nas grandes festas de Israel evitavam passar pelo interior da Samaria, utilizando preferencialmente o “caminho do mar” (junto da orla costeira), ou o caminho que percorria o vale do rio Jordão, a oriente.

Tiago e João, os “filhos do trovão” (Mc 3,17), estão indignados (vers. 54) com a forma como foram recebidos. Sugerem até uma resposta agressiva, “musculada”, à hostilidade dos samaritanos. Recordando um episódio em que o profeta Elias invocou o fogo do céu sobre os soldados de Acazias, o rei de Israel que residia na Samaria (cf. 1 Re 1,10-12), Tiago e João sugerem que se peça, outra vez, que o “fogo do céu” castigue todos os habitantes daquela povoação samaritana.

Jesus irrita-se e repreende os discípulos (vers. 55). Percebe com tristeza que eles ainda não interiorizaram os valores do Reino de Deus. Ao reprender os discípulos, Jesus oferece-lhes o seu primeiro ensinamento nessa escola que é o caminho para Jerusalém: a implementação do Reino de Deus não passa pela força, pela imposição, pela prepotência, pela violência, pelo castigo, pela vingança; mas passa pelo amor, pelo serviço simples e humilde, pelo dom da vida. Deus não quer a destruição do pecador; o que Deus quer é a mudança dos corações. Se aqueles samaritanos ainda não estão preparados para acolher a proposta de Deus, é preciso respeitar a sua decisão e seguir em frente. É isso que Jesus e os discípulos fazem: dirigem-se para “outra povoação” (vers. 56), ao encontro de outros que estejam disponíveis para acolher a salvação de Deus.

Lucas leva-nos depois para outro momento do caminho para Jerusalém. Diante de Jesus desfilam agora três pessoas interessadas em segui-lo. São pessoas que Lucas não identifica pelo nome. A falta de especificação faz com que cada um dos leitores de Lucas possa identificar-se com o personagem que dialoga com Jesus.

O primeiro personagem propõe-se ser discípulo de Jesus (“seguir-Te-ei para onde quer que fores” – vers. 57). Pretende seguir atrás de Jesus, escutá-l’O, aprender as suas lições até ser capaz de repeti-las. Jesus não se opõe. Mas avisa que ser seu discípulo supõe um compromisso total, uma doação plena, um “deixar tudo”, um prescindir de todas as seguranças, de todas as certezas, de todas as comodidades, de todo o bem-estar, para estar totalmente ao serviço do Reino de Deus.

O segundo personagem recebeu um convite direto de Jesus: “Segue-Me” (vers. 59). O visado, contudo, impõe condições: “Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai”. O pedido do homem parece razoável: na cultura judaica, o dar sepultura a um familiar era uma obrigação fundamental.  A resposta de Jesus ao pedido é “escandalosa”: “deixa que os mortos sepultem os seus mortos; tu, vai anunciar o reino de Deus” (vers. 60). Ao dá-la, Jesus pretende dizer que o compromisso com o Reino é a prioridade fundamental da vida dos discípulos: deve estar à frente de outros deveres e de outras obrigações fundamentais.

O terceiro personagem promete seguir Jesus, mas pede autorização para se despedir primeiro da sua família (vers. 61). O seu pedido é semelhante ao que o Eliseu, chamado a ser profeta, fez a Elias (cf. 1 Re 19,20). Elias, nessa circunstância, contemporizou com o pedido de Eliseu. Jesus, contudo, assume uma posição mais exigente do que Eliseu. Cita um conhecido provérbio que diz que não é boa atitude ir arar o campo tendo o olhar naquilo que ficou atrás, especialmente nos lugares onde há pedras espalhadas pelo terreno. A mensagem é clara: quem embarca na aventura do Reino de Deus deve fazê-lo de forma totalmente comprometida, sem se deixar condicionar por laços de qualquer espécie.

Talvez não devamos ver estas exigências como normativas: noutras circunstâncias, Jesus mandou cuidar dos pais (cf. Mt 15,3-9); e os discípulos – nomeadamente Pedro – fizeram-se acompanhar das esposas durante as viagens missionárias (cf. 1 Cor 9,5). Mas, de acordo com Jesus, o discípulo não pode deixar-se distrair por obstáculos que o impeçam de colocar-se integralmente ao serviço do Reino de Deus. Quem decide seguir Jesus não pode estar constantemente a olhar para trás, para aquilo que deixou; mas deve olhar para a missão, para o Reino, decidido a abraçar sem reticências o projeto que Deus quer confiar-lhe.

 

INTERPELAÇÕES

  • A imagem do “caminho” pode ser uma boa metáfora para representar a nossa vida. Desde que nascemos somos “peregrinos” que avançam passo a passo em direção a uma meta. Essa meta é a vida definitiva, a nossa realização plena. Contudo, ao longo do “caminho” deparamo-nos com uma infinidade de encruzilhadas e de desvios que nos podem fazer perder o rumo. O “mapa” de que nos servimos para avançar, nem sempre é claro; algumas vezes deixamo-nos seduzir por miragens e escolhemos veredas que não levam a lado nenhum. Necessitamos de quem nos oriente e nos ajude a encontrar o caminho certo. Poderemos confiar em todas as indicações que nos dão sobre o “caminho” mais adequado para chegar à meta que nos propusemos? No Evangelho deste domingo Jesus convida os seus discípulos – os de ontem, de hoje e de amanhã – a irem com Ele no “caminho” que leva ao encontro da vida verdadeira. O “caminho” que Jesus aponta pode não ser um “caminho” fácil e tranquilo: por vezes exige renúncias, leva-nos por mares revoltos, atira-nos para longe dos nossos sonhos pessoais, faz-nos passar pela cruz… Mas é, garantidamente, um caminho que leva à vida nova, à ressurreição. Confiamos em Jesus e estamos dispostos, apesar de tudo, a caminhar pelo “caminho” que Ele nos aponta?
  • A primeira lição que Jesus deixa aos discípulos no caminho para Jerusalém é sobre a forma de lidar com a oposição e a hostilidade do mundo. Os discípulos de Jesus, mal recebidos pelos habitantes de uma povoação samaritana, queriam “tratar” do problema com violência e castigos. Jesus não o permite. A missão dos discípulos de Jesus não é lutar contra seja quem for, nem sequer contra aqueles que se opõem ao Evangelho. As “guerras santas”, as “cruzadas contra os infiéis”, a destruição dos “hereges”, as conversões forçadas, o desrespeito pela liberdade de consciência, não se coadunam com a lógica de Deus; o fanatismo, a intolerância, as condenações, a imposição do Evangelho pela força, não são métodos aprovados por Deus. Respeitamos as opiniões diferentes dos irmãos que nos rodeiam, mesmo que elas sejam contrárias às nossas? Respeitamos o caminho e o ritmo de caminhada daqueles com quem nos cruzamos?
  • Quem seguir Jesus pode contar com “condições mínimas” de bem estar e de conforto? Os que vão com Ele viver a aventura do Reino de Deus poderão contar, garantidamente, com “casa, mesa e roupa lavada”? Não. Aliás, Jesus faz questão de deixar tudo claro: “as raposas têm as suas tocas, e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”. Quem aceitar ir com Jesus poderá ter de “viver sem rede”, confiando apenas na providência de Deus. Ir com Jesus não é para gente que não prescinde do conforto, da segurança, do bem-estar. Ir com Jesus é para gente livre, que não tenha medo da pobreza, da simplicidade, da precariedade, do despojamento. Ir com Jesus é para gente que esteja disposta a prescindir de tudo para fazer do Reino de Deus a grande prioridade da sua vida. Como nos situamos em relação a isto? A preocupação com o bem-estar, com o conforto, com a segurança, com os bens materiais alguma vez nos impediram de responder ao convite que Jesus nos faz?
  • Parece chocante, para a nossa sensibilidade, a resposta de Jesus ao homem que lhe pediu para, antes de O seguir, ir primeiro sepultar o pai: “deixa que os mortos sepultem os seus mortos; tu, vai anunciar o reino de Deus”. Jesus será tão intransigente que não entenda o sagrado dever de um filho de dar sepultura ao seu pai? Provavelmente devemos entender a resposta de Jesus como uma indicação para não nos deixarmos ficar a olhar para o passado, para as coisas e situações “mortas”, para as “carruagens” que já partiram, para as oportunidades perdidas, para os dias que já não voltam, para as tradições velhas e gastas de que não queremos prescindir. Quando ficamos agarrados ao passado, ficamos paralisados e sem disponibilidade para encarar os desafios sempre novos de Deus. Vivemos ancorados no passado, ou atentos àquilo que está a acontecer à nossa volta e que exige de nós respostas decididas, comprometidas, inovadoras, proféticas?
  • Um dos homens que Jesus encontrou no caminho disponibilizou-se para segui-l’O, mas quis primeiro despedir-se da sua família. Jesus parece não ter encarado bem essa pretensão. Disse ao homem: “quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o reino de Deus”. Tal rigor parece-nos excessivo… Não temos deveres para com a nossa família, para com aqueles que mais amamos? Jesus exige que façamos “tábua rasa” dos afetos e dos amores que enchem as nossas vidas de sentido? Não. Mas está a sugerir que os nossos afetos, as nossas ligações, os nossos amores não podem impedir-nos de seguir a vontade de Deus e de abraçar os desafios de Deus. Quando Deus nos confia uma determinada missão, não podemos deixar que nada nem ninguém nos impeça de a concretizar. Temos as nossas prioridades bem definidas? Que lugar, na nossa lista de prioridades, damos a Deus e aos seus projetos?

 

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA

Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
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