Das tentações à agonia
Um mesmo acontecer em evolução e concretização

Do deserto ao jardim do Getsémani: relação entre as tentações de Jesus e a sua agonia
A Quaresma deste ano conduz-nos, teológica e liturgicamente, ao aprofundamento da dimensão batismal do nosso ser cristão, em vista da renovação das promessas do nosso batismo, que acontece em cada Páscoa.
O Primeiro Domingo da Quaresma assinala e inaugura esse itinerário de revisão, ajustamento e aprofundamento, oferecendo-nos a narrativa das tentações de Jesus no deserto, segundo os Evangelhos Sinópticos (Mt 4,1-11; Mc 1,12s; Lc 4,1-13). Apesar das particularidades de cada um, iremos considerá-los aqui no seu conjunto, na observação uma pintura de arte sacra.
Efetivamente, a arte sacra tem o mérito de ser uma boa escola de aprendizagem dos mistérios da fé e é resultado ou fruto dum pensar teologal a respeito dos mistérios da mesma. Através da beleza, a arte sacra esclarece-nos e leva-nos a pensar e a olhar com profundidade, elevando-nos a uma outra dimensão, tornando-se, assim, fonte de vida espiritual e de formação.
Neste sentido, a meditação do episódio evangélico das tentações de Jesus (segundo Mt 4,1-11) conduz-nos a uma outra passagem evangélica, que poderíamos designar com o termo joanino como “a hora” da decisão. Falamos da oração de Jesus no Getsémani: a oração no Jardim das Oliveiras (Lc 22, 39-46) ou a agonia no Getsémani (Mt 26,36-46; Mc 14,32-42). Este é o primeiro dos eventos que conduzem à crucificação; é o início da paixão de Cristo.
- O que significa aquele anjo e aquele cálice recebido por Cristo, cuja representação podemos ver em tantos quadros?
- Como é que os pintores representaram a sua agonia?
- Porquê pintar um ambiente escuro, com muitas sombras e pouca luz?
- E o sono dos apóstolos?
Estas perguntas, e outras, fazem todo o sentido e ajudam-nos a entrar na cena, tomando parte nela.
O significado dos anjos: a consolação e o cálice
Os evangelhos referem que Jesus, depois da ceia, antes da sua paixão e morte, retirou-se para rezar.
O artista Nicolas Poussin interpreta este evento numa pintura sobre uma fina placa de cobre, realizada em Roma na década de 1620. Cristo dirige-se a uma propriedade chamada Getsémani, no sopé do Monte das Oliveiras (cf. Mt 26,36; Mc 14,32), acompanhado por três discípulos: Pedro, Tiago e João. Cristo pede-lhes que vigiem e afasta-se para rezar sozinho. Entretanto, os discípulos adormecem, tal como aparece em primeiro plano na parte inferior do quadro. Num segundo plano, mais acima, Jesus é representado em agonia e em oração, pedindo a Deus, seu Pai, que o poupe às provações que se aproximam (cf. Rm 8,32).
Contudo, apesar do medo, da angústia e da tentação, Jesus, decididamente, aceita a vontade do Pai, cuja justiça se deve realizar, desta forma, pela entrega do Filho. Um dos anjos segura na mão e apresenta a Jesus um cálice: ele representa esses futuros sofrimentos e torna-se, assim, um elemento quase essencial ou central desta cena, aqui pintada. Na verdade, o cálice permite aos pintores desta cena representar os sofrimentos e conflitos internos vivenciados por Cristo, consciente da sua natureza humana e divina, antes de aceitar plenamente as consequências da sua missão.
Nesta pintura, como noutras, a agonia de Jesus contrasta com a inércia dos corpos quase monumentais dos discípulos, que se entregaram ao sono descansado e profundo. Ao contrário de Mateus e de Marcos, a narração de Lucas refere a aparição dum anjo que, neste momento tão decisivo da vida e missão de Jesus, o conforta, enquanto ele reza envolvido em angústia (cf. Lc 22,43).
É de notar que a representação do anjo, nesta pintura, como em tantas outras, não é apenas uma referência direta ao Evangelho e à tarefa particular deste ser criado por Deus, para o servir, mas é também uma manifestação e símbolo da assistência de Deus, que sempre consola, guia e guarda o homem nas suas tentações e tribulações. Além disso, vemos aqui no anjo que segura e apresenta a Jesus um cálice, o anúncio da morte do Senhor em favor de todos. O cálice é símbolo da morte violenta e do sacrifício da vida de Jesus na cruz, para a salvação de todos. Este gesto simbólico não é referido no Evangelho e, possivelmente, trata-se duma tradição e de uma interpretação piedosa posterior, eventualmente datada a partir do período medieval e renascentista, tornando-se um símbolo e parte integrante da representação pictórica “oficial” deste acontecimento evangélico. Esta referência representativa do cálice que vem do céu, “do altar celeste” (cf. Oração Eucarística I), e o seu conteúdo são temas muito profundos, de grande densidade teológica e que nos levaria bem longe! Essas considerações ficarão para um outro momento.
Nesta pintura, Nicolas Poussin associa a este anjo da consolação um outro anjo, ambos circundados por um número considerável de querubins. Enquanto uns seguram e apresentam a Cristo a cruz (aparentemente pesada e que parece querer enterrar-se no solo, assinalando, assim, o seu território e domínio), outros ostentam e trazem, de forma apressada e decidida, os instrumentos da paixão. Trata-se, portanto, duma espécie de premonição da morte de Jesus, do iminente “teodrama”. Este conjunto espetacular de anjos, querubins e nuvens, com efeitos de luz, acentuam a dramaticidade da decisão de Jesus e o sentido da luta interior e são como que uma referência à tradição barroca.
Voltemos aos anjos. Sabemos que existe uma relação muito grande entre as tentações de Jesus e a oração agonizante no Getsémani. Aqui, neste quadro, a presença dos anjos fundamenta ainda mais essa profunda conexão entre estes dois acontecimentos fundamentais e decisivos na vida de Jesus, que esclarecem e aprofundam a sua identidade e a sua missão salvífica. Assim, ao acontecimento da agonia une-se o drama das tentações de Jesus no deserto, antes de iniciar a sua vida pública. Se, nas tentações, a missão de Jesus ainda não estava bem definida, agora, aqui, aparece mais definida e materializada num cálice e numa cruz, que irão ser assumidos, realmente, no corpo ferido, morto e ressuscitado de Jesus. Esta é a vontade do Pai: a salvação da humanidade e do mundo pela obediência e pela humilhação do Filho; o dom da reconciliação e da paz através dos sofrimentos da paixão, da morte na cruz, que se tornou para todos fonte de vida e ressurreição.
Na reflexão de Hans Urs von Balthasar, a agonia de Jesus no Getsémani não é simplesmente um momento de medo humano perante a morte, mas um evento teológico central que antecipa e prepara a “hora” da “descida aos infernos” (o mistério do Sábado Santo!), por parte de Jesus, como se professa no Credo e a que a teologia oriental dá tanta importância. Este é, por excelência, o momento em que Cristo aceita “tornar-se pecado” (2Cor 5,21), assumindo sobre si e radicalmente todo o pecado do mundo e todo abandono humano, conduzindo-o (sempre em obediência total ao Pai!) aos limites extremos da separação de Deus. Assim, no Getsémani, Jesus experimenta e começa a sentir o abandono e a «condenação» que a humanidade mereceu com o pecado, vivendo antecipadamente a «noite escura» e o abandono total.
Numa palavra, Cristo no Getsémani não sente apenas medo da morte física, mas experimenta, por amor obediente, o horror do pecado como rejeição de Deus e o sentimento de fracasso e ausência de Deus que caracteriza o inferno.
Para a vivência quaresmal: a importância da oração
A caminho da Páscoa, a junção destes dois episódios evangélicos ensina-nos a centralidade e a importância da oração na nossa vida, para não cairmos na tentação. Pode ser, por exemplo, a tentação da dispersão que nos distrai, nos descentraliza e desconcentra das responsabilidades que temos e da missão que Deus nos deu.
Recorda-nos que a oração nos ajuda a permanecermos vigilantes, atentos e disponíveis para o que for necessário e, portanto, disponíveis.
Recorda-nos que a oração nos ajuda a discernir e a fortalecer as nossas decisões e dá-nos a força para permanecermos fiéis no serviço de Deus e operosos na caridade.
Por fim, recorda-nos a profunda e singular solidariedade de Jesus, Filho de Deus, para com todos os que sofrem e vivem atribulados, ensinando-os a atitude do abandono, da paciência e a fazerem o bem, através do sofrimento. Efetivamente, o sofrimento humano atingiu o seu vértice na paixão de Cristo e, ao mesmo tempo, revestiu-se de uma dimensão completamente nova e entrou numa ordem nova, isto é, foi associado ao amor, àquele amor que cria o bem, tirando-o mesmo do mal (cf. Salvifici doloris, nº 18). Na verdade, Cristo ensinou o homem a fazer bem com o sofrimento e, ao mesmo tempo, a fazer bem a quem sofre (cf. Salvifici doloris, nº 30).
Pe. José Nélio da Silva Gouveia, scj
Centro de Espiritualidade do Seminário Nossa Senhora de Fátima – Alfragide