S. André, Apóstolo

André era discípulo de João Batista, e companheiro de João Evangelista. Quando o Precursor apontou Jesus que passava, dizendo: “Eis o cordeiro de Deus” (cf. Jo 1, 35-40) tornou-se imediatamente discípulo do Senhor. Logo a seguir, comunicou a Pedro, seu irmão a descoberta do Messias (cf. Jo 1, 41s.). Jesus chamou a ambos para se tornarem “pescadores de homens” (Mt 4, 18s.). É André que, na multiplicação dos pães indica a Jesus o rapaz que tem cinco pães e dois peixes (Jo 6, 8s.). Com Filipe, André refere a Jesus que alguns gregos O querem ver (Jo 12, 20s.). A tradição reconhece em Santo André o evangelizador da Acaia (Grécia) e em Patras o lugar onde morreu após dois dias de suplício na Cruz, donde anunciou Cristo até ao último momento.

Lectio

Primeira leitura: Romanos 10,9-18

Irmãos: Se confessares com a tua boca: «Jesus é o Senhor», e acreditares no teu coração que Deus o ressuscitou de entre os mortos, serás salvo. 10É que acreditar de coração leva a obter a justiça, e confessar com a boca leva a obter a salvação. 11É a Escritura que o diz: Todo o que nele acreditar não ficará frustrado. 12Assim, não há diferença entre judeu e grego, pois todos têm o mesmo Senhor, rico para com todos os que o invocam. 13De facto, todo o que invocar o nome do Senhor será salvo. 14Ora, como hão-de invocar aquele em quem não acreditaram? E como hão-de acreditar naquele de quem não ouviram falar? E como hão-de ouvir falar, sem alguém que o anuncie? 15E como hão-de anunciar, se não forem enviados? Por isso está escrito: Que bem-vindos são os pés dos que anunciam as boas-novas! 16Porém, nem todos obedeceram à Boa-Nova. É Isaías quem o diz: Senhor, quem acreditou na nossa pregação? 17Portanto, a fé surge da pregação, e a pregação surge pela palavra de Cristo. 18Mas, pergunto eu, será que não a ouviram? Pelo contrário: A voz deles ressoou por toda a terra e até aos confins do mundo as suas palavras.

A fé leva à salvação quando nos abandonamos a Deus, reconhecendo-O como único Salvador. Mas a fé pressupõe a escuta da Palavra, pela pregação dos missionários. A pregação e a fé têm o mesmo objeto: o mistério de Jesus-Senhor, morto e ressuscitado pelo poder de Deus Pai. Por isso, quando alguém acredita, expropria-se de si mesmo e torna-se propriedade de Deus, garante e fundamento de toda a confiança dos homens n´Ele. Mas também a pregação pressupõe um evento histórico absolutamente necessário: ter sido enviado. Por outras palavras, a pregação pressupõe a missão. A mensagem evangélica, destinada a todos os povos, passa pela escolha que Jesus faz das suas testemunha e pelo seu envio em missão: “Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura.” (Mc 16, 15).

Evangelho: Mateus 4, 18-22

Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. 19Disse-lhes: «Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens.» 20E eles deixaram as redes imediatamente e seguiram-no. 21Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, os quais, com seu pai, Zebedeu, consertavam as redes, dentro do barco. Chamou-os, e 22eles, deixando no mesmo instante o barco e o pai, seguiram-no.

Jesus reúne à sua volta alguns discípulos aos quais dirige um especial ensinamento, porque os quer como discípulos e como testemunhas. Depois da Ressurreição, enviá-los-á ao mundo inteiro. Os Doze, de pescadores de peixes, tornam-se pescadores de homens. É o que Jesus lhes garante: “farei de vós pescadores de homens” (v. 19). André, com o seu irmão Simão, é um dos primeiros a ouvir o chamamento de Jesus e a segui-l´O. Mateus realça a prontidão com que o fizeram: “E eles deixaram as redes imediatamente e seguiram-no.” (v. 20). O seguimento de Jesus não admite hesitações ou demoras. Exige radicalidade!

Meditatio

A adesão pronta de André, e dos outros apóstolos, ao seguimento de Jesus e à missão que lhes confiava, permitiram-lhes levar a “Boa Notícia” da salvação aos confins da terra. A fé, adesão a Cristo e ao projeto de salvação que nos propõe, vem da escuta da Palavra, isto é, de Cristo, Palavra definitiva de Deus aos homens. Pregar essa Palavra, para que todos possam conhecê-la e aderir-lhe é, ainda hoje, a missão da Igreja.
Somos, pois, convidados a escutar a Palavra, a acolhê-la no coração. É, sem dúvida, uma palavra exigente. Mas é Palavra salutar. Por isso, não podemos cair na tentação de lhe fechar os nossos ouvidos. Tal como certos remédios, a Palavra pode fazer-nos momentaneamente sofrer. Mas é a nossa salvação.
A palavra é também alimento. Os profetas dizem que Deus promoverá no mundo uma fome, não de pão, mas da sua Palavra. Precisamos de experimentar essa fome, sabendo que a Palavra de Deus nos pode saciar para além de todas as realidades terrestres, e muito mais do que podemos imaginar.
A palavra de Deus é exigência. Jesus fala de uma semente que deve crescer e espalhar-se por todo o lado. É a Palavra que torna fecundo o apostolado. Não pregamos palavras nossas, mas a Palavra que escutamos e acolhemos, e nos impele a proclamá-la, para pôr os homens em comunhão com Deus.
S. João ensina-nos que não é fácil escutar a palavra, porque não é fácil ser dóceis a Deus. Mas só quem dócil ao Pai, escuta a sua Palavra: “Todo aquele que escutou o ensinamento que vem do Pai e o entendeu vem a mim” (Jo 6, 45).
A Palavra é a nossa felicidade. A palavra, meio de comunicação humana por excelência, permite-nos comunicar com Deus. Para entrar em comunicação e em comunhão com Deus, havemos de acolher a sua Palavra em nós.
Que Santo André nos ensine a escutar e a acolher a Palavra de Deus, para estarmos em comunhão com Ele e uns com os outros.

Oratio

Senhor, abre-nos os ouvidos e o coração à tua Palavra para que estejamos dispostos a seguir-te em radicalidade evangélica e a ser tuas testemunhas onde e como dispuseres. Que a tua Palavra ecoe, hoje, mais eficazmente do que nunca. Que nos demos conta da tua presença e a reconheçamos, hoje, mais do que nunca, sobretudo os que somos jovens. Abandonados à tua solicitude de pastor, não faltarão vocações à tua Igreja. Ámen.

Contemplatio

Santo André foi um dos apóstolos que melhor compreendeu e saboreou o mistério da cruz. O seu bom coração foi penetrado pela graça do Calvário. Pregou a cruz na Cítia, no Ponto e noutras regiões. Desejava morrer sobre a cruz, para dar a Nosso Senhor amor por
amor. Teve esta graça em Patras. Censurava ao juiz as suas perseguições contra a verdade. O juiz irritado ordenou-lhe que sacrificasse aos deuses. – «É ao Deus todo-poderoso, o único e verdadeiro, respondeu André, que imolo todos os dias, não a carne dos animais, mas o Cordeiro sem mancha, inteiro e cheio de vida sobre o altar, depois de ter sido imolado e dado em alimento aos cristãos». Mostrava assim sobretudo o seu amor pela Eucaristia. Contam que, vendo de longe a cruz sobre a qual devia ser ligado, exclamou: «Eu vos amo, cruz preciosa, que fostes consagrada pelo corpo do meu Deus, e ornada com os seus membros como com ricas pedrarias… Aproximo-me de vós com alegria, recebei-me nos vossos braços… Há muito tempo que vos desejo e que vos procuro. Os meus votos cumpriram-se. Que aquele, que de vós se serviu para me resgatar, se digne receber-me apresentado por vós». Na prática, unamos todas as nossas cruzes quotidianas à cruz de Jesus Cristo. Elas unir-nos-ão aos seus méritos. (Leão Dehon, OSP 4, p.505s.).

Actio

Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
“Deixaram as redes imediatamente e seguiram-no.” (Jo 3, 20).”

 

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S. André, Apóstolo (30 de Novembro)

Ordenação Diaconal de dois Dehonianos

No próximo dia 2 de Dezembro, na Igreja de Santa Maria de Belém – Mosteiro dos Jerónimos – serão Ordenados Diáconos dois Dehonianos: Flávio Gouveia e Albino Eduardo Pereira.

O Flávio Gouveia tem 27 anos e é natural da Ilha da Madeira, freguesia do Porto da Cruz, e ingressou no Colégio Missionário Sagrado Coração, no Funchal, aos 12 anos. O Albino Eduardo Pereira tem 26 anos e é natural de Moreira de Cónegos, Guimarães, e entrou para o Seminário Missionário Padre Dehon, em Rio Tinto, aos 13 anos.

Ambos são Dehonianos desde 2005. Residem na Comunidade do Seminário Nossa Senhora de Fátima, em Alfragide, frequentam o Ano Pastoral no Seminário Maior do Patriarcado de Lisboa e estão em processo de conclusão do Mestrado Integrado em Teologia, na Universidade Católica Portuguesa.

Confrades, familiares e amigos, alegram-se com o Flávio e com o Eduardo pela sua entrega em ordem ao serviço da Igreja. É uma graça inestimável, expressão da proximidade do Deus que “renova todas as coisas”.

A Celebração está prevista para as 15h30 e será presidida por Sua Eminência Reverendíssima, o Cardial Patriarca de Lisboa, D. José da Cruz Policarpo.

 

António Pedro, scj

Novo livro do padre Jacinto de Farias

O Pe. José Jacinto Ferreira de Farias (dehoniano) acaba de publicar um novo livro intitulado: “A força que nos vem de Deus – Despertar”. A editora é a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS). A obra tem 98 páginas e recolhe um conjunto de meditações publicadas no boletim mensal da AIS: Sementes de Esperança.

Neste livro o autor, teólogo e professor na Universidade Católica Portuguesa, com o seu olhar arguto e atento ao mundo, propõe diversas atitudes para ajudar os cristãos a DESPERTAR. Socorrendo-se da sua vasta cultura e dos ensinamentos de homens e mulheres de fé, o Pe. Jacinto desafia os cristãos ao compromisso e à construção de um mundo melhor, segundo Deus. O exemplo dos Pastorinhos e a mensagem de Fátima são como que o fio condutor destas incisivas reflexões que vêm ajudar o crente a centrar mais profundamente no Evangelho o seu estilo de vida.

“É preciso despertar”, afirma convictamente o autor a certa altura do seu livro. Estas propostas de meditação são um bom instrumento que abre ao compromisso profético para fazer despertar um mundo novo marcado pela simplicidade e pela beleza do Evangelho.

 

Zeferino Policarpo, scj

 

Comunicado Final da Semana Social Porto 2012

A Semana Social do Porto, em 2012, procedeu a uma reflexão sobre os desafios atuais ao Estado Social e à Sociedade Solidária. A Igreja assume a necessidade de encontrar sinais e iniciativas de esperança que se contraponham à crise, propondo uma mais eficiente partilha de recursos, uma justiça fiscal equitativa e uma avaliação rigorosa dos serviços públicos. O Estado Social deve ser discutido e pensado não por urgências financeiras, mas de modo a corresponder às exigências da coesão económica e social, da justiça e da dignidade humana.

Como disse o Bispo do Porto, D. Manuel Clemente: “Foram sociedades solidárias que se constituíram em Estados sociais. (…) Antes, logicamente antes, do Estado social está a sociedade solidária, que o precede, alimenta e extravasa.” Nascido na revolução industrial e depois dos trágicos conflitos mundiais do Séc. XX, o Estado Social tem de ser visto nas sociedades desenvolvidas contemporâneas sob a influência da questão demográfica, da quebra de taxas de natalidade e do envelhecimento da população. Neste sentido, o Estado Social reporta-se à sociedade toda, uma vez que tem a ver com a criação e consolidação de condições de coesão e de confiança entre todos.

A Doutrina Social da Igreja tem alertado para a necessidade de encontrar respostas que permitam uma articulação efetiva entre o Estado e as iniciativas solidárias. A reforma do Estado Social tem, assim, de se basear: na proteção de todos os cidadãos, no equilíbrio entre a livre iniciativa e a igual consideração de todos, no entendimento do destino universal dos bens da Terra, na dignidade do trabalho e na promoção do emprego, na justiça distributiva entre grupos sociais e gerações, na complementaridade entre igualdade e diferença, na subsidiariedade e na participação de todos. Como afirma S.S. o Papa Bento XVI, na Encíclica Caritas in Veritate: “O binómio exclusivo mercado-Estado corrói a sociabilidade, enquanto as formas económicas solidárias, que encontram o seu melhor terreno na sociedade civil, sem no entanto se reduzir a ela, criam sociabilidade” (nº39).

Assim, não podemos deixar na penumbra o tema do desemprego estrutural e da preservação do trabalho humano. A economia para as pessoas exige a dignificação do trabalho e a promoção do emprego em condições de igualdade e justiça, devendo romper-se o ciclo vicioso que considera a pobreza como inevitável e a desigualdade como uma fatalidade. Deste modo, impõem-se assegurar a solidariedade entre pessoas e gerações e nesse sentido houve a apresentação de iniciativas assentes em redes de proximidade, na criatividade e na inovação social, na responsabilidade das famílias e das comunidades, designadamente perante os desafios do envelhecimento e da solidão. Importa encontrar novos estilos de vida, capazes de articular sobriedade e desenvolvimento. A reforma do Estado Social não pode esquecer a assunção concreta dos riscos sociais e a compatibilização da sustentabilidade financeira e da justiça distributiva, importando romper o descontrolo do endividamento e pôr cobro à escalada do desperdício e da destruição do meio ambiente. Do que se trata é de considerar princípios de ética pública que ponham a dignidade da pessoa humana no centro da vida política, social e económica. Como afirmou Luciano Manicardi “longe de representarem duas dimensões opostas, justiça e caridade podem e devem encontrar-se: a justiça é o rosto social da caridade”.

A segurança social, a educação, o serviço nacional de saúde são responsabilidades inerentes à defesa do bem comum e à salvaguarda da proteção de todos. A noção de serviço público não é confundível com a ação do Estado, pelo que o Estado de direito deve fortalecer-se e consolidar-se através de iniciativas sociais autónomas. A justiça distributiva tem de se ligar à ideia de diferenciação positiva, que não pode confundir-se com assistencialismo, uma vez que os mais carenciados são os que necessitam de mais apoios. O valor da poupança e do trabalho têm de ser incentivados, por contraponto ao endividamento e em defesa da equidade. As desigualdades sociais, a pobreza e a exclusão devem ser contrariadas através de instrumentos públicos e de iniciativas solidárias, através do sistema fiscal, da subsidiariedade e da cidadania ativa.

Nestes termos, os cristãos são chamados a viver a caridade na verdade, o que reclama uma prática verdadeiramente humana, uma ação de proximidade e o compromisso com a justiça. Para tal, importa que os cristãos se interessem, estudem e aprofundem a Doutrina Social da Igreja, nas famílias e comunidades, para que possam fazer a leitura das realidades de cada momento à luz dessa doutrina, que tem o mérito de ser transversal e aplicável a todas as famílias políticas.

Neste Ano da Fé, a Semana Social Porto 2012 afirma que há uma esperança cristã que tem de ser princípio e critério que, sobretudo em tempo de crise, cabe aos cristãos inscrever na organização social e na participação política.

Cumunicado Final – Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP)

 

1. De 19 a 21 de novembro de 2012, em Fátima, reuniu-se em 15.ª Assembleia Geral, com a participação dos Superiores e Superioras Maiores de quase todos os Institutos Religiosos e Sociedades de Vida Apostólica, e dos Secretariados Regionais e Comissões Nacionais. Foram ainda convidados a participar no dia de formação outros membros dos Institutos.
 
2. A Assembleia teve o seu início com as palavras de abertura da Presidente da CIRP, Irmã Lucília Gaspar, que saudou os participantes e apresentou o programa para estes três dias, convidando todos ao diálogo e confronto, em atitude de perseverança e conversão.
De seguida, a Assembleia acolheu a partilha dos relatórios das seis Comissões Nacionais (Pastoral Vocacional, Formação Inicial, Justiça e Paz, Apoio às Vítimas de Tráfico de Pessoas, Revista “Vida Consagrada”, Semanas de Estudo) e dos Secretariados Regionais. Avaliou-se o caminho percorrido em conjunto e apresentaram-se as atividades do próximo ano. De salientar a vitalidade, a diversidade e a criatividade das ações, a maior parte em sentido formativo, e a participação na vida das dioceses.
Os Institutos Missionários Ad Gentes (IMAG) fizeram igualmente a sua partilha nos vários setores de atividade: ANIMAG, MISSÃO PRESS, Antena Portugal e Curso de Missiologia. De destacar a elevada adesão à “Exposição Missionária” no Santuário de Fátima, que pode continuar a ser visitada em www.exposicaomissionaria.org, e a grande divulgação do guião “Outubro Missionário”.
 
3.  O segundo dia de trabalhos foi dedicado ao tema de formação proposto para esta Assembleia: “Consagrados com Cristo, peregrinos na fé, apóstolos na evangelização do mundo”.
Durante toda a manhã, D. Manuel Clemente, Bispo do Porto e delegado da Conferência Episcopal Portuguesa à XIII Assembleia do Sínodo dos Bispos sobre “a nova evangelização para a transmissão da fé cristã”, partilhou connosco a sua experiência sinodal. Procurando reavivar a fé em contextos culturais de globalização e secularização, o Sínodo referiu-se à evangelização e seus tópicos habituais: Palavra de Deus; iniciação cristã autêntica; celebração cuidada dos sacramentos; atenção aos pobres; família como igreja doméstica e primeira experiência de vida em comunhão; comunidade cristã. Nestes contextos, D. Manuel Clemente lançou alguns desafios do Sínodo à Vida Consagrada, sobretudo no que se afirma no nº 7 da Mensagem que dirigiu ao Povo de Deus.
A nova evangelização, na senda dos grandes marcos evangelizadores ao longo da história, procura anunciar o Evangelho de sempre na indesmentível novidade das atuais circunstâncias. Os consagrados e consagradas são chamados a testemunhar com qualidade a novidade cristã na radicalidade do encontro total das suas vidas com Cristo, iluminando as realidades concretas da sociedade com o sentido definitivo da vida.
 
4. Na tarde desse mesmo dia, o Prof. Alfredo Teixeira, da Universidade Católica, ao apresentar os resultados do Inquérito promovido pela CEP em 2011-2012, sobre “Identidades religiosas em Portugal: representações, valores e práticas”, desenvolveu algumas incidências pastorais: o movimento crescente de não pertença a uma religião; as significativas diferenças regionais dos católicos, que implicam ações pastorais diversificadas; a diferenciação dos católicos por tipo de localidade; a presença do religioso no quotidiano da existência, com tendência para a privatização da identidade religiosa; a oração como sendo o comportamento religioso mais persistente e lugar fundamental de encontro; a presença da Igreja em momentos importantes da vida familiar, o que desafia a uma maior atenção concreta à pastoral da família; as posições religiosas por escalões etários, salientando-se o envelhecimento dos católicos; a procura em compreender a prática dos católicos nos vários cambiantes. Salientou ainda que estes estudos podem constituir importante contributo para a concretização dalgumas orientações no processo “Repensar juntos a Pastoral da Igreja em Portugal”.
 
5. Seguiu-se uma mesa-redonda sobre as incidências do Inquérito nalgumas áreas da Vida Religiosa em Portugal: comunicação (P. José Carlos Nunes), educação (Ir. Idalina Faneca), missão (P. Tony Neves) e ação social (Ir. Rufina Ferreira). Das intervenções podem elencar-se alguns desafios pertinentes: renovar a paixão por Cristo em entrega radical e na caridade para com todos; cuidar da dimensão espiritual nas nossas propostas; reinventar o processo de transmissão da fé, sobretudo nos contextos da cidade; fomentar a vivência de uma Igreja em permanente estado de missão; ser Igreja mais viva, mais interveniente, mais alegre e mais arejada; cuidar da oração e espiritualidade; apontar caminhos que solucionem verdadeiramente os problemas; assumir a interculturalidade, o diálogo ecuménico e o diálogo inter-religioso, como dimensões inerentes às nossas vidas consagradas; ser testemunhas credíveis, sobretudo nas situações de fronteira e nas margens; dar atenção aos nativos digitais e à prática da fé no mundo digital.
 
6. No final da apresentação temática do dia, D. Manuel Clemente ensaiou uma breve síntese final, salientando alguns desafios para a nossa presença significativa na Igreja e na sociedade: a necessidade de conhecer bem a realidade, daí a realização do referido Inquérito; a importância em densificar criativamente as comunidades cristãs e as redes eclesiais; a urgência em centrar a ação pastoral na família; a necessidade em criar “poços de Jacob”, onde buscar e oferecer água viva, face à secularização; a presença inadiável e encarnada em todas as necessidades do mundo; a criação de oásis no deserto, fazendo das igrejas e comunidades lugares de acolhimento e oração no meio da cidade; a presença, no variado mundo da comunicação, de mestres que sejam testemunhas sólidas e autênticas.
 
7. No final do dia, decorreu ainda um relevante encontro dos Secretariados Regionais com a Direção da CIRP, em que se partilharam os principais desafios, dificuldades e compromissos. Tratou-se de uma partilha com o objetivo de se promover um trabalho em rede de maior participação e colaboração nas atividades a nível local, em íntima ligação com as orientações das Igrejas locais e em sintonia com as estruturas nacionais da CIRP.
 
8. No último dia
de trabalhos, a Assembleia abordou ainda outros assuntos relacionados com a vida da CIRP: aprovação da ata da assembleia anterior; apresentação dos novos Superiores e Superioras Maiores e acontecimentos significativos da vida dos Institutos; proposta da Semana do Consagrado, de 27 de janeiro a 3 de fevereiro de 2013, sobre o tema “Peregrinos na fé, apóstolos na evangelização do mundo”; programa da Semana de Estudos sobre a Vida Consagrada, de 9 a 12 de fevereiro, sobre o tema “Fé e Vida Consagrada – Renovação para a nova evangelização”; apoios a propostas e causas dos Institutos; aprovação da mudança de sede e do orçamento para 2013. Foram ainda recordadas as datas das próximas Assembleias Gerais em 2013: 29-30 de abril e 18-20 de novembro.
 
9.  Os Superiores e Superioras Maiores tomaram ainda nota das prioridades da CIRP até 2014, segundo sondagem realizada na última assembleia de maio, e partilharam iniciativas para celebrar e viver o Ano da Fé e o Cinquentenário do Concílio Vaticano II.
 
10. Finalmente, a Assembleia acolheu com muito agrado o concretizado início da página oficial da CIRP na Internet (www.cirp.pt), onde se podem encontrar temas e notícias da vida dos Institutos Religiosos e Sociedades de Vida Apostólica em Portugal e a descrição mais desenvolvida dos pontos enunciados neste comunicado.
 

Fátima, 21 de novembro de 2012

Espanha: BEATO JUAN MARÍA DE LA CRUZ

Mártir da perseguição religiosa na Guerra Civil espanhola (1936-1939)

“Deus seja bendito! Em tudo seja feita a sua vontade divina! Sou muito feliz em poder sofrer por Aquele que tanto sofreu por mim, pobre pecador” (Carta de P. Mendez a P. Philippe, poucos dias antes da sua morte).
A vida e o martírio de P. Mendez scj introduzem-nos num dos capítulos mais obscuros da recente história espanhola: a perseguição religiosa durante a Guerra Civil de 1936 a 1939. Nessa guerra, onde se enfrentaram as duas Espanhas – a republicana e a nacionalista – houve 1.200.000 vítimas entre os quais 750.000 civis.
Mariano García Mendez nasceu no dia 25 de Setembro de 1891 em San Esteban de los Patos (Província de Ávila). Era o primogénito de 15 irmãos. Depois do seminário, foi ordenado sacerdote da diocese de Ávila e como tal trabalhou em diversas paróquias até 1925. O seu profundo desejo de uma sempre maior perfeição impelia-o para a vida religiosa. Porém, várias tentativas faliram, sempre por causa da sua pouca saúde.
Quando devia ir a Madrid, como soldado da reserva, visitava regularmente, para a adoração, a capela de uma congregação de irmãs formadas na espiritualidade reparadora. Por intermédio da Madre Maria do Senhor do Grande Poder conheceu os “Padres reparadores” (nome dos dehonianos na Espanha de então) e o P. Guilherme Zicke. Depois do noviciado em Novelda (Alicante), Mendez emitiu os primeiros votos no dia 31 de Outubro de 1926 e nesta ocasião tomou o nome religioso de P. João Maria da Cruz. Depois de um período pouco feliz como professor na escola de Novelda, a partir de 1929, P. João viveu como padre itinerante, porque tinha a difícil missão de percorrer cidades e aldeias angariando fundos e recrutando candidatos para as escolas da Congregação.
Na Espanha, aqueles anos foram marcados por uma instabilidade económica, política, social e também dentro da Igreja Católica. Essa ficou alheia aos pedidos de reforma reclamada pelo proletariado agrícola e por uma massa operária sempre mais numerosa. Desde o século XIX, o anticlericalismo era uma corrente que se difundia a partir dos intelectuais em círculos sempre mais amplos da população, manifestando-se em acções de militantes, às vezes violentas, contra a Igreja. O episcopado espanhol reagia geralmente de maneira defensiva e apoiou, num primeiro momento, um regime ditatorial e nacionalista. Depois do fim da monarquia e a proclamação da república (1931), o controle e a perda de toda influência da Igreja foi o objectivo prioritário do governo de esquerda. Depois das eleições de 1933, os católicos entram no governo de direita, mas revelam-se incapazes de responder com reformas eficazes a tantos problemas da Espanha. Em 1936 vence de novo a esquerda e o novo governo tolera e apoia excessos sempre mais violentos contra a Igreja e o clero. Mesmo antes da Guerra Civil, que eclodiu a 18 de Julho de 1936, houve muitas mortes. Essa guerra – em que o objectivo de cada partido não era vencer o inimigo, mas aniquilá-lo – foi o cenário em que, por assim dizer, explodiu um anticlericalismo que vinha crescendo há mais de 100 anos, com perseguições e assassinatos sistemáticos de sacerdotes, seminaristas, religiosos, religiosas e leigos católicos, e com destruição de numerosíssimas igrejas.
O historiador Giacomo Martini sj procura explicar a explosão dessa violência contra a Igreja como o efeito conjunto de três diversos factores: o anticlericalismo espanhol, o atraso da Igreja espanhola, a tendência ao radicalismo próprio da história espanhola (cf. Martini, Storia della Chiesa, vol. 4, 1998, p. 184). É preciso acrescentar que tal anticlericalismo evoluiu até ser uma tentativa sistemática e radical de eliminar qualquer manifestação cristã seja da vida pública seja da vida privada, tanto que os comunistas espanhóis da época se orgulhavam de ter feito muito mais que seus camaradas na Rússia.
Nesse contexto, a 23 de Julho de 1936, o P. João está de viagem para Valência para encontrar refúgio junto a uma benfeitora da Congregação. “No trajeto da estação para a casa da senhora Pilar, passa diante da Igreja "de los Juanes", no centro da cidade. Ficou aterrorizado com o ‘espectáculo horrível’ – são suas palavras – quando vê homens destruir os objectos sagrados da paróquia e incendiar a igreja. Em vez de passar adiante em silêncio, o P. João não esconde a sua indignação pelo incêndio da igreja. Quando aqueles malfeitores comentam entre si: ‘aquele é um reaccionário!’, ele responde: ‘Não! Sou sacerdote!’ Imediatamente, os voluntários republicanos prendem-no e transferem-no para o cárcere-modelo de Valência. Mais tarde, testemunhas contarão a vida sacerdotal exemplar de P. João na prisão, onde continua fiel às suas práticas religiosas, desenvolve um modesto ministério pastoral e se prepara para o martírio… Na noite de 23 para 24 de Agosto de 1936, junto com nove outros prisioneiros, o P. João foi fuzilado ao sul de Valência. No dia 24 de Agosto, os cadáveres das vítimas foram jogados numa fossa comum do cemitério de Silla” (Bothe, Sacerdoti del Sacro Cuore Martiri, p. 14).
Em 1940, os restos mortais do P. João foram desenterrados e, mais tarde, foram transladados para Puenta la Reina (Navarra). Em 1959, dá-se o primeiro passo em vista do processo de beatificação. E no dia 11 de Março de 2001, o Papa João Paulo II declarará beato o P. João, juntamente com outros mártires espanhóis.
Muitos outros mártires espanhóis não puderam ou não quiseram – como o P. João – salvar a própria vida, calando ou escondendo as suas convicções e a sua fé. Nas perseguições da Guerra Civil entre 1936 e 1939 foram mortos 13 bispos, 4.184 membros do clero diocesano, 2.365 religiosos e 283 religiosas. O número de leigos católicos mortos é desconhecido.
Mons. Montini, futuro Papa Paulo VI, escrevia já em 1938: “Que o Espírito Santo desce efectivamente para iluminar e consolar a consciência dos verdadeiros cristãos, proclamam-no os mártires da Igreja e repetem-no ainda hoje todos aqueles católicos da Espanha que preferiram sofrer o martírio a aceitar as injustiças dos inimigos da fé” (Ricardi, Il Secolo del Martirio, p. 347).

[cf. B. Bothe, Märtyr der Herz-Jesu-Piester, p. 12-15; Cárcel Orti, Buio sull’altare, Città Nuova, 1999; A Riccardi, Il secolo del martirio, Mondadori 2000, p. 328-348; Giacomo Martini, Storia della Chiesa/4, Morcelliana, 1998.]

Congo: O SERVO DE DEUS BERNARDO LONGO E OUTROS 27 DEHONIANOS NO CONGO

No calor da revolução do Congo

Em 1960, o Congo obteve a independência da Bélgica. A história dos anos seguintes foi dramática. O país passou a viver numa situação de anarquia e de violência devido a um governo frágil. Em 1961, o primeiro ministro Patrice Lumumba foi assassinado. Ele era um símbolo para os grupos mais radicais. O país foi sacudido por explosões de violência dos simpatizantes de Lumumba, liderados por Pierre Mulele que pregava a libertação total, com a expulsão dos europeus, do cristianismo e a eliminação do governo de Kinshasa. O mundo dos antepassados seria vencedor, após o fim do colonialismo. A ideologia de Mulele misturava maoísmo e o culto dos antepassados.
Em 1964 a situação agravou-se. A cidade de Wamba foi ocupada pelos rebeldes, que se chamavam “Simbas” e o terror começou. O bispo, D. Wittebols, junto com outros missionários, foram obrigados a caminhar a pés descalços enquanto os rebeldes batiam neles. D. Wittebols morreu em consequência dos golpes e porque, sem os óculos, caía a toda a hora. Os presos foram maltratados pela multidão e fuzilados no pátio da cadeia. Os seus corpos foram esquartejados. A Congregação perdeu 28 confrades ao todo no Congo entre 1961 e 1964 (belgas, luxemburgueses, holandeses e um italiano): D. Joseph A. Wittebols, P. Amour J. Aubert, P. Karel J. v. R. Bellinckx, P. Hermanus W. Bisschop, Fr. Martinus Damianus Brabers, P. Clément F. Burnotte, P. Joseph Ch. B. Conrad, P. Johannes B. de Vries, P. Henricus D. Hams, P. Leo L.-M. Janssen, Fr. Jozef Andries Laureys, P. Aquilino Bernardo Longo, P. Jacques J.V. Moreau, P. Gerardus St. Nieuwkamp, Fr. Jozef Alois Paps, P. Arnoldus W. Schouenberg, Fr. Wilhelmus Arnulfus Schouenberg, P. Johannes A. Slenter, P. Josephus J. Tegels, P. Francicus Th. M. ten Bosch, P. Jean I. Trausch, P. Christian J.B. Vandael, P. Jeroom G. Vandemoere, P. Petrus J. van den Biggelaar, Fr. Henrik Jozef Vanderbeek, P. Henricus B. van der Vegt, P. Henricus J.E. Verberne, P. Wilhelmus P. Vranken (cf. carta do Sup. Geral, Prot. 286/2001, de 6 de Janeiro de 2001).
O Servo de Deus, Bernardo Longo, foi morto a 3 de Novembro de 1964 em Mambasa, após 25 anos de vida missionária. Pouco antes de morrer deixou escrito num diário, achado bem mais tarde, o seu depoimento:
“Ainda bem que o Sagrado Coração me dá tanta força neste tempo e me põe na boca tantas jaculatórias de modo que consigo resistir. Antes do anoitecer faço um passeio até à casa das irmãs missionárias. Asseguro-as de que estamos sob a protecção da Virgem Maria e que devemos entregar-nos completamente à vontade do Senhor, mesmo que tenhamos que cair sob os tiros de espingarda” (Diário do P. Longo, 29.09.1964).
Num livro sobre a vida de P. Longo, o P. Tessarolo escreve estas linhas:
“lguns perguntam se estes missionários, que perderam a vida durante a revolução do Congo, tenham sido apenas vítimas de uma cataclismo social e político, superior a eles, ou possam ser considerados verdadeiros mártires da fé que foram anunciar…
Mesmo que existissem motivos para uma revolução, não se pode justificar os métodos utilizados: eliminação indiscriminada de todas as pessoas influentes e de quem pensava de modo diferente dos rebeldes; supressão de toda a liberdade…
No começo, os simbas não visavam os europeus até porque eram benquistos pela população. Aos poucos, tudo passou a ser motivo para odiá-los, sobretudo a vinda dos paraquedistas belgas em ajuda ao exército de Kinshasa. A lógica das coisas levou à perseguição e à carnificina. Por amor ao evangelho os missionários tinham deixado a pátria e por amor ao evangelho ficaram quando a tempestade veio. Poderiam ter-se retirado. Assim, por causa de Cristo e da Igreja foram perseguidos e fuzilados configurando-se um verdadeiro martírio” (A. Tessarolo, Bernardo Longo – missionário e mártir da caridade, p. 232).

Brasil: P. PAULO PUNT

Opção de solidariedade para com os pobres

Uma poesia que foi dedicada ao padre Paulo três anos antes de sua morte por causa de sua dedicação aos pescadores:

Promovendo o homem inteiro,
Ensinando-o a trabalhar
E lhe dando um roteiro
Para a luta enfrentar…

Sua igreja é o mar
Seu altar é a barquinha
Sempre nela a ajudar
Aos fiéis de sua vinha.

Em Dezembro de 2000 chegou este convite aos dehonianos do Pernambuco:
“O Prefeito de Tamandaré, Paulo Guimarães dos Santos, tem a honra de convidá-los para a concelebração que terá lugar a 15 de Dezembro deste ano, às 18 horas, na Colónia dos Pescadores, por ocasião do 25º aniversário da morte do P. Paulo Punt. Depois da Missa haverá a dedicação da praça e a inauguração do monumento em homenagem ao padre”.
Quem foi este confrade, cuja memória ficou gravada na mente dos habitantes de Tamandaré?
Nasceu na Holanda em 1913 e chegou ao Nordeste do Brasil em 1936. Ordenado em 1941, exerceu o ministério em diversas paróquias. Em 1968 o P. Paulo optou por começar um novo trabalho, no distrito de Tamandaré, estado de Pernambuco, PE, onde também exercia o trabalho de pescador de forma profissional. Olhando para a difícil situação em que viviam os pescadores, aos poucos, o P. Paulo ajudou-os a organizarem-se e fundou uma colónia (cooperativa profissional). Por ser uma cidade portuária, em Tamandaré havia uma forte prática de contrabando de bebidas e electrodomésticos. O P. Paulo foi tomando conhecimento disso e, vendo que os pescadores poderiam ser envolvidos inocentemente e, assim, poderiam ser prejudicados, por várias vezes P. Paulo denunciou o facto às autoridades competentes e, com isso, começou a angariar inimigos e perseguições contra ele.
Tentando afastar o P. Paulo, foram feitas denúncias de que ele era comunista, o que, na época da ditadura militar que havia no país, era algo bastante grave. Mas os próprios órgãos de segurança nacional constataram que tudo não passava de infundadas denúncias.
Por várias vezes, temendo pela vida do confrade, o então Provincial, Padre Pedro Neefs, tentou persuadir o P. Paulo a deixar Tamandaré; porém, mesmo sabendo do risco de vida que corria, ele entendia que ali era o seu lugar.
Muito mais apostando na vida, o P. Paulo não foi percebendo a trama que sordidamente era feita contra ele…
A 15 de Dezembro de 1975, era um dia festivo por causa da conclusão de curso do ginásio local. No final do dia, após todas as solenidades o assassino dirigiu-se ao Padre Paulo e disparou três certeiros e mortais tiros que acabaram com a sua vida terrena.
Nesta história de uma vida consagrada aos pobres, aos simples e pequenos, o mais importante é que as balas assassinas não conseguiram tirar o P. Paulo da memória e do coração afectuoso do povo de Tamandaré.

Camarões: TRÊS DEHONIANOS FRANCESES NOS CAMARÕES

“…com o nosso sacrifício, alcançar o dele, isto é, a cruz…”

Em vários lugares da África, os anos depois da segunda guerra caracterizaram-se pelo processo de independência nacional. Os Camarões foram divididos em dois territórios confiados pelas Nações Unidas à França e ao Reino Unido. Na parte francesa, entre 1945 e 1960 surgiram mais de 100 partidos políticos. O movimento de independência ganha força a partir de 1950, com cenas de violência. Em 1958 a França dá a independência aos Camarões.
O P. Héberlé, dehoniano francês, com mais de 25 anos de Camarões, analisa da seguinte forma a situação da época:
“Os camaroneses são conhecidos pelo seu interesse comunitário. Querem uma verdadeira emancipação. Atribuem os seus problemas actuais à sua incapacidade de gerir, consequência da tutela colonialista de outrora. Tudo o que vem do Ocidente é considerado como colonialismo aberrante, interesseiro e opressor. A Igreja Católica, percebendo esta característica, passa a responsabilidade para as mãos do clero local e abandona a política ocidental, denunciando as consequências nefastas do laicismo e do materialismo ocidentais” (carta em “Vie catholique”, 28.8.1960).
O P. Héberlé apoia estes passos. Na mesma revista, ele é chamado de “defensor da liberdade africana”. Assim mesmo, ele próprio e dois outros dehonianos franceses (P. Musslin e P. Sarron) são vítimas de violência independentista.
Quando o P. Héberlé vai de férias para a França, em 1959, muitos insistem em que ele não volte aos Camarões. Numa carta de Setembro de 1959, ele explica assim a sua insistência em voltar:
“Tive de lutar contra mim mesmo, e contra todos os meus sentimentos familiares, contra os meus. Em tais circunstâncias é preciso compreender o que significa morrer para si mesmo e renunciar a tudo para seguir Nosso Senhor e carregar a sua cruz. Se voltei para a minha missão, fi-lo só para cumprir a vontade de Jesus Cristo, para estar junto das almas que Deus me confiou e pelas quais sou responsável diante dele. Por isso, na situação que atravesso é preciso uma fé inabalável, uma confiança absoluta, uma caridade sem nódoa. Para nós padres e cristãos, é o momento da provação. Deus prova-nos com o fogo e com o sangue. Seja feita a sua vontade. Isto leva-nos a consagrar-nos totalmente a seu serviço e a alcançar com os nossos sacrifícios a sua cruz” (9 de Setembro de 1959).
A 30 de Agosto de 1959, o P. Musslin foi morto na sua missão. A 29 de Novembro, a missão de Banka-Banfang é tomada de assalto. O P. Héberlé é primeiro atingido por uma bala, depois decapitado. O P. Sarron consegue escapar, depois é encontrado e decapitado. Junto com eles morrem um padre e um catequista camaroneses.

Indonésia: OS DEHONIANOS HOLANDESES NA INDONÉSIA – Vítimas da guerra?

A morte de 11 confrades holandeses no campo de concentração japonês de Muntok na ilha de Banka/Indonesia, nos anos 1944/45, faz parte de uma história muito complicada. Misturam-se crimes de guerra dos japoneses contra a população civil, a queda da Holanda como potência colonialista e o movimento de independência da Indonésia, a guerra como um todo. Todos estes elementos dificultam um julgamento sobre as causas que levaram estes confrades à morte. Talvez por isso mesmo tenham caído no esquecimento.
A 15 de Fevereiro de 1942, as tropas japonesas conquistam e ocupam Palembang/Sumatra, ilha pertencente ao então império holandês. Enquanto militares e civis holandeses se transferem para a ilha de Java, outros civis e os religiosos e padres decidem permanecer em Sumatra para dar continuidade à sua missão nas paróquias, escolas e hospitais. Após a invasão japonesa, a missão não era proibida. Tudo muda a partir de 1 de Abril de 1942, quando todos os europeus são recolhidos: os homens na prisão de Palembang, as mulheres e crianças em algumas residências europeias. Mais tarde eles construiriam dois campos de concentração. Ficarão nestes campos cerca de 17 meses. Mas o maior problema era a alimentação escassa e a falta de medicamentos. Só depois de morrerem alguns é que os médicos intervêm. Nestes campos, os internados organizam a sua vida, com escola, funções religiosas, tudo dentro do arame farpado dos japoneses.
Os japoneses buscam o apoio da população local mostrando-se aliados na luta contra o colonialismo europeu. Pela primeira vez, cidadãos indonésios passam a ocupar cargos administrativos. Com o passar do tempo esta estratégia contribui para reforçar o movimento de independência indonésio num nível não previsto nem aceite pelos japoneses. Assim, logo após o término da guerra, é proclamada a independência da Indonésia. O cristianismo é apresentado pelos japoneses como religião dos colonialistas europeus e as religiões locais recebem todo o apoio. Padres e religiosos passam a ser suspeitos.
No período entre Julho e Agosto de 1943, os japoneses passam a perseguir os colaboradores dos aliados. Muitos europeus são levados para o campo de Muntok, na ilha de Banka, uma região árida e inóspita. A ração diária de comida varia entre 100 e 300 gramas de arroz. A desnutrição enfraquece as pessoas de modo a impedir qualquer outra actividade, até a participação nos funerais de quem morre.
Somente no campo de Muntok morrem 250 homens de um total de 942. Neste contexto, onze dehonianos não sobrevivem: P. Heinrich Norbertus van Oort, P. Petrus Matthias Cobben, P. Franciscus Hofstad, P. Isidorus Gabriel Mikkers, P. Theodorus Thomas Kappers, P. Andreas Gebbing, P. Petrus Nicasius van Eyk, P. Francisucs Johannes v. Iersel, P. Wilhelmus Franciscus Hoffmann, Ir. Mattheus Gerardus Schulte, Ir. Wilfridus Thedorus van der Werf.
Em Fevereiro de 1945, os prisioneiros são de novo transferidos, desta vez para Belalau (sul de Sumatra), onde as condições são melhores.
A 24 de Agosto de 1945, depois de 40 meses de internamento, o comandante japonês anuncia o armistício de Manila que encerra a guerra no Pacífico. Um sobrevivente dehoniano escreve:
“Por alguns instantes todos ficaram calados. De repente explode um ‘Hurra’. No nosso bloco alguém entoa logo um Te Deum”.
Na sua reflexão sobre um novo conceito de mártir, Andrea Riccardi escreve:
“Por que morreram? As motivações são muitas e variam de país a país. A política une-se a motivações anti-clericais e a meras explosões de violência e banditismo”.

Fontes: De Missiepost, December 1945/Januari 1946, p. 11-18; Andrea Riccardi, Il secolo del martirio, Mondadori 2000; Bernd Bothe, Märtyrer der Herz-Jesu-Priester; etc

Áustria: P. WAMPACH e P. STOFFELS – Vítimas do terror nazista

"Estou nas mãos de Deus. Um sacerdote católico deve sempre sentir orgulho em poder carregar a cruz do seu mestre. O meu consolo está na oração e na união com Deus e no teu amor por mim" (carta do P. Stoffels, do campo de concentração de Dachau à sua irmã).

O P. Joseph Benedikt Stoffels (*13.01.1885, em Itzig, Luxemburgo) e o P. Nicolas Antonius Wampach (*03.11.1919, em Bilsdorf, Luxembugo), ambos dehonianos, trabalhavam na missão luxemburguesa em Paris, sediada na Igreja de São José Operário. O P. Stoffels pode ser considerado o fundador desta missão, de modo que, em 1838, ele recebe a ajuda do P. Wampach.
O P. Bothe escreve a respeito deles:
“Em 1940 quando os alemães invadiram o Luxemburgo e muita gente fugia para Paris, os padres dehonianos passaram a prestar amparo a este prófugos e ajudaram muitos a voltar para o Luxemburgo. Um jornal da época escreve: trata-se de um trabalho meramente caritativo. A Gestapo viu nisso uma rede de espionagem. Depois de muitos interrogatórios, os dois padres foram presos a 7 de Março de 1941 e foram primeiro mandados para o campo de concentração de Buchenwald, e depois para Dachau".
Oficialmente morreram de doenças: bronquite, angina… As cinzas do P. Stoffels foram mandadas aos seus parentes. Nestes casos, os funerais deviam ser feitos sob a vigilância da Gestapo, sem a participação da comunidade paroquial, quase clandestinamente. Isto foi a 31 de Agosto de 1942.
“Somente 40 anos após soube-se que os dois padres tinham sido levados para o castelo de Hartheim, na Áustria, junto com outros dois padres luxemburgueses. O castelo fica perto de Linz, a 260 km de Dachau. Dispunha de uma câmara de gás para diversas experiências. As vítimas eram convidadas a desnudarem-se, depois levadas para debaixo de um duche e morriam com o gás que saía dos mesmos duches” (Bothe, 21).
O castelo de Hartheim integrava o programa nazista de eutanásia. Ali, doentes e deficientes foram submetidos às mais diversas e cruéis experiências antes de morrer asfixiados pelo gás. P. Stoffels, que sofria do pulmão, foi transferido como inválido para Hartheim. Mais tarde as câmaras serviram para experimentar os diferentes gases asfixiantes. Isto figura também numa carta do doutor Rascher a Himler na qual ele fala de Dachau e Hartheim (1942):
“Uma vez que o transporte de inválidos acaba sempre nas câmaras, pergunto se nestas câmaras não se poderia testar, com as pessoas ali levadas, o efeito dos diferentes gases asfixiantes. Até agora a documentação só fala de experiência com animais e dos incidentes havidos durante a produção destes gases”.
O P. Stofels foi assassinado numa das câmaras de gás em 25.05.1942 e o P. Wampach a 12.08.1942.
Na Igreja de S. José Operário, a cargo dos dehonianos até 1990, um monumento lembra os mártires:
“Em memória eterna….. Aqueles que sofreram e morreram pela fé, pela pátria, pela justiça e pela liberdade jamais serão esquecidos”.

Alemanha – P. KRISTIAAN HUBERTUS MUERMANS (1909-1945)

Uma resistência quase desconhecida

“Respondendo aos apelos de sua pátria humilhada, empenhou-se em vários grupos de resistência. Em Maio de 1941 caiu nas mãos da Gestapo que acabou com eles" (Sint Unum, 1947).
O pouco que sabemos sobre o P. Muermans deve-se ao P. Bothe. Nascido em 1909, o P. Muermans professou em 1928 e foi ordenado em 1933, em Louvain. Durante alguns anos ensinou no seminário de Tervuren. Quando começou a guerra, foi recrutado pelo exército belga. Em 1941 foi feito prisioneiro pelos alemães. Libertado em 1943, voltou para a Bélgica e retomou as aulas em Tervuren e Bruxelas.
Conforme uma carta que escreveu ao seu irmão Vim, o P. Kristiaan, voltando à Bélgica, integrou-se na resistência belga:
“Dedicou-se à imprensa clandestina e ajudou muitos jovens a esconder-se da Gestapo. Quando a Gestapo descobriu as suas actividades, prendeu-o na presença dos seus alunos. Depois de passar alguns dias na cadeia de Bruxelas, foi transferido sucessivamente para os campos de Buchenwald, Ellrich, Harzungen e Dora, onde morreu a 16 de Fevereiro de 1945, poucas semanas antes da libertação daquele campo de concentração pelos americanos”.
Sabemos que o P. Muermans morreu numa das 40 secções do campo de Mittelbau-Dora, em Bkankenburg. Em Dora produziu-se armas para o exército alemão. As armas eram fabricadas num subterrâneo: um gigantesco túnel de 20 km e 30 metros de altura. Havia 60 mil prisioneiros, tratados como escravos. Destes, uns 20 mil morreram, entre eles o P. Muermans. As circunstâncias da sua morte são desconhecidas.
Cinismo da história: após a libertação do campo, os americanos mandaram os mísseis que encontraram, mais de uma centena, a engenheiros alemães nos Estados Unidos para aprimorar a indústria de armas. Quando os russos chegaram, instalaram-se no campo para produzir a bomba V2. Depois transferiram quase toda a fábrica para a Rússia.
O P. Muermans não deixou nenhum escrito. O seu compromisso em favor dos jovens, na resistência, custou-lhe a vida. André Jarlan, morto no Chile, refere-se deste modo a esse tipo de mártires:
“Aqueles que fazem viver são os que oferecem a sua vida, não aqueles que a tiram. Para nós, a ressurreição não é um mito, mas uma realidade. Este fato, que nós celebramos em cada Eucaristia, confirma-nos que vale a pena dar a vida pelos outros” (Riccardi, il secolo del martirio).

Itália – P. MARTINO CAPELLI (1912-1944)

Queria ser missionário, morreu mártir

Em 1931, depois de escutar uma conferência sobre o então martirizado México, Nicola Martino Capelli, jovem religioso (23.09.1930, os primeiros votos), escreveu:
“Ó Virgem dos mártires mexicanos, concedei-me que eu seja também algum dia um mártir de Cristo Rei e vosso, Virgem Imaculada. Ó minha Mãe, eu vos escrevo ainda sob a comoção da conferência sobre o mártir México. Estou certo de que por intercessão de seus mártires me concedereis essa graça. Vosso filho, fr. Martino Capelli” (Missionario mancato – martire esaudito: P. Martino Capelli scj, Postulação scj, Bolonha, 1996).
Nasceu em Nembro, na província de Bérgamo; foi ordenado sacerdote em 1938, em Bolonha, e sonhava poder ir para as missões da China, projecto missionário da Província Italiana, cedo abandonado.
Os seus superiores decidiram mandá-lo para Roma, por causa de seus brilhantes resultados escolares.
“Esperava ir para as missões; em vez disso estou condenado a terminar a minha vida numa cátedra de sala de aula” (P. Capelli, numa carta de 24.10.1939).
Foi, pois, para Roma, onde estudou no Instituto Bíblico e na Urbaniana, obtendo a 10 de Julho de 1942 a licenciatura em teologia “cum laude”. Em 1943, deixou Roma para ensinar Sagrada Escritura e História Eclesiástica no escolasticado de Castiglione (perto de Bolonha), para onde tinha sido transferido todo o escolasticado de Bolonha por motivos de segurança. Esse lugar, porém, não era tão seguro quanto se pensava. Quando as tropas dos aliados e dos alemães com os fascistas italianos ali chegaram, a região transformou-se no tristemente conhecido “triângulo da morte”.
O P. Capelli chegou exactamente no dia 19 de Setembro de 1943 a Castiglione na qualidade de “novo professor”, como regista o cronista do escolasticado. Segundo a opinião dos alunos, ele conseguia interessá-los pela sua matéria, era cordial com os estudantes. Nos pequenos conflitos “sempre se mantinha do lado dos estudantes contra os superiores; era também muito simpático, cordial connosco, porém, tinha muitas dificuldades com a direcção…” (P. Remo Canal, testemunho de 1987).
Uma grande devoção mariana, o sonho das missões, uma esplêndida capacidade intelectual e, depois, a descoberta do entusiasmo pastoral, quando foi chamado para ajudar os padres nos arredores de Castiglione: eis alguns traços da personalidade de P. Capelli.
A 23 de Junho de 1944, os alemães ordenaram o despejo da casa de Castiglione para transformá-la em hospital militar. A presença de tropas alemãs no grande edifício do escolasticado tornou ainda mais perigosa a convivência, além da confusão. Os padres foram para as várias paróquias da região. Em 6 de Julho de 1944, a comunidade de Castiglione transferiu-se para Burzanella, perto de Castiglione.
A 18 de Julho de 1944, de manhã, ouviram-se tiros de fuzis e de metralhadora: um grupo de alemães cercou o lugarejo e queimou algumas casas que estariam escondendo os rebeldes e fizeram um pente-fino, capturando 5 italianos, supostos “partigiani”. Os padres Agostini e Capelli pediram clemência para aqueles pobres jovens. Três foram libertados, os outros dois foram condenados. “Estavam para ser fuzilados quando os padres intervêm para que eles se pudessem confessar. E ali, no campo, os dois ajoelham-se diante de todos e fazem a sua confissão. Um com o P. Capelli, outro com o pároco… Logo depois, entre lágrimas e soluços dos presentes, abraçam-se e beijam-se. Ainda um minuto e seus corpos caem sem vida atingidos na nuca pelos tiros disparados a poucos palmos de distância” (Missionário frustrado…, p. 69).
A 20 de Julho, P. Capelli foi para Salvaro ajudar Mons. Mellini, velho pároco. Com a chegada do salesiano, P. Elia Comini, com o qual ficará unido até a morte, o P. Capelli pôde aceitar vários compromissos de pregação que lhe foram solicitados pelos párocos dos arredores. Ministério cansativo e perigoso. Em Setembro de 1944, os aliados, transposta a linha defensiva alemã (linha gótica), chegaram a poucos quilómetros de Monte Sole. A presença de um forte contingente da resistência – 700 a 800 homens – era para o exército alemão um grande perigo, porque podiam trazer graves dificuldades às operações militares. Por isso, foi dada a ordem de aniquilar a brigada “Stella Rossa”. A 29 de Setembro de 1944, o território foi cercado pelo exército alemão e pelas SS, que, com a colaboração dos fascistas, sem nenhuma discriminação, eliminaram toda a população. Foram mortas 770 pessoas das quais 216 eram crianças e 316 mulheres.
O martírio do P. Capelli insere-se nesse contexto horrível. Duas vezes recusou os conselhos dos confrades e dos superiores para abandonar aquela região e colocar-se a salvo. Recusa que alguns confrades interpretaram como desobediência – mesmo se por motivos nobres – conforme o carácter crítico do P. Capelli. Recusa em que outros viram a escolha de permanecer fiel a uma missão e a um povo, o de Salvaro.
No dia 29 de Setembro de 1944, quando iam socorrer um ferido, o P. Capelli e o P. Comini, tidos como espiões, foram presos pelos alemães. Os soldados serviram-se deles para o transporte de munições, fazendo-os subir e descer o monte sob a vigilância deles. Foram depois trancados, juntamente com um numeroso grupo de outros prisioneiros, numa estrebaria da fiação de Pioppe de Salvaro. Depois de dois dias de cruel prisão, no primeiro domingo de Outubro, o P. Capelli e o P. Comini, junto com 44 prisioneiros, foram levados ao tanque da fiação e ali foram trucidados pelas metralhadoras das SS nazistas. Alguns, fingindo-se mortos sob o monte dos cadáveres, conseguiram salvar-se, depois da saída dos soldados alemães. Será um deles que recordará o último gesto sacerdotal do P. Martino: ferido mortalmente, ergueu-se com dificuldade, pronunciou ainda algumas palavras e deu a bênção. Fazendo aquele último gesto de bênção, caiu com os braços em cruz. Tinha 32 anos. Todos os vestígios dele e dos outros mortos se perderam, alguns dias depois quando foram abertas as entradas do tanque e a água arrastou os corpos para o rio Reno.
“Um dia, ó minha Mãe, tornar-nos-emos a ver no leito de morte do meu martírio” (P. Capelli na sua Consagração à Virgem Imaculada, 8.12.1932).
No cemitério de Salvaro lêem-se duas lápides dedicadas ao P. Elia e ao P. Martino: resumem o testemunho dos pastores de Monte Sole:
Ninguém tem amor maior
Do que aquele que dá a vida
P. Nicola Martino Capelli
Revelou a sua vida
Na grandeza de sua morte
Simplesmente mártir.

(Fonte: Missionario mancato – martire esaudito: P. Martino Capelli scj, postulação scj, Bolonha, 1996).

Alemanha: P. FRANZ LOH – Vítima do nazismo

 

Martin Bormann escreveu nos anos 30: "O nacionalismo e o cristianismo não combinam. O único a influenciar o povo deve ser o Führer e tudo o que não contribui para isso deve ser abolido".
O combate à religião na Alemanha daquela época teve várias facetas: a supressão do partido católico, das associações de jovens, da imprensa católica, a intimidação, prisões arbitrárias.
Muitos religiosos acabaram por ser o alvo dos nazistas. Em 1935 teve início uma série de processos contra religiosos, acusados genericamente de violar a lei ou de cometer abusos sexuais.
Desde 1920, o governo controlava a entrada de divisas estrangeiras. Isto acabou sendo um mecanismo para atingir as ordens religiosas. Muitas casas tinham sido construídas com crédito provindo do exterior. Por exemplo, a casa de Sittard, localizada na Holanda, de propriedade alemã, dependia de fundos provenientes da Alemanha. Além do mais, as missões estavam na mesma condição.
Em 1935 a nova legislação praticamente decretou a falência dos dehonianos na Alemanha. O Pe. Franz Loh, Provincial de 1932 a 1936, procurou fazer chegar dinheiro a Sittard de modo clandestino. Teve que enfrentar um dilema de consciência, embora contasse com o apoio de todos os confrades.
Quando D. Philippe foi a Sittard ordenar os confrades alemães, chegou a notícia de que a Gestapo tinha descoberto a operação através de um confrade alemão que entregara o ouro. Desta forma, diversos alemães nem sequer voltaram para a Alemanha, ficando na Holanda.
Em Abril de 1936 começou o processo em Krefeld. Alguns dehonianos acusados já estavam na cadeia. Outros, entre os quais o P. Loh, estavam em fuga. Ao todo, 13 dehonianos foram processados, condenados à prisão e a multas. O P. Loh foi condenado a 4 anos de trabalhos forçados e a uma multa de 500.000 marcos.
Mais tarde, o P. Loh foi viver para o Luxemburgo. Com o início da guerra refugiou-se num convento de freiras. Os nazistas, tendo invadido o país, descobriram-no e ele foi levado para Dusseldorf. Humilhado, não aguentou a prisão e veio a falecer a 20 de Março de 1940. Além disso, era diabético. Os confrades souberam onde ele estava apenas uns dias antes. O seu corpo foi restituído aos confrades. Não houve homilia nas exéquias, pois era proibido.
Em 1961, o tribunal de Krefeld reabilitou todos os sacerdotes do Coração de Jesus e anulou as sentenças proferidas.

Mártires Dehonianos – Apresentação

 

Na carta apostólica de preparação ao Grande Jubileu do ano 2000, a Tertio Millennio Adveniente, João Paulo II propôs-se recuperar a memória dos cristãos que morreram em nome da fé no século XX:
"No nosso século, voltaram os mártires, muitas vezes desconhecidos, como ‘soldados desconhecidos’ da grande causa de Deus. Na medida do possível não pode perder-se na Igreja o seu testemunho" (TMA, 37).
Depois desse apelo, a Santa sé constituiu uma comissão dos novos mártires que já recolheu e catalogou mais de doze mil histórias de cristãos mortos pela fé no século XX, em todo o mundo (cf. o livro de Andréa Riccardi, O século do martírio – os cristãos no século XX, Mondadori, Milão, 2000). O objectivo não era o de iniciar processos de beatificação e canonização, mas de recordar e contar histórias de cristãos que morreram porque eram cristãos:
"A história do seu assassínio é a história da sua fraqueza e derrota. E justamente na sua condição de extrema fraqueza, os cristãos revelaram uma força peculiar de carácter espiritual e moral: não renunciaram à fé, às próprias convicções, ao serviço dos outros e da Igreja, para salvaguardar a própria vida e garantir a sobrevivência. Manifestaram uma grande força mesmo em condições de extrema fraqueza e de grande risco. Essa é uma realidade da história do cristianismo. O cristão do século XX é chamado a reflectir sobre essa realidade, para descobrir qual é a "força" do cristianismo. É também uma realidade que se impõe a quantos desejam compreender melhor a história do século passado" (Andrea Riccardi, o.c., p. 12).
A Família Dehoniana participa dessa mesma realidade. No dia 11 de março de 2001, foi beatificado o P. João Maria da Cruz García Méndez scj (1891-1936). O P. Méndez não é o único mártir dehoniano do século XX. Contaremos as histórias de diversos dehonianos, testemunhas da "frágil força" do cristianismo. Procuramos deste modo responder ao convite de P. Virginio Bressanelli "de recuperar a memória histórica daquelas figuras significativas de irmãs e irmãos nossos que podem ser modelos e estímulo para viver com maior intensidade a vocação e a missão que temos na Igreja e no Mundo de hoje" (Carta à Família Dehoniana, anunciando a beatificação de P. Méndez, Prot. 286/2000).
Durante o XXI Capítulo Geral, por iniciativa da Província Alemã, foi aprovada a Recomendação n. 8: "O Capítulo Geral recomenda ao Governo Geral que promova o conhecimento, a divulgação e a celebração dos mártires dehonianos e das figuras significativas da nossa história".
O Superior Geral, P. José Ornelas Carvalho, em carta dirigida à Congregação a 31 de Maio de 2004, instituiu o dia 26 de Novembro como o Dia da Memória Dehoniana. Fica um extracto dessa importante carta do Superior Geral:
«O Governo Geral assume esta recomendação com um profundo sentido de agradecimento a Deus por todos os missionários e religiosos dehonianos que foram e são fiéis ao carisma e convida todos a honrar de modo particular os nossos mártires. Por isso, na sessão do Conselho Geral de 11 de Maio, instituiu o DIA DA MEMÓRIA DEHONIANA, que passará a ser celebrado todos os anos no dia 26 de Novembro, dia da morte de Mons. Wittebols scj. (…) Que esta data seja oportunamente preparada e celebrada em todas as comunidades, sobretudo nas comunidades de formação, assim como com os leigos que colaboram nas nossas actividades pastorais, educativas e missionárias. Que a celebração deste dia se torne uma ocasião para conhecer e recordar aquelas pessoas que marcaram a história da Província/Região/Distrito e Congregação, ou uma determinada obra ou sector da nossa missão».

Pe. José Vieira Alves – 17-11-2000

 

O Pe. José Vieira Alves nasceu a 5 de Dezembro de 1934, na freguesia da Ponta do Sol, Madeira, sendo o mais novo de 13 irmãos.
Em 1948, entrou no Colégio Missionário com o segundo grupo de alunos. Tendo ficado sozinho, por desistência dos seus colegas, os superiores fizeram-no avançar um ano e integraram-no no grupo dos primeiros alunos, entrados em 1947. Foi esse grupo que, em 1952, rumou a Coimbra para dar início ao Instituto Missionário. Depois de três anos de estudos no Seminário Maior de Coimbra, o jovem Alves foi fazer o seu noviciado em Albisola Superiore, na Itália, tendo professado a 29 de Setembro de 1956. Depois do estágio no Colégio Missionário, seguiu para Bolonha, Itália, onde concluiu o curso de Teologia, sendo ordenado sacerdote em 1961. Ao terminar o 4º ano de Teologia, em 1962, partiu para Moçambique, onde foi professor durante vários anos no Seminário de S. Francisco Xavier, em Milevane. Em 1971 foi para o Gurúè como responsável pelo grupo de seminaristas que, de Milevane, para aí foi deslocado, continuando a leccionar. De 1972 a 1973 frequentou o Instituto “Lumen Vitae”, em Bruxelas. Ao regressar a Moçambique, foi-lhe confiada a direcção do Catequistado de Nauela. A partir de 1975 trabalhou sucessivamente nas Missões do Ile e de Namarroi. Em 1978 voltou a trabalhar na formação, agora na casa de Maputo. No ano seguinte integrou a equipa que abriu a Casa do Coração de Jesus, em Quelimane. Em 1993, vai para o Fomento (Maputo), como formador, vindo a ser superior da comunidade e pároco de Infulene. A sua disponibilidade voltou a manifestar-se quando, em 1998, lhe foi pedido para acompanhar os estudantes de Teologia nos Camarões. Aí adoeceu, tendo de regressar a Portugal. Colocado no Colégio Missionário, Funchal, integrou a equipa formadora, prestando preciosa colaboração como Director Espiritual. Aí se revelou a terrível doença que lhe proporcionou a ocasião para escrever o último e edificante capítulo da sua oblação ao Coração de Jesus .
O Pe. Alves foi um homem extremamente generoso e dedicado ao Reino do Coração de Jesus e ao serviço da Congregação. Praticamente toda a sua vida sacerdotal foi dedicada às Missões, onde durante 36 anos se dedicou principalmente à formação, contribuindo decisivamente para a afirmação do nosso Instituto em Moçambique.

Pensamento do Padre Dehon

“As obras do Instituto são muito variadas. Referem-se sobretudo à pregação e ao ensino, com especial preferência pelas missões longínquas, que exigem generosos sacrifícios. Devem, no entanto, os nossos religiosos, no seu zelo pelas obras, reservar todos os dias o tempo prescrito para as suas práticas de piedade e, particularmente, para a adoração reparadora” .
“Leão XIII indica três vezes, na Encíclica Rerum novarum, a caridade superabundante do Coração de Jesus como o grande e único remédio para o mal social… Não será esta doutrina, que prepara a paz, um caminho a retomar pela devoção ao Sagrado Coração de Jesus, por esta devoção cada vez maior, que nos mostra o Coração de Jesus transbordante de amor e que nos convida a uma caridade sem medida para com os nossos irmãos, particularmente os que sofrem?”

[ Fernando Fonseca, scj ]

Pe. António Colombi – 22-11-1996

O Pe. António Colombi, primeiro mestre de noviços e primeiro Superior Provincial da Província portuguesa, nasceu a 11 de Fevereiro de 1929, em Bondo Petello, Bérgamo, Itália. Em 1941 entrou na Escola Apostólica de Albino. Emitiu a primeira profissão a 29 de Setembro de 1947, indo estudar Filosofia em Monza. De 1951 a 1953, com o Pe. Umberto Chiarello, foi prefeito no Colégio Missionário do Funchal. Foram os primeiros prefeitos italianos que vieram para Portugal. Depois de regressar a Bolonha e estudar Teologia, foi ordenado sacerdote a 24 de Junho de 1956. Inicialmente destinado a ser missionário em Moçambique, ficou em Portugal como prefeito de disciplina, primeiro em Aveiro e depois no Porto. Em 1959 foi nomeado Mestre dos Noviços. Em 1964 foi nomeado Superior Regional e, a 27 de Dezembro de 1966, ao ser erecta a Província Portuguesa SCJ, tornou-se o primeiro Superior Provincial. Ao terminar o seu mandato, após alguns meses de ecónomo, no Porto, tornou-se formador em Alfragide. De 1972 a 1989 exerceu o cargo de Ecónomo Provincial. Entretanto acumulou o cargo com o de Superior do Colégio Missionário (1973 a 1977) e de Superior do Seminário Pe. Dehon (de 1977 a 1983). De 1983 a 1986 foi superior e ecónomo do Noviciado. De 1987 a 1992, foi Superior e Ecónomo do Instituto Missionário. De 1992, até à sua morte, foi superior e Ecónomo do Centro Dehoniano.

A sua vida generosa e comprometida pode resumir-se assim: fez de si uma oblação ao Coração de Jesus e um serviço aos irmãos. De facto, viveu e foi testemunha, de modo exemplar, da espiritualidade que nos caracteriza na Igreja. Os superiores, os confrades e os párocos dos lugares onde vivia podiam recorrer a ele para as missões mais difíceis, nas situações mais adversas, nos momentos de apuro. Mais do que as suas palavras, é a sua vida, o seu estilo próprio e genuíno de ser dehoniano que conservamos como um precioso testamento deixado a toda a Família Dehoniana e a todos os que o conheceram. Um cristão da comunidade do Monte Formoso (Coimbra) deu o seguinte testemunho: “O Senhor Pe. António Colombi nasceu para ser Padre, viveu para ser santo. O seu sentido de serviço, o seu espírito de sacrifício sempre sereno, o seu testemunho de vida, em suma, levaram muita gente a reaproximar-se de Deus” .

Pensamento do Padre Dehon

“A alma vítima deve esquecer-se, tanto quanto possível, de si mesma e viver para Aquele que aceitou a sua oblação, e cuja glória pretende reparar e cujas divinas tristezas deseja consolar. Desejosa de reparar os pecados do povo, aceita as cruzes de cada dia e quereria até ser capaz de amá-las. Nós não chegaremos de um momento para outro a tal grau de generosidade” .
“Não pode o Coração de Jesus derramar sobre o mundo as riquezas de graças que devem realizar as maravilhas anunciadas para a época do pleno desenvol-vimento da Igreja? A promessa de nosso Senhor é que haverá um só rebanho e um só pastor. Deus quer dar ao seu Filho todas as nações em herança, conforme anunciaram os profetas. Poderá isso acontecer sem um novo transbordar do amor de Cristo que conquista os corações demasiado lentos a entregar-se?”

[ Fernando Fonseca, scj ]

Pe. Eugénio Borgonovo – 07-10-1987

 

O Pe. Eugénio Borgonovo nasceu a 9 de Agosto de 1930, em Aicurzio, Milão. Fez a sua primeira profissão religiosa a 29 de Setembro de 1950. Depois de estudar quatro anos de Filosofia, em Monza, veio para Coimbra, em 1954, para exercer o serviço de prefeito no Colégio Camões. De 1956 a 1960 estudou Teologia no Seminário Maior de Coimbra. Foi ordenado sacerdote a 28 de Junho de 1959. De 1960 a 1968, foi prefeito de disciplina no Colégio Infante D. Henrique, na Madeira. De 1968 a 1973, foi prefeito de disciplina no Seminário Pe. Dehon, na Portelinha. De 1973 a 1977 foi superior da comunidade e reitor da Igreja do Loreto, em Lisboa. Os últimos 20 anos da sua vida, de 1977 a 1997, passou-os no Colégio Infante como superior, ecónomo, assistente e pároco do Curral dos Romeiros. Faleceu a 7 de Outubro de 1997.
O Pe. Eugénio foi sempre uma pessoa muito querida nos lugares onde exerceu o seu ministério sacerdotal. Foi particularmente querido no Colégio do Infante, onde gastou 28 anos da sua vida, entregando-se de alma e coração, com verdadeiro zelo pastoral e grande entusiasmo à educação humana e cristã das centenas de jovens que por ali passaram. Também granjeou notável estima no Curral dos Romeiros, comunidade pobre e afastada, onde ele próprio tinha que dar catequese às crianças. Ao lembrar a sua vida e acção, D. Teodoro de Faria, Bispo do Funchal, dizia na homilia da missa exequial: “Obrigado, Pe. Eugénio, por esta imagem de pastor, de missionário, que mostrava o seu amor a Cristo, sem esperar muitos frutos… mas empenhado em semear a Palavra, com espírito de fé”. E acrescentava: “A Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus… pode orgulhar-se também neste seu filho…”

Pensamento do Padre Dehon

“Não basta carregar a cruz exterior e forçadamente; é preciso abraçá-la com amor, carregá-la com coragem e com alegria, desejá-la com ardor, como o maior e mais seguro tesouro” .
“Nas escolas laicas, onde se prescinde completamente do ensino religioso, onde o Evangelho foi substituído junto das crianças pelos princípios de 89, onde o catecismo foi substituído pelo manual cívico, onde a história sagrada foi substituída pelos acontecimentos memoráveis da revolução (francesa), etc., a alma da pobre criança… perde o que lhe resta de piedade e de sentimentos religiosos, que eventualmente recebeu na primeira educação (junto da família). É verdade que este males já têm remédios; são grandes os sacrifícios que os católicos se impõe todos os anos para criar e manter escolas e patronatos; mas isso ainda não é suficiente” .

[ Fernando Fonseca, scj ]

Pe. José de Bairos Braga – 01-11-1998

(iniciador da presença dehoniana portuguesa em Madagáscar)

Nasceu a 02-09-1944 na freguesia de Santo Espírito, Ilha de Santa Maria, Açores. Em 1956, entrou no Colégio Missionário, no Funchal. Em 1959, transitou para o Instituto Missionário, em Coimbra. Fez o noviciado em Aveiro, professando a 29 de Setembro de 1963. Estudou Filosofia em Monza (Itália). Fez estágio no Colégio Missionário e no Seminário Pe. Dehon. De 1967 a 1971, estudou Teologia em Bolonha, Itália. Foi ordenado sacerdote a 4 de Julho de 1971 no Seminário Pe. Dehon que nesse dia era oficialmente inaugurado por D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto. No mesmo ano de 1971, partia como missionário para Moçambique, indo trabalhar na Escola Apostólica de S. Francisco Xavier, em Milevane. Foi chamado para Portugal em 1974, sendo nomeado Director Espiritual no Seminário Pe. Dehon. Em 1982, partiu para Madagáscar para inaugurar a presença dehoniana portuguesa nessa ilha. Depois de dez anos de trabalho missionário, foi enviado para Roma a fim de fazer um curso de Teologia da Vida Religiosa. Concluiu os estudos em 1994, regressando nesse mesmo ano a Madagáscar para se encarregar da formação dos jovens religiosos. Em 1997 foi-lhe diagnosticado um cancro na garganta, obrigando-o a regressar a Portugal para se tratar. Entretanto foi nomeado Secretário Provincial. Tendo-se agravado a doença, por insistência dos seus familiares, foi para os Estados Unidos da América, em Julho de 1998, para tentar curar-se lá. Acabou por falecer em East Providence, junto da família, a 1 de Novembro de 1998.
O Pe. Bairos era um homem calmo, com grande serenidade interior, cativando quem com ele convivia. Foi um verdadeiro religioso e sacerdote, identificando-se plenamente com a espiritualidade e o carisma do Pe. Dehon. A sua vida foi profundamente marcada pelo serviço às missões, primeiro em Moçambique e depois em Madagáscar, onde realizou um trabalho notável, que ficará para sempre ligado ao seu nome e à sua memória .

Pensamento do Padre Dehon

“As obras do Instituto são muito variadas. Referem-se sobretudo à pregação e ao ensino, com especial preferência pelas missões longínquas, que exigem generosos sacrifícios. Devem, no entanto, os nossos religiosos, no seu zelo pelas obras, reservar todos os dias o tempo prescrito para as suas práticas de piedade e, particularmente, para a adoração reparadora” .
“Aspiramos rever uma sociedade cristã, com as suas instituições liberais e democráticas, com a prática da justiça e da caridade para com todos, com o culto público e social de Cristo redentor. Mas é preciso merecer esta ressurreição… Se queremos que Deus volte a levantar a sociedade cristã francesa, preparemos essa graça com as virtudes sociais” .

[ Fernando Fonseca, scj ]

Ir. Manuel Vitorino Spínola Cabral – 12-08-1991

O Ir. Vitorino, como era conhecido na Província, nasceu a 6 de Setembro de 1947, em Machico, Madeira. Em Outubro de 1958, entrou para o Colégio Missionário, no Funchal. Em 1961, tornou-se aspirante a irmão, seguindo para a Casa de Santa Maria, Loures. Um ano depois já estava no Seminário Pe. Dehon (à Boavista) para prestar alguns serviços à comunidade. Com muito esforço também fez alguns estudos e aprendeu música. Entrou no noviciado em 1964, vindo a professar a 29 de Setembro de 1965. Já religioso, e concluído o segundo ano de noviciado, regressou à Boavista para trabalhar na secretaria dos benfeitores e ensinar música. Em 1967 foi destinado a trabalhar na secretaria do Instituto Missionário, em Coimbra. Aí, conforme rezam as Crónicas, frequentou “o Conservatório de Música e a Escola Industrial, à noite”. Em 1968 foi nomeado “ajudante de Ecónomo”. Em Setembro de 1969, está de novo na Boavista, como secretário. Feita a profissão Perpétua, em Setembro de 1971, foi destinado ao Colégio Infante, onde permaneceu até Agosto de 1980. Aí foi professor de música e de trabalhos manuais, bem como animador de festas e convívios, o que lhe granjeou muita estima entre os alunos. De 12 de Agosto de 1980 até igual data de 1986, encontramo-lo no Seminário Nossa Senhora de Fátima, em Alfragide, como ecónomo da comunidade. A ele se devem importantes obras de arranjo da quinta, do campo de futebol e da construção dos muros de suporte das terras e as vedações. A ele se deve também o arranjo da parte da casa destinado a receber grupos, obra onde pôs grande empenho, imaginação e entusiasmo.

De 1986, até à sua morte, viveu e serviu na Casa Provincial, tornando-se muito apreciado pelos confrades da Província e das Missões pela sua disponibilidade e serviços prestados, bem como pelos frequentes hóspedes da casa.
Faleceu a 12 de Agosto de 1991, em Lysiny, perto de Czestochowa, na Polónia, quando acompanhava e assistia uma peregrinação de jovens leigos dehonianos e candidatos à Congregação.
A vida do Ir. Vitorino foi uma vida simples, fraterna e coerente. Uma vida de serviço humilde e amoroso. Uma vida de verdadeiro irmão dehoniano!

Pensamento do Padre Dehon

“S. João Berchmans deve ser honrado no noviciado e nas escolas apostólicas. Os Irmãos também devem tomá-lo por modelo nos seus trabalhos e ofícios. Lembrem-se como ele cumpria pontual e alegremente, com amor e zelo, as acções mais ordinárias e se sentia feliz, considerando-se mesmo indigno de prestar serviços durante toda a vida aos padres da Companhia. Felizes todos os religiosos que, como ele, podem morrer de coração alegre e confiante… Felizes aqueles que, como este santo, encontraram durante a vida, na oração a Maria, na cruz do seu Salvador, no cumprimento das santas Regras e dos seus deveres, a sua alegria, as suas delícias, a sua segurança, o seu tudo!…”
“Tenho compaixão do povo” (Mc 8, 2); “Vinde a Mim, vós que sofreis” (Mt 11, 28). Estas palavras do santo Evangelho revelam-nos o Coração de Jesus; toda a sua doutrina e as suas obras manifestam a sua ternura e a sua compaixão pelos pobres, por aqueles que trabalham e sofrem. Toda a história do Cristianismo é manifestação deste espírito do Salvador. As obras de misericórdia caracterizam a verdadeira vida cristã” .

[ Fernando Fonseca, scj ]