Do Filho ao Homem.
O mistério da transfiguração.
A transfiguração do Senhor (cf. Mt 17,1-9; Mc 9,2-9; Lc 9,28-36), acontecimento que a liturgia recorda no 2º Domingo da Quaresma de cada ano, é um evento de grande significado teológico e espiritual. Este profundo significado consiste, principalmente, na revelação antecipada da glória divina de Cristo para preparar os discípulos e cada um de nós para o mistério da sua Paixão e Ressurreição.
Para além dos muitos aspetos que podemos considerar e meditar a respeito deste acontecimento da vida de Jesus, a afirmação declarativa, vinda do Céu, aparece como um dos pontos de reflexão mais importante. A voz do Pai apresenta e confirma quem é Jesus: é o Filho, muito amado, que devemos escutar (cf Mt 17,5; Mc, 9,7; Lc 9,35). Esta presença do Pai que pela sua voz apresenta o Filho, faz-nos pensar numa outra apresentação evangélica, “menos gloriosa”, mas não menos surpreendente. Referimo-nos à narrativa da Paixão segundo S. João, mais concretamente, ao momento em que Pilatos apresenta Jesus à multidão. Se no Monte Tabor era a voz do Pai a declarar Jesus como o Filho, agora é a voz dum homem que declara Jesus como sendo o Homem: “Ecce homo – Eis o homem”! (Jo 19,5). É de notar que, nos evangelhos, tendo em conta toda a pregação profética e a sua assimilação e interpretação da parte da tradição cristã, os evangelistas referem que o próprio Jesus aplicou a si mesmo o título de “Filho do Homem”, reconhecendo e afirmando-se, deste modo, como o Filho e, portanto, o eleito/enviado do Pai e, ao mesmo tempo, como o Messias de Deus que, pela sua encarnação, morte e ressurreição, salva o homem, definindo-se assim como Senhor e Juiz da história, caminho, verdade e vida (cf. Jo 14,6). Pelo que foi dito, associamos de forma intrínseca estas duas apresentações solenes de Jesus, o Cristo de Deus, as duas vozes, uma divina e outra humana, e os dois singulares títulos messiânicos de Jesus.
Partindo desta base, podemos associar ao acontecimento da transfiguração e à apresentação de Jesus o processo da sua condenação, quando Pilatos, no pretório, o mostra à multidão, afirmando: “Ecce homo – Eis o homem” (cf. Jo 9,1-16).
A expressão latina “Ecce homo” (“eis o homem”), encontra-se apenas no Quarto Evangelho e, neste contexto, é uma formulação de alto valor teológico, que desde muito cedo foi assumido pela arte sacra como um dos temas mais inspirador e belos. Vejamos três exemplos.
O “ecce homo” face à multidão. Jesus, rei e servo pacífico
O primeiro quadro que propomos é de Hieronymus Bosch, pintor flamengo (entre o século XV e XVI).
https://artvee.com/dl/ecce-homo-45#00
A pintura situa-nos no ciclo da paixão, durante o qual Jesus é preso, torturado e depois crucificado. Este pintor flamengo é conhecido especialmente pelo seu imaginário fantástico, por criaturas híbridas, por cenários que parecem saídos de pesadelos, por visões delirantes e por “multidões” povoadas de monstros.
Aqui, Cristo aparece representado com as mãos amarradas, usando uma coroa de espinhos e um manto surpreendentemente de cor azul. Jesus surge assim perante a medonha multidão que vocifera, numa posição de doce inclinação como que, apesar de tudo, disposto a escutar, humilde e pacientemente, os impropérios e exigências, enquanto que, ao mesmo tempo, com uma das mãos, parece procurar apaziguar os ânimos exaltados, chamando à razão.
Em relação à cor do manto, o evangelista indica que Jesus foi envolvido, pelos soldados que o maltratavam, com um manto de púrpura. Fizeram isso, porque queriam zombar daquele que diziam ser “o rei dos judeus” e, por isso, deram-lhe uma cana como cetro, uma coroa de espinhos e um manto de cor real. Ora se o vermelho é a cor da realeza, o azul também o é. Daí, a escolha do pintor. Nesta representação, Pilatos surge um pouco mais atrás da cena principal, usando um chapéu distinto, vermelho e pontiagudo e, na mão, a vara de alto magistrado romano naquela província. A multidão é pintada de forma grotesca e monstruosa, característica não apenas exterior, mas também interior, isto é, a manifestação da fealdade do ódio, da rejeição e do pecado.
Da análise rápida e incompleta desta pintura, queremos evidenciar o contraste abissal entre a figura humilde e doce de Jesus e a figura desumana e agressiva da multidão que é implacável. A posição e o gesto de Jesus é de quem assume sobre si os pecados da multidão, ouvindo-a e absolvendo-a dos seus males. Ele, é de facto, o Filho, o enviado, a mão estendida do Pai e o seu perdão (cf. Prefácio IV Quaresma). Dum lado, está a multidão cheia de ódio, rebelde e bruta. Do outro, está Jesus, rei pacífico, cheio de amor, que, por isso mesmo, aceita a ofensa e a gratidão, sem nunca deixar de amar e perdoar. Aliás, Ele veio não para condenar, mas para salvar. Veio para dar a vida, morrendo por todos, justos e injustos! (cf. Jo 3,17; 12,47).
O “ecce homo” diante de nós. Jesus, luz nas trevas!
O segundo quadro a ilustrar as nossas reflexões é de Matthias Ston (séc. XVII).
https://artvee.com/dl/ecce-homo-2#00
A cena bíblica é a mesma. No entanto, a representação do “Ecce homo” coloca-nos num ambiente mais intimista, num misto de apresentação pública e de apelo pessoal ao recolhimento. No centro está Cristo, revestido com um manto vermelho. Aqui, esta cor não representa apenas a realeza, mas simboliza também o martírio de Jesus, o seu sangue, o derramamento violento do seu sangue, por todos nós. É de notar que este manto vermelho não contradiz, em nada, as vestes mais brancas do que a neve da transfiguração. Foi precisamente porque o Senhor voluntariamente sofreu a morte, manchando as suas vestes, que são a continuação do seu corpo, com o seu sangue, que as suas vestes se tornaram alvas e o seu corpo glorificado. Se isto aconteceu ao Mestre, acontecerá também aos discípulos. Ou seja, a cor do martírio do sangue também não contraria as vestes batismais, as túnicas brancas daquela multidão de eleitos, quem seguem o Cordeiro, revelada no Apocalipse. Pelo contrário! Estes surgem ao nascer do dia, de vestes resplandecentes: “São os que vêm da grande tribulação; lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro” (Ap 7,14). Assim se cumpre a palavra de Jesus: o discípulo não é superior ao Mestre (cf. Mt 10,24)!
Voltando à observação da pintura, podemos observar as gotas de sangue que caem do rosto de Jesus, como que a dizer que o seu sacrifício está iminente.
O olhar de Pilatos está marcado por uma profunda tristeza. Ele descobre o corpo de Jesus, abrindo o manto, com as duas mãos, num gesto reverencial, quase de exposição eucarística ou mariana. Aqui, o gesto parece acompanhar a palavra, numa espécie de concretização sacramental: “Ecce homo!”.
O número reduzido de personagens. O olhar provocador de Pilatos, que olha para o espectador. A iluminação da cena e, particularmente, do corpo exemplar de Jesus, através duma vela, sustentada por um jovem rapaz. Todos estes elementos conferem ao quadro um registo de afastamento propositado do ruido e da agitação da multidão que condena, para lhe dar um cunho mais sereno, dramático, espiritual e de grandeza perante o mistério do homem-Deus que se esconde, por detrás desta cena, valorizando assim a humildade, o despojamento e a nobreza dos gestos, tanto de Jesus como dos seus circundantes.
Esta pintura é muito inspiradora e oferece-nos preciosos aspetos, dos quais destacamos apenas dois. Este registo não nos recorda apenas o valor e a dignidade da vida humana, iluminada pela fé em Cristo, o valor do corpo humano dignificado pela graça de Cristo, resgatado do mal, pela oferta do corpo de Cristo e oferecido em sacrifício na cruz. Esta pintura impele-nos também ao respeito que se deve aos outros, em todas as circunstâncias ou situações em que vivem ou se encontram. Não só respeito pelos outros, mas também por nós próprios, pelo nosso corpo, pelo que somos e pelo que havemos de ser.
O gesto nobre, elegante e reverente de Pilatos lembra-nos não apenas o respeito por todos, mas sobretudo o valor da pessoa humana (cf. GS 12s), da dignidade do homem, criado à imagem e semelhança de Deus. Por isso, afirma o Concílio “na unidade de corpo e alma, o homem, pela sua própria condição corporal, é uma síntese do mundo material, de tal modo que, por meio dele, este atinge o seu ponto mais alto e ergue a voz para louvar livremente o Criador. Não é, portanto, lícito ao homem desprezar a vida corporal, mas, pelo contrário, é obrigado a considerar bom e digno de honra o seu corpo, uma vez que foi criado por Deus e deve ressuscitar no último dia” (GS 14). Com efeito, Deus “chamou e chama o homem a aderir a Ele com todo o seu ser, na comunhão perpétua da incorruptível vida divina. Esta vitória, Cristo a alcançou ressuscitando para a vida, libertando o homem da morte pela sua própria morte.” (GS 18).
Continua o Concílio: “Porque nele a natureza humana foi assumida, não absorvida, por isso mesmo ela foi elevada, também em nós, a uma dignidade sublime”. (GS 22). “Cordeiro inocente, pelo seu sangue voluntariamente derramado, mereceu-nos a vida e n’Ele Deus nos reconciliou consigo e connosco (…). Padecendo por nós, não nos deu somente o exemplo para seguirmos os seus passos, mas rasgou um caminho que, ao segui-lo, a vida e a morte tornam-se santas e adquirem um sentido novo.” (GS 22).
Assim, tendo em conta o contexto sociocultural em que vivemos e as referências que nos foram transmitidas pela fé, meditar sobre esta pintura é aceitar ser iluminados por essa mesma luz da fé e, por isso mesmo, viver cada dia de forma esclarecida, com sentido, orientados pela luz da fé em Cristo. Ele que é luz nas trevas. Nas nossas e nas do mundo!
O “ecce homo” diante de ti. Jesus, amor que te dá a vida
Por fim, o terceiro quadro, com o qual se conclui as nossas reflexões. Trata-se duma pintura de Quentin Matsys, do séc. XVI.
https://artvee.com/dl/christ-as-the-man-of-sorrows-5/
A pinturas do “Ecce homo” não são propriamente uma representação fiel da narrativa evangélica. São resultado de muitas sensibilidades artísticas, teológicas e espirituais, assim como de diversas maneiras de interpretação das narrativas, muitas vezes ligadas a vivências existenciais e contextos históricos concretos. Assim, com frequência, os pintores reduzem a cena apenas a Cristo, como acontece com a pintura de Quentin Matsys. Neste quadro, o artista quase prescinde da narração evangélica, com as suas personagens e o ambiente envolvente, para comunicar a mensagem de forma mais direta. Neste caso, o pintor parece querer colocar o acento não só no sofrimento espiritual, mas também físico de Jesus, realçando as expressões faciais de dor e o estado de solidão do Senhor. O artista procura despertar a atenção, o envolvimento e a compaixão por parte do espectador. Ele tenciona mostrar o homem que é Jesus e a verdade da sua paixão. O quadro impressiona-nos com o seu realismo e precisão dos pormenores que ficam a dever-se à técnica usada e ao facto de ser uma pintura a óleo: as lágrimas de Cristo; a expressão do seu rosto; as marcas da tortura no seu corpo. A coroa de espinhos perfura a fronte. E o sangue escorre de forma discreta e lentamente pelos seus cabelos e ao longo do pescoço, como que a definir o seu manto, também aqui de cor azul. Este sangue que contorna o manto real, simboliza a sua realeza e reinado, não fictício ou teórico, mas real, radicalmente diverso dos reis deste mundo. Na verdade, o seu reino, não é daqui (cf. Jo 18,38). É de uma outra ordem. Tem apenas uma lei, a lei do amor, do amor fiel até ao fim, até dar a sua vida, morrendo na cruz.
Se a pintura de Mattias Ston nos levou a considerar, à luz do mistério de Cristo, a dignidade do homem, já a tela de Quentin Matsys conduz-nos à afirmação de Cristo, o Homem novo, do Homem perfeito. Na realidade, recorda o Concílio, o mistério do homem só se esclarece verdadeiramente no mistério do Verbo de Deus feito carne. Cristo, revelação do mistério do Pai e do seu amor, “manifesta plenamente o homem ao próprio homem e descobre-lhe a sua altíssima vocação” (GS 22), que não é outra senão a do amor. Ele que é a imagem perfeita de Deus invisível, é também o Homem perfeito, que restituiu aos filhos de Adão a imagem divina, deformada pelo pecado. Ao olhar para Jesus, percebemos que a perfeição da vida passa pelo amor e que estamos ainda longe de a alcançar. A este propósito ensina o Papa Paulo VI: “Aqui a nossa impressão não pode ser satisfeita e feliz, mas é perturbada pela observação da nossa desconformidade com o modelo divino, sobre o qual devemos decalcar a forma da nossa vida. Sentimos, ao mesmo tempo, confusão e confiança; porque, se é verdade que muito permanece em nós, na Igreja e em cada alma, mesmo cristã, por corrigir e aperfeiçoar para nos aproximarmos daquele tipo perfeito de humanidade santificada pela Graça, que é Jesus Cristo, temos pelo menos o desejo, o propósito e a oração” (Audiência Geral, 15/01/1964). Falta-nos ainda muito para alcançar esta meta da perfeição, que não é outra coisa senão a conformação a Cristo, no seu amor, na sua vida, disposições, sentimentos, morte e ressurreição.
A concluir..
As pinturas de todas as épocas exploram largamente o tema do “Ecce homo” destacando a real humildade e a solidão de Cristo, perante o seu destino, que é de vida, apesar de seguir por um caminho de morte. Em todas elas podemos ver retratado o sofrimento físico de Jesus, a sua humanidade e, portanto, a sua proximidade com os espectadores que olham para estas pinturas reconhecendo no Filho do Homem as suas próprias dores, as ingratidões, as injustiças, as rejeições e os sofrimentos de todos os que sofrem.
Ao retratar e ao afirmar que Cristo partilhou verdadeiramente as dores da condição humana, tanto os pintores como os espectadores tornam visível e concreta esta verdade teológica: Jesus é o Filho, o Cristo de Deus, o verdadeiro homem e o modelo da humanidade.


