O encontro com o Senhor que purifica e acolhe.
O Dom de Deus e a sua presença quotidiana.
O terceiro domingo da Quaresma oferece-nos a passagem evangélica do encontro de Jesus com a mulher samaritana (Jo 4,5-42). O texto é grandioso e de alto significado, como se pode perceber, por exemplo, no comentário de Santo Agostinho ao Quarto Evangelho. E os comentários sucederam-se, até aos dias de hoje.
Mas podemos perguntar qual o sentido teológico e litúrgico desta cena evangélica?
O encontro de Jesus com esta mulher possui um profundo sentido teológico, ligado à oferta da “água viva” (o Espírito Santo!) e à destruição das barreiras sociais e religiosas, que resultam em discriminação. Além disso, possui um sentido litúrgico, sendo um texto-chave na vivência da Quaresma, na sua aceção batismal.
Por agora, deixamos cair o alto significado e sentido litúrgico deste episódio, para nos determos no seu sentido teológico.
O significado teológico desta passagem abarca vários conteúdos ou aspetos. O primeiro refere-se à revelação de Jesus como Messias. Através de um diálogo gradual, Jesus revela-se progressivamente à mulher – de caminhante cansado a “judeu”, depois a profeta, até à revelação final: “Sou eu, que falo contigo” (Jo 4,26), o Messias aguardado, em esperança, no seio do povo de Israel.
O segundo toca o tema da adoração que, segundo Jesus, deve ser feita em espírito e verdade. À pergunta da mulher sobre o lugar correto e preciso para adorar a Deus (o monte Garizim para os samaritanos ou o monte do templo de Jerusalém para os judeus), Jesus responde que, com a sua vinda, a adoração já não está associada a um lugar físico, mas acontece “em espírito e verdade”, isto é, no seu corpo glorificado e, através desse corpo vivo, no qual se concentra e se encontram o céu e a terra. Pois Deus é espírito.
Um outro aspeto teológico aponta para a temática da profissão de fé, do testemunho ou, ainda, do anúncio. Esta mulher, inicialmente uma pessoa marginalizada devido ao seu passado (cinco maridos e um companheiro atual), torna-se uma testemunha de Jesus, a primeira evangelizadora da Samaria, professando a sua fé em Jesus, anunciando-o aos seus concidadãos que, graças à sua palavra e depois ao encontro pessoal com Cristo, acreditam nele como o “Salvador do mundo” (Jo 4,42).
O quarto significado teológico, a destacar, diz respeito à água, como símbolo do Espírito, que aqui se chama de “água viva”, o Espírito Santo, o Dom de Deus.
Efetivamente, o elemento central do diálogo é a água. Jesus transforma o pedido de água física numa oferta de “água viva”, que simboliza o Espírito Santo e a vida eterna. Esta água sacia a sede espiritual e a insatisfação existencial do ser humano, tornando-se, assim, uma fonte que jorra para a vida eterna.
Por fim, o quinto sentido teológico desta passagem de João apela para “o derrube de barreiras”. Este encontro quebra vários tabus daquela altura, pois Jesus, um homem judeu, fala publicamente com uma mulher samaritana, numa época de grande hostilidade entre judeus e samaritanos. Com o seu comportamento, Jesus ensina que a salvação é oferecida a todos, superando preconceitos étnicos, sociais e de género (cf. Bento XVI, Angelus, 24.02.2008).
Assim, aplicamos estes dois últimos aspetos ou significados teológicos em duas pinturas, próximas no tema e distantes no tempo. Uma tradicional, do séc. XVIII, e outra contemporânea, do séc. XX.
Jesus, reserva e dador de água
O primeiro quadro a considerar é de um autor italiano.
https://artvee.com/dl/christ-and-the-woman-of-samaria#00
Esta pintura foi executada entre os anos 1715-1720 por um artista muito reconhecido em Roma, Benedetto Luti. Os dois personagens aparecem frente a frente, junto ao poço. Na beira deste, está poisada uma corda. Ela é necessária para retirar a água, pois é preciso esforçar-se e cansar-se para ter água. Quanto à mulher, olha para Jesus, atenta à contagem dos seus dedos (conta os cinco maridos) e escuta atentamente as suas palavras, enquanto segura e aperta contra o peito um vaso, num gesto de proteção, como se aquele vaso, vazio ou com água, fosse precioso e, por isso, o quisesse guardar só para si, pois não concebe outro dom nem outra realidade. A grande coluna por detrás de Jesus é um dos símbolos tradicionais na arte, mas também um elemento que inscreve o quadro no classicismo. Este tipo de representação descreve um estilo e fala duma tradição pictórica que cria raízes na antiguidade: a composição simétrica, as roupas clássicas e uma paisagem tipicamente romana, etc. A mulher foi pintada com muito cuidado e delicadeza, tal como se pode observar pela sua pose, os contornos das costas, os ombros, o pescoço e o movimento das vestes. Este acabamento excecional e o grau de cuidado da pintura fica a dever-se, em parte, à placa de cobre sobre a qual o artista pintou o seu pequeno quadro.
Digno de registo, é o pormenor dum vaso, situado entre a mulher e Jesus. Estando mais próximo dos pés da mulher, assume os contornos e a forma duma caldeirinha, caraterística do séc. XVIII, como facilmente se pode concluir a partir dos exemplares que temos. Tendo em conta o contexto histórico, eclesial e religioso em que se situa a execução desta pintura, esta alfaia litúrgica remete mais para o rito de aspersão do que para o rito batismal. No entanto, mais do que o recipiente, olhamos para o seu conteúdo, isto é, para a água batismal, para recordar que este sacramento é o sacramento do bento lavacro da purificação, o sacramento da regeneração pela água, na palavra (Baptismus est sacramentum regenerationis per aquam in Verbo), como a Igreja sempre acreditou.
Jesus apresenta-se, portanto, como Aquele que, gratuitamente, sem esforço e sem cordas, nos oferece a “água viva”, isto é, o amor de Deus, que purifica, recria e dá vida. O Espírito é o Dom de Deus, por excelência, que o Pai envia e nos dá, pelo Filho, pois sem Ele, nada nos quer dar (cf. 5,19; cf. Santo Agostinho, Sermão 126,8s; cf. Comentário ao Evangelho de São João, 20).
Jesus, visita quotidiana que nos dessedenta e liberta
O segundo quadro é de um autor americano, pouco conhecido: Horace Pippin.
https://artvee.com/dl/christ-and-the-woman-of-samaria-12#00
Mudança de época. Dois séculos mais tarde, em 1940, o pintor americano Horace Pippin representa o mesmo tema. Este artista nasceu numa família afroamericana pobre, na Pensilvânia, no final do séc. XIX, e pertencia à Igreja Pentecostal Metodista Africana. Apesar de ser um pintor completamente autodidata, Pippin acabou por ser reconhecido, ainda em vida, como artista, e integrado, assim como tal, no mundo da arte e nos museus americanos. O autor compõe esta sua pintura de acordo com as representações clássicas, isto é, segue as composições tradicionais que representam esta passagem evangélica, como a de Benedetto Luti. Pelo que se pode ver, Horace Pippin inspirou-se simplesmente quer nas ilustrações da bíblia, quer nas imagens impressas que eram divulgadas e decoravam os lugares de culto. Talvez por isso, não nos devemos surpreender por a execução deste quadro ter sido feita a partir de formas ou figuras simplificadas, sem profundidade, longe de qualquer abordagem ou corrente académica, reduzido ao essencial. O autor parece querer evidenciar a normalidade e a importância dum encontro e o quotidiano dos encontros. Ele acompanha a nossa vida, partilha as nossas canseiras, trabalhos, enfim, o nosso quotidiano. É uma presença amiga, acessível, ali mesmo! As personagens com semblantes de tons quase escuros ou mestiços, destacam-se da folhagem verde muito escura e, em alguns lugares, praticamente negra. O céu é pintado de forma original, através de um dégradé de cor carmim que, por um lado, confere à cena profundidade e drama, criando um impacto visual marcante e, por outro lado, evoca o manto púrpura de Cristo, que paira no horizonte e céu.
Tanto as nuvens, em tons cinza, como partes das roupas estão ligadas às pedras do chão e do poço, onde predomina o cinzento. O quadro representa, de forma simples, um encontro entre a “tradição”, na qual o espectador rapidamente reconhece e compreende o tema bíblico e uma abordagem ou representação muito pessoal da cena evangélica. Efetivamente, a pintura de Pippin faz parte da arte naïf, que não segue nenhuma regra académica nem movimentos artísticos avant garde do séc. XX. A arte naïf manifesta-se através de imagens muito pessoais e tocantes, por vezes, estilizadas, de inspiração popular. É de notar que antes do séc. XX, nos Estados Unidos, tinham surgido, particularmente no complexo contexto social da escravatura, canções religiosas populares chamadas de “espirituais negros” (spirituals) e, posteriormente, a música gospel. Estes géneros musicais não só faziam e fazem parte da cultura da comunidade negra americana, mas são a expressão da fé em Deus, de louvor, de súplica e mensagem universal de condenação da discriminação e de todas as formas de escravatura e abuso de poder. Porque só Deus nos salva do quotidiano, no quotidiano! Por exemplo, certamente, Pippin conhecia o espiritual negro tradicional Jesus met the woman at the well (interpretado extraordinária e posteriormente por Mahalia Jackson, em várias ocasiões). O ritmo e a simplicidade desta música ressoam completamente nesta sua pintura. Desta conjugação de sons e vivências surge a obra, na qual transparece a fé em Jesus, aquele que, imitando o Pai celeste não faz aceção de pessoas (At 10,34; Rm 2,11; Ef 6,9), aquele que liberta o homem do homem, aquele que livra os homens de todas as escravidões, sobretudo, a do pecado, que os impede de viver e caminhar na liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8,21).
Luti e Pippin, duas tradições distintas (arte europeia clássica e cultura afroamericana), ligadas pelo mesmo tema e pela mesma verdade: Jesus é aquele que nos salva e liberta.
Jesus e a sua sede
Este episódio evangélico leva-nos a relacionar dois pedidos de Jesus. O pedido inicial de Jesus à mulher samaritana: “dá-me de beber” (Jo 4,7), corresponde ao pedido final, na cruz: “tenho sede” (Jo 19,28).
A expressão: “tenho sede”, pode ser entendida como um sacramento em sentido analógico. Este pedido de Jesus contém em si algo que está para além da sede física ou natural: remete para um outro tipo de sede, sede espiritual ou mística. Assim também o compreendeu a tradição teológica e espiritual da Igreja, quando afirma que Jesus tem sede do nosso amor, da nossa companhia, da nossa participação no seu mistério de amor pela humanidade.
Diz o Papa Bento XVI: “Sim! Deus tem sede da nossa fé e do nosso amor. Como um pai bom e misericordioso, deseja para nós todo o bem possível e esse bem é Ele mesmo. A mulher samaritana, por sua vez, representa a insatisfação existencial de quem não encontrou o que procura: teve “cinco maridos” e agora convive com outro homem; o seu ir e voltar do poço para buscar água exprime uma vivência repetitiva e resignada. No entanto tudo mudou para ela naquele dia, graças ao encontro com o Senhor Jesus, que a deixou abalada a ponto de abandonar a bilha de água e correr para contar às pessoas da aldeia: “Vinde ver um homem que me disse tudo quanto fiz. Não será Ele o Messias?” (Jo 4,28-29). (Bento XVI, Angelus, 24.02.2008). Que a nossa resposta nunca seja de rejeição ou de negação, nós que, com frequência, respondemos “ao amor carinhoso de Deus com vinagre, com um coração azedo que não quer saber do amor de Deus. ‘Tenho sede’: este brado de Jesus é dirigido a cada um de nós” (Bento XVI, Jesus de Nazaré, p. 179).
Mas este pedido de Jesus tem uma outra aceção: corresponde ao pedido dos “pobres”, com quem Jesus se identifica, o pedido dos que, noite e dia, clamam a Deus por justiça (cf. Lc 18,17; Ap 6,9-10), para quem cessem todas as formas de abuso injusto.
Assim, Jesus junto ao poço e na cruz é solidário, profunda e radicalmente solidário com todos os que sofrem. Este seu pedido concretiza-se nos pobres deste mundo, que clamam a Deus por justiça e que, segundo o ensinamento de Jesus, pedem ao Pai que o seu reino venha e se cumpra a sua justiça. Assim, a sede de Jesus identifica-se com a sede dos “pobres”, dos discípulos de todos os tempos, com os filhos de Deus, renascidos pelo Batismo e chamados à salvação, que clamam pelo Pai e só desejam que o seu reino venha e a sua justiça se cumpra assim na terra como no céu (cf. Mt 6,10). Portanto, Jesus, que se identifica com os pobres, doentes e carenciados pede gestos e atitudes de proximidade, ternura e compaixão (cf. Papa Francisco, Angelus, 14.02.2021). Esta é a sua sede, esta é também a sede do nosso mundo.
Que o tempo quaresmal nos leve a isto!
Pe. José Nélio da Silva Gouveia, scj
Centro de Espiritualidade do Seminário Nossa Senhora de Fátima – Alfragide

