5º Domingo da Quaresma – Viver a Quaresma a partir da arte

Retomar a vida por meio de Cristo, nossa vida e ressurreição

Depois de termos considerado, ao longo do itinerário quaresmal, o batismo como banho espiritual e sacramento da luz, o Quinto Domingo da Quaresma leva-nos a contemplar, a partir da catequese mistagógica do Evangelho segundo São João, o batismo como sacramento da vida nova, da ressurreição e do chamamento à vida eterna.

Entre os muitos e diversos milagres de Jesus, a ressurreição de Lázaro (Jo 11, 1-44) surge como um evento de grande valor e significado; talvez por isso mesmo seja uma das cenas evangélicas mais representadas pela arte sacra. Qual o motivo para tal importância? Efetivamente, segundo o evangelista, este é um dos grandes “sinais” de Jesus, pois através dele Cristo manifesta a sua natureza divina e mostra o seu poder — o poder de dar a vida e de a retomar (cf. Jo 10, 17-18), vencendo a morte. Além disso, a ressurreição de Lázaro prefigura, em certa medida, a sua própria ressurreição. É, portanto, um acontecimento amplamente conhecido e central no Evangelho.

 

O significado litúrgico e teológico desta cena

No contexto da vivência quaresmal, a ressurreição de Lázaro representa o ponto culminante do itinerário catequético rumo à Páscoa, possuindo, por isso, um profundo sentido litúrgico e teológico. Como mencionado, este dado evangélico tem um valor duplo: revela a identidade de Jesus como Senhor da vida e prefigura a sua vitória iminente sobre a morte.

Quanto ao sentido litúrgico, neste domingo realiza-se o terceiro e último escrutínio dos catecúmenos que se preparam para receber o batismo na Vigília Pascal. A ressurreição de Lázaro simboliza o batizado que, ao “sair” das águas, “ressurge” do pecado para a vida nova no Espírito. Além disso, o episódio prepara-nos para a celebração da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Sendo o último domingo antes de Ramos, este dia é compreendido como uma “ponte” para a Semana Maior, anunciando que a morte de Cristo não será uma derrota, mas a passagem necessária para a ressurreição definitiva. Por fim, através desta passagem, a Igreja exorta cada fiel a identificar-se com Lázaro, saindo dos seus próprios “túmulos interiores” (egoísmo, desespero, medo, pecado) para receber a luz de Cristo. É, portanto, um apelo à fé e ao crescimento na “vida nova” recebida no batismo.

A nível teológico, a ressurreição de Lázaro recorda-nos que Jesus é a vida. Efetivamente, o centro teológico deste acontecimento é a autorrevelação de Jesus como “a ressurreição e a vida” (Jo 11, 25). O milagre não é apenas uma reanimação temporária, mas o sinal do poder divino de Cristo: Aquele que dá a vida eterna, que a morte física não pode destruir. Em suma, segundo o Quarto Evangelho, é a afirmação plena da divindade de Cristo, uma vez que, através deste “sétimo sinal”, Jesus demonstra ser YHWH, o Deus que tem poder absoluto sobre a vida e a morte. Através da sequência narrativa, percebemos que este evento acelera teologicamente a Paixão, tornando-a um ponto de não retorno. Este sinal é tão impactante que leva os líderes religiosos a decidirem, definitivamente, pela condenação de Jesus à morte.

Por fim, um último elemento teológico a destacar diz respeito à união das naturezas humana e divina de Jesus: Ele revela-Se verdadeiramente divino e autenticamente humano. As suas lágrimas derramadas pelo amigo Lázaro mostram a participação plena do Filho de Deus na dor humana, revelando não um Deus distante, mas um Deus empático, compassivo e próximo.

O que acabamos de afirmar, concretiza-se de forma bela e exemplar nas três pinturas que propomos de seguida.

 

A recuperação da vida, perdida no jardim do mundo.

 O primeiro quadro que propomos, da ressurreição de Lázaro, é de Jean Jouvenet (do séc. XVIII, por volta de 1711), conceituado pintor francês, do reinado de Luís XIV.

https://artvee.com/dl/the-raising-of-lazarus#00

A pintura representa Jesus que, ao tomar conhecimento da doença do seu amigo, Lázaro de Betânia, se dirige para lá, com os seus discípulos, acedendo, assim, ao pedido das suas duas irmãs, Marta e Maria. No entanto, Jesus espera dois dias, antes de Se pôr a caminho. Quando chega lá, Lázaro já tinha morrido e já fora sepultado. Marta, ao saber da proximidade de Jesus, vai ao seu encontro, seguida depois por Maria e, por fim, pela “multidão” (grupo de judeus) que assiste a tudo.

No quadro facilmente se reconhece Jesus, ao centro com uma auréola. Ele está em lugar elevado, acima de todas as outras personagens e traz consigo o seu tradicional manto azul, cor celeste e real. Os seus discípulos estão ligeiramente atrás, enquanto Marta e Maria estão à sua direita sob o seu braço estendido, num gesto de confiança e proteção, como que a confirmar a sua fé. Marta, mais iluminada, representada de vestido branco e de vestes de “atividade” lamenta o facto de Jesus não ter estado presente para salvar o seu irmão. Jesus responde-lhe que o seu irmão ressuscitará, não no fim dos tempos, mas naquele mesmo dia, pois chegou o momento de realizar um outro grande “sinal”, que mostra quem é Deus e a força do seu Ungido. Tendo sido conduzido até ao túmulo, que se encontra no lado esquerdo do quadro, Marta também previne Jesus: “Senhor, já cheira, pois estava sepultado há quatro dias” (cf. Jo 11,39). Mas Jesus, depois de ter rezado, diz, com voz forte: “Lázaro, sai para fora!” (Jo 11,43). E Lázaro saiu. O artista escolheu, precisamente, representar este momento culminante e espetacular. Lázaro aparece com os braços estendidos e a boca semiaberta. Parece realizar a sua primeira inspiração, provocada e originada pela voz e pela palavra de Jesus.

Que momento forte, do ponto de vista fisiológico e espiritual! O primeiro respiro que reanima o seu corpo, devolvendo-lhe a vida! O artista não hesita em mostrar as reações de assombro da “multidão”, face ao inaudito. Entre estas emoções, é de realçar o espanto e até o pavor dos coveiros, os gestos das duas irmãs e os braços do paralítico, deitado sobre os degraus, levantados para o céu. São todos eles gestos de fé, assombro, reconhecimento e louvor a Deus

Perante a agitação e estupefação geral, Jesus mantém-se calmo, numa atitude de controlo da situação. Atrás dele estão os seus discípulos que mostram também a sua fé, mas ao contrário das demais personagens reagem de forma humilde, piedosa e discreta, como se pode também observar na atitude de Maria, quase despercebida, aos pés de Jesus e atrás da irmã.

Segundo a nossa observação e interpretação, é digno de registo o facto de o pintor situar a cena num espaço aberto, numa espécie de jardim, junto a um rochedo, com um túmulo escavado na rocha; um túmulo que mais parece uma caverna, numa espécie de aproximação da descrição do sepulcro de Jesus. De notar também, no fundo do quadro, a representação dumas robustas muralhas, possivelmente a recordar a cidade de Jerusalém e o sepultamento fora de portas, numa aproximação e antevisão dos acontecimentos da Páscoa do Jesus: Ele foi crucificado, morreu e ressuscitou fora da cidade. A representação deste ambiente – o jardim e a edificação – leva-nos espontaneamente para os relatos da criação e para tudo o que se passou naquele jardim, segundo o Génesis. O Senhor que criou o homem e lhe concedeu a vida é o mesmo que, agora em Jesus, seu Filho, chama o homem a viver uma vida nova, oferecendo-lhe a sua eternidade. O que aconteceu no jardim das origens acontece agora com a ressurreição da Lázaro, por meio da presença e da palavra de Cristo.

 

A vida é um dom, que deve ser acolhido de braços abertos, sem resistências, mas com fé e amor.

O segundo exemplo que propomos é um quadro de Alessandro Magnaso, pintor italiano (séc. XVIII).

https://artvee.com/dl/the-raising-of-lazarus-26#00

O episódio evangélico é o mesmo do quadro anterior, da ressurreição de Lázaro, mas o cenário é outro. Além disso, na pintura de Alessandro Magnaso temos ainda mais movimento. As expressividades das personagens dão a impressão duma cena de teatro, onde as emoções atingem o paroxismo. Jesus distingue-se dos outros pela auréola luminosa à volta da cabeça e é o único a apontar com a mão para o céu, como que a explicar que o milagre foi realizado por seu Pai e que Ele age sempre em conformidade com a sua vontade e em plena comunhão de amor com o Pai. À direta do quadro, vemos Lázaro que abre os seus braços, num gesto expressivo de grande e expansivo acolhimento e de reconhecimento pelo dom recebido, o desta vida e o da outra. Aqui, bem se pode aplicar a formulação paulina de cariz litúrgico e batismal, que encontramos na Carta aos Efésios: “Desperta, tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo brilhará sobre ti” (Ef 5,14).

Jesus e Lázaro estão, portanto, no epicentro do grande milagre que perturba, transtorna e comove as pessoas e toda a história do mundo, como se pode constatar pela concentração de pessoas, movimentos, emoções e reações. À esquerda, estão Marta e Maria, que se encontram profundamente comovidas e agradecidas, sendo Marta a mais expansiva e Maria mais recatada e em segundo plano. Quanto aos homens que se ocupam de retirar Lázaro do sepulcro, pelo contrário, não reagem emocionalmente. Os seus braços musculados e tensos revelam um grande esforço físico que impede, por agora, de tomar consciência do milagre. Estão ocupados em realizar a tarefa de puxar para cima, quem muito tinha descido. Se é uma obra de misericórdia sepultar os defuntos é também grande obra de misericórdia levantar os caídos, os que desfalecem.

É de notar que ao contrário do pintor anterior, Alessandro Magnaso contextualiza a sua representação num ambiente quase fechado, no interior dum lugar que é uma espécie de “panteão”, como se pode observar pela geometria do espaço, arcos e colunas, lugar dos mortos ilustres, onde Lázaro foi sepultado. Jesus chega, aí, para restituir a vida. Ele que também um dia descerá “à mansão dos mortos”, saindo de lá vitorioso e trazendo consigo uma multidão de irmãos, como refere a Carta aos Hebreus quando diz: “Convinha que aquele por quem e para quem existem todas as coisas, querendo levar muitos filhos à glória, levasse à perfeição, por meio dos sofrimentos, o autor da sua salvação (Jesus!). De facto, tanto o que santifica, como os que são santificados, provêm todos de um só; razão pela qual não se envergonha de lhes chamar irmãos, dizendo: anunciarei o teu nome aos meus irmãos, no meio da assembleia te louvarei” (Heb 2,10-12). A confirmar isto mesmo, o próprio Jesus um dia afirmou: “Assim como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, assim o Filho dá a vida a quem Ele quer” (Jo 5,21).

 

Jesus e o sinal do braço levantado.

O terceiro quadro que propomos é de Rembrandt, dos Países Baixos (séc. XVII), e apresenta uma atmosfera diferente.

Foto: Wikipedia

Ao contrário das anteriores pinturas, Rembrandt situa a sua narrativa pictórica, não tanto no exterior ajardinado ou num gigante “panteão”, mas no interior do próprio túmulo de Lázaro. Um espaço escuro, húmido, sóbrio e desolado.

Nesta pintura, Rembrandt no seu estilo inconfundível, procura exprimir, na obscuridade, algo de importante e de sagrado que irá acontecer. Jesus surge de braço erguido, enquanto Lázaro se levanta do túmulo. Este gesto de Jesus é um pormenor importante, pois parece responder à pergunta da liturgia: “Quando virá o luminoso dia em que, livres da morte e do pecado, cantemos a alegria que nos trouxe a força do teu braço levantado?” (Hino da Quaresma).

O autor representa Lázaro num estado ainda “morto-vivo”, que se ergue do seu túmulo, pálido, fraco e envolvido num lençol. O autor dá-lhe um rosto cadavérico. Por cima dele, vemos o detalhe de armas suspensas, presas à parede, que faz referência a uma lenda medieval (muito popular, sobretudo, em França), segundo a qual, Lázaro tinha sido cavaleiro.

A pouca luz que vem do exterior ilumina e realça o braço e a mão de Jesus, para exprimir que o milagre obedece à vontade divina, pois “o Filho nada pode fazer por Si próprio, mas só aquilo que viu fazer ao Pai; e tudo o que o Pai faz também o Filho o faz igualmente” (Jo 5,19). Além disso, a face de Jesus revela a sua própria emoção perante o seu poder divino em ato.

A luz exterior também ilumina as poucas personagens presentes, destacando-se a figura de Marta, completamente iluminada pelas palavras da fé, que pronunciou e que a leva ao espanto adorante, não do seu irmão, mas da pessoa e do Filho de Deus em ação. Essa mesma luz faz-se presente, de modo mais discreto, nos dignitários judeus e nos poucos discípulos de Cristo, que se encontram mais atrás. Aqui, Maria quase que não se vê, pois continua na sua habitual atitude: aos pés de Jesus, olhando para Ele, presa às suas palavras (cf. Lc 10,39).

Ao contrário das outras figuras apresentadas nas anteriores pinturas, nesta, a estupefação das personagens é mais convincente, verdadeira e está para além das reações teatrais, cujo objetivo parecia ser, apenas, causar impacto. Aqui, o maravilhamento leva ao silêncio, à contemplação, à oração, ao agradecimento, à adoração do mistério, entrando nele (cf. Papa Francisco, Homilia, 20/10/2016). Efetivamente, na adoração, o Senhor transforma-nos com o seu amor, ilumina as nossas trevas, dá-nos fé para lermos a realidade, concede-nos força na debilidade e esperança para não desanimarmos.

Em síntese, a Ressurreição de Lázaro oferece aos pintores um tema espetacular. Cada um à sua maneira, pelo forte impacto da cena, procura ajudar e estimular o espectador a tomar consciência do poder de Deus e do dom que Ele gratuitamente concede, no seu Filho Jesus, morto e ressuscitado.

É de notar que vários Padres da Igreja aprofundaram a relação entre o sacramento do batismo e a ressurreição, compreendendo o rito não apenas como um banho, mas como uma verdadeira participação na vitória de Cristo sobre a morte. Quem é batizado ressuscita espiritualmente com Ele. Por exemplo, São Basílio Magno (na obra sobre o Espírito Santo) explica que o batismo é o “dia da ressurreição”, porque a entrada (imersão) e a subida (emersão) da água simbolizam a sepultura e o renascimento para uma vida nova. Aliás, o batismo é visto como uma força de ressurreição que tem o seu início já no presente. Este sacramento é, assim, o início do processo de ressurreição da natureza humana, uma espécie de antegozo da ressurreição final da carne.

Pe José Nélio da Silva Gouveia, scj
Centro de Espiritualidade de Alfragide.

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