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Breves reflexões

Há anos, participei numa semana de estudos sobre a actualidade da devoção ao Coração de Jesus. Recolhi algumas notas, que guardei. Agora, neste mês dedicado ao Coração de Jesus, em tempo de pandemia, pensei partilhá-las, acrescentando as minhas próprias reflexões.

O Coração de Jesus é Aquele que “tomou sobre si as nossas doenças e carregou as nossas dores” (Is 53, 4). A humanidade precisa de um coração compassivo e solidário. Não lhe bastam a ciência e o poderio económico. E nós temos esse coração, o Coração de Jesus. Como inspira Ele a nossa vida pessoal, a nossa espiritualidade e a nossa acção? Que fizemos do Coração de Jesus?

 

CRISTO/CORAÇÃO, ÍCONE DO AMOR DO PAI

A Igreja tem reafirmado a validade da devoção ao Coração de Jesus para o nosso tempo. Mas a crise é por demais evidente. E, sejamos claros, trata-se, em primeiro lugar, de uma crise de fé. Precisamos de recuperar o fundamento bíblico desta devoção: não devemos deixar “o coração” isolado, mas ligá-lo à pessoa de Jesus, como emerge nos evangelhos e na sua relação com o Pai. É preciso evidenciar o projecto de amor do Pai, que abarca todos os tempos, o seu rosto de misericórdia e de amor pelo nosso mundo, o seu inclinar-se sobre a humanidade por meio de Cristo, o verdadeiro Bom Samaritano. Então, Ele torna-se o ícone do amor compassivo, solidário e misericordioso do Pai, de que precisamos e somos chamados a partilhar.

Para nós, cristãos e dehonianos, é importante manter fixo o olhar em Jesus, autor e consumador da fé (cf. Heb 12, 2). O Espírito ajuda-nos a viver essa “imagem” que foi dada ao nosso Instituto para ser “contemplada” e tornar-se inspiradora de espiritualidade: “Contemplando o Coração de Cristo, somos fortalecidos na nossa vocação” e podemos responder ao chamamento “a inserir-nos no movimento de amor redentor, doando-nos aos irmãos, com e como Cristo” (Cst 21).

O Fundador propõe-nos a imagem de Cristo-Coração: o seu amor, a sua oblação, a sua reparação, a sua misericórdia, o seu dar-se sem reservas. É o ícone mais belo de Jesus, que nos revela o rosto do Pai. O nosso mundo precisa de redescobrir a paternidade de Deus, porque é um mundo sem pais. Só Aquele que é “Filho” pode ser a sua imagem verdadeira, porque o disse (“Quem me vê, vê o Pai”), e porque o demonstrou com o seu modo de vida.

A devoção não deve abstrair da história da vida e da morte de Jesus, em que esse amor incarnou, se revelou, e se deu a nós. A transfixão é o momento mais evocador, colocado no termo da Paixão, à espera da Ressurreição e do Pentecostes. O Pentecostes, no contexto da Paixão, é o centro da devoção ao Coração de Jesus. De facto, a imagem do Coração aparece sempre rodeada pelos símbolos da Paixão (a cruz, a coroa de espinhos, a ferida da lança, o sangue que escorre), a que foram adicionadas as chamas do amor. Aqueles símbolos estilizados remetem para o passado de uma história verdadeira, aludem a toda a vida de Jesus. E devem ajudar-nos a uma releitura do Evangelho, para descobrirmos um amor que cresce: “O coração de Jesus, o amor de Jesus, é todo o evangelho.” (L. DEHON, ESC 193). Veremos que Jesus foi muito concreto em manifestar o seu amor e em revelar o amor do Pai.

Um forte apego ao Evangelho ajuda a não reduzirmos a devoção ao Coração de Jesus a um sentimento abstracto, ainda que muito nobre, mas a fazer permanecer em nós a memória viva e visiva de uma história de amor, a história do amor de Deus manifestado em Cristo.

P. Fernando Fonseca, SCJ