A maravilha das coisas criadas

Mateus (2,13-15.19-23) oferece-nos um belo quadro da família de Nazaré: uma família unida e disponível para as surpresas de Deus, ainda que difíceis de entender; uma família solidária, onde cada um está atento ao outro e vive para o outro, disponível a ajudá-lo, para enfrentar as dificuldades e crises da vida.

Que pode dizer a Família de Jesus, Maria e José às nossas atuais famílias? Na época “do amor líquido”, que vivemos, muitas delas estão em crise. Muitos hesitam em contrair matrimónio. Parecem de moda as uniões de facto e as ligações temporárias. Proliferam os divórcios. Cumprir as promessas matrimoniais de fidelidade até à morte afigura-se missão impossível. Os meios de comunicação social, muitas vezes, entoam hinos à anarquia afetiva e à fragilidade relacional apresentadas como progresso, como modernidade.

Ao longo dos séculos, as diversas culturas reconheceram a importância do matrimónio, e protegeram a família com leis mais ou menos rigorosas. A cultura bíblica foi particularmente exigente. Muitos dos nossos contemporâneos mostram saudade do amor total, do amor para sempre, dos afetos consistentes.

O amor entre um homem e uma mulher torna o mundo mais belo, mais seguro, mais feliz, sobretudo quando é selado pelo matrimónio. Para nós, cristãos, o matrimónio é um sacramento que eleva o amor entre um homem e uma mulher a níveis que não poderíamos imaginar. A consagração do matrimónio pelo sacramento faz dele um só mistério com o mistério de Deus/Amor, esse Amor que move Adão para Eva, nos lança para fora de nós mesmos e para os outros, esse Amor que leva o Pai a enviar à terra o seu Verbo para nos oferecer a vida e a luz em abundância.

A família, base das sociedades humanas e da comunidade de fé, tem a sua inspiração e o seu modelo na Trindade, em Deus comunhão de Amor. Daí que deva manter-se unida, na pluralidade e na comunhão das pessoas. Se assim for, podemos aprender Deus, com o seu mais belo nome, Amor, – “Deus é amor” (1 Jo 4, 8) – e experimentá-lo no amor entre pai e mãe, entre pais e filhos, entre filhos e pais.

Quantas e quão preciosas lições nos dá a Sagrada Família. Mostra-nos a importância da educação familiar para a vida social e cívica, com as inerentes e necessárias virtudes. José, homem silencioso e aplicado carpinteiro, ensina-nos a fé como disponibilidade e obediência a Deus, o trabalho e o amor para com Jesus e Maria; Maria, coerente com o seu “eis a serva”, cuida de José e de Jesus, serve-os, reza com eles; Jesus, depois de crescido, trabalha com José, ajuda Maria, obedece-lhes e, com eles, leva por diante o projeto da nossa salvação.

Na casa de Nazaré, Deus aprende tudo o que precisa de saber, enquanto homem: aprende a viver a fé, aprende a trabalhar, aprende a arte de viver a dar e a receber amor, aprende a integrar-se na sociedade e na comunidade de fé: “Jesus foi a Nazaré, onde havia sido criado, e no dia de sábado entrou na sinagoga, como era o seu costume, e levantou‑se para ler.” (Lc 4, 16).

A família de Jesus, Maria e José, unida e atenta à palavra do Senhor, é feliz e está segura para ultrapassar os perigos que a ameaçam. As nossas famílias, vivendo à semelhança da Família de Nazaré, podem enfrentar as suas dificuldades, caminhar na esperança e construir, em serena harmonia, o seu presente e o seu futuro.

“Que doce alegria ir a Nazaré e contemplar a Sagrada Família, a maravilha de todas as belezas criadas.” (L. Dehon). Nestes dias de Natal, vamos a Belém, vamos a Nazaré. Contemplemos a maravilha das maravilhas, a Sagrada Família. Aprendamos dela a viver na nossa própria família para sermos felizes e olharmos o futuro com esperança. Aprendamos da Família de Nazaré a formar homens novos, animados de espírito novo, capazes de construírem um mundo mais justo, mais fraterno, mais humano, mais feliz.

Pe. Fernando Fonseca, SCJ