Vivemos tempos cheios de contrastes, mas também tempos verdadeiramente desafiantes. Estes desafios não se impõem apenas pela sua quantidade, mas sobretudo pela sua complexidade. Põem-nos à prova de múltiplas e variadas formas e exigem o melhor do nosso empenho e das nossas forças. Entre as imensas provas que hoje nos são colocadas no caminho conta-se o cuidado da natureza.


Ser crente, em pleno século XXI, não significa ter a solução para os grandes problemas da humanidade. Aliás, pretendê-lo seria uma manifestação de grosseira arrogância. Ser crente, em pleno século XXI, significa ter uma vontade firme de colaborar na resolução desses problemas, vivendo desta forma uma espiritualidade encarnada e humanizadora. O lugar do crente nem sempre é na apaixonante procura da solução; a maior parte das vezes é a aliviar o sofrimento e a dor daqueles a quem a solução não há-de chegar a tempo.

Sem pretender apresentar uma definição do que é ser crente nos dias de hoje – algo que seria sempre uma caricatura distante da realidade –, não posso deixar de afirmar que ser crente, em pleno século XXI, passa por caminhar altamente motivado neste mundo atravessado por grandes contrastes e desafios. Um crente não se assemelha a esses autocarros que dizem de si próprios que estão “fora de serviço”. Um crente não pode estar fora de serviço, pois caminha sempre com uma vontade enérgica, uma convicção firme e uma motivação sólida. Um crente não se reforma nunca, até porque são realidades diferentes a missão e as tarefas. Por conseguinte, um crente é sempre alguém com a bateria cheia, a quem nunca falta carga ou energia, porque a tem para dar e vender.

Há uma pequena passagem da Laudato si’ que pode ajudar a compreender, de uma forma mais clara, isto que estou a tentar transmitir. Diz o Papa Francisco que «as convicções da fé oferecem aos cristãos – e, em parte, também a outros crentes – motivações altas para cuidar da natureza e dos irmãos e irmãs mais frágeis» (LS 64). Quem professa um credo não se limita a adquirir uns quantos conhecimentos básicos ou a receber um corpo doutrinal que terá de conhecer para obedecer de forma cega. A informação é necessária, mas não é suficiente; a informação precisa de ser interiorizada e assim ser transformada em formação.

Perdoem-me a comparação, mas a fé é um pouco como a cerveja: o malte, o lúpulo, as leveduras e a água, por si só não são cerveja; transformam-se em cerveja a partir do momento em que são misturados e deixados a fermentar durante algum tempo. Desta forma, a motivação é a fermentação da própria fé. O crente não pode prescindir da formação intelectual, da formação humana, da formação espiritual e até da formação apostólica. É a “fermentação” de tudo isto, sempre sob a acção do Espírito Santo, que destilará essa motivação alta para transformar a realidade e orientá-la para Deus.

José Domingos Ferreira, scj