Fernando Rodrigues da Fonseca, scj

Com o primeiro domingo de Advento, iniciamos o novo ano litúrgico em que a Igreja faz memória da vida, morte e ressurreição do Senhor. Recordamos os mistérios, as palavras e as ações de Cristo, não como acontecimentos sepultados num passado distante, mas como graça atual para nós. Celebrando as festas do ano litúrgico, crescerá a nossa conformidade a Cristo, senhor do tempo, que jamais passará, e que encontramos na comunidade reunida em seu nome, na Palavra proclamada e, de modo especial, no sacramento do seu Corpo e do seu Sangue.

A liturgia da Palavra deste domingo oferece-nos uma primeira abordagem à “vinda” do Senhor. Pela boca do profeta Jeremias, Deus garante que é fiel às suas promessas e que vai enviar ao seu Povo um “rebento” da família de David, que realizará o sonhado mundo de justiça e de paz. Então, haverá fecundidade, bem-estar, e vida em abundância para todo o povo de Deus.

O evangelho fala-nos da vinda do Filho do homem no fim dos tempos, “com grande poder e glória”, incitando-nos à esperança e ao ânimo. Jesus “resgatou-nos” do pecado e da morte, capacitando-nos para vivermos dignamente como filhos de Deus, rumo à pátria definitiva, quando Ele voltar. No nosso caminho de fé e de testemunho, não faltam perseguições e sofrimentos. Mas o Senhor virá para instaurar definitivamente um mundo novo de alegria e felicidade sem limites.  Os “sinais” catastróficos do texto evangélico não se referem ao “fim do mundo”, mas, de acordo com a linguagem dos profetas, ao “dia do Senhor”, quando Ele vier libertar o seu Povo da escravidão, e inaugurar uma era nova de vida, de fecundidade e de paz sem fim. As imagens apocalíticas são impressionantes, mas mensageiras de esperança. A expetativa da vinda do Senhor não deve assustar-nos, mas encher-nos de alegria: “alegrai-vos, a vossa libertação está próxima”, diz-nos Jesus.

Vigiai e orai em todo o tempo”.  Com este convite, o Senhor quer alertar-nos para não nos deixarmos dominar pelas preocupações terrenas, e por tudo quanto nos escraviza e pode impedir de O reconhecermos e acolhermos, quando vier.  Há que defender-nos do pessimismo e da falta de esperança. Mas há também que livrar-nos do individualismo, para crescermos na fraternidade, como nos convida S. Paulo.

O tempo de Advento, enfim, estimula-nos a não ser preguiçosos para podermos reconhecer os sinais que anunciam a vinda do Senhor, o único salvador. Há que evitar uma fé cega na ciência e na tecnologia, que prometem segurança, bem-estar e saúde. Não podemos instalar-nos na mesquinhez, na mediocridade e no comodismo. Há que esperar ativamente a vinda do Senhor, cooperando na “sua obra redentora no coração do mundo”, para que ele se torne melhor, vivendo o amor, centro da nossa vida de fé e do nosso testemunho pessoal, comunitário e eclesial.

Vem, Senhor Jesus!”  Infunde ânimo em todos nós, de modo particular naqueles que, mergulhados nos sofrimentos da vida, já não esperam nada nem ninguém, para que acreditem em Ti e na realização das tuas promessas.

Jesus vem com a sua graça, a sua consolação, o seu amor, o seu reino. (Padre Dehon, ASC 362).