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Os consagrados seguem aquele Jesus, que, «sendo rico, se fez pobre por nós» (2 Cor 8,9). Ele escolheu ser pobre e identificou-se com todos aqueles que vivem na pobreza. Por isso, quem opta pela vida consagrada escolhe seguir Jesus, imitando o seu modo de viver e de amar: um amor que se esvazia de si próprio em solidariedade com todo o povo, especialmente os mais pequenos, os últimos e os esquecidos.

As diversas famílias religiosas, ao longo da história, não só não esqueceram esta solidariedade com os pobres, como a consideraram essencial no seu seguimento de Jesus. Uma actualização para os dias de hoje desta opção fundamental implica ter em consideração a fragilidade da terra e a opressão da criação, pois a natureza apresenta-se em muitos lugares num estado de fragilidade e deterioração bastante avançados.

São os pobres os que mais sofrem com a crise ecológica e as alterações climáticas. A opressão dos pobres é o resultado da opressão ecológica. O sistema que escraviza a terra e o pobre aparece como um e o mesmo. O grito da terra ressoa no lamento do pobre. Por isso, «não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres» (LS 49).

O voto de pobreza abre-nos a um diálogo atento com a terra e oferece uma resposta radical à cultura da cobiça. Convoca-nos a uma maior moderação no uso dos recursos limitados da terra e a ser muito mais cuidadosos no uso de bens escassos. A pobreza religiosa dá testemunho de liberdade frente ao consumismo, ao desperdício e a uma mentalidade dominante do «usa e deita fora». Ainda que sempre se tenha tratado de uma certa austeridade, a nossa pobreza, numa perspectiva ecológica, é uma alternativa ao luxo e ao excesso, um sinal de comunhão e harmonia com o mundo natural e tudo o que ele contém.

Neste sentido, a pobreza da vida consagrada recorda que tudo é um dom saído das mãos de Deus e anima-nos a ser mais humildes, ao estilo de Jesus, que «se despojou de si mesmo» (Flp 2,7) e que recomendou a «pobreza de espírito» (Mt 5,3) a todos os que aspiram a ser cidadãos do Reino dos Céus.

A pobreza desafia-nos a descobrir um novo modo de vida contracultural, que promova um estilo de vida sustentável, capaz de honrar e respeitar a terra. A nossa consagração constitui um apelo a dar livre e radicalmente tudo o que temos e somos, num apaixonado esvaziamento de nós mesmos por Deus e pela humanidade. Trata-se de uma entrega, que procura estar sempre disposta a ser pão nas mãos dos pobres. Ao mesmo tempo, compromete-nos a novas formas de solidariedade rumo a um novo estilo de vida e a uma conversão verdadeiramente ecológica.

José Domingos Ferreira, scj