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Este Tempo da Criação recorda-nos que é preciso manter a concentração e o empenho em salvaguardar a criação. A pandemia do Covid-19 tem-nos prendido toda a atenção, mas não podemos esquecer que há vida para além do vírus e que há outras batalhas a travar. Aliás, há alguns sinais que insinuam que este coronavírus tem sido bastante benevolente com a natureza…

Um sólido compromisso ecológico necessita de uma boa dose de abnegação. Ainda que não se trate de uma palavra habitual no nosso linguajar comum, um dicionário básico define-a como: “desprendimento dos próprios interesses; desapego; renúncia à própria vontade ou aos bens materiais; altruísmo; humildade”.

A abnegação não se refere directamente a práticas, antes aponta para uma atitude de fundo, ou seja, para algo permanente e estável, que posteriormente influencia os comportamentos e as decisões. A pessoa abnegada é aquela que se sacrifica ou renuncia aos seus desejos e interesses primeiros. Geralmente fá-lo movida por altruísmo, por filantropia ou inclusivamente por motivações religiosas. De alguma maneira, reconhece a existência de um bem maior, que reclama que os seus interesses particulares sejam colocados num plano secundário. A pessoa abnegada é capaz de envolver-se em missões que não resultem directamente num benefício pessoal. Por isso, há uma grande proximidade entre abnegação e gratuidade.

Diz-nos o papa Francisco que «o amor à sociedade e o compromisso pelo bem comum são uma forma eminente de caridade, que toca não só as relações entre os indivíduos, mas também as macrorrelações como relacionamentos sociais, económicos, políticos. Por isso, a Igreja propôs ao mundo o ideal duma civilização do amor. O amor social é a chave para um desenvolvimento autêntico: para tornar a sociedade mais humana, mais digna da pessoa, é necessário revalorizar o amor na vida social – nos planos político, económico, cultural – fazendo dele a norma constante e suprema do agir. Neste contexto, juntamente com a importância dos pequenos gestos diários, o amor social impele-nos a pensar em grandes estratégias que detenham eficazmente a degradação ambiental e incentivem uma cultura do cuidado que permeie toda a sociedade. Quando alguém reconhece a vocação de Deus para intervir juntamente com os outros nestas dinâmicas sociais, deve lembrar-se que isto faz parte da sua espiritualidade, é exercício da caridade e, deste modo, amadurece e se santifica» (LS 231).

Precisamos de tomar consciência de que não há um autêntico cuidado (ecológico) sem uma capacidade de abnegação. O contrário seria converter o compromisso ecológico num romantismo desencarnado e ilusório, numa moda passageira e inconsequente, num programa de entretenimento que desligamos quando se torna maçador…

José Domingos Ferreira, scj