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Quando tudo parecia indicar que seria muito «difícil parar para recuperarmos a profundidade da vida» (LS 113), eis que uma tragédia se abateu sobre nós como uma repentina travagem a fundo. Quase de um momento para o outro, a lebre transformou-se em tartaruga.

Sem qualquer preparação, a sinfonia da nossa vida passou de um prestíssimo para um largo molto. Ainda estamos a adaptar-nos a esta mudança tão brusca, feita sem transições nem modulações intermédias, mas já podemos olhar para trás e ver a grande derrapagem que fizemos…

Neste momento trágico e estranho, ousemos «perguntar-nos pelos fins e o sentido de tudo» (LS 113). Agora que a marcha da nossa vida abrandou mesmo, sem que nos tivessem pedido autorização, exige-se-nos que olhemos «a realidade doutra forma, para recolher os avanços positivos e sustentáveis e ao mesmo tempo recuperar os valores e os grandes objectivos arrasados por um desenfreamento megalómano» (LS 114).

Se um vírus consegue baixar a poluição, por que não o fazemos nós também? Se um vírus consegue despertar a nossa solidariedade, por que não fazemos dela a nossa maneira de habitar este mundo? Se um vírus consegue despertar a nossa atenção e cuidado de uns pelos outros, por que não assumimos esta atitude de modo permanente? Em definitivo, esta é a oportunidade para «um regresso à simplicidade que nos permite parar a saborear as pequenas coisas, agradecer as possibilidades que a vida oferece sem nos apegarmos ao que temos nem entristecermos por aquilo que não possuímos» (LS 222).

Imersos nesta tragédia dolorosa, parece-me que ela ilumina – de uma forma impensável até há bem pouco tempo – uma afirmação do Papa: «se nalguns casos o desenvolvimento sustentável implicará novas modalidades para crescer, noutros casos – face ao crescimento ganancioso e irresponsável, que se verificou ao longo de muitas décadas – devemos pensar também em abrandar um pouco a marcha, pôr alguns limites razoáveis e até mesmo retroceder antes que seja tarde. […] Por isso, chegou a hora de aceitar um certo decréscimo do consumo nalgumas partes do mundo, fornecendo recursos para que se possa crescer de forma saudável noutras partes» (LS 193). Que significado descobre agora o nosso coração nestas palavras do Papa Francisco? É impressionante como, de repente, aquilo que outrora parecia inalcançável se encontra agora assustadoramente perto de nós. É óbvio que não estou a defender que esta catástrofe se mantenha indefinidamente, mas parece-me que estamos perante uma grande oportunidade para mudar o rumo do mundo. «Ficar em casa» não é ficar de braços cruzados…

José Domingos Ferreira, scj