A chegada do verão traz ao nosso país multidões de turistas, que procuram entre nós o descanso para umas merecidas férias. Os números, ano após ano, indicam que encontram em Portugal aquilo que procuram, o que os leva a voltar mais tarde. Sentem-se bem acolhidos no nosso país.

Numa outra óptica, é razoável não perdermos de vista que acolher é mais do que uma atitude “turística”, que põe um sorriso de simpatia, porque os turistas são o ganha-pão para muitos e, nestes tempos que correm, a oportunidade para salvar o ano. Se é fácil acolher os turistas que chegam ao nosso país e que dão vida à nossa economia, as dificuldades serão maiores no que se refere ao acolhimento daqueles que chegam para tentarem fazer aqui a sua vida. Parece-me, portanto, que não devemos varrer da memória aquele trágico acontecimento da morte de um cidadão ucraniano em pleno aeroporto de Lisboa. Tenho a impressão de que nos esquecemos demasiado rápido daquilo que não queremos assumir e aceitar, até porque uma «cultura saudável é, por natureza, aberta e acolhedora, pelo que uma cultura sem valores universais não é uma verdadeira cultura» (FT 146).

Ser português é ter sangue emigrante a correr nas nossas veias. A maioria das nossas famílias conta com pessoas que não encontraram aqui as condições necessárias ao seu desenvolvimento e tiveram de partir para outro país. Isto é tão forte que a própria geografia nacional está muito marcada por esta realidade. As nossas aldeias e cidades estão polvilhadas por essas casas, cujas janelas só abrem no verão e que permanecem os restantes meses num silêncio quase sepulcral!

Viver numa terra que não é a nossa é uma experiência de forte desenraizamento, que nos obriga a mudar interiormente. Carregar um apelido estrangeiro num país que não é o nosso não é fácil. Também o povo de Israel habitou um país estrangeiro e conheceu as dificuldades de quem vive num lugar onde não se fala a mesma língua e até onde os sabores são diferentes. É uma experiência que exige uma forte resiliência e felizmente são muitos aqueles que conseguem refazer as suas vidas com reconhecido sucesso.

Tudo fica mais fácil, quando quem chega se sente bem acolhido por quem já lá está. Acolher é abrir a porta da nossa vida àquele que chega. De facto, «quando se acolhe com todo o coração a pessoa diferente, permite-se-lhe continuar a ser ela própria, ao mesmo tempo que se lhe dá a possibilidade de um novo desenvolvimento» (FT 134).

Acolher é sinal de um coração aberto, com espaço para todos, sobretudo para o estrangeiro, o diferente, o imigrante e o peregrino. É, portanto, a atitude oposta ao gesto de levantar muros e barreiras, pois só «um espírito fechado, devido a uma certa insegurança e medo do outro, prefere criar muralhas defensivas para sua salvaguarda» (FT 146).

 José Domingos Ferreira, scj