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Acreditar e relacionar-se positivamente com Deus conduz a uma relação distinta com a realidade. O movimento que nos leva até Deus dá origem a outro movimento, que nos faz descobrir o mundo como dádiva de Deus. Apercebemo-nos então como em tudo o que nos acontece está presente a graça de Deus, que vem em nosso auxílio e protecção. Esta é a razão pela qual dizer criação é mais do que dizer natureza, pois «a criação só se pode conceber como um dom que vem das mãos abertas do Pai de todos, como uma realidade iluminada pelo amor que nos chama a uma comunhão universal» (LS 76).

Abrir-se à lógica do dom conduz ao reconhecimento que «Deus criou o mundo para todos», o que significa que «a terra é, essencialmente, uma herança comum, cujos frutos devem beneficiar a todos». Deste modo, se «Deus deu a terra a todo o género humano, não é segundo o desígnio de Deus gerir este dom de modo tal que os seus benefícios aproveitem só a alguns poucos» (LS 93). Estamos a trair o pensamento originário do Pai quando permitimos que poucos se apropriem de muito e que muitos se tenham que governar com pouco!

Aceitar a terra como uma herança comum significa então que ela «não é um bem económico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam» (LS 146). Abraçar a lógica do dom gratuito, que se recebe e se comunica, exige que não pensemos «apenas a partir dum critério utilitarista de eficiência e produtividade para lucro individual. Não estamos a falar duma atitude opcional, mas duma questão essencial de justiça, pois a terra que recebemos pertence também àqueles que hão-de vir» (LS 159). Recebemos a terra, mas não de um modo definitivo, pelo que aqui vale a afirmação «recebestes de graça, dai graça». Só não podemos cair nessa tentação de enterrar o dom recebido por medo a uma suposta severidade do Criador. De facto, «a capacidade do ser humano transformar a realidade deve desenvolver-se com base na doação originária das coisas por parte de Deus» (LS 5).

Por conseguinte, é lógico que a própria vida humana seja também «um dom que deve ser protegido de várias formas de degradação» (LS 5), até porque «a aceitação do próprio corpo como dom de Deus é necessária para acolher e aceitar o mundo inteiro como dom do Pai e casa comum». Só assim «é possível aceitar com alegria o dom específico do outro ou da outra, obra de Deus criador, e enriquecer-se mutuamente» (LS 155).

Em suma, «o reconhecimento do mundo como dom recebido do amor do Pai provoca disposições gratuitas de renúncia e gestos generosos, mesmo que ninguém os veja nem agradeça» (LS 220). Quando nos descobrimos amados por Deus – e amados de uma forma injustificada e desproporcionada –, então as nossas atitudes mudam e o mundo à nossa volta já não ficará igual.

 

José Domingos Ferreira, scj