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Para realizar a sua missão, a Igreja procurou sempre unir a evangelização e a solidariedade. Por isso, os religiosos foram habitar no meio das populações e aprenderam a partilhar as suas lutas em defesa do ambiente e da justiça. Esta sua proximidade tornou-os referências credíveis para o povo, que assim se sentiu mais amparado nos seus esforços de cada dia.

O Concílio Vaticano II veio pedir um maior diálogo com o mundo, uma presença mais significativa junto do povo, experimentando mesmo as suas angústias e esperanças, e um discernimento mais atento dos sinais dos tempos (GS 4, 11). Neste sentido, o grande desafio que se coloca à Vida Consagrada é o de acompanhar as gentes e assim recrear um modo integrado de vida com todos os viventes desta Casa Comum.

A Vida Consagrada não pode permanecer em silêncio perante este sistema, que destrói os bens naturais e assassina a vida humana. Nesta hora de morte, as várias congregações e institutos, com as suas variadíssimas obras, têm de ser mais solidárias, especialmente com os mais pobres e com aqueles que vêem os seus bens naturais ameaçados. Com efeito, «viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa» (LS 217). Estas palavras são muito relevantes para a Vida Consagrada, chamada a «uma conversão ecológica, que comporta deixar emergir, nas relações com o mundo que a rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus» (LS 217) e consequente seguimento radical do Mestre, como é seu apanágio.

Os consagrados, peritos em humanidade e na vida comum, mestres da proximidade e das relações interpessoais, podem ser um sinal daquele mundo novo que Jesus inaugurou com a sua Páscoa; podem antecipar «um modelo novo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação com a natureza» (LS 215); podem dar corpo a um modo de vida mais sóbrio, mais alegre e mais responsável.

Ao mesmo tempo, não podem deixar de ser vozes críticas e incómodas – «a voz de quem não tem voz» – que perturbem aqueles que não se dão conta das suas responsabilidades na destruição do mundo e no sofrimento dos pobres. Faz parte da missão da Igreja despertar as consciências de quem não se apercebe que o seu bem-estar é pago pelos pobres mais pobres e que tudo o que podemos oferecer a estes últimos é apenas uma restituição de quanto lhes subtraímos com a nossa prosperidade.

É importante, porém, que não nos esqueçamos que só seremos vozes críticas, autorizadas e credíveis, se formos coerentes com as nossas declarações; se nos mantivermos livres dos privilégios e dos compromissos com os poderes corruptos que delapidam a criação; se vivermos livres da sedução das coisas e em sintonia com as propostas de conversão ecológica do papa Francisco.

José Domingos Ferreira, scj