A nossa época não parece evidenciar um suficiente à-vontade perante a gratidão. Agradecer não é um movimento espontâneo nem automático no ser humano e são muitos os “obrigados” que ficam por dizer e se perdem no vazio. Certamente, a maioria de nós já terá ouvido aquela queixa dolorosa de que tendo feito tanto bem a uma pessoa não recebeu dela nem sequer um obrigado.

No entanto, todos recordamos a imagem daqueles pais que perguntam aos seus filhos ainda pequenos, quando a estes é oferecida alguma coisa: “então como é que se diz?”. E as crianças lá respondem como lhes foi ensinado: “obrigado”. Ainda que possa parecer um gesto aparentemente insignificante, que se pode reduzir a um mero politicamente correcto, a verdade é que algo de verdadeiramente grandioso na vida de cada pessoa pode começar com esta simples palavra. Bem-aventurados os pais que ensinam os seus filhos a agradecer!

Ser grato como modo de estar na vida é uma das chaves para a felicidade. Uma pessoa ingrata resvalará inevitavelmente para o deserto da infelicidade e terá muita dificuldade em sair desse vale de lágrimas e queixumes. Agradecer, porém, não é fácil nem evidente, porque, ao pressupor o desenvolvimento do sentido da alteridade, põe em crise o próprio narcisismo, que sempre resiste a reconhecer o outro na sua dignidade. Não conseguiremos dizer “obrigado”, se não descobrirmos, em primeiro lugar, que o meu interlocutor é uma pessoa como eu. Não conseguiremos agradecer sem este reconhecimento de um tu, que não é alguém inferior a mim, não está dependente de mim nem eu posso falar dele gato-sapato.

Quem faz da gratidão um traço permanente da sua personalidade aprende a combater essa mentalidade consumista, que tende a reduzir o outro a uma coisa e a instrumentalizá-lo em meu favor. Um “obrigado” sincero transporta consigo a consciência de que os outros não são nossos escravos e que nós também não somos sujeitos só com direitos, que podemos fazer o que nos apetece sem nunca nos sentirmos responsáveis. Um “obrigado” sincero reconhece que o outro é sagrado e que eu não posso profanar esse templo do Espírito. Um “obrigado” sincero é um poderoso antídoto contra relações descartáveis, que se limitam a usar o outro e a deitar fora, quando ele já não serve os nossos interesses e ambições.

Agradecer, portanto, é pensar no outro e respeitá-lo como tal. Aliás, este é um pressuposto para uma visão não consumista da criação e de todos aqueles que juntamente connosco são co-criadores. Viver para agradecer não só nos torna mais felizes, como também é um poderoso testemunho de que tudo pode ser uma graça nesta vida. Consequentemente, estamos todos chamados a «agradecer as possibilidades que a vida oferece sem nos apegarmos ao que temos nem entristecermos por aquilo que não possuímos» (LS 222).

 

José Domingos Ferreira, scj