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Quando fala sobre a conversão ecológica, o papa Francisco afirma que ela «comporta várias atitudes que se conjugam para activar um cuidado generoso e cheio de ternura. Em primeiro lugar, implica gratidão e gratuidade, ou seja, um reconhecimento do mundo como dom recebido do amor do Pai, que consequentemente provoca disposições gratuitas de renúncia e gestos generosos, mesmo que ninguém os veja nem agradeça» (LS 220).

Pode parecer estranho, mas a tão necessária conversão ecológica implica redescobrir o lugar da gratidão na nossa vida. Com efeito, aqui talvez esteja uma das mais graves lacunas da sociedade contemporânea, para quem um simples «obrigado» se tornou uma palavra muito difícil de soltar. Fomos dando prioridade aos nossos direitos e esquecemo-nos que também temos deveres, mas, acima de tudo, deixamo-nos convencer que tudo nos era devido. Neste sentido, é muito curioso que já o romano Cícero dissesse que a gratidão é a qualidade mais importante do Homem e consequentemente a mãe de todas as virtudes. Vale a pena pensar nisto…

A gratidão consiste em reconhecer e expressar que se recebeu algo valioso de outro, sem que o merecêssemos. É esta experiência do imprevisto e do imerecido que nos leva a agradecer e a alegrar-nos perante a solicitude e a generosidade da outra pessoa. De facto, «podemos oferecer o que quisermos a uma pessoa ingrata que esta nem se apercebe do nosso acto. É incapaz de agradecer pelo que lhe demos. O ingrato destrói a harmonia dos corações. Não gosta de festejar e, em última análise, é incapaz de sentir alegria» (A. Grün). É bonito pensar a gratidão como «a memória do coração», que não esquece o bem que lhe é feito e que reage de forma agradecida e alegre.

É importante dar-nos conta que sempre se pode sentir e expressar a gratidão. Somos, por isso, convidados a torná-la um hábito e uma virtude na nossa vida. Aliás, é neste sentido que o papa Francisco propõe que retomemos o hábito de agradecer antes e depois das refeições, porque este hábito «fortalece o nosso sentido de gratidão pelos dons da criação» (LS 227).

A gratidão ajuda-nos a valorizar mais aquilo que temos à nossa disposição e a descobrir a sua bondade interna. Neste sentido, ela é um bom antídoto contra a tristeza e um estimulante para a alegria. A gratidão perante a criação ajuda-nos a constatar que a criação é algo que recebemos das mãos do Criador e que não podemos destruí-la, mas aprender a conservá-la como um bem precioso e totalmente imerecido.

Em suma, se queremos semear a gratidão à nossa volta, temos que ensinar às pessoas o sentido do belo e a alegria da admiração. Desta forma, elas poderão descobrir o privilégio de rezar, mas também o assombro de poder dirigir-se a Deus chamando-lhe Abba.

José Domingos Ferreira, scj