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«A água potável e limpa constitui uma questão de primordial importância, porque é indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos». Não é novo para ninguém que sem água não há vida, mas também não será novidade que esta crise ecológica assenta na forma inconsciente e irresponsável de como temos vindo a utilizar este recurso essencial e precioso.

Com efeito, «a disponibilidade de água manteve-se relativamente constante durante muito tempo, mas agora, em muitos lugares, a procura excede a oferta sustentável, com graves consequências a curto e longo prazo. Grandes cidades, que dependem de importantes reservas hídricas, sofrem períodos de carência do recurso, que, nos momentos críticos, nem sempre se administra com uma gestão adequada e com imparcialidade. Nalguns países, há regiões com abundância de água, enquanto outras sofrem de grave escassez» (LS 28).

A situação ainda se agrava mais, quando consideramos o problema da «qualidade da água disponível para os pobres, que diariamente ceifa muitas vidas». Não é só a falta de água, mas são também as doenças que afectam a qualidade da mesma. Na verdade, «a diarreia e a cólera, devidas a serviços de higiene e reservas de água inadequados, constituem um factor significativo de sofrimento e mortalidade infantil». A isto temos de acrescentar a poluição que ameaça os lençóis freáticos, poluição «produzida por algumas actividades extractivas, agrícolas e industriais», mas também pelos «detergentes e produtos químicos que continuam a ser derramados em rios, lagos e mares» (LS 29).

Não nos deixemos iludir, pensando que isto só acontece em África ou nalgum país distante de nós. Eu sou natural de uma região de Portugal, onde, desde que me lembro, os rios apresentavam sempre uma cor escura. Recordo-me ainda de ter ouvido – e mais do que uma vez – as pessoas da minha aldeia a dizer que a água dos poços estava toda inquinada. Ainda hoje não existe saneamento nem água canalizada, pelo que, afinal, o problema não está tão longe de nós quanto isso…

Precisamos de ganhar consciência de que «o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos». A água não é nem pode ser «uma mercadoria sujeita às leis do mercado» (LS 30). Não poder aceder à água potável é ver ser-lhe negado o direito à vida. Não poder aceder à água potável é uma verdadeira condenação à morte, ainda que ninguém o assuma abertamente.

Por conseguinte, deveria doer-nos o desperdício de água, até porque, neste nosso país, ela é um bem que tende a ser cada vez mais escasso. Assistimos cada vez mais a esse espectáculo desolador das nossas albufeiras vazias…

José Domingos Ferreira, scj