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O capítulo IV da Laudato Si’ termina com palavras duras, que devemos ler devagar e atentamente: «a dificuldade em levar a sério este desafio tem a ver com uma deterioração ética e cultural, que acompanha a deterioração ecológica.

O homem e a mulher deste mundo pós-moderno correm o risco permanente de se tornarem profundamente individualistas, e muitos problemas sociais de hoje estão relacionados com a busca egoísta duma satisfação imediata, com as crises dos laços familiares e sociais, com as dificuldades em reconhecer o outro. Muitas vezes há um consumo excessivo e míope dos pais que prejudica os próprios filhos, que sentem cada vez mais dificuldade em comprar casa própria e fundar uma família. Além disso, esta falta de capacidade para pensar seriamente nas futuras gerações está ligada com a nossa incapacidade de alargar o horizonte das nossas preocupações e pensar naqueles que permanecem excluídos do desenvolvimento. Não percamos tempo a imaginar os pobres do futuro, é suficiente que recordemos os pobres de hoje, que poucos anos têm para viver nesta terra e não podem continuar a esperar. Por isso, para além de uma leal solidariedade entre as gerações, há que reafirmar a urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade entre os indivíduos da mesma geração» (LS 162).

Estas palavras do Papa constituem uma denúncia do obscurecimento da dimensão transcendente nos nossos dias, do consequente excesso imanentista e da já muito falada «autorreferencialidade». De facto, ao vivermos muito centrados sobre nós próprios, deixamos de conseguir ver outras situações para além da nossa e estreitamos os horizontes que dão sentido à nossa vida. Damos então razão àquele comentário jocoso que diz que «vivemos num mundo de egoístas: toda a gente pensa em si e só eu é que penso em mim».

A crise ecológica reclama, sem sombra de dúvida, uma visão abrangente da realidade, decisões corajosas e uma capacidade resoluta de pôr o bem comum no centro da vida social. Não nos podemos sentir satisfeitos com uma globalização económica, mas precisamos urgentemente de uma globalização da solidariedade e da fraternidade.

Precisamos de acreditar que «é sempre possível desenvolver uma nova capacidade de sair de si mesmo rumo ao outro. Sem tal capacidade, não se reconhece às outras criaturas o seu valor, não se sente interesse em cuidar de algo para os outros, não se consegue impor limites para evitar o sofrimento ou a degradação do que nos rodeia. A atitude basilar de se autotranscender, rompendo com a consciência isolada e a autorreferencialidade, é a raiz que possibilita todo o cuidado dos outros e do meio ambiente; e faz brotar a reacção moral de ter em conta o impacto que possa provocar cada acção e decisão pessoal fora de si mesmo. Quando somos capazes de superar o individualismo, pode-se realmente desenvolver um estilo de vida alternativo e torna-se possível uma mudança radical na sociedade» (LS 208).

José Domingos Ferreira, scj