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É curioso notar o paralelo entre a crise ecológica e uma certa crise do canto e da música na liturgia. De facto, no geral, canta-se cada vez menos nas nossas celebrações e a qualidade deixa muito a desejar. Infelizmente, estamos a habituar-nos a celebrações sem canto nem música, o que vai de encontro às expectativas agitadas daqueles que, em cada domingo, têm de celebrar várias eucaristias. Nalguns casos, recorremos à tecnologia para suprir esta carência e lá vamos pondo uma música de fundo para encher o espaço e suavizar o silêncio excessivo.

Pode parecer estranho estabelecer este paralelo, mas, como diz o nosso Papa, «é possível ter necessidade de pouco e viver muito, sobretudo quando se é capaz de dar espaço a outros prazeres, encontrando satisfação nos encontros fraternos, no serviço, na frutificação dos próprios carismas, na música e na arte, no contacto com a natureza, na oração» (LS 223). Deste modo, o cuidado da criação e uma vida mais harmoniosa com ela passa por valorizar e cultivar a arte musical (também nas nossas celebrações litúrgicas). Bastante iluminadora é então a afirmação de Ali Al-Khawwas, citada em nota de rodapé por Francisco: «não é preciso criticar preconceituosamente aqueles que procuram o êxtase na música ou na poesia. Há um “segredo” subtil em cada um dos movimentos e dos sons deste mundo. Os iniciados chegam a captar o que dizem o vento que sopra, as árvores que se curvam, a água que corre, as moscas que zunem, as portas que rangem, o canto dos pássaros, o dedilhar de cordas, o silvo da flauta, o suspiro dos enfermos, o gemido dos aflitos» (LS nr. 159).

A relação entre ecologia e música, no entanto, ganha uma maior profundidade, quando considerada a partir de um ponto comum a ambas: o tempo. Com efeito, o cuidado da natureza reclama uma percepção temporal específica, isto é, um tempo aberto ao eterno e ao imperecível. O tempo como kronos tem-se revelado insuficiente e encontra-se dominado por essa «rapidação» (LS 18) voraz, enquanto intensificação dos ritmos de vida e de trabalho, caracterizada pela velocidade descontrolada e vontade de mudança sem critério algum nem consciência de bem comum. A música assume, de maneira excelente, a perspectiva do tempo como kairós, ou seja, como esse instante intenso que nos permite parar o tempo e dar o salto para o eterno. De facto, desde sempre tem sido esta sua capacidade de apontar para outra realidade, uma realidade transcendente, que fez com que ela entrasse na liturgia e adquirisse aí um lugar especial.

Só esta renovada percepção temporal possibilita valorizar a lógica da recepção, que caracteriza o cuidado da natureza, mas também a própria audição musical. Deste modo, tanto o cuidado da natureza como a música podem ser uma rampa para o transcendente, fazendo-nos intuir, ainda que de relance, algo a cintilar sob o véu da aparência.

José Domingos Ferreira, scj