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Por estes dias, tem-se falado muito da floresta da Amazónia, cujo estatuto enquanto «pulmão do mundo» se encontra seriamente ameaçado por estes incêndios que a destroem.

À luz destes tão badalados e mediáticos fogos, parece-me oportuno trazer à baila aquilo que escreveu o papa Francisco sobre este tema há já alguns anos: «mencionemos, por exemplo, os pulmões do Planeta repletos de biodiversidade que são a Amazónia e a bacia fluvial do Congo, ou os grandes lençóis freáticos e os glaciares. A importância destes lugares para o conjunto do Planeta e para o futuro da humanidade não se pode ignorar. Os ecossistemas das florestas tropicais possuem uma diversidade de enorme complexidade, quase impossível de conhecer completamente, mas quando estas florestas são queimadas ou derrubadas para desenvolver cultivos, em poucos anos, perdem-se inúmeras espécies, ou tais áreas transformam-se em áridos desertos. Todavia, ao falar sobre estes lugares, impõe-se em delicado equilíbrio, porque não é possível ignorar também os enormes interesses económicos internacionais que, a pretexto de cuidar deles, podem atentar contra as soberanias nacionais. Com efeito, há propostas de internacionalização da Amazónia que só servem aos interesses económicos das corporações internacionais. É louvável a tarefa de organismos internacionais e organizações da sociedade civil que sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica, inclusive utilizando legítimos mecanismos de pressão, para que cada governo cumpra o dever próprio e não delegável de preservar o meio ambiente e os recursos naturais do seu país, sem se vender a espúrios interesses locais ou internacionais» (LS 38).

Os holofotes estão focados no Brasil e é bastante esperançadora esta consciência da gravidade da destruição da Amazónia, de forma continuada ao longo das últimas décadas. A sociedade civil está atenta e mostra-se interessada na busca de uma solução para o problema, que é de todos e que todos deveríamos sentir como nosso. Há limites que não podem ser ultrapassados e a actual situação da Amazónia apresenta vários indícios de se estarem a pisar às cegas essas linhas vermelhas.

Penso, no entanto, que é preciso estar alerta quanto a uma certa «solidariedade telescópica», que nos leva a estar muito atentos e preocupados com aqueles que estão longe, mas nos faz esquecer quem se encontra bem perto de nós. Dito de outro modo, é muito fácil preocuparmo-nos com a situação na Amazónia, mas fechar os olhos a tantas situações de incúria e descuido ecológico, mesmo ao nosso lado. Como portugueses, sabemos bem que não é só na Amazónia que há incêndios de grandes dimensões. Ainda há pouco se escutava que a recuperação do Pinhal de Leiria demorará perto de 70 anos, isto é, a duração da vida de uma pessoa.

Em jeito de provocação, numa altura em que se elegem as Maravilhas Doces de Portugal, qual seria a nossa maior maravilha ecológica?

José Domingos Ferreira, scj