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Uma Vida Consagrada encarnada e comprometida com o mundo actual é aquela que se lança num processo de «alfabetização ecológica». Isto significa que se torna imprescindível aprender a compreender e integrar melhor os dados, as análises e as perspectivas que são apresentadas, de um modo cada vez mais frequente.

É preciso conhecer como funcionam os vários sistemas naturais – a água, o ar, os ecossistemas… –, mas também estar informados sobre aquelas dimensões que tocam directamente o nosso modo de habitar o mundo: o nível de pobreza, a discriminação, o planeamento urbano, a gestão dos resíduos, as políticas de habitação, o acesso aos transportes públicos…

Num primeiro olhar, isto pode aparecer como um corpo estranho dentro do organigrama da formação à Vida Consagrada, e, por conseguinte, sermos rapidamente tentados a relativizá-lo. Talvez estejamos perante um sinal que nos deve fazer questionar até que ponto os homens e mulheres especialmente consagrados não se terão auto-marginalizado da sociedade.

Sem lugar a grandes dúvidas, esta alfabetização ecológica é uma dimensão da formação humana, apresentada actualmente como a dimensão básica de qualquer corpus formativo. O seu objectivo é compreender a conexão entre os desafios ambientais, sociais e pessoais, pois não podemos esquecer que, «se os desertos exteriores se multiplicam no mundo, porque os desertos interiores se tornaram tão amplos, a crise ecológica é um apelo a uma profunda conversão interior» (LS 217). A verdade é que, quando conseguimos entender cabalmente a trama de influências mútuas – entre o pessoal, social e ambiental –, temos a chave para um melhor diagnóstico e consequentemente tomar boas decisões. Com efeito, «uma estratégia de mudança real exige repensar a totalidade dos processos, pois não basta incluir considerações ecológicas superficiais, enquanto não se puser em discussão a lógica subjacente à cultura actual» (LS 197).

Mais tarde ou mais cedo, esta alfabetização exigirá que se identifique as problemáticas ecológicas mais relevantes em cada contexto existencial. Há que potenciar uma alfabetização enraizada em territórios locais, ou seja, atender à expressão local dos desafios maiores. A nossa informação, reflexão e incidência deve apontar decididamente para a transformação dos nossos contextos mais imediatos.

Em suma, urge que os consagrados e consagradas se informem sobre pessoas, grupos e instituições que já se lançaram activamente neste processo. Associar-se e propiciar a criação de redes é crucial para fazer frente aos desafios ecológicos actuais. Neste sentido, a alfabetização ecológica deveria mover-nos a um discernimento como comunidades religiosas, orientado a uma informada tomada de decisões, à definição de projectos e à implementação de acções concretas nos contextos locais.

José Domingos Ferreira, scj