No segundo domingo do Advento, João Batista, o austero profeta vindo do deserto, clama: Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus.
São duas boas notícias: Deus está perto! A nossa vida muda. O arrependimento ou conversão não são resultado dos nossos esforços, mas consequência da presença de Deus perto de nós. Todavia, “Aquele que te criou sem ti, não te pode salvar sem ti”, como escreveu Santo Agostinho. Há que preparar-nos para acolher Aquele que vem, Aquele que está perto de nós. Há que abandonar os caminhos que nos afastam de Deus, voltar-nos para Ele, e deixá-lo entrar no nosso coração e na nossa vida.
Sim! No Mistério da Encarnação, Deus torna-se nosso companheiro de caminhada, solidário connosco, para nos renovar, para reunir em harmonia homens e mulheres, crianças e adultos, palestinianos e hebreus, muçulmanos e cristãos, russos e ucranianos, brancos e negros… Essa harmonia alarga-se ao próprio cosmos que é restaurado. Isaías anunciara que um “ungido” de Deus iria nascer da família de David, para inaugurar um reino de justiça e de paz sem fim, um mundo novo, belo e harmonioso. O profeta utilizou belas imagens para descrever esse mundo novo, como escutamos neste domingo: o lobo a viver com o cordeiro, a pantera a dormir com o cabrito, o bezerro e o leãozinho a caminhar juntos com um menino a conduzi-los, a vitela e a ursa a pastar lado a lado, o leão a comer feno como o boi, a criança de leite a brincar junto ao ninho da cobra, o menino a meter a mão na toca da víbora, as guerras a acabarem. A vinda do Messias inaugura uma nova arquitetura do mundo e das relações humanas: o Reino dos Céus, a terra como Deus a sonhou para nós.
João Batista pressente e anuncia a proximidade da prometida intervenção de Deus: está perto o reino dos Céus; arrependei-vos. Como a presença do fogo transforma o frio em calor, Deus connosco aquece-nos o coração e a vida, rescalda o nosso mundo enregelado. “Estar perto de mim é estar perto do fogo” (Evangelho apócrifo de S. Tomé); “Eu vim trazer o fogo à terra e só quero que ele se acenda” (Lc12, 49).
O fogo do amor de Deus, trazido à terra pelo Verbo Encarnado, tudo renova, tudo recria, tudo repara nas pessoas, nas comunidades humanas e no próprio cosmos. Como o amor humano muda as pessoas, assim, e muito mais, o amor divino presente e atuante no mundo, em Jesus Cristo, nos muda, muda a nossa vida e muda o mundo. Sendo assim, o brado de João Baptista – “arrependei-vos” -, não é uma ameaça ou uma ordem, mas a indicação de uma oportunidade a não perder.
Com Deus no meio de nós, nada e ninguém está definitivamente perdido. Tudo e todos podem ser salvos. Temos futuro. O mundo tem futuro. O sol torna-se mais quente e a terra mais fértil. Qualquer que seja a nossa situação, quaisquer sejam as calamidades e catástrofes do nosso planeta, podemos mudar, podemos recomeçar. Com Deus no centro da nossa vida, tornamo-nos fecundos. Acabam-se as Anas e as Isabéis estéreis. A Virgem de Nazaré concebe e dá à luz o Filho de Deus, Jesus Salvador, Aquele que João Batista afirma vir batizar-nos no Espírito Santo e no fogo que nos purifica e aquece.
Os que acreditamos em Jesus Cristo vivemos o Advento com otimismo e esperança. Erguemos as nossas cabeças porque sabemos que a redenção está próxima (cf. Lc 21, 28). Olhamos o positivo do mundo e da vida, na esperança de que, em Cristo, tudo e todos podemos ser renovados. A seiva divina do Espírito Santo, que o Filho de Deus humanado nos oferece, produz em nós os seus frutos: o amor, a alegria, a paz, a paciência, a amabilidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão, o autodomínio (cf. Gal 5, 22-23).
“Preparemo-nos para as graças do Natal, para uma nova efusão dos frutos da Encarnação.” (Padre Dehon).
Padre Fernando Fonseca, SCJ