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Para muitos de nós, este é o momento do ano em que vamos de férias. É aquele tempo em que abrandamos nas nossas rotinas e actividades habituais, deslocando-nos para um lugar diferente.

Podemos assim descansar um pouco e ter tempo para fazer aquelas outras coisas para as quais, ao longo do ano, nos falta o tempo e a frescura de cabeça. Devido à velocidade da vida moderna, longe vai o tempo em que tirar férias era um privilégio; hoje é uma verdadeira necessidade… Afinal de contas, «no sétimo dia, Deus descansou de todas as suas obras. Deus ordenou a Israel que cada sétimo dia devia ser celebrado como um dia de descanso, um Shabbath» (LS 71).

Este ano, por causa do Covid-19, as férias poderão não ser tão relaxadas e despreocupadas como em anos anteriores. Muito provavelmente, não serão as férias sonhadas, mas simplesmente as possíveis. Na verdade, não nos podemos descuidar quanto às medidas de prudência e precaução, para assim vencermos definitivamente este vírus, que nos ficará na memória por muitos e longos anos. Mas também é verdade que, precisamente por causa do Covid-19, precisamos de férias, talvez mais do que nunca. Todos nos sentimos um pouco cansados e abatidos com toda esta história do confinamento, sobretudo com as sequelas que ele foi imprimindo na vida de cada um de nós.

As férias são também essa oportunidade para «viver muito», o que acontece «quando se é capaz de dar espaço a outros prazeres, encontrando satisfação nos encontros fraternos, no serviço, na frutificação dos próprios carismas, na música e na arte, no contacto com a natureza, na oração» (LS 223). Quando passamos a vida a correr de um lado para o outro, o risco de “viver pouco” é grande e real: até podemos ter quantidade, mas a qualidade não será muito relevante… Por isso, se formos capazes de incluir estes outros prazeres nas nossas férias, estou certo que sairemos delas mais libertos, mais alegres e mais felizes. Se realmente conseguirmos desfrutar destes outros prazeres nas nossas férias, elas serão mais ecológicas e menos consumistas, mais saudáveis e menos ansiosas.

Mas acho que as férias poderiam ser ainda esse tempo de transformação ou de incubação de uma transformação futura. Este tempo de descanso poderá ser o tubo de ensaio para aquelas mudanças que são necessárias na nossa vida e que, ao longo do ano, devido à pressa, ao stress e à consequente falta de ponderação, não podemos empreender com uma determinação fervorosa. Precisamente porque as férias nos permitem olhar para nós próprios, são também o momento adequado para tomarmos aquelas resoluções pessoais, que podem tornar o ar da nossa vida mais respirável. No final de tudo isto, se, após este período de descanso, a nossa vida continuar igual ao que era antes, talvez não tenhamos tido as férias que realmente nos faziam falta…

José Domingos Ferreira, scj