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Por estes dias, as estradas e caminhos de Portugal deveriam estar cheios de gente a caminhar, todos com o mesmo objetivo de chegar a Fátima. Proveniente dos quatro cantos do mundo, nos mais variados meios de transporte, um mar de gente deveria desaguar na Cova da Iria e deixar repleto o vasto recinto do Santuário.

Tem sido assim ao longo dos anos, este ano não é assim. O Santuário não estará cheio de peregrinos, mas só aparentemente estará vazio, pois acredito que estará cheio e a transbordar, com os muitíssimos milhares que por esse mundo além farão viagem de coração para fazer peregrinação espiritual na Cova da Iria.

Não é a mesma coisa, não haverá aquele impressionante mar de luz que é imagem de marca das noites de 12 de Maio, de arrepiar qualquer um, tanto os fisicamente presentes como os que seguem as imagens à distância. Também não haverá o silêncio de profundo respeito durante a bênção dos doentes nem o sempre comovente mar de lenços brancos na procissão do adeus. Não haverá nada disso, mas haverá um silêncio avassalador, que ecoará bem alto e bem longe, no coração de tantos que têm em Fátima lugar especial de peregrinação, de oração, de encontro com Deus e com Maria. Também por isso, esta peregrinação espiritual ficará para a história, gravada ainda mais forte e profunda no nosso coração de peregrinos e de crentes.

Fátima tem ocupado, e continuará certamente a ocupar, lugar especial na minha vida, não apenas como lugar de peregrinação e de oração, mas também como lugar de trabalho, de muitas reuniões, de muitos encontros de estudo, de formação e de reflexão. Mas é o lugar de peregrinação que bate mais forte e faz sentir mais falta e saudade; saudade sobretudo dos caminhos de Fátima, desses trilhos que nos fazem caminhar aos milhares, que nos fazem cruzar com tanta gente como nós, que nos levam a conhecer gente que passa a contar para nós. Os caminhos de Fátima são impressionantes! Percorri-os algumas vezes e posso por isso testemunhar histórias de verdadeira conversão, de mudança radical de vida, de alívio de tanta dor e angústia, de encontro consigo mesmo, com os outros, com Maria e com Deus. Nós podemos testemunhar um bocadinho, mas só Deus sabe verdadeiramente as histórias de vida que desaguam naquele Santuário, não apenas na grande peregrinação de Maio, mas todos os dias, chegadas das mais diferentes latitudes. Os pés calejados, esfolados, feridos, gretados, os músculos cansados, doridos, quase desfalecidos… tudo chega ao recinto, tudo converge e se envolve nos abraços, nos beijos, nos choros compulsivos, nas orações e nos cânticos que explodem de emoção e de devoção, num caminho que chega ao fim graças a tanta solidariedade e partilha encontradas no percurso.

Fátima é isto! A 12 e 13 de Maio de 2020 o Santuário não terá multidões fisicamente presentes, mas sentirá bem próxima e presente a imensa multidão que mundo fora rezará, cantará a Deus e à Senhora de Fátima. Estaremos unidos na oração e no afeto, na fé e na devoção, de coração a coração.

P. José Agostinho Sousa, scj