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SUPERIOR GERAL CONGREGAÇÃO DOS SACERDOTES  DO CORAÇÃO DE JESUS – Dehonianos

Prot. N. 0208/2020  |  Roma, 5 de junho de 2020

“Valendo-se de ti”

Carta para a solenidade do Sagrado Coração de Jesus, 19 de junho de 2020

Aos membros da Congregação
A todos os membros da Família Dehoniana

A solenidade do Coração de Jesus chega precedida por meses que acumularam sofrimentos, preocupações e incertezas. Pessoalmente, na comunidade ou na família, este período imprevisto permitiu-nos ter mais tempo para rezar, pensar e tomar consciência das potencialidades e das debilidades do nosso tempo. O P. Dehon fez o mesmo no seu prolongado confinamento durante a Primeira Guerra Mundial e ao longo de sua vida. Por isso, ele “conhece os males da sociedade; estudou cuidadosamente as suas causas no plano humano, pessoal e social”” (Cst 4). O seu testemunho impele-nos a não ficar na superfície dos acontecimentos, e muito menos na indiferença.

Todos nós temos pensado mais cuidadosamente nos infortúnios que prejudicam a vida, seja esta pandemia que estamos a viver agora ou tantas outras situações que infelizmente estão “em casa” porque crescemos com elas (fome, racismo, violência, o drama daqueles que são forçados a emigrar, e assim por diante). A nós cabe-nos reagir. Não o fazer seria desumano, não seria cristão: “A falta de reações diante destes dramas dos nossos irmãos e irmãs é um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil”[1]. Não há a menor dúvida: o nosso mundo ainda precisa de amor e reparação.

O nosso Fundador assumiu sem ingenuidade a sua responsabilidade perante os males do seu tempo: “A reforma da sociedade exige esforços múltiplos e persistentes. É necessário mais de um instrumento: oração, estudo, ação”[2]. O seu compromisso entusiasmado nasceu da melhor inspiração possível: “o Lado aberto e o Coração transpassado do Salvador” (Cst 2). Ali contemplou a incomensurável solidariedade de Jesus com os homens em obediência ao Pai (cf. Cst 10); ali compreendeu que este mundo tem feridas profundas e que só o Amor o curará. Nas palavras de Leão XIII, expressou-se assim: “O culto do Sagrado Coração foi predestinado por Deus para curar as feridas da sociedade moderna e sobretudo o egoísmo que destrói todos os laços da vida social […]; a salvação desejada deve ser fruto de uma grande efusão de caridade e esta caridade tem a sua fonte no divino Coração do Redentor”[3].

É uma dinâmica que exige conversão permanente e “a progressiva libertação do egoísmo” (Cst 95): é o caminho do discipulado. Assim viveu Santa Margarida Maria Alacoque cujo centenário de canonização estamos a celebrar: “Se até agora só tomaste o nome de minha escrava, agora dou-te o nome de discípula muito amada do meu Sagrado Coração”[4]. Desta forma, o desejo permanente de Deus pelo seu povo atualizou-se na sua vida: deixar para trás toda a escravidão para caminhar com Ele em liberdade. É o caminho do Coração, que se oferece para fazer da vida um eco vivo do Evangelho: “O meu Divino Coração é tão apaixonado de amor pelos homens, em particular por ti, que como não pode conter nele as chamas do seu amor, derramaas valendo-se de ti manifestando-se a todos para enriquecê-los com os dons preciosos que descubro em ti”[5].

Valendo-se dela, da sua fragilidade e da sua pequenez, Jesus confirmou a alegria que oferece a quem ama. Assim aconteceu com os peregrinos que, embora não reconhecessem o Senhor, puderam acolhê-Lo e retomar o seguimento dos seus passos: escutaram para lá de si mesmos, partilharam o seu pão, aprenderam a discernir juntos. – “Não nos ardia o coração?” – e anunciaram a Boa Nova (cf. Lc 24,13-35). Todo um programa de vida! Também nós, contemplando o mesmo Coração, “somos, com efeito, chamados a inserir-nos nesse movimento de amor redentor” (Cst 21), unindo-nos à entrega do Filho ao Pai, abertos à ação do Espírito, para que o mundo tenha vida. É um momento oportuno para renovar o nosso discipulado. O que o Senhor nos pede hoje? O que é que Ele nos oferece do tesouro inesgotável que é seu Coração? O que devemos contemplar, acolher, viver e partilhar com maior atenção na nossa própria vida, nas nossas comunidades, nas nossas famílias e no apostolado que realizamos?

Apesar da distância social imposta, permanecemos próximos na oração e em tantas formas de comunhão e solidariedade. Nós precisamos uns dos outros. Temos vivido o luto de perto, especialmente em algumas Entidades da Congregação. No entanto, não permanecemos na aflição nem queremos permitir que a dúvida paralisante “o que vai acontecer?” nos deixe à deriva. Tudo o que vivemos nesta hora é uma experiência de Sábado santo, como aquela em que P. Dehon meditou quando compreendeu, graças a Maria, a João, a Madalena e às mulheres santas, como viver esse dia como um prelúdio para uma nova vida: “Luto, compaixão e amor, estas são as disposições que hoje devo assimilar profundamente para cumprir a minha missão como discípulo do Coração de Jesus”. Portanto, em agradecimento, ele reconhece neles “os nossos modelos neste dia de compaixão e reparação. Eles são os únicos amigos fiéis do Coração de Jesus. Vou juntar-me a eles hoje e sempre”[6].

Agradeçamos também a Deus por tantos homens e mulheres, jovens e idosos, que são modelos diários dos quais Deus continua a valer-se para nos fazer conhecer a riqueza do seu Coração e para nos apaixonar mais pelo seu Reino. Reconhecemo-los entre nós, na nossa comunidade, na família, nos nossos lugares de vida e de apostolado? Este ano convidamos todos, mais precisamente cada comunidade, para que encontre no dia do Coração de Jesus a maneira de expressar a sua gratidão a pessoas em concreto. Essas pessoas, mesmo sem querer, encorajam-nos com o seu testemunho de viver com paixão o caminho do amor e da reparação para o qual nos chama o Coração aberto de Jesus, que continua a amar tanto.

Nele, fraternalmente,

 

P. Carlos Luis Suárez Codorniú, scj
Superior Geral e o seu Conselho

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[1] Papa Francisco, Laudato si, 25.

[2] « La réforme de la société exige des efforts multiples et persévérants. Il y faut plus d’un instrument: la prière, l’étude, l’action ». REV 8031040, 1897.

[3] « Le culte du Sacré Cœur a été prédestiné par Dieu même pour guérir les plaies de la société moderne et particulièrement l’égoïsme qui détruit tous les liens de la vie sociale […] ; le salut désiré doit être le fruit d’une grande effusion de charité et cette charité a sa source dans le Cœur divin du Rédempteur ». CHR 1894.

[4] Santa Margarida Maria Alacoque, Autobiografía, (27 de dezembro de 1673, primeira revelação).

[5] Ibidem.

[6] «Deuil, compassion et amour, telles sont les dispositions dont je dois me pénétrer aujourd’hui pour remplir ma mission de disciple du Sacré Cœur […]; nos modèles dans cette journée de compassion et de réparation. Ils sont les seuls amis fidèles du Cœur de Jésus. Je m’unirai à eux aujourd’hui et tous les jours». ASC 3.