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A Comunidade do Seminário Nossa Senhora de Fátima, em Alfragide, está em festa, a celebrar 50 anos de Ordenação Presbiteral de D. António de Sousa Braga, Bispo Emérito de Angra e actualmente membro desta Comunidade. Mas é toda a Província, toda a Congregação e a Igreja que estão em festa.

O contexto de pandemia em que vivemos actualmente impede-nos de celebrar como gostaríamos esta data. Havemos de o fazer quando as circunstâncias assim o permitam. Mas a Comunidade não podia deixar de assinalar a data. A presença do Superior Provincial nas celebrações dá o sentido de comunhão fraterna que leva a que toda a Província esteja aqui presente neste dia, apesar da ausência física.

O dia não precisa de muito espalhafato para ser solene, intenso e profundo: ao meio-dia reunimo-nos para a celebração da Eucaristia, presidida pelo festejado, que lembrou com muita gratidão a Deus esse dia 17 de Maio de 1970 em que, pela imposição das mãos do Papa São Paulo VI, recebeu a graça da Ordenação Presbiteral. Foi com a mesma gratidão que D. António Braga percorreu a memória destes 50 anos de presbiterado e as muitas missões que lhe foram confiadas no serviço à Congregação e à Igreja.

António Braga – Homilia 50 anos de Sacerdócio [PDF]

A seguir à Eucaristia seguiu-se o almoço e convívio fraterno.

Na parte da tarde realizou-se uma sessão solene no auditório da Comunidade.

A sessão foi solene, sem ser pomposa. Nela ouvimos e lemos alguns testemunhos e mensagens e cantámos alguns cânticos adequados ao que celebrávamos. Foi também apresentado o pequeno livro que acaba de ser editado, com muitos mais testemunhos e mensagens. O festejado brindou-nos com um breve discurso, a agradecer a Deus e aos irmãos estes 50 anos assim vividos.

A festa terminou com todos à volta do bolo a cantar os parabéns ao festejado, que apagou as velas sem soprar, como mandam as normas de higiene e segurança. Não faltaram os brindes a um dia feliz, simples mas intenso. Vivat Cor Iesu!

P. Agostinho Sousa

 

Nota biográfica de Dom António Braga,  Bispo emérito de Angra

A 15 de março de 1941, na freguesia de Santo Espírito, ilha de Santa Maria, Açores, nascia Dom António de Sousa Braga, filho de João de Sousa Braga e de Maria Leandres Braga, o quinto de 10 irmãos, atingindo todos eles a idade adulta.

Crescendo e sendo educado numa família profundamente religiosa, com alguns tios maternos ingressados na Ordem Hospitaleira de São João de Deus, nasceria nele espontânea a propensão – ou vocação – para a vida consagrada. De facto, terminada a escola primária em 1953, o seu destino seria essa Ordem, onde deveria entrar no fim do verão de 1954. O cego acaso ou a previdente Providência divina haveria de abrir-lhe outro caminho e propiciar-lhe outra Família religiosa, onde pudesse realizar o seu ideal de consagração. Seria esta a Congregação dos Dehonianos, que haviam aberto, em 1947, na Madeira, um seminário menor para futuros missionários na Missão de Moçambique. Ou obra do acaso ou da Providência, seria um fortuito prurido político a jogar decididamente na mudança de rumo da vida do jovem António e de outros adolescentes da sua freguesia natal que o acompanhariam na aventura vocacional. Em março de 1948, o Superior provincial dos Dehonianos da Itália, Padre Lourenço Ceresolli, tinha vindo a Portugal visitar os confrades. Estava-se na iminência de umas eleições políticas italianas, em que, perante a eventualidade da tomada do poder pelo Partido Comunista, o próprio Papa Pio XII interviera recomendando aos católicos, inclusive aos religiosos de vida de clausura, uma participação maciça e responsável no ato eleitoral. O Padre Ceresolli naturalmente tinha pressa de completar a visita e regressar à Itália a tempo de votar. Pouco experiente na geografia e nas comunicações entre os arquipélagos da Madeira e dos Açores, não querendo procrastinar a viagem, tomaria precipitadamente o avião para a ilha de Santa Maria, que já possuía um aeroporto para as escalas transatlânticas, na esperança de ali ter acesso mais rápido à Madeira. Na inutilidade do recurso, hospedar-se-ia na casa paroquial de Vila do Porto à espera de poder regressar a Lisboa e daí seguir para a Madeira! Dessa hospitalidade nasceria uma relação de amizade e de contacto epistolar entre o pároco da dita Vila e os dehonianos do Colégio Missionário da Madeira.

Foi assim que, por altura da Páscoa de 1954, tendo vindo de novo um padre desse Colégio numa viagem de promoção vocacional aos Açores, a ilha escolhida seria Santa Maria onde, nesse ano, o Tríduo Pascal se celebrava na freguesia de Santo Espírito, em cuja igreja paroquial o jovem António era um dos sacristães, acólitos. E assim, nesse mesmo ano de 1954, na idade de 13 anos, o mesmo António alteraria o seu rumo vocacional, trocando a Ordem de São de Deus, aonde devia ingressar no fim desse verão, pela Congregação dos Dehonianos, deixando a família, ele e outros dois seus conterrâneos e coetâneos, a 19 de maio desse ano, rumo ao Colégio Missionário Sagrado Coração do Funchal, onde até junho de 1959, frequentaria o 1.º e 2.º ciclos liceais de então.

A nova etapa da caminhada vocacional do jovem seminarista dehoniano António Braga teria lugar no Instituto Missionário Sagrado Coração de Coimbra, que a Congregação abrira em 1952. Ali frequentaria e completaria o 3.º ciclo liceal, com que então se tinha acesso ao ensino superior.

Percorrendo as sucessivas etapas da caminhada vocacional, a 26 de junho de 1961, o seminarista António Braga seria recebido, sempre em Coimbra, no Postulantado que, porém, decorreria já na Casa do Sagrado Coração de Jesus, em Aveiro, onde, três meses mais tarde, iniciaria a rica e exigente etapa do Noviciado, vindo a fazer a Primeira Profissão a 29 de setembro de 1962.

E a caminhada para o sacerdócio, na falta das respetivas estruturas formativas em Portugal, passaria a partir de então a ser feita na Itália. De 1962 a 1964, frequentaria o curso de filosofia na respetiva casa de formação que a Província-mãe, da Itália, tinha em Monza. Entre o curso filosófico e o teológico, o religioso em formação devia fazer um estágio de vida religiosa normalmente num seminário menor da respetiva Província. O jovem religioso António Braga fá-lo-ia em Ermesinde, no Seminário Nossa Senhora de Fátima, de breve existência.

Em 1966, feita a Profissão Perpétua a 29 de setembro, seguiria ele para Roma, onde, inserido na comunidade religiosa e formativa do Colégio Internacional da Congregação, frequentaria, de 1966 a 1970, o curso de teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, recebendo sucessivamente as ordens então previstas na caminhada para o sacerdócio ministerial: as menores de ostiário, leitor, exorcista e acólito, e as maiores de subdiácono e diácono.

A 17 de maio de 1970, dia de Pentecostes, no contexto das celebrações dos seus 50 anos de ordenação sacerdotal, o Papa São Paulo VI ordenou 278 presbíteros originários de todos os continentes: entre eles o diácono dehoniano da já então Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus, António de Sousa Braga.

Existindo então o projeto de criar também na dita Província Portuguesa um Seminário Maior, que dispensasse os jovens religiosos portugueses de completar o curso teológico no estrangeiro, havia que preparar o corpo docente dessa importante estrutura de formação. O jovem Padre António Braga foi, nessa perspetiva, convidado a especializar-se num Ateneu pontifício romano, na área de moral. Abandonado esse projeto em favor da frequência, inicialmente no Instituto Superior de Estudos Teológicos (ISET) dos Religiosos e, sucessivamente, na Universidade Católica, também seriam alteradas as especializações tanto do Padre António Braga como dos confrades portugueses destinados a idêntica função. E assim ele trocaria a especialização em moral pela de sociologia. De 1970 a 1973, frequentaria o respetivo curso, sempre na Universidade Gregoriana, no Instituto de Ciências Sociais.

Nesse campo e durante os anos da especialização do Padre António Braga, a Congregação encomendava ao Centro Internacional de Estudos Sociais (CIRIS), de Roma, um estudo sociológico sobre a vida religiosa dehoniana. O confrade em questão participaria ativamente nesse estudo de opinião. São desse período dois seus contributos, valiosos e ainda atuais: uma entrevista sobre os resultados dessa sondagem e, pouco mais tarde, um estudo intitulado Os sinais dos tempos, tal como estes se manifestavam “nas exigências, problemas e crises dos Dehonianos”, em termos de identidade da Congregação em tempos de mudança.

Regressando a Portugal no verão de 1973, o Padre António Braga teria como primeira nomeação e mais relevante encargo a responsabilidade da formação dos jovens religiosos, no Seminário Nossa Senhora de Fátima de Alfragide. Em 1974, seria também professor no dito ISET, então a funcionar no Seminário da Luz, em Lisboa, e que seria um dos precursores da Faculdade de Teologia da Universidade Católica. Entre 1974 e 1976 deu também o seu contributo ao governo da Província Portuguesa, assumindo o cargo de Conselheiro Provincial.
Em 1976, mais concretamente a 1 de julho, o Padre António de Sousa Braga, aos 35 anos de idade, assumiria o delicado e responsável encargo de Superior Provincial. A idade com que era chamado a assumir esse serviço de animação da Província bem demonstra a confiança que os superiores e confrades depositavam nele, confiando-lhe o governo de uma Província ainda jovem, com apenas 10 anos, em tempos conturbados a nível social e religioso. Exerceria esse cargo durante dois triénios, entre 1976 e 1982, continuando, depois, a assessorar o Governo Provincial em sucessivas nomeações para o cargo de Conselheiro Provincial, o que confirma a continuidade de estima e confiança da parte dos superiores e dos confrades.

Em 1982, ao deixar o serviço de Superior Provincial, o Padre António Braga é enviado como Superior do Colégio Missionário Sagrado Coração, no Funchal. Pouco tempo ali permaneceria, sendo o Seminário de Alfragide, a casa de formação de maior complexidade e exigência da Província, a mais adequada, portanto, a beneficiar da mais-valia que o Padre António Braga representava. E assim, já no verão seguinte, em 1983, por disposição superior, regressava ele a Alfragide para assumir as funções de Superior do mesmo Seminário, cargo que ocuparia até 1989, ano em que deixaria de ser superior, mantendo-se porém ao serviço da formação como Diretor espiritual e membro da Equipa formadora até 1991. Durante esta segunda etapa de Alfragide, o Padre António Braga foi ainda encarregado da Formação permanente da Província Portuguesa. A estas funções haveria de associar uma nova dimensão do seu ministério sacerdotal, a paroquial, inicialmente como vigário paroquial (1983-1986) e, depois, como pároco (1986-1991) da paróquia local do Imaculado Coração de Maria, deixando também nessa área a sua marca de pastor próximo e benquisto.

Em maio de 1991, durante o Capítulo Geral que elegeu o argentino Padre Virginio Bressanelli como Superior Geral, o Padre António Braga foi eleito Conselheiro Geral e Assistente Geral. Uma vez mais mereceu a confiança dos seus confrades, desta feita na magna assembleia da Congregação. Aí, com a humildade que o caracteriza, mas sobretudo com a sua grande sabedoria e a experiência de governo adquirida nos seus anos de Superior Provincial e nas várias vezes em que fora membro dos Conselhos Provinciais, o Padre António Braga daria o seu contributo para o governo e a animação de toda a Congregação.

A 9 de abril de 1996, o Papa São João Paulo II chamou-o ao episcopado, nomeando-o 38.º Bispo de Angra, nos Açores. Uma vez mais, como fizera ao longo de toda a sua vida, Dom António disse “sim” e, com a disponibilidade de quem leva o Ecce venio de Cristo por lema, entregou-se ao pastoreio das nove ilhas que compõem o Arquipélago dos Açores, ciente de que o desafio era o mesmo que assumira o próprio Cristo, e que ele aprendera por via dehoniana: Ut unum sint – “Que sejam um”. Recebeu a ordenação episcopal a 30 de junho de 1996, na Sé de Angra, das mãos de Dom Aurélio Granada Escudeiro, a quem sucedia. Pelos testemunhos de quem com ele conviveu nestes anos, o seu ministério episcopal fica marcado pela simplicidade e pela proximidade. Viria a ocupar o cargo até 15 de março de 2016, quando, completados os 75 anos de idade, o Papa Francisco aceitaria o seu pedido de resignação, sucedendo-lhe no cargo Dom João Lavrador, desde 29 de setembro de 2015, Bispo coadjutor com direito de sucessão.

Depois da sua resignação, Dom António de Sousa Braga quis voltar à Congregação que ama desde aquela viagem de 1954, quando rumara de Santa Maria para o Funchal. Regressou a Alfragide, o Seminário que dirigira com amor, o mesmo seminário onde ajudara a formar tantos jovens religiosos. Nesta casa, continua a marcar pela presença simples e fraterna, pela sua jovialidade e pelo interesse que mostra pelas pessoas que com ele vivem. A disponibilidade com que se prontifica a dar a sua colaboração pastoral mostra bem que não “entrou para a reforma”, mas está ao serviço, como sempre esteve. Apenas mudou a forma de prestar os seus serviços. No entanto, este regresso a Alfragide significou também voltar a estar próximo da paróquia que amara como vigário paroquial e como pároco; também aí, na paróquia de Alfragide, na medida das suas possibilidades, em comunhão com o pároco, Dom António continua a ser uma figura presente e marcante.
Bem-haja, Dom António, e que Deus o conserve como sempre o conhecemos, para bem da Igreja, da Congregação e da comunidade que honra e enriquece com o seu exemplo e partilha!

50 Anos de Ordenação Sacerdotal D. António Braga

Publicado por Dehonianos – Sacerdotes do Coração de Jesus em Domingo, 17 de maio de 2020