Uma das grandes prioridades que se impõem à nossa sociedade é o diálogo, pois «para nos encontrar e ajudar mutuamente, precisamos de dialogar» (FT 198). Os desafios que hoje se nos colocam são de tal magnitude e dimensão, que não é possível resolvê-los de forma isolada, recusando o contributo activo das outras pessoas.

Sozinhos, desanimamos rapidamente. Sozinhos, acabamos por nos afundar nessa massa anónima, que nivela a todos por igual. Precisamos de dialogar para assim formar redes, grupos, comunidades ou associações, que tenham capacidade de intervenção e de transformação da sociedade.

Sem dúvida, o diálogo emerge como uma realidade rica e complexa, com muitas nuances que entram continuamente em jogo: «aproximar-se, expressar-se, ouvir-se, olhar-se, conhecer-se, esforçar-se por entender-se, procurar pontos de contacto» (FT 198). Estes verbos manifestam, desde logo, que ninguém dialoga sozinho, mas precisamos dos outros. Ninguém dialoga à distância, mas necessitamos primeiramente de criar proximidade entre as pessoas. O verdadeiro diálogo dá-se sempre com rostos concretos e com pessoas de quem sabemos o nome. Um diálogo de surdos não é diálogo…

O diálogo aponta, portanto, para uma abertura ao outro como condição prévia irrenunciável. De facto, quem vive só para si não está interessado – e provavelmente não será capaz de o fazer – em dialogar. Quem vive só para si tende a considerar os outros como um obstáculo e um incómodo. No entanto, nesta abertura aos outros – imprescindível para que haja diálogo –, é preciso estar alerta quanto a essas formas selectivas de abertura, que são uma verdadeira armadilha e engano. Não somos dialogantes, quando nos esforçamos por escolher com quem queremos interagir, virando as costas a outros possíveis interlocutores. As redes sociais potenciam muito estas formas selectivas, ao possibilitar que uma determinada pessoa seja eliminada do grupo, no exacto momento em que começa a dizer algo que não é do agrado de quem está à frente.

O diálogo é uma necessidade, porque «ajuda o mundo a viver melhor» (FT 198). Não se trata, portanto, de uma moda ou de uma mania do Papa, mas do caminho a percorrer numa sociedade cada vez mais pluralista, intercultural, inter-religiosa… As nossas sociedades já não são aquele bloco coeso e uniforme, homogéneo e unidimensional de antanho, se é que alguma vez o foram. Hoje temos uma consciência mais viva de toda a pluralidade e heterogeneidade que nos constituem enquanto sociedade.

Dentro da Igreja, está-se a falar cada vez mais de sinodalidade como o caminho a percorrer nos próximos anos. É preciso que tenhamos bem presente que, sem diálogo entre os cristãos, não há sinodalidade; sem diálogo entre os cristãos, não se pode fazer caminho juntos…

José Domingos Ferreira, scj